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Gonzaga Rodrigues

Espaço que revela, através de crônicas, acontecimentos do cotidiano do povo nordestino com um misto de política e literatura.

Reencontro

Eu tinha um primo chamado João Viana. Rompi com o internato e ele me acolheu. Não me exigia, mas via-o levantar cedo, apressar o café e os passos para o trabalho, e só me restava acompanhá-lo. Ele era alto, de um branco amorenado pelo sol que ajudava muito em sua simpatia. E nos negócios.
Os negócios eram vender biscoitos refugados da Pilar que não entravam na embalagem de fábrica. Biscoitos quebrados ou com pequenos defeitos. Chegavam a granel e os empacotávamos para venda e entrega nos bairros da Liberdade, do Quarenta e nas Boninas de Campina. Foi aí que os nossos carrinhos de entrega cruzavam com os carrinhos do Café São Braz, com uma diferença: os nossos éramos nós mesmos quem os empurrava; os do café já eram os empregados.
De forma que eu ouvia falar de José Carlos Junior, o filho do dono, antes de conhecê-lo. Conhecia o pai, cujo moinho era quase parede-meia com o café de Chico Lima, pregador comunista, que freqüentávamos na Semeão Leal. Pegada com essa rua, dando para a Floriano Peixoto, rua principal, ficava a Biblioteca Pública que não tinha os livros recomendados por seu Chico. Também foi nesse café/restaurante que aprendi a metrificar versos com Antônio Mangabeira, secretário do Sindicato dos Motoristas e promotor de festejadas cantorias na sede do sindicato, coisa que pouco ou nada tem a ver com o personagem desse belo livro dos 60 anos do Café São Braz, o doutor Zé Carlos.
Como sugeri, eu o conhecia de longe ou o via passar já rapaz de buços, de outra turma, a do Ge-a-dê (Ginásio Alfredo Dantas) que não cruzava bem com a nossa, do Pio XI, embora rondássemos o mesmo quarteirão central, passeio da estudantada, falatório da política e dos negócios.
Deixando Campina por João Pessoa, distanciando-me do ponto que guarda minha primeira grande comoção urbana, quando voltei a saber de Zé Carlos ele já havia fechado negócio com o café a que me acostumara, aqui em João Pessoa, o Santa Rosa dos Marsicanos.
Depois... Bom, depois é o que todos sabemos, uma história de arrojo, feita de crença inabalável no trabalho e em que a marca do homem e a da empresa se confundem. Empresa que lembra a Paraíba em todos os grandes cafés do Brasil.
O ruim é que, tornando-se grandes, verdadeiros holdings, quase sempre a empresa esconde o homem. Protege-o da abordagem popular como verdadeiros bunkers. Receio depois dissipado, quanto a Zé Carlos, num dos momentos de seu mais alto prestígio, ele dono do mercado e do poder político, alçado a governador. No tempo em que ainda existia o restaurante de Lucena, no Poço, uma casa bem doméstica de toalhas alvíssimas, lá o encontro sozinho, ele e seu peixe cozido. Foi como se, ao longo da vida, devêssemos um ao outro esse reencontro.
Esta semana fui a seu escritório completar uma conversa que começara casualmente no hall do nosso jornal. Falamos dos achaques, do punhado de pílulas que engolimos, diariamente, e de outros assuntos da idade, mas sem dar muito cartaz a eles. E sobre o Poder, a única lembrança boa que nos ocorreu foi a de Cartaxo, Tarcisio Cartaxo, seu principal assessor de imprensa.