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Gonzaga Rodrigues

Espaço que revela, através de crônicas, acontecimentos do cotidiano do povo nordestino com um misto de política e literatura.

Dinâmica da política

O empresário vitorioso de hoje, ex-deputado Manuel Alceu Gaudêncio, não chegava, como político, a ser um pensador, talvez nem mesmo um bom consultor no ramo, mas sabia ver na política um terreno fertilíssimo de curiosidade e humor. Por conta disso são-lhe atribuídas algumas tiradas que ficaram na crônica política local com foros de aforismo. Um deles, gerado no vespeiro das disputas internas entre ernanistas e agripinistas, repete coisa parecida do velho Capanema sobre a dinâmica da política.
Vendo agora a botada de cartas de José Octávio para a sorte das dissidências, tendo em vista a disputa vinda a público de forma prematura nas hostes do próprio coletivo alçado há pouco ao poder, só me ocorre o velho clichê de Manuelzinho, ( A política ;e dinâmica) assim chamado pelos amigos.
Dinâmica até demais, para os nossos velhos tempos, mas talvez nem tanto para a instantaneidade virtual dos ícones e valores de hoje. Numa fração minimíssima de tempo a neta de minha amiga e confreira Adylla Rabelo, a doce e meiga Luiza, saiu dos cuidados familiares para o delírio de milhões de brasileiros e até estrangeiros. Na corrida política, uma das vantagens do presidente Obama correu imperceptível, infensa às pesquisas de alvo tradicional, através das chamadas redes sociais. Quem sabe se o secretário de Comunicação do Governo não está vendo e sabendo além do mirante do líder e chefe?
O governador Ricardo, mesmo ligado ainda às novas gerações, elegeu-se à moda velha. Isto é, conquistando voto a voto no terra-a-terra. No eleitor que ele via tocando no chão, real, concreto, digamos de carne e osso. Eleitor tangível, não apenas das telas, dos vídeos, nada on-line, arregimentado cara a cara a partir da grei universitária, do eleitorado dos bairros, deputado da cidade inteira, até alcançar a Prefeitura e o Estado. Apesar de ainda moço, pregando o novo, a mudança, recorreu à moda velha da aliança útil, relembrada no vai-e-vem de José Américo e Rui Carneiro, correligionários e adversários repentinamente, uma situação em cima da outra.
Na verdade, na verdade, nos ensaios presentes não há dissidência. A escala do time é do doutor Ricardo e só depende dele. A de 1960, mencionada por Arruda Mello, veio de baixo pra cima. O grito de Pedro flamejava, nada volátil, na fervura de dois anos de um governo que elegera Rui senador, derrotando o aliado de ontem, ninguém menos que José Américo. Foi ruptura mesmo, muito diferente.

Niskier e sua fé

No auge da “Manchete”, de Bloch Editores, conheci um dos seus nomes mais famosos, o jornalista Arnaldo Niskier, escritor dedicado à Educação na sua prática e na sua História. Na prática da sala de aula, da conferência, da arregimentação e da divulgação das técnicas e experiências modernas nesta sua área. Escrevia sem complicação, como sempre escreve, sem exibicionismos de especialista, revelando uma sinceridade que ajudava em seu crédito de jornalista, escritor e professor.
Eu trabalhava com Aramis Alves Ayres num álbum da Paraíba que a Bloch editava pelas mãos de Alvimar Rodrigues, quando me vi, no restaurante da empresa, a dois passos do professsor Niskier. Ele almoçava com Carlos Heitor Cony, o cronista que tomara as dores da imprensa e do país oprimido, em sua coluna do “Correio da Manhã”. Duas celebridades que eu via de longe.
“Vou te apresentar”- levantou-se Aramis, conviva da casa. Acompanhei-o receoso, pois nunca me saí bem nessas situações. Encolho-me quando vejo um vulto muito grande diante de mim. Foi assim com Francisco de Assis Barbosa, aqui em João Pessoa; autor da minha devoção depois que narrou a vida de Lima Barreto. E ali tive uma surpresa das poucas: Niskier quase me convencia que o prazer era dele.
Agora, neste exato momento, vejo-o tocando em dois pontos que renovam a simpatia e a identificação: não acredita na morte do livro, como apregoam os mais apressados, e faz menção ao crescimento significativo da venda de jornais. Isto quando bilhões de dólares são aplicados pela gigante Apple na produção de livros eletrônicos na área da Educação. E quando assisto ao fechamento de O Norte, patrimônio cívico e cultural da Paraíba. O que fazer?
Entra, então, o velho professor que não se assusta com a revolução tecnológica: “Vêm aí tabuletas coloridas, lousas eletrônicas, associadas a vídeos e jogos interativos que fascinam o espírito dos nossos jovens. Teremos cursos on-line e aulas virtuais que acabarão configurando o que chamamos de pedagonet”. E adverte: “O que precisa ser feito é uma revolução rápida e inadiável nos cursos de formação de professores. (...) Há milhares de professores que não sabem usar um computador”.
Ou uma revolução mais em baixo – tomo a liberdade de acrescentar - que ajude o professor, com bom preparo e salário razoável, a responder ao aluno as dúvidas anteriores ao computador.
 

Joia de bem-querer

Gustavo Moura é um menino de 52 anos que brinca, sem outro entretimento, de fotografia. É dos Mouras do velho Anibal, que escarrava da janela do Liceu Grande para a mais larga das nossas avenidas o que pudesse sobrar das aulas dos persas, gregos e romanos até esbarrar na queda de Constantinopla. A aula que dava, sem dar folga à concentração da molecada, fazia-a acompanhar até onde ia cair o esputo, tirando fino no bronze de Getulio. O velho perpetuou-se na memória culta como patrimônio imaterial do ensino do seu tempo. Toda a sua grandeza de espírito ainda sobrou para a gente amável dos filhos, de Hugo, de Aníbal, de Artur, remanescendo no olhar seletivo da boa arte de Gustavo.
Gustavo Moura não quis ser doutor convencional. Preferiu a kodak monocrônica, que certamente lhe deram, sem muita aposta, num dia de aniversário. Fez a luz e “achou bom”. E não quis fazer outra mais. Sequer trocou de máquina.
E saiu copiando em preto e branco o que só a memória, a imaginação, o prodígio das nossas tintas interiores é capaz de colorir. O espectro de cores que tingiu a nossa memória original e que se conserva em infinidade de matizes é que vai chegar com o tom perfeito no preto e branco que a máquina de Gustavo apanha e revela. A transfiguração é real, porque pintada sem artifícios. E o resultado é a cidade verde que a nossa consciência recolheu, suprindo o desmate atual. Um verde que não chegou para o prodígio das lentes digitais.
Gustavo partiu do acervo deixado por Hudson Azevedo e a ele confiado. Hudson era um fotógrafo retraído que fazia a apanha na maior discrição possível. Escondia-se para tirar a foto. Educado, fino, nunca atravessou a cena para fotografar. Depois é que a foto resplandecia com seus figurantes. Documentou boa parte do governo de José Américo e depois foi requisitado para a Reitoria.Tinha um foto avizinhado com os consultórios de Humberto Nóbrega e Arnaldo Tavares, na Guedes Pereira. Mas nem expunha o seu quadro de fotos como faziam os outros. Afeiçoou-se a Gustavo Moura e, antes de morrer, autorizou-o a aproveitar uns negativos velhos deixados numa caixa. Gustavo foi ver e descobriu, em preto e branco, o quanto foi verde esta nossa Filipéia. . A própria Guedes Pereira encobre-se na enfieira de cássias. Numa iluminação de meio dia tropical.
Quem foi que disse que o Viaduto de Damásio era um entulho? Veja à luz verdadeira dessas fotos e repare na solução de tráfego que o viaduto ofereceu à meia-embreagem da cabeça da ladeira e ao próprio passeio. Uma praça bem recortada com lugar para a conversa baixa e o discurso. E tudo (estou vendo daqui) numa composição harmônica com o entorno. Depois é que abandonaram a praça, como abandonaram a Independência, a Lagoa, tudo o que as boas mãos gestoras têm construído nesta cidade. Construir tem sido fácil, desde que se faz menino, manter ou educar é que é ela.
Ainda falarei desse primor de álbum de Gustavo e Hudson, texto de Silvio Osias, joia de bem-querer que aclara a luz dos meus olhos.
 

Sinal dos tempos?

Revendo papeis velhos, encontro esta anotação encartada num dos tomos da História da República de Helio Silva: “O Agripino da Banda de Música da UDN reconhece, afinal, a existência de ‘forças ocultas’ e, mais do que isso, se dispõe a levar ao presidente minuta de decreto invalidando as concessões a empresas estrangeiras das jazidas de ferro que permanecem inexploradas”.
É de 1961, creio que anterior ao 25 de agosto, dia em que Jânio renunciou. Não tem assinatura, mas é de José Joffily, que compunha a mesa da API formada para uma palestra de Agripino ministro sobre a luta em que se debatiam os nacionalistas para preservar as riquezas minerais brasileiras da exploração estrangeira. Joffily me passava a nota enquanto João falava.
O grande impacto, para a maioria dos presentes, foi ver Agripino e Joffily na mesma mesa, oponentes partidários aqui e ideológicos nos debates da Câmara; mas fato previsível para os que vinham acompanhando o posicionamento do Agripino “entreguista” da UDN no enfrentamento com a Hanna, com a St. John d’El Rei Mining Co. na disputa pelo quadrilátero ferrífero de Minas Gerais, todas atritando com a Vale do Rio Doce, a empresa estatal da grande resistência.
Ali Agripino vestia as cores do Brasil como primeiro ministro das Minas e Energia, entrando em choque com elementos do próprio governo, com seu próprio ministro da Fazenda, Clemente Mariani, quando da elaboração das leis antitruste e de limitação da remessa de lucros. É assunto de um passado que pouco significa para a nova geração e que rememoro num painel biográfico sobre a coerência de idéias de José Maranhão, lançado na hora errada , tanto que entendido apenas como biografia autorizada.
A API de então exultava com a pujança de sua representação política no campo das decisões nacionais mais consequentes .
Havia disputas renhidas, até barbarismos como o da praça da Bandeira na campanha de 1950, mas havia lances bonitos de união pela pátria ou pelos interesses do estado.
Quanto a essa menção aos interesses do Estado ... o da Paraíba, desde Epitácio, com a construção do porto, até os dias de hoje, o que se tem visto – diga-se - é o sucessor torcer a cara à obra do sucedido. Escapa a estrada central, a BR, desde quando saiu da esfera do Estado para a da União. Com recursos locais, Rui Carneiro conseguiu pavimentar de Bayeux até Santa Rita, retomada no segundo período de José Américo, oito anos depois. Passam-se mais dez anos para que Agripino prossiga a obra, completando a do outro, como não foi diferente com Mariz/ Maranhão retomada por Ronaldo etc , obra única de união entre governos. Ricardo, agora, que só tem críticas ao antecessor, assume obras como o Centro de Convenção, Acauã, Camará, etc. Sinal dos tempos?
 

Reencontro

Eu tinha um primo chamado João Viana. Rompi com o internato e ele me acolheu. Não me exigia, mas via-o levantar cedo, apressar o café e os passos para o trabalho, e só me restava acompanhá-lo. Ele era alto, de um branco amorenado pelo sol que ajudava muito em sua simpatia. E nos negócios.
Os negócios eram vender biscoitos refugados da Pilar que não entravam na embalagem de fábrica. Biscoitos quebrados ou com pequenos defeitos. Chegavam a granel e os empacotávamos para venda e entrega nos bairros da Liberdade, do Quarenta e nas Boninas de Campina. Foi aí que os nossos carrinhos de entrega cruzavam com os carrinhos do Café São Braz, com uma diferença: os nossos éramos nós mesmos quem os empurrava; os do café já eram os empregados.
De forma que eu ouvia falar de José Carlos Junior, o filho do dono, antes de conhecê-lo. Conhecia o pai, cujo moinho era quase parede-meia com o café de Chico Lima, pregador comunista, que freqüentávamos na Semeão Leal. Pegada com essa rua, dando para a Floriano Peixoto, rua principal, ficava a Biblioteca Pública que não tinha os livros recomendados por seu Chico. Também foi nesse café/restaurante que aprendi a metrificar versos com Antônio Mangabeira, secretário do Sindicato dos Motoristas e promotor de festejadas cantorias na sede do sindicato, coisa que pouco ou nada tem a ver com o personagem desse belo livro dos 60 anos do Café São Braz, o doutor Zé Carlos.
Como sugeri, eu o conhecia de longe ou o via passar já rapaz de buços, de outra turma, a do Ge-a-dê (Ginásio Alfredo Dantas) que não cruzava bem com a nossa, do Pio XI, embora rondássemos o mesmo quarteirão central, passeio da estudantada, falatório da política e dos negócios.
Deixando Campina por João Pessoa, distanciando-me do ponto que guarda minha primeira grande comoção urbana, quando voltei a saber de Zé Carlos ele já havia fechado negócio com o café a que me acostumara, aqui em João Pessoa, o Santa Rosa dos Marsicanos.
Depois... Bom, depois é o que todos sabemos, uma história de arrojo, feita de crença inabalável no trabalho e em que a marca do homem e a da empresa se confundem. Empresa que lembra a Paraíba em todos os grandes cafés do Brasil.
O ruim é que, tornando-se grandes, verdadeiros holdings, quase sempre a empresa esconde o homem. Protege-o da abordagem popular como verdadeiros bunkers. Receio depois dissipado, quanto a Zé Carlos, num dos momentos de seu mais alto prestígio, ele dono do mercado e do poder político, alçado a governador. No tempo em que ainda existia o restaurante de Lucena, no Poço, uma casa bem doméstica de toalhas alvíssimas, lá o encontro sozinho, ele e seu peixe cozido. Foi como se, ao longo da vida, devêssemos um ao outro esse reencontro.
Esta semana fui a seu escritório completar uma conversa que começara casualmente no hall do nosso jornal. Falamos dos achaques, do punhado de pílulas que engolimos, diariamente, e de outros assuntos da idade, mas sem dar muito cartaz a eles. E sobre o Poder, a única lembrança boa que nos ocorreu foi a de Cartaxo, Tarcisio Cartaxo, seu principal assessor de imprensa.
 

Quem foi visto na Lagoa

Esconde-se no magistrado Carlos Augusto Romero, na distinção natural de sua presença educada e serena, e até nas suas aversões, um lírico que não perde ocasião de botar sua flor nos momentos propícios ou mesmo imprevistos.Flor como a que botou Graciliano Ramos surpreendido por um quipá alastrado num jardim da Geórgia, em sua visita ao socialismo real stalinista. Regime, esclareça-se, da ojeriza de nosso cronista.
Na compreensão do major Graça, o que danado fazia ali, polvilhado de neve, um vegetal conterrâneo do agreste alagoano? E acudiu o diálogo animista a partir do encantamento do escritor.
Aqui, Carlos Romero caminhava pelas bordas do parque de seus afetos (já se vão trinta anos!) e dá com ninguém menos que o maestro Eleazar de Carvalho, regente da Sinfônica Brasileira, na contemplação do nosso melhor cartão-postal. Num tempo em que se vislumbrava no paraibaninho comum, do meio ordinário, vocação suficiente para pular a lama do mangue ou descer a ladeira do Varjão e entoar, num cenário clássico de elite, o coro monumental da Nona Sinfonia de Beethoven.
Burity achava isso possível e fez essa hora. E teve a adesão do maestro cearense de regências internacionais, mestre em Nova York, varias vezes titular da Sinfônica Brasileira, para reger essa possibilidade.
O cronista das nossas sutilezas espirituais, dos achados da alma, nos passa a sua emoção numa crônica de terça-feira ao seu estilo.
Começa assim: “Faz algum tempo, eu o vi, de pé, na porta de entrada da antiga loja Mesbla, ali na Lagoa, simples de traje e de espírito, mas sem perder a elegância, quando tive a coragem de abordá-lo: `O senhor é o maestro Eleazar de Carvalho?`. Num meio sorriso ele apenas disse: `Sim, às suas ordens.”
Parágrafos adiante, retoma dom Carlos: “Fecho os olhos, me desligo do meio ambiente, esqueço a poluição sonora desta cidade, e vejo, através da imaginação, a majestosa fisionomia do grande maestro regendo a Nona Sinfonia de Beethoven , lá no Espaço Cultural, que Burity construiu para espanto dos negativistas”.
Há crônicas, rebentos de jornal que, pela felicidade como vêm ao mundo mereciam, como merecem, o prodígio da extensão virtual, liberta do papel e da exclusividade. Outro dia A União perdeu os velhos limites para espalhar etérea uma elegia de Martinho Moreira Franco à alegre eternidade de Celly Campelo, no seu Banho de lua.
Agora, veio de internauta o aviso, a advertência para que eu não deixasse de ler a crônica de Romero: “Ver e ouvir Eleazar de Carvalho era um privilégio- nos faz lembrar. E quanta dignidade profissional. A Nona, regida por ele, decerto, encantaria o próprio Beethoven”.
 

A cidade literária

Muitos dos que leram o “Tambiá da Minha Infância”, de Coriolano de Medeiros, não devem ter dado a devida atenção ao prefácio de Francisco Pedro Carneiro da Cunha à 1ª. edição de 1949. Provavelmente, também, o prefaciador da 2ª. edição, Antonio Barreto Neto, de quem, por ter sido leitor sensível , imaginava-se não passar batido diante da surpreendente riqueza de informação e de estilo num texto de poucas páginas de mais esse Carneiro da Cunha escritor.
O que mais chama a atenção no prefácio é a riqueza de informação cultural, sobretudo literária, da Paraíba pré-republicana. Essa informação não freqüenta assiduamente os nossos bosquejos históricos.
O cenário da capital paraibana descrito nessas poucas páginas de prefácio é bem diferente do que emerge, de passagem, de um dos romances de José Lins do Rego, que vê com menoscabo justificável o ambiente verdadeiramente provinciano da “vila”, como a capital era vista pelos partidários de Cristiano Lauritzen, prócer poderoso de Campina Grande. A capital reduzia-se a um pouso onde os coronéis apenas mantinham casa para o veraneio ou a educação das filhas que sobravam dos colégios do Recife.
No entanto, a par da visão lírica própria da reminiscência, sobressai um ambiente afinado com as leituras da voga européia. O olhar do prefaciador traz as luzes de notáveis ufanistas urbanos, com a Paris de Fustel de Coulanges, de Chateaubriand, de um tal Georges Lenotre que o tempo apagou, dos “Últimos dias de Pompéia”ou dos romances de Victor Hugo e de Balzac. Era um olhar sensível a essas leituras, com o qual o dr. Alexandre, pai de Augusto, não era uma exceção. Vamos encontrar esse clima culto na redação de “O Commercio” de Artur Achyles, descrita rapidamente tanto por Pedro da Cunha como pelo próprio Coriolano. Redação que abrigou o poeta do EU muito antes de sua consagração de público e de crítica.
Começa, com o livro de Coriolano, a declaração de amor das letras a esta cidade. O genial Augusto não se motivou a isso. Passa por seus versos uma cidade genérica, mais dos vícios do que da lírica, salvo em alguns versos da primeira fase, já tristes, nuns dos quais passam monges e amores frustrados à sombra do convento de São Francisco e da Rua Direita, rua que não devera nunca ter trocado de nome. Para o Duque teríamos a rua da Cadeia, a atual visconde de Pelotas.
Já em Perilo d’Oliveira vamos encontrar aquele “Ave cidade, senhora nossa”. Mas louvação mesmo só vem acontecer com o “Tambiá” de Coriolano e o “Roteiro” de Walfredo, coroados , finalmente, com o “Itinerário” de Jomar. Como se não bastasse, vem a crônica de Luiz Crispim, desde “O arco e a fonte” ao canto final “Caminhos de mim”, com os quais o cronista-poeta parece se arrimar estóica e liricamente para atravessar o calvário dos seus últimos dias.
 

Os Invasores

Em fevereiro de 1951, a partir de quando foram me deixando ficar em jornal, a redação de O Norte era uma colméia provinciana. Funcionava na parte térrea de um sobrado que o Bradesco derrubou depois.
Atuávamos num salão único, sem distinção de relacionamento entre gráficos e jornalistas.
O protagonista da elaboração do jornal e de sua repercussão era Seu Leal, tio alto e empertigado de Wills e Teócrito. Ele secretariava, editava, redigia o editorial e assinava a “Nota do Dia”, sua coluna. Tudo isso de janelas abertas para a rua, o povo passando e acompanhando todas as fases de feitura do jornal. Havia os que paravam para cobrar detalhes que faltaram à notícia do dia ou perguntar pelas que não saíram. Não saíam as que botassem defeito no governo de José Américo.
As fontes de notícia eram, sem muita diferença de hoje, a Assembléia, o Palácio e a Polícia. O resto ( este, sim, mudou muito) eram secções de perdidos e achados, queixas e reclamações miúdas, esporte, graça alcançada e anúncio fúnebre. As nacionais e internacionais vinham fornecidas pela radiotelegrafia de A União.
Não havia pautas. A reportagem acontecia como os fatos, ao sabor do faro ou talento do repórter. Repórteres mesmo, nesse tempo, eram José Souto, Juarez Feliz e Helio Zenaide, este como colunista político. O público participava da redação, comprando o jornal no dia seguinte mais para conferir do que se informar.
De repente, chegam uma pessoas estranhas, muito por cima, que invadem o jornal, vasculham papeis e máquinas e se apropriam dos nossos assentos. Não pedem licença, só dão ordens. Eram os Associados da grande e poderosa cadeia que chegavam. O negócio fora feito lá por cima, entre o senador Veloso Borges e Chateaubriand, sem qualquer aviso prévio ao pessoal do piso de baixo.
Deu-se, então, um choque de civilizações, a invasão cabotina de “O Jornal” do Rio, o líder da cadeia, reduzindo-nos a basculho. Nossos líderes desbancados, sobrando em tudo. Seu Leal, o mestre venerando, sem mais birô. Eram o dr. Dimas, dr. Osmário, dr. Montalverne, dr. Alencar, dr. Mota, nomes a que o nosso despeito ia botando apelido: dr. Sporroni, dr. Casaca Preta e outros menos publicáveis. Era uma briga entre quem mais pudesse demorar a mão nos bagos do dr. Calmon.
E haja intervenções que se repetiam com gente sempre desse naipe, alheia ao espírito da terra. A última, há dois anos, veio com ordens de Brasília para fechar o jornal. Conseguiram, após cinqüenta e oito anos de resistência encarnada, nessa última batalha, pelas Naras, pelos Nonato Guedes e outros continuadores da obra geral de resistência que começou com a invasão da fundação da colônia portuguesa de que Pernambuco foi sempre o preposto.
 

A câmera de Linduarte

Não foi de graça ou por cândida intuição que Linduarte viu algum futuro ao colocar, num lajedo ofuscante e estéril para a vida real, a câmera rudimentar que produziu Aruanda. O registro das lentes obedecia à “experiência de humanidade” de um impenitente iniciado na literatura, no jornalismo, na cultura do seu tempo e na de todos os tempos.
Linduarte, militante da crítica cinematográfica, atividade febricitante no Brasil e no mundo daqueles dias, não era apenas um encantado pela sétima arte. Sua consciência cultural já vinha carregada de idéias e sentimentos a que nenhum espírito sensível poderia ficar imune, desde a leitura de Os Sertõe e de quase todo o romance nordestino, à pujança romanesca dos clássicos antigos e modernos lançados ao mercado pela editora Globo.
Linduarte e Geraldo Sobral, três anos mais velhos, impuseram-me uma mudança de rumo. Cheguei com as Primaveras de Cassimiro, ( e por que não dizer “fitando os Andes” de Castro Alves, vindo a cair na real à força dessas companhias. Sobretudo de Geraldo, mais radical em suas leituras. O único romance que eu tinha lido, até então, nas constava das considerações dessa dupla. E me vi obrigado a ler um Macunaíma que nunca absorvi.
Em 1952, trinta anos depois da revolução modernista, é que vim descobrir, ainda em tempo, que a poesia não dependia necessariamente de rima. Por outro lado, a poesia que não rimava e que saia no Correio das Artes de Edson Regis não me parecia estar com nada, até que apareceram Vanildo e Jomar.
Linduarte e Sobral ensinaram-me a questionar. Sobretudo com meus botões.
A febre do cinema, arte nova que se confundia com o gosto de todas as classes, independente do nível de cultura, não podia deixar imunes sensibilidades como as que se manifestavam em todos os pontos de leitura e de discussão. Fosse no auditório do Liceu, da API ou nos bancos da praça João Pessoa, onde se via bem o que não se via nas telas. Linduarte, Vladimir, Ipojuca, Paulo e a assistência que se revigorava ao fim das redações.
Uma câmera precária focada num mundo mais precário ainda, numa hora colorida de superluxo das telas, só podia proceder como fruto de uma consciência do mundo, de uma mundividência como diriam os mais sofisticados.
Com uma segunda realidade, formada nos livros e nas telas, Linduarte era um homem prático. Sabia mexer com o carro velho, um “Prefect” para o qual não havia mecânica nem peças, e sabia usar a máquina fotográfica das suas reportagens. A imaginação encontrou nele o caminhante prático.
Companheiro de fumaças literárias, de batente de jornal, de convívio familiar, nunca levou em conta os meus elogios. Nem quando vibrei com sua entrada na História do Cinema de Georges Sadoul. Vê-lo morto me fez lembrar Sobral, que saiu na frente, e cair um pouco nesta solidão super-povoada de estranhos. Estranhos que falam com a gente, até nos abraçam, e a gente não sabe na verdade com quem está falando.
 

Árvores do caminho

Duas árvores do meu caminho que continuo a avistar de longe neste começo de fevereiro: A União, que sobrevive suspensa na copa, pela fronde professoral, ainda que desalojada há quarenta anos do primitivo tronco. E meu amigo Reinaldo de Oliveira Sobrinho, representante vivo de uma das famílias mais cordiais, benemérita da cidade , das suas instituições e do seu povo.
O irmão, José Clementino Junior, um dos fundadores da Universidade, foi dos pioneiros no tratamento moderno da tuberculose. Foi amparo e exemplo para muito dos seus bons alunos. Fez devotos na legião dos que logrou curar, entre os quais lembro Nathanael Alves, e entre os que fez escola, como Marcos Pedro da Silva e Francisco Carneiro Braga.
O irmão Reinaldo, voltado para as letras, fez jornalismo, dedicou-se à historiografia, tendo como suporte o serviço público. Foi quem primeiro me chamou a atenção, através de ensaio biográfico, para a figura de Arthur Achylles, jornalista que se antecipou a muitas lideranças na luta pela modernização da Paraíba. Como ensaísta foi mais longe, mergulhando nas raízes de Areia, nas suas origens civilizatórias, para nos oferecer a saga produzida no massapé brejeiro. Hegemônica na produção de rapadura, de latinistas, abolicionistas, de presidentes de Estado e das grandes estrelas das letras e das artes. Tudo, em Reinaldo, com a maior modéstia, a ver pelos títulos: “Esboço de monografia do município de Areia”, “Terras de Massapé”, “Capítulos de Historia da Paraíba (I e II).
E sem nenhuma vontade de parar aos 95 anos, com vistas para ler, mais livro para escrever e, de quebra, entre amigos e cuidados da família, com uma dose mansa e loquaz de bom uísque.
Não faz um mês animou-me, pelo telefone, a segurar a pena, lembrando que é arriscado aposentá-la.
Além dele, tive em seus irmãos Geraldo, Toinho, nas irmãs que me faziam parar em suas janelas de Cruz do Peixe, as falas e os gestos mais afáveis da boa amizade. Pessoas unidas a algumas outras que me fizeram grudar nesta cidade.
São muitas as afinidades. Quando nos demos a conhecer, numa porta de livraria, enquanto eu falava de “A União”, que aniversaria com ele, Reinaldo falava de “A Imprensa”, onde deve ter aprendido com D. Carlos Coelho, além de escrever, a virtude da eficiência com simplicidade.
 

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