Conheça a versão em audio do Jornal da Paraíba
Blogs & Colunas

Blog da Redação

Espaço reservado para publicação de artigos dos integrantes da redação do Jornal da Paraíba Online.

Minha primeira (e última) entrevista com Eduardo Campos

Valéria Sinésio

Como muitos brasileiros, fiquei consternada com a tragédia que matou Eduardo Campos e outras seis pessoas em Santos. Eu não votava em Eduardo e não sou militante do PSB. Fiquei chocada porque vi em Campos não apenas o candidato à Presidência da República, mas principalmente o pai que foi embora e deixou em casa cinco filhos e uma esposa saudosos do abraço. Vi em Campos o filho que não volta mais para os braços da mãe que chora.

Meu primeiro (e único) contato com Eduardo Campos aconteceu no sábado passado (véspera do Dia dos Pais), quando ele visitou a Paraíba. Recebi a missão de fazer a cobertura para o portal de notícias G1. Depois de três horas, o presidenciável chegou acompanhado de outros políticos. Minha primeira tentativa de chegar perto de Eduardo foi impedida pela multidão que queria, a todo custo, tirar uma foto com ele, como se soubessem da tragédia que estava por vir.

Depois de algumas tentativas, consegui me aproximar e fazer as fotos para a matéria. Primeira tarefa cumprida. De repente, um rapaz jovem e educado fala comigo. Era Percol, jornalista, assessor de Campos, que também morreria dias depois na tragédia. Conversei uns 15 minutos com Percol sobre Campos e disse que precisava fazer umas perguntas em particular ao candidato. Percol não colocou dificuldades, se mostrou solícito ao meu pedido. Um jornalista, como eu, jovem, cheio de vida e com certeza cheio de planos.

Quanto a Eduardo, a entrevista foi breve, porém marcante. Primeiro veio a coletiva, na qual ele respondeu perguntas de todos os veículos de imprensa presentes. Depois, como havia combinado com Percol, puxei Campos pelo braço e fiz as perguntas que queria. Eduardo, apesar da pressa para cumprimentar os idosos do local, parou por um instante e me atendeu. Liguei o gravador, perguntei, agradeci. Antes dele sair, me pediu a reportagem da Veja da semana que eu segurava junto com o bloco de notas, pois ainda não tinha lido. Lembro dele dizendo: vou ler no avião.

Não sei se ele leu, nunca vou saber. O que sei é que esse episódio ficará sempre marcado na minha memória e vai me fazer refletir diariamente o quanto devo amar meus familiares, o quanto devo ser gentil com o próximo, o quanto devo buscar a felicidade e as coisas simples da vida. Hoje estamos aqui, amanhã ninguém sabe. A vida é efêmera demais para guardar mágoas, rancor ou qualquer que seja o sentimento negativo. Precisamos viver o hoje e mais que tudo valorizar as pessoas que estão ao nosso lado. Elas não são eternas – nós também não somos.

Compartilhe

Cássio tem a 10ª maior arrecadação entre candidatos ao governo no país

Jhonathan Oliveira

O candidato a governador da Paraíba pelo PSDB, senador Cássio Cunha Lima, tem até agora a 10ª campanha com maior arrecadação entre todos os que disputam governos estaduais no país. No primeiro mês da corrida eleitoral o tucano arrecadou R$ 2,8 milhões, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.

O ranking das campanhas ao governo que mais arrecadaram foi publicado na versão online do jornal Folha de São Paulo. De acordo com o levantamento do veículo, a maior arrecadação foi do candidato Delcídio Amaral (PT), que disputa o governo do Mato Grosso do Sul e já juntou a bagatela de R$ 8, 6 milhões.

A primeira parcial da prestação de contas de campanha apontou que além de ter tido a maior arrecadação entre os que disputam o governo paraibano, Cássio também apresentou o maior volume de gastos: R$ 4,7 milhões. A previsão de custo total da campanha do tucano é de R$ 18 milhões .

O candidato à reeleição Ricardo Coutinho (PSB) aparece em segundo com uma arrecadação de R$ 846 mil e gastos de R$ 3,7 milhões. Em seguida está o candidato Vital do Rêgo (PMDB) com R$ 30 mil arrecadados e despesas de R$ 1 milhão

Confira abaixo o ranking das campanhas nacionais divulgado pela Folha:

MS – Delcídio Amaral (PT) – R$ 8.661.500
RJ – Luiz Fernando Pezão (PMDB) – R$ 5.795.690
SP – Geraldo Alckmin (PSDB) – R$ 5.738.135
SP – Paulo Skaf (PMDB) – R$ 4.350.602,74
MG – Pimenta da Veiga (PSDB) – R$ 3.894.745
PE – Armando Monteiro (PTB) – R$ R$ 3.822.500
PE – Paulo Câmara (PSB) – R$ 3.307.298
MS – Nelson Trad Filho (PMDB) – R$ 3.251.000
RN – Henrique Alves (PMDB) - R$ 3.025.855

Compartilhe

O choro da mãe de Aryane deve ser também o nosso!

Valéria Sinésio

Não consigo entrevistar uma mãe que teve o filho assassinado e voltar para a redação do mesmo jeito que saí. Apesar da rotina diária marcada pela cobertura de casos de violência, os relatos das mães sempre me emocionam. Não apenas porque eu sou mãe (ainda no estágio inicial); não apenas por eu ser filha. Ouvir uma mãe lamentando o assassinato de seu filho me deixa reflexiva por alguns dias.

E antes que alguém me julgue, dizendo que jornalista não pode se envolver, eu vou avisando que não consigo ser indiferente ao sofrimento alheio, muito menos às lágrimas de uma mãe (ainda que no texto eu tenha que manter a imparcialidade, como ditam os manuais de jornalismo, é impossível não se envolver com a dor do outro, porque ela pode um dia ser nossa também).

Escrevi esse texto pensando em uma mãe, uma guerreira chamada Hipernestre Carneiro, cuja filha, a jovem Aryane Thays, foi assassinada em abril de 2010, aos 21 anos, grávida. Não estive no local do crime, não vi o corpo da vítima, mas acompanhei atentamente todas as notícias sobre o Caso Aryane. Cada entrevista que fiz com Hipernestre – seja no Fórum Criminal, nos protestos nas ruas ou no sofá de sua casa – mexeu comigo, e eu voltei para o jornal com um sentimento diferente.

Como entrevistar Hipernestre, essa mulher persistente, que desde o início lutou para que o caso da filha dela não se tornasse apenas mais um nas frias estatísticas da Secretaria de Defesa Social, e não se emocionar? Como falar com essa mãe, que todas as noites chora de saudade da filha, e não se colocar no lugar dela?

Lembro bem do dia do julgamento do bacharel em Direito Luiz Paes de Araújo Neto, condenado há 17 anos e seis meses pelo assassinato de Aryane (apesar de condenado, ele recorre em liberdade). Cheguei cedo ao Fórum Criminal e sentei na primeira fila. Na segunda estava Hipernestre, que a todo instante era consolada por familiares e amigos.

Em alguns instantes, enquanto o Ministério Público ou a Defesa faziam uso da palavra, eu ouvia o choro baixinho daquela mãe, que não se despediu da filha, que não fez a viagem dos sonhos com ela, que não viu o neto nascer.

Foi um dia difícil para mim – como jornalista (o julgamento durou mais de 12 horas e eu fiquei exausta) – e principalmente como ser humano. Difícil porque Aryane, morta por asfixia, poderia ser eu, poderia ser alguém da minha família. Difícil porque as lágrimas de Hipernestre poderiam ser as lágrimas da minha mãe.

Não podemos ser indiferentes a essas histórias, que se tornaram comuns, infelizmente. Pela força de Hipernestre, o crime cometido contra Aryane não será esquecido: virou símbolo de luta da violência contra a mulher na Paraíba. Mas essa luta deve ser de todos, não apenas das mães.
*No último dia 24 de julho, o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJ-PB) negou o pedido de anulação do julgamento de Luiz Paes Neto, que ainda pode recorrer da decisão no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Segundo a denúncia do MP, Neto matou Aryane ao descobrir que ela estava grávida.

Compartilhe

Ronaldo Filho rebate declarações de Ricardo

Jhonathan Oliveira

Após o governador Ricardo Coutinho (PSB) dizer que não aceitaria o desafio do senador Cássio Cunha Lima (PSDB), que o chamou para briga, alegando que não usa pistola e nunca atirou em ninguém, coube ao vice-prefeito de Campina Grande, Ronaldo Cunha Lima (PSDB) dar uma resposta. Em uma rede social, o tucano afirmou que o socialista desrespeitou a memória do seu pai, o ex-governador Ronaldo Cunha Lima, que morreu em 2012.

As declarações de Ricardo, na manhã desta segunda (2), foram uma alusão indireta ao caso Gulliver, quando em 1993, Ronaldo, então governador, atirou em Tarcísio Burity, seu antecessor.

“Meu discurso sempre foi na base das ideias. Minhas únicas armas foram as ideias. Não preciso usar pistola, eu nunca atirei em ninguém para resolver minha pendências, isso está distante da minha personalidade. Eu não vou brigar com ninguém, vou vencer com as ideias, ideias que trata a todos, inclusive os diferentes, por igual”, disse o governador.

O vice-prefeito campinense também não mediu as palavras para responder ao socialista. E lembrou que o governador foi pedir apoio a Ronaldo.“Ricardo não respeita nem a memória do meu pai, a quem ele foi pedir apoio quando precisou. Não respeita os vivos e não respeita os mortos”, disse Ronaldo Filho na rede social.

Compartilhe

Dilma tem 40% das intenções de voto, aponta Ibope

A presidente Dilma Rousseff (PT) continua liderando a corrida pelo Palácio do Planalto. Segundo pesquisa Ibope, divulgada nesta quinta-feira (22), ela tem 40% das intenções de voto na eleição deste ano.

O segundo colocado continua sendo o senador Aécio Neves (PSC), com 20%. Em terceiro aparece o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), com 11%; e o quarto é o Pastor Everaldo (PSC), com 3%.

Eduardo Jorge (PV) aparece com 1%; José Maria (PSTU) tem 1%; Eymael (PSDC), Levy Fidelix (PRTB), Mauro Iasi (PCB), Randolfe Rodrigues (PSOL) não pontuaram. Brancos e nulos somam 14% e 10% não sabe ou não respondeu.

Nas duas pesquisas anteriores do Ibope, Dilma tinha 40% em março e 37% em abril; Aécio registrou 13% em março e 14% em abril; Campos, 6% em março e em abril; e Pastor Everaldo, 3% em março e 2% em abril.

O Ibope ouviu 2.002 eleitores em 140 municípios entre os últimos dias 15 e 19. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

O nível de confiança é de 95%. Isso quer dizer que o instituto tem 95% de certeza de que os resultados obtidos estão dentro da margem de erro. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-00120/2014

Compartilhe

'Mais Médicos' atinge a demanda na Paraíba, diz Dilma

Jhonathan Oliveira

Em solenidade na manhã desta sexta-feira (16), em João Pessoa, a presidente Dilma Rousseff (PT) afirmou que o Programa Mais Médicos atingiu a demanda na Paraíba. Segundo ela, havia a necessidade de 257 médicos nos municípios do estado e todos esses postos foram preenchidos. Dilma veio a João Pessoa para participar da formatura de 1.700 alunos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). A presidente também enfrentou protestos na sua passagem pela capital paraibana.

Durante discurso, a presidente citou que o governo federal vem realizando uma série de ações na Paraíba, destacando as obras da Adutora Translitorânea, que, segundo ela, vai duplicar o abastecimento de água na região de João Pessoa e também o Centro de Convenções da capital paraibana, feito em parceria com o governo do estado.

Dilma ressaltou o fato do Mais Médicos ter conseguido atingir a demanda na Paraíba. “Eu fico muito feliz porque a questão da saúde é necessariamente a expansão dos postos, das unidades de pronto atendimento, mas sem médicos ninguém faz saúde bem, não tem como.  Atendimento implica em médico e para isso nós fizemos esse programa”, afirmou. Ainda sobre a área da saúde, a  presidente afirmou, sem citar números, que o governo federal ampliou a quantidade de vagas para formação de médicos nas instituições de ensino paraibanas.

Participaram da solenidade com a presidente os ministros da Educação, Henrique Paim, e das Cidades, Gilberto Occhi, deputados federais e senadores e ainda o prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo (PT), e o governador Ricardo Coutinho (PSB). Este último, aliado do pré-candidato à presidência Eduardo Campos (PSB), chegou a ser vaiado pela plateia no momento em que iniciaria seu discurso. No entanto, não fez nenhuma referência a esse fato durante sua fala.

A presidente Dilma faz a entrega simbólica de diplomas de alunos do Pronatec. Ela destacou o fato dos paraibanos formarem a primeira turma que concluiu os cursos pelo programa. “É uma formatura que vocês conquistaram e vocês são um exemplo para o país. Para o Brasil formar, qualificar, capacitar é imprescindível, é importantíssimo para que o país cresça”, disse.

Ela afirmou também que o programa não vai parar, pois será lançado o Pronatec 2.0 que dará oportunidade inclusive aos que se formarem na primeira versão da iniciativa.

Protestos

Pelo menos dois grupos aproveitaram a passagem da presidente por João Pessoa para protestar. Um deles era formado por servidores das instituições federais de ensino que estão em greve desde o mês de março.

O outro protesto foi organizado pela Confederação Nacional das Associações de Moradores (Conam) que contestava a Medida Provisória 633. A matéria, que está em tramitação no Congresso, muda regras para  a concessão do Seguro Habitacional do Sistema Financeiro da Habitação .

Segundo os manifestantes, a MP beneficia as empresas de seguro e acaba com direitos dos mutuários brasileiros. Se ela for aprovada, a defesa das ações contra o Fundo  Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS) será transferida para a Caixa Econômica Federal e a Advocacia Geral também poderá intervir nos processos.

Compartilhe

Novo prefeito de Cabedelo tentou barrar construção de shopping

Jhonathan Oliveira

Assim como está acontecendo desde a quarta-feira (20), após a renúncia do prefeito Luceninha, há pouco mais de um ano Cabedelo também esteve no 'olho do furacão' da política paraibana. Em setembro de 2012 a Câmara Municipal barrou a construção de um shopping e após uma imensa pressão do povo, mudou de ideia e autorizou a obra. O que os dois fatos têm em comum (além de serem na mesma cidade)? Um nome. Leto Viana.

Acho que nem a população de Cabedelo lembra que Leto Viana foi o responsável pela medida que inicialmente impediu a construção do shopping no bairro de Intermares (projeto do Grupo Marquise). Na época, o agora prefeito era vereador e apresentou duas emendas a um projeto de lei de autoria do então gestor municipal, José Régis, que alterava o Código de Zoneamento da cidade. Uma das emendas proibia construção de empreendimentos de grande porte exatamente na área em que estava previsto o shopping. As mudanças propostas por Leto chegaram a ser vetadas, mas a Câmara derrubou o veto do prefeito.

O fato da construção do shopping ter sido proibida gerou uma grande mobilização na cidade que passou a questionar as razões da Câmara para tomar tal decisão. Dois dias depois os vereadores voltaram atrás e aprovaram um outro projeto do prefeito permitindo o empreendimento comercial em Intermares.

Após a nova votação, que eu acompanhei de perto, Leto fingiu que sua emenda não tinha proibido nada, se esquivou de responder sobre o assunto e disse que o que importava era a geração de empregos que o shopping proporcionaria para a cidade.

Agora no cargo de prefeito, como será que Leto vai se comportar com relação aos grandes empreendimentos na cidade? Pelo menos na cerimônia de posse ele mostrou que ainda está “afinado” com o assunto shopping center. Leto deixou a Câmara de Cabedelo de carona no carro do empresário Roberto Santiago, dono do maior shopping da Paraíba e com outro prestes a ser inaugurado. Se esse fato tem ou vai ter alguma influência na gestão de Leto, o tempo, quem sabe, poderá dizer.

Leto deixando a cerimônia de posse no carro de Roberto Santiago

Leto deixando a cerimônia de posse no carro do empresário Roberto Santiago (Foto: Kleide Teixeira)

Clique aqui e veja em detalhes a polêmica da proibição

Relembre quando a Câmara liberou a construção
 

Compartilhe

Medo de morar em João Pessoa

Valéria Sinésio

Não, eu não posso fingir que está tudo bem. Eu não posso fingir que moro em uma cidade tranquila. Como diria isso, se não tenho coragem, sequer, de dirigir sozinha à noite por ter medo de sequestro ou assalto? Não me sinto segura nem quando vou jogar o lixo na frente de casa (sempre faço isso rapidamente, quase correndo, olhando para os lados). Já passou da hora de admitirmos que a tranquilidade em João Pessoa é coisa do passado – ainda que a cúpula da Segurança Pública da Paraíba diga que não, que isso é sensacionalismo...e todo aquele blá, blá, blá.

Eu queria que a secretaria estivesse com a razão e a imprensa equivocada. Ah, como eu queria. Porque eu ia adorar não ter medo de sair de casa, não ter medo de ser assaltada na esquina do trabalho, não ter medo de andar com meu celular na mão, nem de usar um relógio mais caro, comprado com o esforço do meu trabalho. Eu adoraria curtir o final da tarde na frente de casa com meus pais ou andar despreocupada no calçadão da praia com o meu filho.

Se a secretaria tivesse razão, eu não hesitaria em deixar meu carro na garagem e ir ao trabalho de ônibus, nem de caminhar na praça perto da minha casa. Talvez até eu não precisasse colocar grades na minha residência, nem fazer seguro de furto e roubo para o celular, o tablet, o carro, etc. Se a secretaria tivesse razão, eu nem precisaria escrever esse texto, pois ele não faria sentido. A insegurança está me sufocando e eu continuo com medo de morar em João Pessoa. Muito medo.

Compartilhe

Crianças do Renascer I, vítimas do Estado

 

André Resende

 

Três crianças feridas. Quatros pessoas foragidas. Um Estado inerte. Pouco mais de uma semana após os tiros planejados para matar dois traficantes ferirem três crianças que brincavam na comunidade Renascer I em Jaguraribe, capital, pouco se tem discutido sobre as questões que o caso suscitou, as falhas na Segurança Pública que o Estado não enxerga (ou não assume), as responsabilidades de cobrar mudanças que as pessoas de bem relegam.

É justo que os três meninos sofram danos irreparáveis apenas por brincarem num lugar governado pelo crime organizado? O caso vivido pelos moradores do Renascer I é apenas uma pequena amostra da defasagem do planejamento de Segurança Pública empregado insistentemente no país. A guerra declarada ao tráfico de drogas pelo Estado, o espetáculo maniqueísta alimentado pelas mídias e comprado pelo brasileiro médio como a justiça das ruas, não tem se mostrado tão eficaz quanto parece. Se fosse, não veríamos crianças sendo punidas apenas por não terem como deixar de viver ao lados de criminosos.

Enquanto o Estado não governar verdadeiramente nas comunidades, mais crianças continuarão sofrendo somente por serem pobres e morarem onde a intervenção pública não chega. As políticas de Segurança Pública precisam estar diretamente ligadas às perspectivas de cidadania e qualidade vida para aqueles que vivem à margem dos mais favorecidos. Os moradores do Renascer I precisam apoiar o Estado não apenas quando crianças forem baleadas inocentemente, como afirmou o delegado de Repressão a Entorpecentes de João Pessoa, Allan Murilo Terruel, mas em qualquer ocasião que a soberania do povo for vilipendiada.    

Os tiros que atingiram os garotos de 9, 10 e 12 anos, tinham como alvos outros dois rapazes de 14 e 18 anos, herdeiros do tráfico do local. Tiros que não teriam sido planejados ou muito menos executados se o Estado estivesse verdadeiramente presente naquela comunidade. Destinos que seriam transformados se o poder público oferecesse oportunidades dignas para se viver.

Os governantes acompanham os crimes nos rincões dos grandes centros urbanos com indiferença. O Estado anda preocupado mesmo é com o sentimento generalizado de insegurança naqueles que têm voz, nos moradores dos bairros nobres. Crianças baleadas enquanto brincam só serão motivo de questionamento do esquema de Segurança Pública quando o tiroteio for na Praça da Paz ou do Skate. Até lá, o caso dos meninos do Renascer I será esquecidos pelos governantes e relegado pelos favorecidos. Apenas mais um entre tantos outros casos de violência presenciados diariamente nas comunidades e apagados com o passar das semanas.

Compartilhe

Por que temos medo de meninos com fome?

Aline Oliveira

Ele disse que tinha quase 15 anos. Eu não daria 10, considerando o corpo franzino. Ele tinha fome e eu tive medo. Ele só queria um prato de comida e eu duvidei. E foi assim que me dei conta de que o rumo que as coisas tomaram na cidade me fez ter medo de um menino com fome. E o que pode acontecer com uma sociedade quando as pessoas começam a ter medo de um menino com fome?

O encontro perturbador aconteceu no fim de um dia cansativo. Cheguei de carro no estacionamento do supermercado reclamando de estar morrendo de fome e decidida a fazer uma refeição decente antes de seguir para o último compromisso do dia. Eu achei que tinha problemas. Na boca do caixa, fui abordada pelo menino de pés sujos. A primeira reação aconteceu ao sentir sua presença física: puxei a bolsa e despistei rápido, deixando claro que não podia ajudar. “Mas eu só quero um prato de comida, moça...”

Eu tive uma segunda chance de repensar e decidir ainda mais rápido: mandá-lo correr e encher um prato de sopa em tempo de eu chegar ao caixa. Depois sentei ao seu lado, conversamos e eu finalmente descobri que aquele era apenas um menino com fome. E senti vergonha de ter tido medo, mesmo que numa fração de segundos, dele.

Esses meninos famintos (de comida, de brinquedos, de atenção, de limites) estão espalhados pela cidade e a gente já se acostumou. E é cada vez mais fácil culpá-los do que se questionar onde é que vamos parar. É cada vez mais fácil fechar o vidro do carro do que pensar em formas de mudar este quadro de coisas.

Há 23 anos esses meninos com fome ganharam o direito formal de serem considerados “prioridade absoluta” para a família, comunidade, sociedade em geral e poder público. O Estatuto da Criança e do Adolescente coloca sobre nossos (o meu e o seu) ombros a responsabilidade pela efetivação dos direitos referentes à sua dignidade, liberdade e convivência familiar e comunitária. O texto da lei não diz, mas deixa implícito: eles também têm direito de não serem alvo do nosso medo. Especialmente quando tudo que eles querem de nós é um prato de sopa ao fim de um dia sem nenhum alimento.

Compartilhe
Anterior
página 1 2 3 4 5
Próxima