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Falou e Disse

O professor Chico Viana associa a variedade de temas própria da crônica com reflexões e comentários sobre a língua portuguesa.

Samba no escuro

Carnaval, ele com vontade de ir para a rua, e a mulher doente no quarto ao lado. Da sala ouvia a tosse -- curru, curru, curru... Era a noite em que sairia o bloco da sua turma. Podia ouvir ao longe o esquentar dos instrumentos e as vozes dos que se dirigiam à concentração. Daí a pouco passariam em frente à sua casa e gritariam, chamando-o. Assim faziam com quem não saía da toca para brincar. O combinado era convocar um por um. Diriam:
- Vamos, Nicanor! Tá na hora!
Não iria. A mulher tossindo no quarto, meio febril, o impediria de aderir à festa.
Levantou-se e foi de novo olhar Emilia. Ela abriu os olhos quando o viu e pareceu adivinhar-lhe o pensamento.
- Quer ir? Vá...
- Não vou deixar você sozinha.
- Não estou morrendo, ora -- disse com débil teimosia e teve um novo acesso de tosse. Curru, curru, curru...
“O diabo é essa tosse” -- ele pensou. Se pelo menos a doença fosse silenciosa! Seria mais fácil ignorá-la, fingir que estava tudo bem. Mas havia esses estampidos, que pareciam um alarme.
- Vá, homem. Eu sei que você quer brincar.
- Não. E pelo amor de Deus pare de tossir!
Nicanor voltou para a sala e ficou uns minutos sentado, ouvindo o barulho que vinha da concentração. O som de tamborins, pandeiros, cornetas tornava-se mais nítido. Intensificava-se o alarido, e dentro em pouco o grupo viria chamá-lo. Alguém diria: “Vem, rapaz. A noite é criança.” Criança? A noite era uma velha moribunda.
Emília parara de tossir. Devia se iludir com esse momentâneo silêncio? Não. A mulher tinha dito: “Pode ir... Vá.” Uma permissão que seria cobrada depois -- se não por ela, pela consciência dele. Tinha um dever.
De repente lhe deu vontade de ir ao quarto dos fundos e abrir o armário onde guardara a fantasia comprada meses antes. Nada excepcional: calça branca, paletó colorido e um chapéu também branco de malandro carioca. Sempre sonhara ser um. O que o atraía na figura do malandro era a lábia, o descompromisso, a jinga para contornar as dificuldades.
Começou a se vestir, devagarinho. Depois foi até o espelho e se olhou. Gostou do que viu. Nem parecia ele... Despertou ao ouvir o som do bloco, que havia chegado em frente à casa. Foi até à sala e espreitou pela janela semiaberta. Se o vissem, ele não poderia resistir. Mal conseguia distinguir as vozes abafadas pelo som dos instrumentos e, agora, pela tosse que recomeçou. Curru, curru, curru... Essa ele ouvia bem.
Antes que o grupo se afastasse, resolveu ensaiar uns passos. Sambou ali mesmo, no escuro da sala. Malandro que é malandro não perde a viagem. Ouvia o bloco se afastando e aos poucos mergulhando no clamor alegre da cidade. No quarto, a mulher continuava a tossir.


DE OLHO NO VESTIBULAR
“Antes da internet, como nossa comunicação era sobretudo oral, devíamos nos preocupar com nossa compostura e desenvoltura.” (Redação de aluno)
Nessa passagem há uma confusão entre “compostura” e “postura”. Esta última diz respeito à maneira de “manter o corpo ou compor os traços fisionômicos” (Houaiss). A preocupação com ela deve ser maior na comunicação oral, pois falando aos outros expomos nosso corpo e nossa fisionomia.
No entanto, não é privativo do intercurso oral o “cuidado com a educação, a sobriedade e o comedimento”. Tais características, que definem a compostura, são importantes tanto na fala (em que há presença física) quanto nos contatos virtuais da internet. O aluno dá a entender que os internautas são deselegantes.


TIRE SUA DUVIDA
Marisa L. quer saber se o correto é “Tratam-se (ou trata-se) de medidas que ainda serão aprovadas”.
O correto é “trata-se”; nesse caso o verbo é transitivo indireto e não admite que se apassive o sujeito; o objeto indireto “ações” não interfere na flexão verbal. Seria diferente se disséssemos: “Tratam-se medidas com rigor” (“Medidas são tratadas...”).


PALAVREANDO
Em terra de olho quem tem um cego... errei!

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- Pedrinho, que nota é esta no seu boletim?!!
- Calma, pai. É para um dia eu mostrar aos meus filhos que comecei do zero.

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A política é a arte de quebrar os ovos sem fazer a omelete.

Considerações heterodoxas sobre o sonho

Nunca desista dos seus sonhos, mesmo porque isso não iria adiantar. Está provado que precisamos sonhar para manter nosso equilíbrio psicológico e a paz em casa. Quem não sonha dorme mal e perde o senso de humor. Antes de Freud, a ciência tinha preconceito contra os sonhos; achava que eles eram apenas uma forma de a mente reagir aos estímulos recebidos durante o dia. O pai da psicanálise demonstrou que não era nada disso. Sonhamos para realizar desejos, mesmo (ou sobretudo) os inconfessáveis.
Há gente que volta a dormir para retomar um sonho interrompido por alguma razão. Sobretudo quando se trata de um sonho erótico. Um amigo meu passou por experiência parecida. Sonhou que estava em idílio com uma mulher belíssima (mistura de Gisele Bündchen e Juliana Paes), quando foi acordado pelos latidos do seu cão.
Depois de conseguir que ele se calasse ameaçando cortar-lhe a ração do dia seguinte, voltou a dormir com o pensamento voltado para a deusa do sonho. Adormeceu, porém... decepção. Sonhou que era abordado por um fiscal da vigilância sanitária. Depois compreendeu o porquê: no dia anterior tinha lido uma reportagem sobre a possível volta da dengue... O sonhos têm disso: trazem tanto o que se deseja, quanto o que se teme. É uma forma de prazer e de exorcismo.
Um fenômeno curioso apontado por Freud é a “distorção onírica”. Ela é que dá ao sonho aquele aspecto irracional que faz as mentes cartesianas desprezarem seu conteúdo. Mas aí é que está o engano: a distorção decorre da censura, o tal superego, que não lhe deixa em paz nem quando você está dormindo. É um censor que deforma as imagens oníricas e só permite que se reconheça em parte o objeto de desejo. Por exemplo: se você quer muito ser médico, pode sonhar com uma cobra. A explicação está em que a cobra (ou melhor, a serpente) é o animal que circunda o bastão de Esculápio, deus da Medicina segundo os gregos. Pode-se também interpretar esse vínculo como uma alusão a quanto hoje um bom médico... cobra.
O sonho não é uma simples lembrança, mas uma vivência. Na chamada “cena do sonho”, representamos um papel e sentimos emoções por vezes insuportáveis. Isso já levou um repórter a escrever, a propósito de um indivíduo que sucumbiu durante um pesadelo: “Ao despertar, viu que tinha morrido.”


DE OLHO NO VESTIBULAR
O vestibular não avalia o candidato apenas como produtor de texto. Avalia-o também como leitor. Um dos meios de fazer é verificar se ele foi capaz de atender à proposta temática. Não é justo tratar da mesma forma quem entendeu e quem não entendeu o tema, mesmo que essa incompreensão não impeça alguém de produzir um texto linguisticamente satisfatório. Diante disso, é preciso interpretar corretamente as instruções formuladas pela banca. “Sabendo interpretar o que lê, o estudante organiza as ideias e produz bom texto” (Lygia Fagundes Telles).
Além do tema, deve-se também observar com rigor o tipo textual (no Enem e na maioria dos vestibulares se pede a dissertação argumentativa) e o registro de linguagem (deve-se respeitar a norma culta).


SINAL FECHADO

“Ser original é ter caráter próprio, ser inédito, que não procura imitar nem seguir ninguém.” (De um ator, em entrevista numa publicação de variedades)
Ao definir na frase acima o que é ser original, o entrevistado desrespeitou o princípio do paralelismo sintático. Segundo esse princípio, palavras ou expressões coordenadas têm o mesmo valor e devem, portanto, ter a mesma forma.
As duas primeiras expressões que caracterizam “ser original” aparecem sob a forma de orações reduzidas de infinitivo (“ter caráter próprio”, “ser inédito”). A última delas, contudo, aparece em forma de oração desenvolvida (“que não procura”). Restabelecendo-se o paralelismo, a frase fica mais clara e elegante: “Ser original é ter caráter próprio, ser inédito, não procurar imitar nem seguir ninguém.”

 

PALAVREANDO
Mais calma, motoqueiros. Ninguém morre de Vespa.
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Tem político que, quando faz alguma coisa importante, corre para divulgar. De fato, isso é tão raro que justifica mesmo um outdoor.
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- Joãozinho, qual a primeira coisa que você faz ao acordar?
- Abro os olhos, professora.

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Os lutadores de UFC são todos farinha do mesmo soco.
 

Tragédia e autoajuda

Aristóteles foi um dos primeiros a destacar o poder curativo das palavras. Através delas, é possível liberar tensões mentais. O próprio processo de verbalização já constitui um alívio, pois muitas vezes sofremos por ignorar o que nos atormenta. Quando falamos ou escrevemos, atinamos com o motivo da angústia e percebemos que ele não é tão grave assim. Não justifica tanto sofrimento.
O filósofo grego apontou a função catártica do verbo. Segundo ele a “catarse”, termo que tomou emprestado à Medicina, decorre do temor e da comiseração que o espectador experimenta ao assistir a uma encenação trágica. É o “efeito moral da tragédia”.
Vendo o sofrimento de Édipo, que foi levado pelo destino a matar o pai, o indivíduo se horroriza e, ao mesmo tempo, tem piedade do rei tebano. Com isso, obtém um apaziguamento para seus próprios infortúnios. Cito a tragédia de Sófocles porque nela se representa um trauma universal. Édipo é “todo o mundo” -- segundo Freud luminosamente intuiu.
Da tragédia para o que se chama literatura de autoajuda, transcorreram vinte e poucos séculos. Se há alguma coisa de comum entre elas, é o apelo ao poder que as palavras têm de curar. No mais, distinguem-se tanto quanto um bom suco, feito com fruta natural, distingue-se de um refresco industrializado. Na tragédia há personagens que se defrontam com situações-limite e expõem o que há neles de divino e, sobretudo, demoníaco. Encurralados pela “falta” que cometeram, sabem que não lhes resta outra saída a não ser a morte ou a loucura.
Na autoajuda, fala-se do indivíduo comum, incapaz de outro heroísmo senão o de sobreviver numa sociedade violenta e desigual como a nossa. Aqui os temores são banais, cotidianos, ligados à expectativa de ser assaltado, adoecer, ficar pobre. Sobretudo ficar pobre e ser exilado do paraíso do consumo.
Segundo os fanáticos pelos livros de autoajuda, há neles sabedoria suficiente para garantir confiança nesta vida e esperança na outra. E ninguém precisa de mais do que isso para trabalhar em paz e ganhar o seu dinheiro, que é enfim o que conta.
No caso da tragédia, ministra-se uma espécie de sangria; no da auto-ajuda, um placebo. Para que perder tempo com grandes indagações sobre o sentido da existência e do homem? Para que cultivar dúvidas sobre a Universo e a natureza da verdade? Dúvidas não saldam dívidas, e todos devemos estar o mais possível com a cabeça fria para bolar estratégias que nos livrem do cheque especial, dos agiotas, das financeiras. Escolhe-se a tragédia ou a autoajuda de acordo com o que se pode suportar, vale dizer, enfrentar a verdade.
Há sempre um risco em falar sobre os livros de autoajuda; geralmente quem os critica não os lê. O problema é que quem os lê não os critica. Ficam então essas obras numa espécie de limbo, a depender do juízo às vezes ressentido dos intelectuais e da empolgação ingênua dos fanáticos. O fato é que são um fenômeno típico de uma época marcada pelo imediatismo, a simplificação, a notoriedade fabricada pela mídia.


TIRE SUA DÚVIDA
Marisa L. quer saber se o correto é “dar-se ao luxo” ou “dar-se o luxo”.
Cara Marisa, ambas as construções estão certas. Posso dizer “Pedro dá-se ao luxo (ou o luxo) de viajar à Europa três vezes por ano.”
No primeiro caso, o verbo “dar” é pronominal e tem um único complemento, que é o objeto indireto “ao luxo”. No segundo, ele é bitransitivo; “o luxo” funciona como objeto direto, e o “se”, como objeto indireto.
Ao contrário do que afirmam alguns, a escolha de uma ou outra construção não pertence a nenhum registro especial. Ocorre entre escritores e usuários comuns da língua.
Um abraço, e até a próxima.

 

PALAVREANDO
Com a vigilância do “politicamente correto”, é preciso evitar denominações que agridam as pessoas. Sugiro algumas alternativas:
feio - esteticamente mal configurado;
fofoqueiro - comentador da vida alheia;
barrigudo - provido de vasta amplitude abdominal;
baixinho - verticalmente reduzido;
bajulador: que faz elogios estratégicos;
“burro” - intelectualmente deficitário;
banguelo - desprovido do aparato necessário à mastigação;
cabeçudo - dotado de hipertrofia craniana.
 

Debate sem fim

A Associação Semiótica de Marambaia (Asma) convocou uma reunião para discutir o fenômeno “Luíza está no Canadá”. Perplexos com a disseminação desse “meme”, seus membros queriam entender o motivo pelo qual a frase alcançou tão grande repercussão. O primeiro a falar foi Umberto Oco:
-- Colegas, minha opinião é a de que esse é um fenômeno gratuito e aleatório. Assim como se disse “Luíza está no Canadá”, podia-se dizer “Joana está na Dinamarca”, ou algo semelhante. O efeito seria o mesmo.
-- Desculpe, amigo Oco, mas não concordo com a sua interpretação -- interrompeu Ferdinando Sussurro. Depois de breve pausa, continuou:
-- Não há nessa mensagem gratuidade. Pelo contrário: ela foi pensada e urdida com um objetivo muito claro. Ao redigi-la, o publicitário tinha em mente atingir determinada faixa de público. Veja: a função do comercial era vender um imóvel destinado a um tipo de consumidor endinheirado e presumivelmente vaidoso. Nada mais adequado, então, do que inserir o detalhe da viagem. Essa nota de esnobismo se identificaria com a mentalidade dos possíveis compradores.
-- Mas isso não explica o efeito que o comercial teve!
-- Aí é que está: o que era para ser um detalhe perceptível a alguns terminou chamando a atenção de todos. Curiosamente, os que popularizaram a frase foram os que a criticavam. Para usar uma imagem comum hoje -- acabaram “dando um tiro no pé”.
Sussurro calou-se, avaliando o efeito das suas palavras. Em seguida foi a vez de Segismundo Fraude, autoridade em psicolinguística:
-- Colegas, permitam-me discordar dos dois. Para mim, o apelo da frase é de outra natureza. Sua força vem de ela se dirigir ao nosso inconsciente, com essa referência a um país distante e um nome de mulher. Esses temas alimentaram grande parte da literatura romântica e ainda hoje despertam fantasias. Ao presentificar uma ausência, aparecem como indícios do “objeto perdido”...
Segismundo prolongou as reticências, como se quisesse que o auditório reproduzisse mentalmente o conteúdo da frase. Suas palavras provocaram rumor. As pessoas confabulavam e pareciam ver alguma lógica no que ele havia dito. Mas não deixavam de concordar com quem falou antes. O mais provável era que o sucesso do comercial não tivesse uma única razão.
O terceiro a se manifestar foi um desconhecido, por isso ninguém achava que fosse dizer grande coisa:
-- Admiro a argúcia dos colegas e acho que todos de algum modo estão certos. A frase repercutiu pelos motivos apontados, mas também pelo que eu chamo “a retumbância do irrelevante” -- um fenômeno muito comum hoje. A menção à pessoa ausente não tinha nada a ver (constitui semanticamente uma impertinência), mas por isso mesmo acabou repercutindo mais do que a própria mensagem. Ou melhor: acabou se transformando “na mensagem”.
Outros levantaram a mão. Pelo visto, o debate ia se prolongar noite adentro.

 

PARA REDIGIR BEM
Observa-se vez por outra a flexão de verbos defectivos nas pessoas que a gramática registra como inexistentes. Assim, não é difícil deparar-se com frases do tipo: “Imerjo numa piscina de águas cálidas” ou “Puno quem discordar de mim”. O uso contínuo dessas formas pode acabar nos acostumando com a dureza dos sons e tornando-as naturais. De qualquer modo, é preciso não abusar.


O XIS DA QUESTÃO
(Esaf) Mal” é substantivo ou advérbio, e se opõe a “bem”. “Mau” é adjetivo, e se opõe “bom”. Compare: “Quem faz o mal, mal sabe que é um indivíduo mau”. A frase não é muito sonora, concordo, mas ilustra bem a diferença entre os parônimos.
A Esaf explorou o emprego dessas duas palavras em prova para o concurso de auditor fiscal da Receita. Num dos itens propostos na questão 10, a Banca pede que o aluno julgue o emprego de “mau” na frase: “Não há nenhum mau na utilização do Caixa 2. Os recursos não contabilizados não são um mau, porque todos o utilizam”.
O emprego está errado nos dois casos. Em ambos ocorre substantivo, não adjetivo. Faça o teste com os termos opostos: “Não há nenhum bem...”; “Os recursos não contabilizados não são um bem...”


PALAVREANDO
Depois de certa idade, o melhor presente de aniversário que a gente ganha é estar presente.
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Bons tempos aqueles em que o comandante era o último a abandonar o navio.
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Toda culpa é desproporcional ao ato. O voyeur sempre expia mais do que espia.
 

Notas de Buenos Aires

Quando chega a Buenos Aires, o brasileiro fica eufórico ao trocar seus reais por pesos. O valor duplicado da nossa moeda o faz pensar que terá dinheiro para comer à farta e satisfazer alguns caprichos de consumo. O choque começa quando ele pede o primeiro cafezinho no aeroporto; podem lhe cobrar até 13 pesos, ou seja, cerca de seis reais e cinquenta centavos. Por menos da metade disso, toma no Brasil um expresso encorpado e acrescido dos mimos a que faz jus: biscoitos e um copinho de água mineral.
Nossa moeda tem mais valor do que a dos argentinos, mas eles acharam um jeito de compensar a defasagem aumentando o preço dos produtos. No fim das contas, sai uma coisa pela outra. O difícil é saber como suportam a inflação. Entendo muito pouco de economia, mas acho que a entrada dos reais (a cidade está cheia de brasileiros) os ajuda a fazer isso.
Mas deixemos de lado essas comezinhas questões econômicas (o importante é o espírito!) e falemos de outras coisas. A cidade é bonita mas bastante descuidada no centro, com prédios sujos e construções inacabadas. Como fiquei hospedado por ali, minha primeira impressão foi negativa. O que não estava maltratado pelo tempo sofrera a ação dos pichadores.
Para quem ia passar pouco tempo, uma das alternativas era aceitar as atrações oferecidas pelo pacote turístico. Foi o que fizemos, começando pelo tradicional City Tour. Tem gente que despreza esse tipo de passeio e prefere roteiros menos previsíveis. Não é o meu caso, e pelo menos desta vez não me arrependi. Um dos motivos foi o guia, um sujeito informado e espirituoso que me fez tomar o primeiro contato com o bom humor portenho. Eles têm muito da nossa autoironia, sabem rir de si mesmos. Durante o trajeto não foram poucas as piadas que ouvi sobre Maradona, a presidente (lá ninguém fica discutindo se deve ser “ente” ou “enta”) e a situação econômica do país.
Fizemos uma parada em La Boca, bairro famoso que dá nome ao time de futebol. Como fazia um sol muito forte, passei a usar um boné com a logomarca do Boca Juniors. Parece que fiquei marcado por isso. Em alguns lugares eu era alvo de risinhos, pilhérias, às vezes uma velada repreensão. O tom geral era de brincadeira, mas suficiente para mostrar como entre eles é forte a rivalidade no futebol. Ao saber que éramos brasileiros (e percebiam isso de imediato), vinham com a pergunta inevitável. “Pelé ou Maradona?” E também: “Messi ou Neimar?”
No fim do passeio pedimos para saltar em Puerto Madero, região de bons restaurantes. Escolhemos um para o almoço, e fui então apresentado (sem muito prazer) ao tal bife de chouriço -- famoso espécime da gastronomia argentina. Ele bem que faz jus ao nome. A carne, de um aspecto sangrento, é envolvida por largas fitas de gordura que provocam um arrepio em nossas artérias. Deixei os que estavam comigo provarem aquilo e preferi truta. Essa veio envolvida em muito óleo, mas pelo menos era branquinha e aparentemente virgem do mau colesterol. Comi sem remorso, contemplando o cais em frente e pensando que à noite haveria tango.


O XIS DA QUESTÃO
(Fundação Carlos Chagas) Em que alternativa se respeita a concordância verbal?
a) O olhar dos velhinhos que ficam horas nas janelas sempre expressaram seu interesse pelo mundo. b) Pouca coisa, em meio a tantas novidades da vida moderna, são capazes de deixar perplexas as crianças de hoje. c) Ninguém fica tanto tempo nas janelas das casas sem matutarem sobre o sentido do que vêem. d) Não importa o que sejam, se um cachorro ou o planeta Marte, qualquer imagem são capazes de atrair as atenções do nosso olhar. e) Suspeitamos sempre que as riquezas que nos oferece o mundo parecem exceder o limite da nossa compreensão
Resposta: e; “oferece” está no singular porque concorda com “o mundo”. O candidato precisava estar atento, pois o verbo vem antes do sujeito.

 

DE OLHO NA REDAÇÃO
A generalização é obstáculo a uma escrita eficiente. Dizer que “os jovens são viciados na internet” tem menos solidez de que afirmar que “grande parte dos jovens perde horas navegando na Rede”. A segunda afirmação é confirmável, enquanto que a primeira pode ser contestada com uma única ocorrência em contrário. Delimitar e concretizar é uma das condições para conferir ao texto força argumentativa.


PALAVREANDO
O homem comum vive de sonhos. O poeta, de lira.
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Só tem o direito de desrespeitar a gramática quem a conhece. Uma coisa é errar por ignorância; outra, por estilo.
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Tinha certeza de que era uma celebridade. Só faltava as pessoas descobrirem isso.
 

Bolsa Feiura

Li há alguns dias que estão pensando em criar o Bolsa Feiura. Segundo o idealizador do projeto, vivemos numa sociedade que valoriza muito a beleza, e os que não a têm competem em desigualdade de condições com os bonitos. Uma forma de reparar essa injustiça seria destinar aos feios determinada quantia para que eles pudessem de alguma forma reduzir os efeitos da sua condição. Com o dinheiro comprariam produtos de beleza, frequentariam clínicas estéticas ou mesmo, se fosse o caso, fariam cirurgia plástica.
Certamente isso vai gerar muitas críticas. Dirão que não tem sentido propor tal ajuda quando há no país milhares de indivíduos sem teto ou com fome. Esse argumento, contudo, é fácil de refutar. A feiura não é um problema social (a não ser, talvez, na China), mas entristece ou deprime muitas pessoas, o que indiretamente afeta o setor produtivo do país. Quem, sentindo-se por dentro “um lixo”, tem ânimo para fazer a contento o seu trabalho?
Essa história de “estar bem consigo” tem fundamento. Se o espelho não nos aprova, tendemos a ignorar os outros e pouco nos importamos com o mundo. Em alguma medida, Freud tem razão: o universo é projeção do ego. Tendemos a moldá-lo conforme nossa disposição interior.
Inclinamo-nos para o belo porque, segundo Stendhal, a beleza é uma promessa de felicidade; isso quer dizer que a feiura “promete” o oposto. Vinicius segue a mesma pisada ao afirmar, pedindo perdão às muito feias, que beleza é fundamental. Como veem, o Bolsa Feiura tem um sólido aval literário (a não ser por Quasímodo, que compensa a corcunda com a beleza interior -- mas quem liga para ela hoje?). O projeto, se aprovado, não mudará ninguém, mas constituirá um estipêndio consolador. Vai reparar um pouco o descuido (ou mesmo a imperícia) com que a natureza desenha certas fisionomias.
O problema de um projeto como esse em nosso país é que poucos resistem a dinheiro que vem do Estado. Seguindo a prática do jeitinho, a maioria vai bolar artifícios para parecer mais feia do que é e ter direito à cota. Talvez isso produza um decréscimo na nossa vaidade, levando à crise o setor de produtos estéticos. Haveria protestos, demissões -- e aí, sim, a coisa ficaria feia.

DE OLHO NO VESTIBULAR
Três defeitos comuns na redação dos vestibulandos:
- presença de expressões como “acho”, “penso”, “suponho” - Esses verbos devem ser evitados por dois motivos: não trazem nenhuma informação nova e indicam falta de firmeza na manifestação das ideias “Acho que o Brasil precisa de uma nova mentalidade política”. Corte o “Acho que”.
- repetição de palavras - Na maioria das vezes essas repetições se mostram inúteis, pois um dos termos nada acrescenta ao outro: “Ao analisar sua visita ao necrotério percebi que você possui uma veia sentimental e poética.” Suprima um dos adjetivos.
- uso de hipérboles - O exagero é por excelência um traço emocional. Compromete a objetividade do discurso: “A dependência da opinião dos outros é algo trágico que muda a forma de pensar.” Troque “trágico” por “nocivo”, “prejudicial”.


O QUE É
antimetábole - É a repetição invertida dos componentes de uma frase. Por meia dela se opõem dois conceitos e se opta por um deles: “É melhor perder um minuto na vida do que a vida num minuto”. Nesse exemplo, opõe-se precipitação a paciência.
A antimetábole comumente se associa a conteúdos sentenciosos, que expressam verdades gerais: “Onde os meninos comparem de doutores, os doutores não passarão de meninos” (Rui Barbosa). No exemplo seguinte, defende-se a moderação nos hábitos alimentares: “Deve-se comer para viver, e não viver para comer.” A eficiência da antimetábole está em que o jogo da inversão parece reforçar o conteúdo sentencioso. Às vezes a figura não se associa a uma sentença -- constitui apenas um jogo, como neste exemplo dado por Zélio dos Santos Jota: “Oto ama Ana e Ana ama Oto.”

PALAVREANDO
Essa ou ouvi enquanto caminhava na calçadinha da praia. Quase em frente ao Hotel Tambaú, conversavam dois sujeitos que faziam ponto abordando os turistas. Um deles falou:
- Turista merece respeito, mas tem que pagar pelo respeito que merece.
Eita cinismo bem-articulado!
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Comprou um cartão para a namorada e fez no verso um oferecimento em prosa.
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A coisa mais inútil é esperar o sono chegar. Quando ele chega, a gente já está dormindo.
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Quem corta as próprias asas não merece pena.
 

“Palavra por palavra”

O que não falta são livros ensinando a escrever. Não ensinam. Os melhores dão algumas boas dicas e têm a honestidade de mandar o leitor fechá-los e praticar. Assim como samba não se aprende na escola, a escrita não se aprende em guias de redação. Isso não quer dizer que não sejam úteis. Uma das vantagens deles é trazer depoimentos de escritores e mostrar como os problemas de quem se propõe a escrever são comuns a todos, o que serve de estímulo aos iniciantes.
Li muitos desses livros e confesso que poucos me impressionaram tanto como “Palavra por palavra”, de Anne Lamott (Sextante). Adquiri-o meio por acaso, numa pequena livraria do aeroporto de Guarulhos antes de um voo para João Pessoa. Eu estava na sala de espera quando percebi que terminaria “O espião que saiu do frio” antes do fim da viagem. Não teria mais com que distrair minha fobia de voar. Explico: quando viajo de avião, a leitura é meu Rivotril (outros diriam “meu Lexotan”, ou “meu terço”); absorvo-me nela da decolagem ao pouso.
Vendo que não teria o que ler, corri ao quiosque mais próximo (já se fazia fila no portão de embarque) e comprei o primeiro livro com que me deparei. Era o de Anne Lamott. A obra me conquistou desde a introdução densa e divertida, em que ela mistura lembranças da infância com impressões de suas primeiras leituras. Destaca a influência que recebeu do pai, também escritor e morto precocemente de câncer. Refere a sua ligação com outros escritores e o desejo de, por meio da literatura, transcender os limites do ambiente provinciano em que foi criada.
A obra tem como subtítulo ”Instruções sobre escrever e viver”. Nada mais exato, pois a autora aborda sobretudo a dimensão existencial da escrita. Questiona o sentido e o valor que ela tem, buscando destruir mitos como o de que a publicação é a grande meta do escritor e pode lhe trazer dinheiro e glória. “Se o que você tem em mente é fama e fortuna, já vou avisando que a publicação o levará à loucura”, adverte. Mais importante do que publicar é fazer da escrita fonte de autoconhecimento e um meio de investigar (e revelar aos outros) nossa humanidade. “O objetivo da maior parte dos bons textos parece ser revelar, sob uma luz ética, quem somos”.
Para Lamott o escritor tem que dizer a verdade, deixar emergir o inconsciente, a emoção, e se comprometer moralmente com aquilo em que acredita. Isso não quer dizer que ele deva “edificar” os leitores. “Uma posição moral não é uma mensagem, e sim uma preocupação passional dentro de você”, explica. O móvel dessa paixão é o desejo de iluminar as zonas sombrias que existem dentro de nós. “Quando as pessoas iluminam um pouco o próprio monstro, descobrem como ele se parece com o dos outros”; cabe ao escritor ao escritor revelar esses desvãos que nos amedrontam e angustiam. O fato de saber que eles são comuns a todos nos traz algum alívio.
“Palavra por palavra” é um desses livros indispensáveis para os que pretendem escrever. Encoraja a que se persista nesse propósito com intensidade e doação -- “por causa do espírito”. “A escrita e a leitura reduzem nossa sensação de isolamento. Aprofundam, alargam e expandem nossa noção da vida: alimentam a alma”.


DE OLHO NA VESTIBULAR

Além da falta de coerência desse projeto na questão do Estado interferir na forma de educar, ele não esclarece quais serão os critérios usados para associar a punição ao nível de gravidade das palavras. (Redação de aluno)
As ideias do período acima estão mal articuladas. Falta ao texto coesão e clareza. A razão disso é que o termo “o projeto” (sobre a interferência do estado na educação dos filhos) não se correlaciona com o pronome “ele”. Isso determina uma quebra na estrutura. O correto é, desde o início, apresentar “o projeto” como sujeito. Por exemplo:
“Além de o projeto ser incoerente, por permitir que o Estado interfira na educação dos filhos, ele não esclarece quais os critérios para associar a punição ao nível de gravidade das palavras.”


TIRE SUA DÚVIDA

E-mail de Luciana F.: “Professor, está correta a frase ‘Ele mau tem tempo para conversar com os filhos?”
Está não, Luciana. “Mau” é adjetivo e modifica substantivo; opõe-se a “bom”. Por exemplo: “Fizeram um mau juízo do professor”. Como “ter” é verbo, a palavra que o modifica deve ser uma advérbio. No caso, “mal”.


PALAVREANDO
Curta, a vida. Então, curta a vida.
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No Facebook, há amigos deleitáveis e amigos deletáveis.
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Tem gente que vai passar o ano como passou o réveillon: em branco.
 

Os temas de redação da UFPB

A prova da UFPB apresentou dois temas O primeiro teve como suporte um fragmento de “O pagador de promessas”. Nesse fragmento, o padre Olavo procura demover Zé do Burro de levar a cruz ao interior da Igreja para agradecer o restabelecimento do burro Nicolau. Com isso, revela-se incapaz de compreender a concepção de religiosidade do interiorano. A dimensão ética da promessa, que impunha o cumprimento da palavra dada, constituía o tema propriamente dito. O aluno deveria desenvolvê-lo sob a forma de um texto de opinião com o mínimo de 12 e o máximo de 15 linhas.
O texto de opinião se caracteriza pela apresentação de um ponto de vista e de argumentos que visam sustentá-lo. O estudante não era obrigado a se limitar ao embate entre o padre e Zé; poderia (e mesmo deveria) ampliá-lo com a referência a outros domínios das relações sociais em que se exige cumprir o prometido.
O texto deveria se estruturar como um pequeno artigo, com título, desenvolvimento e conclusão. O título é fundamental em textos desse tipo, pois constitui uma prévia do posicionamento do autor. Além disso, mostra que o estudante tem poder de síntese e uma visão global do que desenvolveu. Às vezes constitui uma particularidade que, de modo original, reforça o ponto de vista. É pena que a banca não tenha reservado espaço para ele. O aluno poderia suprir essa lacuna apresentando-o na primeira linha e logo na seguinte iniciando a introdução.
O segundo tema parte de uma charge com dois quadros. No primeiro, uma criança pede ao pai que leia um conto de fadas para ela e o irmão dormirem. No segundo, o pai lê um trecho da Constituição segundo o qual “todo brasileiro tem direito a moradia”. O detalhe irônico, revelado também no segundo quadro, é que eles moram embaixo de uma ponte.
A banca solicitava novamente um texto opinativo, sob a forma de um comentário (entre 8 e 10 linhas). Sem dúvida, esse tema trouxe mais dificuldade para os candidatos devido à sua abrangência; em poucas linhas eles deveriam bordar “a questão da moradia no Brasil” -- um assunto que tem implicações políticas, regionais, demográficas!
Como se tratava de um “comentário”, o texto poderia dispensar o título (mas quem intitulou não vai perder nada com isso). O aluno deveria escrevê-lo em um ou, de preferência, em dois parágrafos. O motivo disso é que um parágrafo com tal número de linhas fatalmente apresenta mais de um “tópico frasal” -- e o tópico, como se sabe, é que lhe confere unidade.
A exemplo do que aconteceu no ano passado, a banca apresentou como suportes para os respectivos temas um texto verbal e outro misto (com gráfico, charge). Ou seja: procurou avaliar no aluno a capacidade de ler e inter-relacionar diferentes códigos. Esse foi um ponto positivo. O negativo é que a opção por dois textos curtos tende a propiciar redações pontuais, de pouco fôlego, insuficientes do ponto de vista argumentativo. Temas como ética, moradia ou trabalho infantil detêm uma complexidade que demanda maior espaço para serem suficientemente desenvolvidos.


DE OLHO NO VESTIBULAR
“Pais e mães que sempre sonharam com o que há de melhor para os filhos caem num abismo psicológico ao se depararem com os jovens no caminho das drogas.” (Redação de um aluno)
No intuito de parecer profundo, o estudante por vezes compromete o rigor semântico. Usa termos pomposos, que sacrificam a clareza da informação.
É o que ocorre na passagem acima com “cair num abismo psicológico”. O que vem a vem a ser isso? Trata-se de um conceito impreciso, exagerado, que obscurece o sentido. Dá a entender que o aluno não sabe bem do que está falando. Por que não dizer, simplesmente, que os pais “se frustram”, “se angustiam”, “caem em desalento”?
O tal do “abismo”, com sua incontornável amplidão, terminou arruinando a frase.


PALAVREANDO
Seja como for para você 2012, de uma coisa pode estar certo: ele vai lhe tirar um ano de vida.

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- A melhor forma de lembrar os compromissos é anotar tudo num papel. Por que você não faz isso?
- Eu faço... O problema é que sempre esqueço onde guardei o papel.

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Quem tem boca deve cuidar do aroma.
MURAL
“O perfeccionismo é uma forma malvada e fria de idealismo.”
Anne Lamott, em “Palavra por palavra”
 

Natal e presentes

Suponhamos que se faça uma pesquisa para saber qual o personagem mais importante do presépio. A maioria, claro, dirá que é o Menino Jesus. A festa natalina justifica-se por Ele. Sua vinda ao mundo, marcada por sacrifícios e exemplos, significou para o homem a Salvação.
Outros vão dizer que é a Virgem Maria. Não tanto pelo que faz ali, envolvendo o Menino com o desvelo materno, mas pelo sofrimento que a aguarda. Ver o filho ser morto com tanta crueldade, aninhar o cadáver no colo, conduzi-lo ao sepulcro -- haverá tormento maior do que esse para uma mãe?
Também não faltará quem aponte José, que sofreu calado as suspeitas de infidelidade da esposa. Não deve ter sido fácil para o carpinteiro saber que a mulher estava grávida e aceitar que essa gravidez não se dera pela via da carne, mas por intercessão do Espírito Santo. Sabemos por nossa cultura machista o que isso significa. Mas o compassivo homem, lutando contra as evidências, acreditou na virgindade de Maria e lhe deu o amor de que ela precisava para realizar sua missão
Haverá também quem ache mais importantes os Reis Magos. Não estranhe o leitor essa escolha; ela atualmente é a que melhor se sintoniza com o espírito do Natal. Os Magos inauguraram o gesto que hoje simboliza a Festa -- dar presentes. O ato de levar ouro, incenso e mirra foi o precursor das levas de gente que invadem os shoppings em busca de comidas, roupas, cosméticos.
Longe de mim criticar os que presenteiam ou os que são alvo de nosso pendor para presentear. O problema é o exagero com que nos cobram isso. Um exagero que não disfarça, por trás da cortina de generosidade, a regência ávida e insaciável do mercado.
O resultado é que acabamos em alguma medida nos falsificando. Para não destoar dos outros presenteamos indiscriminadamente, a torto e a direito, sem que muitas vezes nosso coração eleja os destinatários. O difícil nesse jogo é saber o quanto há de sinceridade e o quanto há de pose. Qual a distância entre intenção e convenção.
No fim da maratona, que envolve intermináveis horas entre prateleiras e caixas registradoras, nossa alma sofre uma espécie de cansaço aquisitivo. Já não sabemos o que demos, nem a quem. E fica difícil distinguir nessa profusão de coisas os traços do verdadeiro afeto.


DE OLHO NO VESTIBULAR

“A parceria entre a família e a escola repercute em uma boa educação para os jovens.” (Da redação de um aluno)
Há na passagem acima uma inadequação semântica. “Repercutir”, verbo transitivo direto ou intransitivo, significa “refletir”, “causar impressão”. Exemplos: “A sala repercute o som dos cristais”, “A resolução do diretor repercutiu bem entre os alunos”.
O autor pretendia dizer, na verdade, que a parceria entre a família e a escola redunda numa boa educação. “Redundar”, que significa “resultar”, “ter como efeito”, é o que melhor se ajusta ao contexto. Eis a frase correta: “A parceria entre a família e a escola redunda em uma boa educação para os jovens.”


O QUE É

lheísmo - É o uso da forma “lhe” como objeto direto ( “Eu lhe vejo no cinema amanhã” em vez de “Eu o vejo...”). O lheísmo só ocorre na segunda pessoa indireta, que corresponde a “você”. Ele não acontece quando o objeto representa a pessoa de quem se fala. Neste caso, usa-se mesmo a forma o (a,os,as): “Aquele amigo, nunca mais o vi” (e não “lhe vi”).
O uso do “lhe” no lugar do “o” não deve ser corrigido em discursos informais, pois indica intimidade com o interlocutor e caracteriza um tipo de registro. Tanto que as formas “o, as, os, as” tendem a aparecer, mesmo na segunda pessoa indireta, quando em vez de proximidade quer-se indicar distância. Por exemplo: “Faça o favor de me respeitar. Não o conheço” (em vez de “Não lhe conheço”).


PALAVREANDO
- Mestre, minha vida está por um fio... Que faço?
- Fique ligado!
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O mundo surgiu por acaso, mas isso certamente tem uma explicação.
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Envelhecer é saber enfim caminhar e não ter mais pernas.
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Os membros do casal têm que se preservar como indivíduos. Se os dois são um, é porque cada qual só existe pela metade.
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Conhece-se o homem por aquilo que o sacia.
 

Refazer é preciso

Nosso método de ensino utiliza a refeitura como um dos principais instrumentos para o aprendizado da redação. A inspiração para isso vem dos escritores, que reescrevem continuamente. O objetivo é desenvolver o senso crítico a partir da percepção do que no texto “não funciona”. O que o impede de funcionar, além de pouca leitura, são basicamente os problemas semânticos e estruturais. A gramática concorre, é claro, mas só na medida em que interfere na coesão e na coerência.
Recentemente apliquei em classe um questionário de avaliação do curso. Uma das perguntas era: “Você considera os exercícios de refeitura: dispensáveis; úteis, mas não essenciais; essenciais.” 98% responderam “essenciais”. Ou seja, a turma sentiu que reconhecer e corrigir os erros leva ao domínio da linguagem e, consequentemente, à maior eficiência na produção textual.
Uma das vantagens de refazer o texto é que isso faz o estudante se deparar concretamente com os problemas linguísticos e o obriga a resolvê-los. A reelaboração das estruturas incorretas conduz ao aprendizado. Com o tempo, o aluno acaba fixando um padrão de escrita que contempla tanto o aspecto gramatical quando o expressivo.
Nem todos têm disposição para reescrever. Aos que resistem, por preguiça ou descrença, apresento um argumento simples: quem não reconhece as falhas linguísticas -- suas e dos outros -- jamais poderá evitá-las. Alguns com o tempo se convencem disso e passam a temer menos os erros, pois sabem que eles são um ponto de partida para o acerto. Daniel Cassany destaca reação semelhante entre seus alunos: “... (eles) percebem a inoperância do binômo ‘certo/errado’ ou ‘bom/mau’. Todo texto pode ser aperfeiçoado e não se deve encarar os erros como fatos consumados.” (“Oficina de textos”, Artmed, p. 100)
A refeitura em sala de aula visa mais à correção do que ao estilo (no sentido literário). Não se está, afinal de contas, lidando com escritores e sim com uma clientela que deseja tão-só aperfeiçoar sua capacidade redacional. Isso ajuda a impor limites no que diz respeito ao trabalho com a forma; o que se persegue é sobretudo a clareza, a transparência de sentido. Chega-se até a desencorajar o uso de artifícios como as figuras de linguagem, que são sempre uma armadilha para os inexperientes. E às vezes para os experientes.
Em “O escritor e seus fantasmas” (Francisco Alves), Ernesto Sabato lamenta a tentação que Flaubert tinha pela forma exata, à qual por vezes sacrificava a naturalidade da expressão: “Agradaria mais (...) um estilo que desse a impressão de respirar como um ser vivente, com essa liberdade que tinha Flaubert quando não se policiava, quando esquecia sua coroa de flores de laranjeira...” (p. 134-5).
Cassany afirma que escrever “é como atirar pedras -- a gente não sabe com certeza os efeitos que causará quando a pedra sair da mão.” (obra citada, p. 91). A refeitura ajuda a conhecer melhor a trajetória que a pedra vai percorrer, evitando-se o risco de que ela caia na cabeça de quem a jogou.


DE OLHO NO VESTIBULAR
“As vítimas de bullying têm transtornos psicológicos, como exemplo do que aconteceu com o Wellington Menezes de Oliveira, que num acesso de loucura matou vários adolescentes.” (Redação de aluno)
É comum a confusão entre “como exemplo de” e “a exemplo de”. A primeira locução serve para introduzir um elemento ilustrativo: “Como exemplo de preocupação com o futuro, destaca-se o interesse pela ecologia.” A segunda tem valor conformativo e significa “conforme o exemplo dado por”: “Hoje muitos se mobilizam contra a corrupção, a exemplo dos jovens que protestam na internet”. Eis a frase corrigida:
“As vítimas de bullying têm transtornos psicológicos, a exemplo de Wellington Menezes de Oliveira, que num acesso de loucura matou vários adolescentes.”


DICA DE REDAÇÃO
O infinitivo substantivado é mais dinâmico do que o substantivo que designa a ação. Guimarães Rosa tira proveito disso ao afirmar que “Viver é perigoso”. O efeito seria bem menor se ele tivesse escrito, de forma genérica e um tanto apática, “A vida é perigosa”. Detalhes como esses devem ser ressaltados em classe, para que o aluno perceba as possibilidades expressivas das mudanças de classe morfológica.


PALAVREANDO
Que os outros aprendam com seus erros. Eu prefiro aprender com meus acertos.
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Em briga de marido e mulher, vez por outra um dos dois mete a faca.
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Quando a maré baixa, o vento perde o emprego. Não há vagas.
 

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