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Blogs & Colunas

Falou e Disse

O professor Chico Viana associa a variedade de temas própria da crônica com reflexões e comentários sobre a língua portuguesa.

Crise

Um dia Clodomiro chamou Heloísa e, sem mais nem menos, disparou:
- Precisamos nos separar. Do contrário, o pessoal vai acabar nos censurando.
- O quê?!
- Somos casados há quase duas décadas. Isso não existe mais.
A mulher não conseguia entender: -- Mas está tudo bem entre nós. Não temos nenhum problema sério.
- Isso é o que você pensa. Esse tipo de raciocínio é fruto de acomodação. Nós nos acomodamos um ao outro e não percebemos. “-- Você se cansou de mim?”
- Claro que não, mas esse é o problema. A gente devia, depois de tantos anos, pensar em partir para outra. Persistimos numa relação que estagnou. Quem hoje poderia nos tomar como modelo? Somos um mau exemplo.
- Puxa, não pensei que você sentisse essas coisas a respeito de nós -- suspirou Heloísa, baixando os olhos.
- Não sinto, já disse. Mas sabe por que não sinto? Porque a rotina da vida doméstica anestesiou meus sentimentos. Compreendi isso assistindo ontem à entrevista de uma terapeuta de casais. Nosso casamento perdeu o romantismo. Há quanto tempo não lhe dou uma flor?
- Mas eu não preciso de romantismo a esta altura da vida! E você sabe que tenho alergia a flores... Na única vez em que me deu uma rosa, terminei arrancando as pétalas com os espirros.
- Sei, sei. Mas isso não invalida o que estou dizendo. Usei a flor como símbolo. Para mostrar que estamos mesmo em crise. “-- Em crise?”
-- Sim. Em crise... por ausência de crise. Precisamos ter a coragem de admitir isso e agir como pessoas modernas. Proponho que façamos uma viagem, mas não juntos. Cada qual vai sozinho... É hora de dar um tempo.
Heloísa percebeu que não adiantava discutir. Clodomiro se sentia defasado, tinha desenvolvido um complexo por não se comportar como os outros. A viagem poderia ajudá-lo a tirar essa ideia da cabeça. Assim mesmo ficou triste; afinal iam bem, há meses não discutiam nem brigavam... O marido falou que esse longo armistício era um sintoma da acomodação. Lembrou-lhe a letra de Dolores Duran: “...e já não temos nem vontade de brigar.”
Ficaram uns dois dias tratando dos preparativos, até que no terceiro Heloísa chamou Clodomiro e lhe disse: -- Não entendo bem essa coisa de internet, por isso não estou conseguindo comprar a passagem. Você pode me ajudar?
- Claro, mas só se você me der uma mãozinha com a mala. Não sei bem que roupas levar. Sempre tive dificuldade de escolher o que combina, e não quero fazer feio no lugar aonde vou. “-- E para onde você vai?” “-- Para Camboriú.”
A mulher riu: -- Engraçado, eu também reservei vaga numa pousada de lá
- “Paraíso das Águas”? “-- Essa mesmo... Será que lá ainda tem aquelas estátuas de anões no gramado, perto da piscina?” O marido não respondeu. Depois de um breve silêncio, propôs: “-- Se vamos para o mesmo lugar, podíamos viajar juntos... Mas só viajar! Lembre-se de que estamos em crise.”
E foi assim, meio fingindo o contrário, que partiram para a segunda lua de mel.

 

DE OLHO NO VESTIBULAR
A maioria das redes e blogs mostra apenas a personalidade do indivíduo que publica. (Redação de aluno)
Ao redigir, deve-se evitar ambiguidade. Na passagem acima, o aluno não deixa claro se o verbo publicar se refere a “maioria” ou a “indivíduo”. Uma alternativa para desfazer a confusão é fazer esse verbo concordar com o termo geral (redes): “A maioria das redes e blogs mostra apenas a personalidade do indivíduo que publicam.”


TIRE SUA DÚVIDA
E-mail de Adauto Ferreira Neto: “Professor, devo ou não usar inicial maiúscula em “Nego que Seu (ou ‘seu’?) Pedro esteve aqui hoje”?
Caro Adauto, segundo o Acordo Ortográfico, é facultativo o emprego de maiúscula inicial nos axiônimos (nomes que indicam cortesia ou reverência). Pode-se, então, dizer “seu Pedro” ou “Seu Pedro”. Gosto da segunda forma por ela marcar a distinção entre “Seu” (axiônimo) e seu (pronome possessivo).


PALAVREANDO
As oficinas mecânicas são a “Playboy” dos pobres.
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Sou contra o tal do “trote”. Aliás, o nome já diz tudo: é coisa de cavalo.
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A vida é feita de perdas e arreganhos.

Uma ponte entre Munch e Augusto dos Anjos

Uma das versões da tela “O grito”, de Edvard Munch, foi arrematada em leilão por cento e vinte milhões de dólares. Li que nunca se pagou tanto por um quadro. “O grito” mostra um homenzinho que caminha sobre uma ponte e é surpreendido por algo que o aterroriza. Não se sabe o que ele vê, nem mesmo se está vendo alguma coisa. A força da imagem vem sobretudo desse enigma.
A tela filia-se ao Expressionismo. Suas pinceladas fortes, em círculos concêntricos, parecem envolver o homem num túnel do qual ele não pode sair. À imobilidade soma-se a sensação de desamparo por fazer uma travessia cujo fim desconhece. O que haverá além da ponte? O grito tenta captar esse mistério. Ou se rebelar contra a dureza da resposta.
A tela propicia várias leituras. Uma delas é a de que a situação do personagem constitui uma alegoria da nossa humana condição. Também atravessamos uma ponte -- entre a vida e a morte. Vivemos entre dois extremos enigmáticos, como quem cruza um abismo.
A percepção desse impasse justifica o grito, que se disfarça no murmúrio dos crentes, no berro dos fanáticos, no discurso dos sábios, no gemido dos sensualistas ou no silêncio dos contemplativos. Ele se multiplica em simulacros, porém não se liberta do seu fundo misterioso.
Mas a tela também sugere outra possibilidade: a de que o grito não ocorre. O horror seria tanto, que a voz não sai. Isso me lembra as agônicas imagens de Augusto dos Anjos, em que se lamenta um anseio que não se realiza. Como se o personagem se deparasse com uma revelação tão assustadora, que o deixa mudo. Também no paraibano há um desespero que se busca extravasar num bramido: “Grito e, se grito, é para que meu grito/ seja a revela deste Infinito/ que trago encarcerado dentro d’Alma”.
A poesia de Augusto seria um correspondente verbal da tela de Munch, à qual o nosso poeta se liga pelos traços expressionistas. O que no norueguês é a profusão de círculos e manchas, que fazem o significante se superpor ao significado, em Augusto é o excesso de figuras sonoras, perífrases conceituais, metáforas e hipérboles sugestivas de um mundo corrompido pelo Vício. O correlato físico dessa falha moral é o corpo doente e inchado, que se traduz em imagens de lepra, elefantíase, tuberculose. Um corpo chagado e sem voz.
Num de suas composições, nosso poeta se refere a uma ponte (Buarque Macedo, em Recife), que ele percorre em direção a uma casa mortuária; ao fazer a travessia, “pensava no Destino e tinha medo”. Não seria o mesmo medo que paralisa o personagem de Much, estanca-lhe a marcha e lhe corta a voz? Tal como no norueguês, em Augusto a voz esbarra “no molambo da língua paralítica”.
Much pinta o que em Augusto dos Anjos é o horror de se deparar com o indizível, o impasse de não poder verbalizar a agonia. É a impotência da palavra diante do que a transcende, como o brilho de uma “luz que não chega a ser lampejo”. O silêncio que disso resulta assusta mais do que o pior grito.

 

DE OLHO NO VESTIBULAR
Pedro Linhares quer saber se a palavra “longe” pode ser flexionada no plural.
Caro Pedro, como advérbio “longe” não se flexiona. É invariável. Mas essa palavra pode ser também adjetivo e substantivo. É possível falar de “estradas longes”, “longes cidades” etc. Como atributo, ela tem o sentido de “longínquo”, “distante”. Confira: “Deixou a família e hoje segue longes caminhos”.
Quando é substantivo, “longe” indica o fundo de uma pintura ou paisagem, e a parte distante de uma região: “Os longes do quadro eram de um violeta esmaecido”; “Mora nos longes de Goiás”. A palavra também é usada metaforicamente com o sentido de “vislumbres”, “pressentimentos”, “semelhanças”: “Antes de adormecer, teve uns longes do que lhe aconteceria no exame”.


O FINO DA PROSA
“Todos aqueles que fizeram grandes coisas fizeram-nas para sair de uma dificuldade, de um beco sem saída.” Quem escreveu isso? quando? Não importa, é uma verdade de vida, e muitos poderiam tê-la escrito. (Clarice Lispector; com adaptações)


PALAVREANDO
- Você acredita na vida depois da morte?
- Como é que eu posso acreditar em alguma coisa depois de ter morrido?
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A declaração que mais sensibiliza as mulheres é a de rendas.
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O diabo pode até não conseguir os seus propósitos, mas bem que tenta!
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Mãe é a certeza que se tem de jamais estar sozinho.
 

Dizer pelo avesso

Nossa língua é incoerente ou somos nós os estranhos? A gente...
- está insatisfeito com alguém vai e “tomar satisfação”.
- exclama “Alto lá” mesmo para uma pessoa baixinha, e que esteja perto.
- “ordena” a alguém que vá embora, dizendo: “Queira” se retirar.
- acha “bárbara” uma festa em que não ocorreu nenhuma atrocidade.
- antes de comer, pergunta a quem nos acompanha se ele “está servido” -- e fica irritado caso a pessoa responda que sim.
- chama de “legal” um comportamento que nem sempre respeita a lei.
- faz “seguro de vida” para obter uma garantia que só virá com a morte.
- diz “tudo bem” diante de uma coisa que está ruim.
- chama de “tira-gosto” um alimento que vai dar tornar tragável a bebida.
- fala “a gente se vê por aí” a quem não tem a mínima intenção de reencontrar.
- “faz sala” a uma visita que às vezes está em outra dependência da casa (como a cozinha).
- exclama “Essa é boa!” diante de uma coisa que, no fundo, achou ruim.
- e “Só faltava essa!” a propósito de algo que de boa vontade dispensaria.
- traça planos para o futuro, mas afirma que ele “a Deus pertence”.
- chama de “genial” o que às vezes não está nem acima da média.
- manda preparar uma “simpatia” para prejudicar aqueles por quem tem aversão.
- diz que alguém “bebe como um gambá”, embora até hoje ninguém tenha tido notícia de um gambá alcoólatra.
- pede ao filho que “tenha garra” e depois reclama quando ele nos quer meter as unhas.
- diz que alguém imobilizado em cima de uma cama “anda” doente.
- acha que para estar na frente é preciso ter sempre “um pé atrás”.
- chama de “consorte” mesmo quem é azarado no casamento.
- diz “vou chegando” quando vai saindo.
O corpo na língua
Há no mundo quem mata os outros na unha, passa uma mão de tinta só para lambuzar, faz pé de meia explorando os outros, fala pelos cotovelos, quer ter razão no peito, empurra com a barriga os problemas, desconhece o umbigo da questão, cultiva inimigos figadais, fica de papo pro ar na hora errada, nunca age com o coração. Portanto, esteja sempre de olho.


DE OLHO NO VESTIBULAR

Os advérbios em “mente” são perigosos. A maioria deles é inútil e deve ser cortada. Por que dizer que somos um povo intrinsecamente alegre? Haverá por acaso uma alegria extrínseca?
São comuns nas redações frases como: “Precisamos verdadeiramente combater o nepotismo”; “Nossas autoridades estão sistematicamente deixando de lado o ensino público”; “O País caminha inexoravelmente para o caos”. Esses termos quilométricos constituem um cacoete e não trazem nenhum acréscimo ao sentido.
Um dos que merecem especial cuidado é "literalmente”. Ele só deve ser usado quando, entre dois sentidos possíveis, se quer destacar o que está “de acordo com a letra” (ou seja, o literal). Se se diz que alguém está “literalmente na fossa”, ninguém vai pensar que ele está triste por haver sofrido alguma decepção. Entende que caiu mesmo em algum tanque malcheiroso. Daí o complemento que leva à piadinha: “E morreu? “Não. Escapou fedendo.”

 

TIRE SUA DÚVIDA
E-mail de Fabio P.: “Um professor disse que, se o predicativo vier antes do objeto composto com gêneros diferentes, a concordância só se dará no masculino plural (''Compramos caros livro e revista''). Outro falou que o predicativo pode concordar com todos no masculino ou com o mais próximo. (''Consideraram bem preparados as alunas e alunos'', ''Consideraram bem preparadas as alunas e alunos''). Como fica esse caso? Obrigado.
Caro F., se o predicativo vem anteposto aos substantivos, embora se admita o masculino plural, a tendência é mesmo concordar com o mais próximo: “Consideraram bem preparadas as alunas e alunos.” Quando ao primeiro exemplo, o melhor é considerar "caro" como advérbio e, obviamente, mantê-lo invariável: “Compramos caro livro e revista.”


PALAVREANDO
A alegria é gratuita. A felicidade, não. A alegria é dádiva. A felicidade, construção.
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Quem empresta aos pobres dá adeus.
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O problema é que Deus fez o mundo, mas o homem é quem o administra.
 

Parônimos na redação de vestibulandos

Um dos problemas graves em redações de vestibulandos é a falta de rigor no emprego das palavras. As falhas por inexatidão de sentido prejudicam a coerência e, nos casos em que constituem repetições indevidas, comprometem a progressão do texto. Em razão delas geram-se enunciados contraditórios e por vezes ininteligíveis.
Um dos fatores que concorrem para isso é a escolha errada entre dois parônimos. Parônimas, como se sabe, são palavras que se assemelham pela pronúncia. As gramáticas citam exemplos como os de “infligir e infringir”, “intemerato e intimorato”, “eminente e iminente”; nesses pares, a semelhança fônica faz com que não raro se troque um dos vocábulos pelo outro.
A análise das redações, quanto a esse aspecto, nos leva a uma interessante constatação: os parônimos tanto induzem ao erro, quanto aparecem como alternativas para suprir o vazio de um pensamento que não encontra a sua forma. O que o aluno escreveria, por exemplo, se não lhe ocorresse usar “consistência” em lugar de “constância” numa frase como “É preciso evitar a consistência com que isso ocorre”?
Dificilmente optaria por um termo mais preciso, como “frequência”; o mais provável é que não formulasse o juízo que formulou. A existência do parônimo se constitui num recurso para que ele tenha dito o que disse, abeirando-se muitas vezes do sentido adequado. A semelhança sonora entre os vocábulos demonstra que ele tinha uma vaga ideia do que “constância” significa -- tanto que pensou estar usando essa palavra quando escolheu a outra.
O uso inadequado dos parônimos decorre basicamente de uma confusão formal, mas isso não significa que o fator semântico não concorra para a troca dos termos. Nesse ponto ocorre o oposto do que acontece nos tradicionais equívocos apontados pela gramática.
Quem troca “infligir” por “infringir” não o faz sugestionado por um vínculo de sentido. Pelo contrário, não há nenhuma relação entre essas palavras. Já entre “constância” e “consistência” parece haver um parentesco metonímico; quem é constante, afinal de contas, demonstra alguma consistência interior.
O mesmo ocorre nas passagens abaixo, retiradas também de redações de nossos alunos:
“Estas indagações são feitas pela sociedade, que muitas vezes se contradiz ao avanço da medicina”; “São pais antiquários, que prendem demais os filhos”; “A força capaz de transformar algo tão nobre e verdadeiro em algo maquinário”.
As trocas às vezes têm efeito paradoxal ou cômico. Ao confundir “constância” com “consistência”, no contexto da frase citada, o aluno atribui valor a algo que pretende evitar. O que é consistente não deve em princípio ser rejeitado, ou seja, a escolha da palavra indevida gerou uma falha de coerência. (Leia o texto completo em http://www.chicoviana.com/escritos.php?id=740)


TIRE SUA DÚVIDA
E-mail de Ataimar Lucena: “A expressão ‘engolindo sapo” equivale a que palavra ou expressão na língua culta?”
Caro Ataimar, engolindo sapo significa “tolerar coisas ou situações desagradáveis sem responder por incapacidade ou conveniência” (Houaiss). É de fato uma expressão coloquial, que no registro culto deve ser substituída por “suportar”, “tolerar”.


O QUE É
Hipérbato - É qualquer inversão da chamada ordem direta, que se caracteriza pela sequência “sujeito - verbo - complemento - adjunto”. Exemplo: “Um velho amigo encontrei ontem na praia.” Quando a inversão se dá entre os componentes de um sintagma, ocorre um tipo de hipérbato chamado anástrofe. Ocorre anástrofe neste conhecido verso do Hino Nacional: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”, em vez de “Ouviram as margens plácidas do Ipiranga”. Nessa passagem há também hipérbato, pois o sujeito (as margens plácidas do Ipiranga) aparece depois do verbo.


PALAVREANDO
“Marcha contra a corrupção” -- essa não pode ter desvio.

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Diferença entre o religioso e o político: o religioso faz voto de pobreza para ganhar a salvação; o político usa o voto da pobreza para ganhar a eleição

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O pior ostracismo não é o político. É o familiar.
 

Revisitando Augusto

Se vivo fosse, Augusto dos Anjos teria completado na última sexta-feira 128 anos. Seu único e famoso livro, publicado em 1912, foi recebido com estranheza e fascínio. Não é verdade que tenha sido rechaçado, ou mesmo ignorado, por críticos e leitores mais exigentes. Pelo contrário, mesmo quem se surpreendia com a sonoridade áspera e o vocabulário por vezes impenetrável daqueles versos percebia neles as marcas de uma poesia vigorosa e, a seu modo, bela – mas não da beleza fluida e cristalina dos parnasianos.
Influenciado por Baudelaire, o paraibano incorporava ao seu território poético o feio e o degenerado. Cantava “de preferência o horrível”, como se desejasse temperar a risonha belle époque com um esgar macabro. Esse propósito transparece, por exemplo, nesta passagem do soneto “Aberração”: “(...) Como Belerofonte com a Quimera/ Mato o ideal; cresto o sonho, achato a esfera/ E acho odor de cadáver na fragrância!”
Os historiadores incluem o “Eu” no Pré-Modernismo, já que ele constitui uma ponte entre os simbolistas e os modernos. O livro conserva dos primeiros a musicalidade e o tom soturno, que lembra Cruz e Sousa. E tem dos segundos o vocabulário prosaico, por vezes apoético, em que palavras de uso cotidiano (vinagre, tesoura, sorvete) se alternam com vocábulos científicos.
Diz-se que o sucesso do “Eu” deveu-se mais ao povo do que à crítica, o que até certo ponto é verdade. Não que os críticos tenham ignorado o poeta, mas não há dúvida de que a grande popularidade do livro despertou os estudiosos para “o caso” Augusto dos Anjos. A acolhida estimulou múltiplas abordagens, muitas delas mais interessadas no autor do que em seus versos.
A tendência a se confundir o autor com a obra é um dos problemas na leitura do paraibano. Parece difícil ao leitor comum entender que, quando um poeta diz “eu”, não fala necessariamente de si. Que dizer então de um autor como Augusto dos Anjos, em quem o “eu” é um disfarce para o “nós”? Apesar do tom confessional, seus versos falam de uma angústia que ultrapassa o âmbito subjetivo. Neles ecoa a “saudade da monera”, abstração filosófica que se refere a uma tristeza não apenas do indivíduo, mas de toda a espécie.
A monera é a “mãe antiga” – a matriz de uma raça que, tendo perdido o Paraíso, ganhou a culpa. O poeta refere um remorso cósmico, expresso em imagens de peso, carga, dilaceramento físico. Essas imagens, típicas do afeto melancólico, traduzem um desejo de punição: “Ah! Com certeza, Deus me castigava!/ Por toda a parte, como um réu confesso,/ Havia um juiz que lia o meu processo/ E uma forca especial que me esperava!” (“As cismas do Destino”)
Augusto fala em morte, vermes, esqueleto, mas também tem olhos para o espetáculo da vida. Em muitos de seus poemas longos, às elucubrações tristonhas sucede a descrição do nascer do sol, que injeta seiva em plantas e bichos. O poeta se entusiasma com os fenômenos vitais e vê o homem, a despeito da mágoa (mácula) que o deprime, como um produto da energia criadora da Natureza.

 

DE OLHO NO VESTIBULAR
“Os jovens sofrem porque é incrível o excesso de regras aplicadas a esse seguimento da população.” (Redação de aluno)
Nessa frase há uma confusão semântica comum em redações de vestibulandos. A semelhança de som leva os alunos a confundir “segmento” (seção, parte de um todo) com o substantivo derivado do verbo “seguir”.
“Seguimento”, que se forma com o acréscimo do sufixo “mento” a esse verbo, é a “ação ou o efeito de seguir, continuar”. Significa também “resultado”, “conseqüência”, em frases do tipo: “O protesto dos funcionários não teve seguimento”.
Nosso aluno deveria, pois, ter escrito: “Os jovens sofrem porque é incrível o excesso de regras aplicadas a esse segmento da população.”


TIRE SUA DÚVIDA
Beatriz N. quer saber se o correto é “ao mesmo tempo que” ou “ao mesmo tempo em que”.
Cara Beatriz, a forma correta é “ao mesmo tempo que”. Esse conjunto constitui uma locução conjuntiva e resulta do acréscimo do “que” à expressão adverbial “ao mesmo tempo”. Por idêntico processo formam-se locuções como “já que”, “assim que”, “tanto que”, “de modo que” -- todas provenientes de advérbio ou locução adverbial.


PALAVREANDO
Já perdi a conta dos livros que não li.
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Diante de certas mulheres, eu me sinto um abjeto sexual.
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A sociedade tem uma gramática particular. Está cheia de sujeitos sem predicados.
 

Confissão

O Filósofo está apaixonado. Demorou muito para admitir isso, mas agora não pode mais se enganar. Seria desconhecer as evidências, menosprezar o alcance das suas faculdades cognitivas. Depois de longas prospecções interiores, reconhece que está amando. Não permitiria, contudo, que os arroubos da paixão lhe turvassem o entendimento. Afinal, era um filósofo, um homem acostumado a meditar sobre as grandes questões do universo.
Precisa conversar com Ela. Acha melhor usar o telefone, pois o contato físico num momento como este delataria sua perturbação emocional. Quer tudo, menos perder o controle. Disca os números e, ao fazer isso, percebe contrariado que suas mãos tremem. Ouve do outro lado uma voz dizendo “Alô”, mas não responde logo. Prefere estudar o que vai dizer. Um tanto exasperada, a voz indaga:
- Quem é você?
Essa pergunta o deixa desnorteado. Há décadas se questiona sobre isso e ainda não encontrou uma resposta. “Quem sou, de onde venho, para onde vou” -- essas questões já lhe consumiram várias noites de sono. Para simplificar, diria o próprio nome, embora soubesse que o nome é uma designação convencional e não diz quem somos.
- É Sizenando.
- Ah...
Passa alguns segundos analisando o tom com que a moça pronunciou esse monossílabo. Foi uma interjeição sem ponto de exclamação, como se Ela de alguma forma esperasse o telefonema. Como se pensasse: “Enfim, ele está ligando”. Saberia dos seus sentimentos? Hesitante, permanece em silêncio, procurando formular uma síntese que unifique suas contraditórias reflexões. Como não diz nada, Ela continua:
- Quer me confessar alguma?
Confessar? Por quê? Ele não fez nada de errado. Antes de responder, relembra os momentos que passaram juntos. Será que nessas ocasiões cometeu alguma falta de que deva se penitenciar?
- Não, não quero -- responde. Ouve-a suspirar e dizer: “Que pena. Fica para outra vez”.
- Outra vez?
- Sim, quando você tomar coragem.
Tem dois importantes temas para meditar nesta noite: primeiro, o apelo à confissão; segundo, a certeza que ela tem de que haverá outra vez. Como se a moça não duvidasse de que num segundo telefonema ele confessaria. Mas... confessar o quê?
Enquanto ele rumina essas coisas, Ela lhe diz “Boa noite” e desliga. Sua voz tinha um acento entre glacial e escarninho. Parecia adivinhar que o Filósofo teria uma noite difícil, semelhante às muitas que tiveram Pascal (antes da conversão), Hamlet ou Santo Agostinho. Uma sombria noite do espírito... Escova os dentes e se prepara para a insônia.
Do outro lado, Ela desliga o telefone se perguntando: “Quando é que esse tolo vai enfim se declarar?


DE OLHO NO VESTIBULAR
Muitas vezes os pais desenvolvem um sentimento de autoproteção que os garantam que seus filhos não possuem problemas. (Redação de aluno)
Uma das formas de infringir a norma culta é cometer erros como os da passagem acima. As falhas ocorreram no plano morfológico e no sintático. Do ponto de vista morfológico, o estudante usou o pronome oblíquo “os”, quando deveria ter usado “lhes”. É que esse pronome retoma “pais”, um objeto indireto.
A falha sintática atinge a concordância verbal. Como o verbo garantir concorda com “sentimento”, representado pelo pronome relativo “que”, deve ficar no singular. Eis a frase corrigida:
“Muitas vezes os pais desenvolvem um sentimento de autoproteção que lhes garanta que seus filhos não têm problemas.”


O FINO DA PROSA
“Há pessoas que têm vergonha de viver: são os tímidos, entre os quais me incluo. Desculpem, por exemplo, estar tomando lugar no espaço. Desculpem eu ser eu. Quero ficar só! grita a alma do tímido, que só se liberta na solidão. Contraditoriamente, quer o quente aconchego das pessoas.” (Clarice Lispector, em “A descoberta do mundo”)


PALAVREANDO
A política é a arte de prometer mundos e ficar com os fundos.
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É fácil identificar um autor anônimo. Ele nunca assina o que escreve.
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Que Deus me salve dos que querem me salvar.
 

Do baú

Semana Santa é tempo de reflexão, por isso resolvi retirar do baú alguns escritos. Se não têm valor, conto com o espírito cristão do leitor para me perdoar. Aí vão:
O homem nasce duas vezes. A primeira, quando chora; a segunda, quando ri. O primeiro nascimento é biológico; o segundo, espiritual. Já se disse que o riso é uma forma de afastar a dor. De não se entregar a ela e, ao mesmo tempo, perdoar o que existe de errado, impróprio, impossível na Criação. O riso sela um pacto entre o homem e Deus, que certamente não gosta de quem o recrimina com o desespero. O desespero nega o sentido da vida. O riso o reconhece da única forma como é possível reconhecê-lo -- acolhendo sem protesto o absurdo. É o estágio máximo da compreensão.
Podemos viver sem chorar, mas não podemos viver sem rir. Para isto seria preciso não ver nem avaliar o mundo, que é risível porque se desenvolve num infindável jogo de tentativas e erros. As derrotas mostram que o homem está sempre aquém de seus propósitos e refletem a má avaliação que ele faz de si e dos outros. A única forma de reagir a isso é com o humor.
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Perdoar Deus é a primeira condição para merecê-Lo. Deus não se dá a quem o responsabiliza pelo mundo.
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Sartre diz que se escreve por vingança. Faz sentido, pois o que somos decorre em grande parte do que fizeram conosco. A escrita é uma forma (das mais brandas, por sinal) de dar o troco.
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A pergunta mais importante que toda pessoa deveria se fazer é: “Será que o que eu desejo é compatível com o que eu sou?” A resposta correta a isso pouparia muita desilusão e perda de tempo. O mais das vezes, sonhamos ser o que jamais seremos.
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Segundo Nietzsche, a queixa tem um componente de agressão e por isso é inútil. De fato; o queixoso não pode esperar boa vontade de alguém que se sente agredido por ele.
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Dizem que o casamento funciona melhor quando os dois são iguais. Nada mais falso; a igualdade de traços prejudica a união. O ideal é que cada qual tenha seus próprios defeitos -- e também suas qualidades. Da complementação das diferenças é que nasce a harmonia.
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A fofoca é uma forma de catarse, por isso não morre nunca. Falamos dos outros porque isso nos alivia e aparentemente nos faz melhores a nossos próprios olhos.
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Os mais humildes são na verdade os mais ambiciosos. Querem nada menos do que a vida eterna.


TIRE SUA DÚVIDA
Adauto Ferreira quer saber se os nomes das regiões de um estado se escrevem com letras maiúsculas.
Escrevem-se sim, Adauto. O Acordo Ortográfico, em sua Base XIX, orienta que se grafe com maiúscula “os pontos cardeais e equivalentes, quando empregados absolutamente”. Dá como exemplo “Nordeste”, que é uma região do Brasil. A tendência é estender a inicial maiúscula aos nomes de rub-regiões como Agreste, Cariri, Zona da Mata etc.


DE OLHO NO VESTIBULAR
“Homossexualidade, aversão à estrangeiros, timidez, obesidade são algumas das razões pela qual levam o agressor a atingir a vítima”. (Redação de aluno)
Na passagem acima, além do uso indevido do acento grave em “à”, ocorre falha coesiva. O acento não se justifica porque esse “a” é apenas preposição; se um artigo se fundisse a ela, seria “os” e não “a”, o que determinaria a aglutinação “aos (estrangeiros)”.
A falha de coesão está no uso de “pela qual” em vez de “que”; este pronome retoma “razões” e constitui o sujeito do verbo levar (“... que levam o agressor a atingir a vítima”). Caso se mantenha o “pelas quais” (flexão correta), é preciso reestruturar o período: “...são algumas das razões pelas quais o agressor é levado a atingir a vítima.”


PALAVREANDO
Cristo morreu para nos salvar e até hoje deve se arrepender disso.
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Não respeito muito essa história de árvore genealógica. Se é para pesquisar nossa ascendência, que se vá logo à zoologia.
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A vaidade é o orgulho sem pudor.
 

Dura lição

O pênalti é um dos instantes decisivos do futebol. É o momento em que o indivíduo conta mais do que o grupo. Se durante a partida o gol nasce do entrosamento da equipe, no pênalti ele decorre da habilidade de um atleta só. Nenê Prancha disse que bater uma penalidade máxima é tarefa de tanta responsabilidade, que deveria ser entregue ao presidente do clube.
Essa é uma das razões pelas quais é difícil inovar na cobrança de pênaltis. O cobrador precisa ser objetivo, escolher com cuidado o lugar onde vai chutar a bola. No máximo, olha para um dos lados a fim de dar uma pista falsa ao oponente. Um dos raros casos (talvez único) de inovação foi a paradinha, inventada por Pelé. Ao suspender bruscamente a corrida, o batedor desloca o goleiro para um lado e tem a chance de meter a bola no lado oposto. Considerou-se que essa prática é desleal com quem está parado no gol, por isso a paradinha foi proibida.
A cavadinha é uma variante da paradinha, porém mais honesta (vejam que ambas têm a enganosa leveza do diminutivo...). Por meio dela o cobrador, em vez de parar, diminui a velocidade e ganha tempo para ver onde está o goleiro e poder escolher o canto. Às vezes chuta no meio -- “chuta” não é bem o termo, dá um tapa na parte inferior da bola com a chuteira quase rente ao chão (como se o cavasse). A bola segue aérea, emplumada, num rodopio que nos permite acompanhar seu trajeto aparentemente hesitante porém fatal.
O atacante Léo Rocha se dispôs a essa arriscada manobra no jogo em que o Botafogo do Rio desclassificou o Treze na Copa do Brasil. Foi num momento decisivo da partida. O Galo dependia desse gol para continuar na disputa. Não era um despropósito sonhar com a vitória, pois o time carioca não vinha bem; já havia desperdiçado duas cobranças.
Eis que o trezeano se dirige para bola e... Antes de relatar o desfecho (que todos já conhecem) fico imaginando o que se passou na cabeça dele naquele momento. Estava no Maracanã, um dos templos do futebol mundial. Sua equipe enfrentava um dos maiores times do Brasil. Não é impossível que, no breve trajeto entre o centro do campo e a bola, a mosca azul da glória o tivesse picado. Isso deve ter ocorrido muito rápido, tanto que não lhe deu tempo para pensar na responsabilidade que tinha pela frente. Por um momento se viu filmado, fotografado, retransmitido na TV. Iriam lhe elogiar a técnica e a audácia. Loco Abreu fizera coisa semelhante num das decisões do Botafogo, deixando perplexa e deslumbrada a torcida. Quem sabe no dia seguinte não estariam falando no Loco Léo?
O desfecho todos conhecem... O rapaz acordou do devaneio entregando a bola ao goleiro, que nem sequer agradeceu. Devido ao gesto displicente, foi desligado do time. Não acho que devesse perder o emprego por isso. Se fôssemos computar o quanto de ações irresponsáveis geram expulsões que redundam em perdas decisivas, grande parte dos atletas seria desligada dos seus clubes. Bastaria a Léo Rocha a dura lição com foi punido pela ingenuidade e o delírio de grandeza. Duvido que pelo resto da vida ele venha a esquecer o que fez.


DE OLHO NO VESTIBULAR

“As pessoas são tachadas pelo que mostram de si e submetem-se, por isso, aos ideais estabelecidos pela sociedade.” (Redação de aluno)
“Tachar” (não confundir com “taxar”) significa “pôr nódoa ou defeito em alguém (ou em algo)”. É um verbo “transitivo predicativo”, ou seja, requer além do objeto direto um termo que representa o julgamento que o sujeito faz sobre esse objeto. Por exemplo: “O diretor tachou o rapaz de vagabundo”; “A Câmara tachou a atitude do ministro de imoral”.
O aluno cometeu uma falha de regência ao não informar de quê as pessoas são tachadas. Na verdade, usou impropriamente “tachar”; deveria ter optado por “julgar”, “avaliar” ou semelhante: “As pessoas são julgadas (avaliadas) pelo que mostram de si etc. etc.”.


O FINO DA PROSA
“O banheiro é o que resta de indevassável para a alma e o corpo do homem moderno e queira Deus que Le Corbusier ou Niemeyer não pensem em fazê-lo também de vidro, numa adaptação total ao espírito de uma humanidade cada vez mais gregária, sem o necessário e apaixonante sentimento da solidão ocasional.”
(Millôr Fernandes, em “Lições de um ignorante”)


PALAVREANDO
Com tanto humor apelativo que anda por aí, Millôr só do que mal acompanhado.
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A dor ensina o Reparil.
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O ignorante é aquele sujeito que passa a vida em broncas nuvens.
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Foi-se o melhor. Foi-se Millôr.
 

A ética no hospital

O assunto da semana foi a reportagem do “Fantástico” sobre a tentativa feita por alguns empresários de corromper um gestor hospitalar. A matéria é sobretudo didática, pois mostra com fartura de exemplos como atuam os que se apropriam do dinheiro público. Eles são claros, objetivos, articulados, e conhecem bem os meandros desse tipo de negócio.
Nos acostumamos a achar que a oferta de propinas vem sempre de pessoas ligadas ao Estado. Os empresários seriam na pior das hipóteses aliciados; quando cediam, era porque não tinham outra alternativa para fechar o negócio ou, que diabo!, porque ninguém é de ferro. Como resistir a engordar com valores tão altos a conta bancária?... A reportagem concorre para desfazer essa impressão. Mostra que muitas vezes é das empresas que partem as propostas indecentes.
E o pior é que elas não surgem de maneira episódica, por obra de uma ovelha negra que se rebela contra as sagradas leis do capitalismo. Surgem como efeito de um conluio e sistematizam uma prática. Essa prática, conforme salientou um dos empresários filmados na reportagem, de tão natural já ilustra uma “ética”.
A prova da naturalidade da situação é que todos negociavam muito à vontade, entremeando os percentuais propostos (dez, quinze, vinte por cento...) com gracejos e cínicas observações pedagógicas. Um dos negociadores chegou a mostrar ao suposto gestor o que ensinava aos filhos. O conselho que dava aos seus rebentos era que sempre protegessem o contratante, a fim de ser por ele protegido. Incutia-lhes como demonstração de lealdade o que não ia além de comparsaria.
Essa lição de casa me lembrou o conto “Teoria de medalhão”, de Machado de Assis, em que um pai instrui o filho sobre o que fazer para se tornar uma figura pública influente. Um medalhão não é bem um corrupto, mas realidade e conto têm em comum uma prática educativa que antes deforma do que constrói. E será possível construir alguma coisa numa sociedade em que o roubo dos recursos públicos é um ato “absolutamente normal -- segundo comentou a representante de uma das empresas? Que esperar de um país que normaliza a fraude? Vá ver, nós é que estamos ensinando errado nas escolas.
Desvendada a trama, as autoridades prometem tomar providências e até se fala na instalação de uma CPI. Esperemos que as investigações ocorram mesmo e levem à punição dos culpados. Dá um calafrio pensar que: a) esse foi apenas um entre as centenas de hospitais públicos que há no país; b) as empresas filmadas foram somente quatro entre as dezenas que prestam serviços ou fornecem produtos a essas instituições; c) nem todo gestor hospitalar é um repórter disfarçado do “Fantástico”.
Tudo isso dá a entender que são vários os condutos por onde o dinheiro escoa, relegando ao desamparo milhões de pobres e miseráveis. O diretor do hospital onde se fez a reportagem observou com razão que roubar da saúde constitui um dos piores crimes, pois deixa sem assistência os que não podem pagar médicos e hospitais. Ou seja: é uma forma indireta de matá-los.


DE OLHO NO VESTIBULAR

“Porque ao gastarmos nos sentimos melhores?” (Redação de aluno)
Há dois problemas nessa passagem. O primeiro é o uso de “porque” (junto). O que se tem no início da frase é o conjunto “por” (preposição) + “que” (pronome interrogativo), o qual tem valor de causa. Na resposta é que se usa a conjunção. Por exemplo: “Gastamos porque somos influenciados pela mídia.”
O segundo problema é a flexão de “melhor”. Na frase esse vocábulo não é adjetivo, e sim advérbio. Não se trata da percepção de “ser melhor” quando se compra (como em “A caridade nos faz pessoas melhores”), mesmo porque não haveria coerência nisso. Trata-se, isto sim, de “se sentir bem” ao gastar. Como o advérbio é invariável, não vai para o plural. Eis a frase corrigida: “Por que ao gastarmos nos sentimos melhor?”

 

MURAL
“A maior parte das guerras psicológicas é iniciada mais pelo que não se diz do que pelo que se diz. Não dizer as coisas a tempo é um importante fator de estresse no mundo tumultuado em que vivemos, pois possibilita interpretações equivocadas que acabam pesando contra nós. Nietzsche afirma que é melhor expressar nossos sentimentos do que ofender com o silêncio.”
(Allan Percy, em “Nietzsche para estressados”)


PALAVREANDO
Ao perdedor, as baratas.
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Hoje, ser mãe é cada vez mais perder a fibra.
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Pau d’água procura emprego em alambique.
Quer beber na fonte.
 

RS

Umberto Eco escreveu certa vez que não gosta de usar reticências. O motivo é que esse sinal de pontuação sugere arrogância. Ao anteceder uma palavra ou uma oração de reticências, parece que o escritor está dizendo: “Preparem-se, que eu vou dizer uma coisa espirituosa. Como vocês certamente não perceberão, estou preparando seus espíritos com esses três pontinhos...”.
Sempre me lembro das palavras de Eco quando me deparo com um rs em textos que recebo na internet. Na internet, sim, pois até agora só vi esse agrupamento de letras no espaço virtual. Como todo internauta sabe, sua função é informar que o autor está sorrindo.
Serão essas letrinhas necessárias? Seu objetivo é realçar ou induzir? Se o que o autor diz é mesmo engraçado, precisamos delas para captar o humor contido na mensagem? E se não é, elas por si conferem graça ao texto? Enfim, quem as usa desconfia da própria veia humorística ou supõe que ela existe e o leitor -- em sua tacanhice intelectual -- não a percebe?
O rs é uma espécie de pleonasmo. Destaca o que se depreende ou se deveria depreender da mensagem. Mas, vá lá, não é de todo inútil. Sua presença dá à conversa um ar franco e cúmplice. Lembra as rubricas de teatro, aquelas indicações entre parênteses por meio dos quais o autor instrui os atores sobre o tipo de emoção que devem imprimir a cada fala. Também nesse caso o recurso é inútil, pois um bom ator sabe, pelo que está no texto, se deve carregar as palavras de medo, ternura, raiva ou o que for. A diferença entre elas e o rs é que não aparecem no texto.
Como o que é moda tem força, vez por outra me pego usando essas letrinhas. Com elas me asseguro de que o leitor vai captar minhas intenções. Tenho-as achado tão úteis, que fico pensando se não deveríamos criar outras abreviaturas no mesmo estilo. Por que só destacar o riso? O homem é um animal que ri -- o único, segundo dizem -- mas que também se entendia, se disfarça, se encoleriza. Nem sempre deixamos transparecer esses estados negros da alma. Por que não enfatizá-los com os sinais devidos, para que o leitor perceba o que de fato se passa dentro de nós?
Além disso, um dos problemas de quem escreve é lidar com a ambiguidade das palavras. Às vezes o escritor produz várias versões para chegar ao que quer dizer, e nem assim consegue. As letrinhas concorreriam para contornar essa dificuldade por tornar inequívoca a mensagem.
Vamos adotá-las, então. Com o intuito de disseminar o novo hábito, apresento algumas abreviaturas possíveis: rv (raiva), dsp (desapontamento), mnt (mentira), inv (inveja), alv (alívio) e assim por diante. As letras poderiam duplicar, triplicar ou quadruplicar conforme a intensidade do sentimento que revelam. Para terem uma ideia, vejam como as frases abaixo ficam bem mais expressivas com elas:
- “Por que você não estava na porta do cinema às oito, conforme combinamos rvrvrvrv?”; - “Sua mãe vai mesmo viajar conosco? dsp”; - “Pessoas como você tornam o mundo melhor mnt”; - “Seu vestido é muito bonito, mas um pouco ousado inv”; - “Então você vai se mudar para outra cidade? Que pena! alvalv”.


DE OLHO NO VESTIBULAR
“O aumento do consumo mostra que o país sofre avanços”; “Para melhorar essa dificuldade, precisamos investir em educação”; “A dependência da tecnologia não traz imbróglios químicos como a das drogas”. (Redações de alunos)
As passagens acima têm em comum o uso inadequado de palavras. Um país não “sofre”, e sim “obtém”, “conquista”, “passa por” avanços. Semelhantemente, não se “melhora” uma dificuldade. Uma dificuldade se “contorna” ou “resolve”.
E desde quando “imbróglio” é sinônimo de problema? Derivada de “in + bloguiare” (falsificar), essa palavra significa “confusão”, “situação difícil”, “mal-entendido” (Houaiss). Nem sempre isso corresponde a um problema, no sentido pretendido pelo aluno.


OBRA ABERTA
O número 77 da revista Língua Portuguesa (Ed. Segmento), já nas bancas, traz na seção “Obra aberta” texto meu sobre “Os ratos”, de Dyonélio Machado. Intitulada “A poesia que denuncia”, a matéria comenta os recursos da linguagem poética que quebram a linearidade do discurso no famoso romance do autor. Convido o leitor a ler.


PALAVREANDO
- O que o músico faz em comum com o sapateiro?
- Sola.
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Fim de semana de rico é “uísque-end”.
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A felicidade não está no que se tem, mas no que se faz.
 

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