A estrada de Dahia
Se a carga se destinasse a Cabedelo, não havia alternativa: tinha de subir a ladeira de Oitizeiro, seguir por Cruz das Armas, pela Vasco da Gama, João Machado até alcançar a Epitácio e dobrar à esquerda para o seu destino. No tempo do doutor Rui Carneiro, essa entrada apertada oferecia-lhe a vantagem de poder parar na capelinha de Santo Antônio, dobrar o joelho, benzer-se e ficar vacinado para a próxima ou futura eleição. Era um homem de muita fé, senador 26 anos seguidos sem uma nódoa mais forte no terno branco além da de grande provedor de empregos federais. Também uma forma de levar a Paraíba mais longe.
Mas voltemos ao caminho inicial, de ruas estreitas, cheias de calombos e curvas fechadas, entravando o tráfego e o crescimento da cidade.
Vem o governo de João num momento em que a abertura de estradas era estratégica para o progresso e, sobretudo, para a segurança militar. Udenista, bem aceito no regime, tirou partido do seu prestígio em favor de um grande programa de infra-estrutura de estrada, energia e abastecimento d’água para o seu estado. Fez a estrada central, sonho de quatrocentos anos, que as administrações posteriores só vieram complementar. Um gigante, esse João, enterrado numa encruzilhada de caminhos desertos no longe sertão.
BR-230, Anel do Brejo, o estrondo da Patrol e a nuvem grossa e parda de poeira removendo a letargia da velha Paraíba, faltava intervir em João Pessoa. Manuelito Vilar e Guarany Viana já andavam dando baixa nos velhos chafarizes do abastecimento d’água inaugurado em 10, por João Machado e agora trocados por novo e volumoso sistema. “Vamos botar um rio em sua casa” - era o Marés. E botaram.
Restava abrir o caminho largo, a estrada-avenida que colocasse a Paraíba em afinidade com o tráfego dos grandes centros comerciais e industriais. Que o motorista de São Paulo não visse nem sentisse diferença saindo de São Bernardo ou entrando em Cabedelo.
João mandou chamar o homem do DNER, que também era um homem magro, de fala mansa e pausada, com um certo jeitão de Durango Kid. Conseguira a inclusão do contorno de João Pessoa no orçamento federal. Empenharam-se os dois, João e o engenheiro Dahia, por um traçado que, além de servir ao trânsito, fomentasse a cidade. Sufocada entre o rio e o mar, João Pessoa estava sendo convocada para subir a barreira do Buraquinho, fazer vênia ao campus da Universidade e se estender a toda a área de roças, granjas e vacarias das encostas ao sul. Vi nascer na prancha de Dahia o quebra-cabeça que resultou no girador que para mim é sempre novo, há quarenta anos passando por ele.
Mas esta cidade que ele ajudou e adotou (baiano que era) trouxe-nos o inconveniente da distância. Só ontem vim saber que ela tinha aumentado, entre nós, de forma irremissível, separando-nos para sempre. Simples, discreto, tão simples e discreto que a cidade e o Estado jamais sentirão o peso do quanto lhe devem.
