Debate sem fim
A Associação Semiótica de Marambaia (Asma) convocou uma reunião para discutir o fenômeno “Luíza está no Canadá”. Perplexos com a disseminação desse “meme”, seus membros queriam entender o motivo pelo qual a frase alcançou tão grande repercussão. O primeiro a falar foi Umberto Oco:
-- Colegas, minha opinião é a de que esse é um fenômeno gratuito e aleatório. Assim como se disse “Luíza está no Canadá”, podia-se dizer “Joana está na Dinamarca”, ou algo semelhante. O efeito seria o mesmo.
-- Desculpe, amigo Oco, mas não concordo com a sua interpretação -- interrompeu Ferdinando Sussurro. Depois de breve pausa, continuou:
-- Não há nessa mensagem gratuidade. Pelo contrário: ela foi pensada e urdida com um objetivo muito claro. Ao redigi-la, o publicitário tinha em mente atingir determinada faixa de público. Veja: a função do comercial era vender um imóvel destinado a um tipo de consumidor endinheirado e presumivelmente vaidoso. Nada mais adequado, então, do que inserir o detalhe da viagem. Essa nota de esnobismo se identificaria com a mentalidade dos possíveis compradores.
-- Mas isso não explica o efeito que o comercial teve!
-- Aí é que está: o que era para ser um detalhe perceptível a alguns terminou chamando a atenção de todos. Curiosamente, os que popularizaram a frase foram os que a criticavam. Para usar uma imagem comum hoje -- acabaram “dando um tiro no pé”.
Sussurro calou-se, avaliando o efeito das suas palavras. Em seguida foi a vez de Segismundo Fraude, autoridade em psicolinguística:
-- Colegas, permitam-me discordar dos dois. Para mim, o apelo da frase é de outra natureza. Sua força vem de ela se dirigir ao nosso inconsciente, com essa referência a um país distante e um nome de mulher. Esses temas alimentaram grande parte da literatura romântica e ainda hoje despertam fantasias. Ao presentificar uma ausência, aparecem como indícios do “objeto perdido”...
Segismundo prolongou as reticências, como se quisesse que o auditório reproduzisse mentalmente o conteúdo da frase. Suas palavras provocaram rumor. As pessoas confabulavam e pareciam ver alguma lógica no que ele havia dito. Mas não deixavam de concordar com quem falou antes. O mais provável era que o sucesso do comercial não tivesse uma única razão.
O terceiro a se manifestar foi um desconhecido, por isso ninguém achava que fosse dizer grande coisa:
-- Admiro a argúcia dos colegas e acho que todos de algum modo estão certos. A frase repercutiu pelos motivos apontados, mas também pelo que eu chamo “a retumbância do irrelevante” -- um fenômeno muito comum hoje. A menção à pessoa ausente não tinha nada a ver (constitui semanticamente uma impertinência), mas por isso mesmo acabou repercutindo mais do que a própria mensagem. Ou melhor: acabou se transformando “na mensagem”.
Outros levantaram a mão. Pelo visto, o debate ia se prolongar noite adentro.
PARA REDIGIR BEM
Observa-se vez por outra a flexão de verbos defectivos nas pessoas que a gramática registra como inexistentes. Assim, não é difícil deparar-se com frases do tipo: “Imerjo numa piscina de águas cálidas” ou “Puno quem discordar de mim”. O uso contínuo dessas formas pode acabar nos acostumando com a dureza dos sons e tornando-as naturais. De qualquer modo, é preciso não abusar.
O XIS DA QUESTÃO
(Esaf) Mal” é substantivo ou advérbio, e se opõe a “bem”. “Mau” é adjetivo, e se opõe “bom”. Compare: “Quem faz o mal, mal sabe que é um indivíduo mau”. A frase não é muito sonora, concordo, mas ilustra bem a diferença entre os parônimos.
A Esaf explorou o emprego dessas duas palavras em prova para o concurso de auditor fiscal da Receita. Num dos itens propostos na questão 10, a Banca pede que o aluno julgue o emprego de “mau” na frase: “Não há nenhum mau na utilização do Caixa 2. Os recursos não contabilizados não são um mau, porque todos o utilizam”.
O emprego está errado nos dois casos. Em ambos ocorre substantivo, não adjetivo. Faça o teste com os termos opostos: “Não há nenhum bem...”; “Os recursos não contabilizados não são um bem...”
PALAVREANDO
Depois de certa idade, o melhor presente de aniversário que a gente ganha é estar presente.
****
Bons tempos aqueles em que o comandante era o último a abandonar o navio.
****
Toda culpa é desproporcional ao ato. O voyeur sempre expia mais do que espia.
