Bolsa Feiura
Li há alguns dias que estão pensando em criar o Bolsa Feiura. Segundo o idealizador do projeto, vivemos numa sociedade que valoriza muito a beleza, e os que não a têm competem em desigualdade de condições com os bonitos. Uma forma de reparar essa injustiça seria destinar aos feios determinada quantia para que eles pudessem de alguma forma reduzir os efeitos da sua condição. Com o dinheiro comprariam produtos de beleza, frequentariam clínicas estéticas ou mesmo, se fosse o caso, fariam cirurgia plástica.
Certamente isso vai gerar muitas críticas. Dirão que não tem sentido propor tal ajuda quando há no país milhares de indivíduos sem teto ou com fome. Esse argumento, contudo, é fácil de refutar. A feiura não é um problema social (a não ser, talvez, na China), mas entristece ou deprime muitas pessoas, o que indiretamente afeta o setor produtivo do país. Quem, sentindo-se por dentro “um lixo”, tem ânimo para fazer a contento o seu trabalho?
Essa história de “estar bem consigo” tem fundamento. Se o espelho não nos aprova, tendemos a ignorar os outros e pouco nos importamos com o mundo. Em alguma medida, Freud tem razão: o universo é projeção do ego. Tendemos a moldá-lo conforme nossa disposição interior.
Inclinamo-nos para o belo porque, segundo Stendhal, a beleza é uma promessa de felicidade; isso quer dizer que a feiura “promete” o oposto. Vinicius segue a mesma pisada ao afirmar, pedindo perdão às muito feias, que beleza é fundamental. Como veem, o Bolsa Feiura tem um sólido aval literário (a não ser por Quasímodo, que compensa a corcunda com a beleza interior -- mas quem liga para ela hoje?). O projeto, se aprovado, não mudará ninguém, mas constituirá um estipêndio consolador. Vai reparar um pouco o descuido (ou mesmo a imperícia) com que a natureza desenha certas fisionomias.
O problema de um projeto como esse em nosso país é que poucos resistem a dinheiro que vem do Estado. Seguindo a prática do jeitinho, a maioria vai bolar artifícios para parecer mais feia do que é e ter direito à cota. Talvez isso produza um decréscimo na nossa vaidade, levando à crise o setor de produtos estéticos. Haveria protestos, demissões -- e aí, sim, a coisa ficaria feia.
DE OLHO NO VESTIBULAR
Três defeitos comuns na redação dos vestibulandos:
- presença de expressões como “acho”, “penso”, “suponho” - Esses verbos devem ser evitados por dois motivos: não trazem nenhuma informação nova e indicam falta de firmeza na manifestação das ideias “Acho que o Brasil precisa de uma nova mentalidade política”. Corte o “Acho que”.
- repetição de palavras - Na maioria das vezes essas repetições se mostram inúteis, pois um dos termos nada acrescenta ao outro: “Ao analisar sua visita ao necrotério percebi que você possui uma veia sentimental e poética.” Suprima um dos adjetivos.
- uso de hipérboles - O exagero é por excelência um traço emocional. Compromete a objetividade do discurso: “A dependência da opinião dos outros é algo trágico que muda a forma de pensar.” Troque “trágico” por “nocivo”, “prejudicial”.
O QUE É
antimetábole - É a repetição invertida dos componentes de uma frase. Por meia dela se opõem dois conceitos e se opta por um deles: “É melhor perder um minuto na vida do que a vida num minuto”. Nesse exemplo, opõe-se precipitação a paciência.
A antimetábole comumente se associa a conteúdos sentenciosos, que expressam verdades gerais: “Onde os meninos comparem de doutores, os doutores não passarão de meninos” (Rui Barbosa). No exemplo seguinte, defende-se a moderação nos hábitos alimentares: “Deve-se comer para viver, e não viver para comer.” A eficiência da antimetábole está em que o jogo da inversão parece reforçar o conteúdo sentencioso. Às vezes a figura não se associa a uma sentença -- constitui apenas um jogo, como neste exemplo dado por Zélio dos Santos Jota: “Oto ama Ana e Ana ama Oto.”
PALAVREANDO
Essa ou ouvi enquanto caminhava na calçadinha da praia. Quase em frente ao Hotel Tambaú, conversavam dois sujeitos que faziam ponto abordando os turistas. Um deles falou:
- Turista merece respeito, mas tem que pagar pelo respeito que merece.
Eita cinismo bem-articulado!
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Comprou um cartão para a namorada e fez no verso um oferecimento em prosa.
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A coisa mais inútil é esperar o sono chegar. Quando ele chega, a gente já está dormindo.
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Quem corta as próprias asas não merece pena.
