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JP Debates

Espaço dinâmico reservado para a opinião dos leitores, que abordam fatos dos mais variados transitando com a mesma desenvoltura e responsabilidade entre o cenário político, a educação e outros temas.

BRINDANDO COM SEUS ALGOZES

Ocino Batista

Sábado, 11 de fevereiro de 2012, quando as jovens Isabela Pajuçara, 27, e Michele Domingues, 29, dirigiam-se a uma festinha de aniversário na residencia dos irmãos Eduardo e Luciano Santos Pereira, no centro da Cidade de Queimadas, no cariri paraibano, estas moças, no fulgor da juventude, jamais imaginaram que estavam seguindo por um caminho sem volta, e, certamente, não tinham ideia de que seriam vítimas de tanta barbárie e covardia. Acreditando encontrar-se entre amigos, já que um dos acusados era ex-cunhado de uma das vítimas, de certo que as jovens estavam, como se diz “lá em nóis”, de peito aberto, e certamente festejaram alegremente.
Segundo relato policial, as amigas assinaram suas sentenças de morte quando uma das vitimas, reconhecendo a voz de um de seus algozes, retirou-lhe o capuz que cobria o rosto e identificou um dos criminosos, chamando-o pelo nome, o que foi presenciado pela segunda vítima, esta, mesmo tendo se atirado da caminhonete que as conduzia, não foi poupada, dado que seus algozes retornaram ao local onde a mesma encontrava-se prostrada ao solo e a executaram com quatro tiros. A segunda vítima, Michele, seria encontrada tempo depois, já sem vida, despida, amordaçada, punhos presos por algemas do tipo enforca-gatos, abandonada na carroceria do veículo que a conduziu.
A pergunta que não quer se calar: é seguro irmos a uma festa de aniversário na casa de pessoas conhecidas? Claro que é, se não confiamos nos amigos, vamos confiar em quem? Provavelmente foi este o pensamento das duas amigas ao serem convidas para uma festa de aniversário em um ambiente familiar. Isabela e Michele não desconfiaram da bondade, como ocorre com todos nós; a maldade é vista a olho nu, salta aos olhos, daí ser mais fácil fugirmos dela, mas a bondade não tem cara, não tem cor, somos levados por ela, não nos desperta desconfiança, nos pega de peito aberto, diante dela somos presas fáceis. Talvez tenha sido este o único pecado das jovens queimadenses, confiar na bondade dos amigos e, assim, comparecer à sua casa para o brinde de aniversário de um dos irmãos Santos Pereira.
É de se perguntar: voltamos ao tempo das cavernas? Não, senhores, estamos em pleno século XXI, somos civilizados, amamos nosso próximo como a nós mesmo, segundo a doutrina católica, somos todos criados à semelhança do Pai Criador. Somos? Quando vimos uma barbárie como essa de Queimadas, dá para acreditar que aqueles nossos irmãos, criados à semelhança do Filho de Deus, são realmente seres humanos? Alguém capaz de organizar uma trama diabólica, com requintes de crueldade, pode ser considerado realmente filho de Deus? Ou apenas chegamos ao fundo do poço, onde a vida humana não tem valor algum, onde se mata um ser humano com a facilidade com que se mata um inseto qualquer?
Até quando seremos capazes de suportar tanta insegurança, brutalidade, barbáries, crimes, drogas, prostituição, corrupção, ladroagem, pilhagem do erário, conchavos, conluios, negociatas, greve de servidores públicos, greve de moral, de decência, de dignidade, de capacidade de reagir, de lutar, de se impor? Até quando vamos ver as coisas acontecendo aos nossos olhos sem que movamos uma única palha para modificar a situação? Que a tragédia que vitimou Michele, Isabela e seus familiares e amigos nos sirva de alerta, afinal, as garotas foram tão somente a uma inocente festinha de aniversário, em um ambiente familiar.