Eu fui ao protesto pela paz. E você?
Acabei de voltar do protesto pela paz e contra a violência em João Pessoa.
Em menos de um mês, várias pessoas próximas a mim foram vítimas de bandidos.
Cena 1. Assalto com uma arma apontada para a cabeça, na esquina de casa.
Cena 2. Sequestro relâmpago, após sacar dinheiro no banco, enquanto estava no carro com a mãe e a irmã, no centro da cidade, em plena tarde de sábado.
Cena 3. Sequestro, morte e corpo abandonado. Uma jovem fica viúva, uma cidade se espanta.
Não deveria ser preciso a gente ter alguém próximo envolvida em alguma tragédia para despertar. Durante a mobilização na Praça dos Três Poderes, encontrei alguns conhecidos e pude dar um abraço em Carol Queiroz, viúva de Bruno Ernesto.
Entre faixas, apitos, batucadas de panelas e desabafos no megafone, enxerguei pessoas que estavam ali por já terem sido vítimas da violência ou porque acreditam que é preciso fazer algo diferente. É preciso gritar nossa insatisfação pelas ruas da cidade.
Uma amiga me revelou que nunca havia participado de ato semelhante, mas foi tocada demais pelo que ocorreu com Bruno. Disse-me algo mais ou menos assim: "Ele era jovem como eu, morávamos no mesmo bairro, tinha sonhos e muito a fazer no futuro, como eu. Me senti totalmente sensibilizada e por isso estou aqui hoje", confidenciou.
Cheguei um pouco mais tarde no trabalho hoje, para ter a oportunidade de ficar algum tempo no protesto. Fiquei duas horas meia. Chorei com Carol, me emocionei ao ver um senhor de mais de 70 anos pedir para discursar sobre a importância da vida, fiz barulho com uma colher de pau e uma panela, gritei palavras de ordem junto com desconhecidos.
"Queremos segurança! Queremos justiça! Queremos paz!". Gritavam os poucos manifestantes.
Sim, éramos pouco. Éramos apenas algumas dezenas.
Protesto ineficiente? Sem efeitos práticos? Não acredito nisso.
Acredito que as transformações são lentas, a mobilização das pessoas (quando não são compradas com um lanche na periferia e colocadas feito gado em vários ônibus, para aumentar claque em evento político) se dá como o nascer do dia, feito o poema "Tecendo a manhã", de João Cabral de Melo Neto:
“Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.”
Participei do protesto contra a violência em João Pessoa porque não quero ser a próxima manchete no jornal. Quero de volta meu direito de sair à rua, apenas para comprar um produto no mercadinho da esquina. Quero chamar novamente de minha a vontade de sair de casa e pegar um ônibus, duas ruas depois, sem ter no coração o medo de ser assaltada. Quero a minha cidade de volta, com a tranquilidade como porta-bandeira.
Alguém precisa fazer alguma coisa. Quem foi colocado no poder precisa agir. Enquanto os homens ditos de bem, eleitos para "organizar a casa", não fazem o que se espera deles, eu vou continuar indo a protestos. Batucando panelas, gritando palavras de ordem e pedindo a Deus para que não acorde com outra tragédia ecoando nas rádios da capital.
