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Gonzaga Rodrigues

Espaço que revela, através de crônicas, acontecimentos do cotidiano do povo nordestino com um misto de política e literatura.

A estrada de Dahia

Se a carga se destinasse a Cabedelo, não havia alternativa: tinha de subir a ladeira de Oitizeiro, seguir por Cruz das Armas, pela Vasco da Gama, João Machado até alcançar a Epitácio e dobrar à esquerda para o seu destino. No tempo do doutor Rui Carneiro, essa entrada apertada oferecia-lhe a vantagem de poder parar na capelinha de Santo Antônio, dobrar o joelho, benzer-se e ficar vacinado para a próxima ou futura eleição. Era um homem de muita fé, senador 26 anos seguidos sem uma nódoa mais forte no terno branco além da de grande provedor de empregos federais. Também uma forma de levar a Paraíba mais longe.
Mas voltemos ao caminho inicial, de ruas estreitas, cheias de calombos e curvas fechadas, entravando o tráfego e o crescimento da cidade.
Vem o governo de João num momento em que a abertura de estradas era estratégica para o progresso e, sobretudo, para a segurança militar. Udenista, bem aceito no regime, tirou partido do seu prestígio em favor de um grande programa de infra-estrutura de estrada, energia e abastecimento d’água para o seu estado. Fez a estrada central, sonho de quatrocentos anos, que as administrações posteriores só vieram complementar. Um gigante, esse João, enterrado numa encruzilhada de caminhos desertos no longe sertão.
BR-230, Anel do Brejo, o estrondo da Patrol e a nuvem grossa e parda de poeira removendo a letargia da velha Paraíba, faltava intervir em João Pessoa. Manuelito Vilar e Guarany Viana já andavam dando baixa nos velhos chafarizes do abastecimento d’água inaugurado em 10, por João Machado e agora trocados por novo e volumoso sistema. “Vamos botar um rio em sua casa” - era o Marés. E botaram.
Restava abrir o caminho largo, a estrada-avenida que colocasse a Paraíba em afinidade com o tráfego dos grandes centros comerciais e industriais. Que o motorista de São Paulo não visse nem sentisse diferença saindo de São Bernardo ou entrando em Cabedelo.
João mandou chamar o homem do DNER, que também era um homem magro, de fala mansa e pausada, com um certo jeitão de Durango Kid. Conseguira a inclusão do contorno de João Pessoa no orçamento federal. Empenharam-se os dois, João e o engenheiro Dahia, por um traçado que, além de servir ao trânsito, fomentasse a cidade. Sufocada entre o rio e o mar, João Pessoa estava sendo convocada para subir a barreira do Buraquinho, fazer vênia ao campus da Universidade e se estender a toda a área de roças, granjas e vacarias das encostas ao sul. Vi nascer na prancha de Dahia o quebra-cabeça que resultou no girador que para mim é sempre novo, há quarenta anos passando por ele.
Mas esta cidade que ele ajudou e adotou (baiano que era) trouxe-nos o inconveniente da distância. Só ontem vim saber que ela tinha aumentado, entre nós, de forma irremissível, separando-nos para sempre. Simples, discreto, tão simples e discreto que a cidade e o Estado jamais sentirão o peso do quanto lhe devem.
 

Carlos Fuentes

Morreu do coração, num hotel da cidade do México, o escritor que mais aproximou os latino-americanos de si mesmos, Carlos Fuentes, o segundo a abrir caminho para as minhas leituras de vizinhança universal. Segundo porque antes dele, no final dos anos 50, Jorge Amado, com “os romances do povo”, abriu-me o livro de Jacques Roumain, Donos do Orvalho, outro narrador gigante da saga marginal dos cortadores de cana e de outros suplícios do nosso subdesenvolvimento. Em Jacques Romain era Manuel, aqui, pisando “a face hirsuta da terra, a erva má”, era João Pedro. Nomes do mesmo batismo popular.
Mais aproximou o continente porque vieram com ele, no mesmo “boom” romanesco, Juan Rulfo, Garcia Márquez, Cortázar, Lhosa, Carpentier, Onetti, Roa Bastos e o próprio Borges em sua ilha grega. Talvez não fosse o mais empolgante, superlativo que, falando por mim, aplicaria sem dúvida a Garcia Márquez com os seus coronéis fantásticos e o seu galope estilístico. Fuentes parece ter receado fugir excessivamente da crua realidade mexicana. Realidade tóxica, migrada das contradições sociais, dos extremos desníveis de ganho e de vida, até mesmo de vizinhança, para o delírio ressacado das drogas formando, hoje, um dos maiores exércitos de narco-tráficos do mundo. (Coitadinho do México – é Neruda – tão longe do céu, tão perto dos Estados Unidos).
Fuentes não se homiziou na ficção. Artífice da renovação conduzida pelo realismo mágico, não se isentou da participação ativa e forte na vida política do seu país. Não era um extremado ideológico, mas um extremado e ardoroso cidadão mexicano.
Pouco antes de morrer havia afirmado, numa crônica: “Me preocupa e impacienta que estes grandes temas da atualidade estejam fora dos debates dos candidatos à presidência do México, dedicados a encontrar, uns nos outros, os seus defeitos, e deixando de lado a agenda do futuro”. Lá, como aqui, as coisas da política não parecem muito diferentes. O que difere mesmo é a paisagem física, a cobertura vegetal dos Andes lá deles e a da nossa semiárida Borborema.
Nunca pude, ou melhor, nunca tomei a decisão de conferir a “Terra nossa” que a literatura e a tela me têm oferecido desde os anos 60, desde a aparição estonteante de Cuba viva, da América metafórica, mágica e dramaticamente real espalhada na nossa memória, na nossa consciência, por seus redescobridores ou recriadores. Morreu do coração.

Paraíba cultural

Chico Pereira teve a noite que o seu livro bem merece. Noite alta em presenças destacadas do meio cultural e do seu círculo de amigos. Noite de artistas, atores, agentes culturais, parceiros universitários, admiradores e simpatizantes conquistados ao longo de sua atuação versátil de artista, museólogo e professor. Ficou pequeno o mezanino de recepções da Estação Cabo Branco. Sobretudo pela vozearia, abafando as palavras do apresentador Hildeberto Barbosa. Noite que me trouxe Breno Matos, o rosto e o mesmo boné com que nos demos boa-noite há quarenta anos numa saída do trabalho a caminho de Jaguaribe. Está até mais moço, o olhar regressando ao das antigas surpresas do artista e idealista em formação.
O livro de Chico Pereira é um vasto e belíssimo painel dos feitos e marcos culturais da Paraíba. Das instituições, dos seus personagens, das artes populares às mais doutas e eruditas. Da Pedra do Ingá aos cavalos marinhos da escultura armorial com que Miguel dos Santos interferiu na Lagoa em honra das artes e proezas de Ariano e de seus escudeiros mitológicos. Da estátua clássica à configuração de ferros sucateados que a arte fez o povo batizar de Porteiro do Inferno.
Faltava esse entesouramento, bom de ler, melhor de ver.
É a única riqueza durável que a Paraíba vem colhendo com sobra e em potencial. Colhendo quase sem plantar. Da arte espontânea de um Inácio da Catingueira à arte angustiadamente elaborada de um Augusto dos Anjos. Psicogenética de alta luta, forjada no estudo insaciável, fatigante, febril, sempre em busca da comoção expressiva, amálgama do rico saber de estudos e percepções do mundo sensível e da idéia ou sentimento insurgentes que encontram no verso a plena realização poética. Mas esta é uma abordagem especialíssima que só outro poeta de gênio poderá fazer. A psicogenia do EU, uma poesia de vocábulos anti-poéticos que esmurra emocionalmente um Drumond. Que espanta e comove. Que arrasa, que inquieta a crítica mais aguda. Arte de sobra a paraibana, falei lá atrás. Pois se dá ao luxo criminoso, ferindo frontalmente o patrimônio público, de transformar em lixo uma arquitetura de linhas modernas, moderníssimas, como a do edifício do Ipase, degradado às barbas de todos os poderes que andam atrás de verba para novas sedes, gabinetes e acessos sofisticados.

Equívocos

Coloco-me entre os que veem nos 100 anos do EU, de Augusto dos Anjos, um triunfo geral da inteligência paraibana. Não somente de intelectuais, como de todos que o escolheram paraibano do século, convocados pela TV Cabo Branco.
O Menino de engenho de Zé Lins chegou à 50ª edição no ano passado, repetindo a roupagem gráfica da original. É outra glória da Paraíba literária a que vem juntar-se A Bagaceira e a seqüência de edições e encenações do Auto da Compadecida.
O esplendor do EU mais nos engrandece e comove pelo calvário que o poeta amargou para abrir seu livro, a poesia de tudo quanto é morto, num meio em que julgara ser bem compreendida. Esse meio, o Rio, estava na Colombo batendo as taças vitoriosas da poesia perfumada, do “verso de ouro”, onde se “engasta a rima como um rubim”. À margem desse fulgor de cristais, penava também outro desventurado do meio, o negro Lima Barreto, correndo atrás de quem editasse as Recordações do escrivão Isaias Caminha, marco tardiamente reconhecido do romance social brasileiro.
Essa grandeza espiritual, auspiciosamente visível e sensível na admiração de cada gaúcho ou acreano que sobra da visita ao barroco de São Francisco e entra no modesto memorial da nossa Academia, não tem sua correspondência na paisagem heróica ou monumental da cidade que dividiu com o engenho Pau d’Arco o cenário conceptivo da poesia do EU . A estátua que lhe erguemos no 34º aniversário de sua morte, em 1948, não é estátua à altura do seu gênio, mesmo entalhada pela fiel maestria de Umberto Cozzo. Tudo o que o governo do jurista Oswaldo Trigueiro pôde fazer pelo busto de Augusto, encoberto e perdido hoje entre galhos e barracos no estacionamentos da Lagoa, foi a alvenaria do pequeno pedestal atraído por um tamarindo crescido ao acaso. A escultura terminou só chegando a seu destino por doação do autor, que esperara mais de ano pelo pagamento. Entrou nesse meio a paixão anjoseana de Waldemar Duarte, que foi resgatá-la por iniciativa própria, amolecendo o coração do escultor. Virginius da Gama Melo dedica uma crônica antológica a esse lance do comportamento paraibano em relação aos seus talentos.
Perdido no tumulto de coisas e pessoas da Lagoa, essa herma precisa ser mais valorizada, mas avistada, mais exposta à admiração dos paraibanos e dos visitantes. Não custa o prefeito sagrar-se na lembrança da cidade, construindo o memorial que o poeta da mais unânime admiração brasileira está a merecer. Sem acanhamento, sem medo de errar, transferindo para local mais visível, à direita do cassino, um arco, uma palma, um livro de pedra, um oratório pós- moderno digno de acolher a glória do poeta.
Conversamos sobre isso com Fernando Moura, com Lúcio Villar, com Rubens Nóbrega e, nesse sentido, procurei o Conselho. Mas a pauta, lá, era outra. Eu me equivocara.
 

Menino pai do homem

Martinho Moreira Franco passou ileso pela febre esquerdista dos anos 60. Ele e Ipojuca, este último desvencilhando-se da liderança fortemente contagiosa do irmão de igual talento, Paulo Pontes, de quem nem mesmo os mais vacinados do Rio se livraram: Zuenir Ventura, Ferreira Gullar, Chico Buarque, tantos mais que gozaram da sua influente convivência. Que vacina essa dupla tomou, sempre me perguntei. De soro puramente ideológico, de formação religiosa ou de índole que a prosa grega de Coelho Neto preferia chamar de pirronista? Na crônica de ontem, no rodapé cotidiano de A União, Martinho esquece o humor mais à vista, larga por instante a internet para desvendar a sombra em que se oculta a rejeição espontânea a muita coisa do esquerdismo. Rejeição que não o impede, como leitor, ouvinte ou espectador de raríssima competência, de fazer o imediato registro das falas, atos ou eventos que mereceram a aprovação do seu fino exame. Viesse de Lula ou venha agora da presidente Dilma.
A crônica não deixa dúvida: o nosso querido Moureira Franco, como eu já disse no seu cinqüentenário, é o grande menino que o menino grande de quase dois metros nunca largou, dele nunca se libertou. O menino grande levado pelo pequeno, o que ia pela mão de Seu Liu pelos corredores do Palácio da Justiça, pelos altares sagrados do Rosário ou de Lourdes ou pelas regras do bom viver em que o respeito ia da primeira à última. Martinho, com a família, não falta à missa dos domingos, consegue ouvir o evangelho e, com alguma paciência, desligado o humor, acompanha a retórica nem sempre bem articulada dos novos padres.
Monsenhor Almeida, o pároco de Lourdes; o padre Trigueiro, associaram-se ao velho Liu (que morreu moço) para nunca largarem a consciência do meu amigo. Para toda a vida. Ele vê com espírito crítico bem humorado todos os cenários da vida. O político, o social, o cultural, rendendo-se extasiado ao bom cinema, à boa música e às coisas perfeitas do jornalismo de papel ou de vídeo. Mas volta ao menino, ao pai do homem, sempre que se enfia pelos caminhos de sua formação. A revelação que ele desenraiza de si, do adolescente puro, para reanimar o padre José Trigueiro dos seus dias de acólito, os anos, os bons e maus momentos, não conseguiram desfigurar. E Trigueiro, que sepultavam nessa terça, depois da imagem do grande empreendedor de escolas superiores e de universidade, reaparece de volta a nos lembrar o vigário de Lourdes, o pastor que tangia almas para a sua igreja e também para a escola que viria a ser modelo, o D. Adauto.

Numero 165, rua Direita

Volto a ressaltar a importância, por todos os títulos, do trabalho de equipe organizado pela arquiteta e professora Nelci Tinem, da UFPB, preservando em livro de 2006, em desenho, texto e fotos, o que a administração da cidade não pôde ainda preservar integralmente em alvenaria.
O livro editado com breve prefácio do então prefeito Ricardo Vieira Coutinho é um documento novo na forma de abordar e retratar a arquitetura das vias principais do sítio histórico. Casa por casa, em suas fachadas, reproduzem desenhadas a Rua Nova, a Rua Direita, a Rua da Areia, outras vias centenárias, facilitando a intervenção futura.
Que intervenção? – me pergunto agora ao passar pelo sobrado 165, exemplar raro, próximo à Academia, que ainda conservava o balcão sustentado por peças trabalhadas, os cachorros antigamente encravados no calcário, embora a fachada já apresentasse grandes feridas de reboco despegado.A fachada é uma mistura de pedra e tijolo dobrado, tudo erguido entre blocos de calcário amarrados por caliça já quase toda esfarelada.
Vai arrear a qualquer momento.
Felizmente mantém-se em pé no livro da doutora Nelci Tinem, como se mantém ainda boa parte da cidade de Walfredo Rodriguez.
São poucos, no entanto, os que perdem o sono com essas baixas. A descendência dos antigos moradores perdeu-se nas sombras do tempo. São túmulos sem dono, sem inscrição. A das Trincheiras está cheia deles. Outro dia recebi uma foto de uma rua Lorenzo, lá no Varadouro, com o reparo lírico de tom inconformado do fraterno amigo Manuel Jaime, sensível a esses “soluços de vida”.
O que fazer? Do mesmo partido do governador de Pernambuco, não custa ao nosso prefeito perguntar como foi feito em Recife.
Não fosse o tráfego, que atrapalha tudo, mesmo assim dá gosto demorar os olhos e a memória no Recife Velho. Mesmo no Recife para aquém das pontes. Mesmo com a barreira do trânsito, os espaços e ares todos travados, ainda sobra chance de descansar as vistas nos lugares da memória. Nas torres e portais do orgulho pernambucano.
Há de se dizer: primeiro os vivos, os necessitados de casa, de saúde, saneamento, educação. Nesse aspecto, com certeza, Recife tem muito mais a cuidar do que João Pessoa. Tirando o Rio, talvez seja uma das periferias mais problemáticas.
 

Tudo tão elementar...

Demorei a manhã do feriado na leitura do jornal. Detive-me nas duas páginas inteiras que o JP dedicou aos números das nossas matrículas na educação infantil. São números do MEC. “Ao todo, na Paraíba, foram 126.363 matrículas em 2011”. Tentei relacionar esse número à população infantil geral apanhada pelo Censo. Faltou-me paciência para recorrer à pasta de recortes ou rastrear pela Internet o Ibge. O que representa esse número em relação ao total escolarizável? Como queria o ministro Paulo Renato, há mais de dez anos, teria ficado alguma fora da escola?
Que escola? Cada prefeitura, das nossas 223, tem as suas, cada qual com seu tipo de cuidado ou de negligência. Cada prefeito com seu critério de escolha do professorado. O ensino variando conforme o município ou o gestor.
Reparo na expressão do rosto, dos olhos, da secretária que aparece ilustrando a página, a professora Ariane Sá. O olhar denota compreensão, ternura, como se acabasse de se despregar de uma classe infantil, mas não esconde uns discretos vincos de angústia no desenho do rosto e do sorriso.
De repente, saio da leitura deste 1º de maio de 2012 para me achar numa sala de aula do Instituto... O belo prédio do grupo-escolar, construído a capricho no começo do século passado, estava sendo retelhado, vindo a minha turma acomodar-se no tal instituto que não conservei o nome, mas que se mantém vivo, entrando pelo clarão das janelas num buquê estufado de rosas vermelhas de mistura com jasmins-laranja ...
Tudo realmente sumido: as paredes, a sala inteira, os caixilhos e folhas das janelas, até mesmo o espaço hoje ocupado por uma extensão da Prefeitura, mas o roseiral entrançado de jasmins mantendo-se tão vivo em meus sentidos quanto o frescor daquela remota manhã de maio de 1943, em Alagoa Nova.
Era maio, com certeza. Não por ser o mês de Maria ou o mês das flores, mas pela menina de cabelos cacheados e rosto de anjo que a zeladora da matriz levara ao instituto para, com ela, colher flores para a novena. Menino de sítio, sem companhia, só conhecia os anjos do catecismo ilustrado. Anjo assim de frente, com os mesmos cabelos e a mesma doçura de rosto das estampas sagradas, era a primeira vez.
Minha dúvida é se a aula que, apesar do tempo, ainda não perdeu as rosas e o clarão daquela manhã, equivalia em eficácia à que oferecem aos meus netos de hoje. Os instrumentos eram tão escassos: a lousa, o giz, o creion, um único livro de leitura, a aritmética elementar, tudo realmente merecedor desse nome tão próprio - elementar!
A professora tinha vindo diplomada do colégio das freiras de Alagoa Grande. Havia colégio das freiras em Areia, em Campina Grande, em vários outros lugares. O que retardava era a chegada da escola pública. Nisso a igreja ia na frente. Os melhores livros eram dos Maristas. Os melhores colégios eram os diocesanos. Mas não chegavam para todos. Os públicos chegarão, hoje?
 

Adrião

O nome de Adrião já estava no apogeu quando o conheci. Apogeu do nome, da loja, dos negócios. Adrião mesmo sempre estava no ângulo mais semi-obscuro do balcão, em mangas de camisa, sem pressa, sem aparentar ambição, magro de corpo e de rosto, os cabelos lisos mal cobrindo a delicada conformação do crânio. Sobressaía na voz de bom timbre, ainda que mansa.
Ele, Leopoldo Pinheiro, Chico Leocádio, Luciano Wanderley, Chico do Pilar e Inácio Ramos de Queiroz eram os ricos da Paraíba que me davam liberdade. Que me deixavam entrar, puxar a cadeira, creditando-me até mais do que pura e simples confiança. Os demais ficavam longe.
Sempre comerciante, sempre empresário, Adrião tinha uma história de simpatia popular. Herdada do pai, o velho Manuel Pires, que de soldado da Polícia tornara-se grande comerciante. E saíra irradiando o seu sucesso através dos filhos, ora a Casa Azul, ora a Casa das Noivas, culminando no lojão que disputava com o Banco do Estado dos velhos tempos a referência da Barão do Triunfo com a Maciel Pinheiro.
Era lá, conversando de igual para igual, que o rapaz, saído havia pouco da Casa do Estudante, ia conferir sua inserção social. A simplicidade de Adriano revisava muito das minhas reservas esquerdistas mais arraigadas. Não com palavras, com seu projeto burguês ainda que despretensioso, mas com o ser humano que nenhum privilégio ou fortuna pôde modificar.
É bom lembrar que até no casamento, um amor entre dois, teve em Adrião e Creuza o amor da cidade. Comerciantes, empresários, ricos, vivendo na mais requestada mansão da cidade, das vezes que hospedavam presidentes, se faltassem à loja no dia seguinte era para fugir a perguntas e comentários.
Mais singular ainda foi quando toda a riqueza se desfez, a loja de departamentos da Lagoa, castelo em que se concentrara culminantemente a riqueza dos Pires, obrigara-se a mudar de dono e de nome.
A mudança, entretanto, encerrara-se aí. Adrião e Creusa continuavam os mesmos, simplesmente porque nunca foram além de si mesmos. Nunca mudaram de altura ou foram além do que lhes consentia o espírito, a educação, a cordialidade, recebessem o todo poderoso Costa e Silva ou o popular Mocidade.
Recolheram-se a uma loja comum de miudezas, a cem metros do lojão de que se desfizeram, sem que a cidade jamais os perdesse de vista nem os quebrantasse de tamanho. Perder de vista no bom sentido, a boa gente da cidade guardando-os na lembrança, muitas vezes num objeto de adorno, numa bandeja do aparador, no castiçal da mesinha de canto, o objeto iluminando o momento remoto, com seus figurantes e as suas emoções. Guardo uma bandeja trincada, sem mais a jarra, presente com o qual Creusa e Adrião se desculparam por sua ausência a meu casamento. São 53 anos que não passaram, ali parados, guardando um momento, arrolhando um tempo que iria além de mim se a arte ajudasse.
 

Minha parte de português

Como sabem os que me conhecem, sou produto de duas escolas de artífices, O Norte e A União.
A União está viva, O Norte fecharam. Esse fechamento foi uma traição à confiança de Assis Chateaubriand, umbuzeirense capaz dos maiores defeitos e senhor de raríssimas virtudes.“Tudo que faz é loucura, até ser feito”- sumariou-o José Américo. A idéia e o ato de criação dos “Associados” foi a culminância dessa loucura.
Tinha filhos herdeiros, um deles da mesma impetuosidade, o Fernando Chateaubriand, mas sem os demônios; o outro, Gilberto, um diplomata e, como o pai, mecenas das artes; e mais uma filha jornalista, a Tereza Alkmin. Mas entendeu que as emissoras de rádio e televisão e os jornais que espalhou no Brasil não seriam tarefa destinada a herdeiros de sangue, nem sempre motivados para um arrojo dessa diversidade e magnitude. E achou de burlar as leis históricas de herança familiar entregando o colosso aos que lhe vinham oferecendo um bom currículo de desempenho e de fidelidade. Fidelidade enquanto o rei viveu. E enquanto viveu o seu fiel e único grande escudeiro, o doutor Calmon.
Da federação de empresas, o Rei do Brasil, se ressuscitasse hoje, viria encontrar uma meia dúzia de empresas de prestígio. O resto voou no pau dos “valdevinos inescrupulosos”.
Valdevinos foi a expressão que ele arranjou para classificar um grupo que moveu ação contestatória quando assumiu o comando acionário de “O Jornal”, quando tudo começava, nos anos 20. No atropelo, recorreu, então, para os serviços e o prestígio do senador Epitácio Pessoa. São suas palavras: “Quando, na nossa hora mais precária, os acionistas de São Paulo, por meu intermédio, apelaram para S. Exa., ele não hesitou. A imprensa livre lhe fica a dever esse serviço”. Refere-se ao conterrâneo que mais elevou a Paraíba na arena política.
O capítulo inicial da cadeia “Associada” teve essa demão paraibana, um umbuzeirense ajudando o outro. Começou pelo Rio, estendeu-se a São Paulo, a Recife, a Minas, e quando faltava pouco para fechar o circuito nacional, chega a vez da Paraíba. Chatô queria adquirir A União, por ser o mais antigo, como fizera em Recife com o “Diário”. Mas José Américo, que era o governador, não se achou no direito de apartar do Estado um vínculo histórico e cultural ainda mais promissor. E chamou Virginio Veloso Borges, proprietário sem entusiasmo de O Norte, para negociar a transferência, quase uma doação, à cadeia iniciada no Rio. Isso em outubro de 1953. É um recomeço do jornal que tem uma história de várias interrupções: em 1930, ressurgido logo depois com Rocha Barreto e Eudes Barros, novamente desativado até a campanha de José Américo ao governo, em 1950, a partir de quando se manteve por mais de cinqüenta anos, eu do lado de dentro ou pelos aceiros. A minha parte de português, mínima que seja a mestiçagem, me faz um sebastianista. Espero ainda amanhecer com esse título nascido de Órris Soares debaixo da minha porta.
 

Os serviços maneiros

Não ficou na lembrança, a primeira vez que me chamaram de negro. Não devo ter sentido qualquer ofensa. Na infância não foi. Tive uma infância quase que monástica, de filho único sem companhia nem vizinhança. Dessa fase só me lembro de Nino, um que morreu de vermes, e do filho do fogueteiro, Zé Paulo, que perdi de vista quando larguei o sítio.
Entre a adolescência e a primeira juventude, decorridas no caldeamento de Campina Grande, estuário mais que regional das ambições comerciais e culturais dos meus anos de formação, a menção à minha cor, que me lembre, só se deu quando tive de tirar, na polícia, uma pré-identidade (ainda não fizera os 18 anos) . Horas depois, quando fui ler com apurada curiosidade os detalhes do documento, lá estava a classificação “parda-clara”, que não me causou mossa e permaneceu até quando excluíram esse tipo de registro da cédula de identidade.
Negro, mesmo, só comecei a ser chamado a partir da Casa do Estudante. Lá todos ganhavam apelido e, aos olhos gerais, fiquei como negro. Éramos três em toda a comunidade, eu o mais claro deles.
No Pio XI campinense, meu primeiro colégio, negro era fruta rara. Na minha classe tinha o negro Raimundo Adolfo e, menos escuro, de um moreno fortemente corado, quase bronze, o negro Temístocles. No Liceu, onde tive passagem breve, a classe amorenou um pouco. Era escola pública mais ao alcance dos filhos de pequenos funcionários e comerciantes.
Isso é o que os meus olhos guardam. Como explicar um país composto metade de negros com uma participação tão diminuta nos serviços maneiros? Olha-se em redor, e o negro é exceção, só rompida à força de circunstâncias muito pessoais que o consentem ser visto assim mesmo, quando sobem, com “alma de branco”.
Os que defendem a ascensão pelo mérito esquecem ou não têm memória das condições históricas em que o colonizador de todos tempos se relacionou com o negro. Na corrida pela escola, pelo emprego, pela vida social a conjuntura negra arca com quatrocentos anos de escravidão e de discriminações dissimuladas. No papel, todos são iguais, mas a realidade, mesmo a de hoje, nega a igualdade a olhos vistos. A corrida será por muitas gerações ainda de desiguais.
O voto do ministro Peluso remete a essa profunda consciência da conjuntura histórica do negro no Brasil: “O mérito é, sim, um critério justo, mas é justo apenas em relação aos candidatos que tiveram oportunidades idênticas ou pelo menos assemelhadas.”
 

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