A câmera de Linduarte
Não foi de graça ou por cândida intuição que Linduarte viu algum futuro ao colocar, num lajedo ofuscante e estéril para a vida real, a câmera rudimentar que produziu Aruanda. O registro das lentes obedecia à “experiência de humanidade” de um impenitente iniciado na literatura, no jornalismo, na cultura do seu tempo e na de todos os tempos.
Linduarte, militante da crítica cinematográfica, atividade febricitante no Brasil e no mundo daqueles dias, não era apenas um encantado pela sétima arte. Sua consciência cultural já vinha carregada de idéias e sentimentos a que nenhum espírito sensível poderia ficar imune, desde a leitura de Os Sertõe e de quase todo o romance nordestino, à pujança romanesca dos clássicos antigos e modernos lançados ao mercado pela editora Globo.
Linduarte e Geraldo Sobral, três anos mais velhos, impuseram-me uma mudança de rumo. Cheguei com as Primaveras de Cassimiro, ( e por que não dizer “fitando os Andes” de Castro Alves, vindo a cair na real à força dessas companhias. Sobretudo de Geraldo, mais radical em suas leituras. O único romance que eu tinha lido, até então, nas constava das considerações dessa dupla. E me vi obrigado a ler um Macunaíma que nunca absorvi.
Em 1952, trinta anos depois da revolução modernista, é que vim descobrir, ainda em tempo, que a poesia não dependia necessariamente de rima. Por outro lado, a poesia que não rimava e que saia no Correio das Artes de Edson Regis não me parecia estar com nada, até que apareceram Vanildo e Jomar.
Linduarte e Sobral ensinaram-me a questionar. Sobretudo com meus botões.
A febre do cinema, arte nova que se confundia com o gosto de todas as classes, independente do nível de cultura, não podia deixar imunes sensibilidades como as que se manifestavam em todos os pontos de leitura e de discussão. Fosse no auditório do Liceu, da API ou nos bancos da praça João Pessoa, onde se via bem o que não se via nas telas. Linduarte, Vladimir, Ipojuca, Paulo e a assistência que se revigorava ao fim das redações.
Uma câmera precária focada num mundo mais precário ainda, numa hora colorida de superluxo das telas, só podia proceder como fruto de uma consciência do mundo, de uma mundividência como diriam os mais sofisticados.
Com uma segunda realidade, formada nos livros e nas telas, Linduarte era um homem prático. Sabia mexer com o carro velho, um “Prefect” para o qual não havia mecânica nem peças, e sabia usar a máquina fotográfica das suas reportagens. A imaginação encontrou nele o caminhante prático.
Companheiro de fumaças literárias, de batente de jornal, de convívio familiar, nunca levou em conta os meus elogios. Nem quando vibrei com sua entrada na História do Cinema de Georges Sadoul. Vê-lo morto me fez lembrar Sobral, que saiu na frente, e cair um pouco nesta solidão super-povoada de estranhos. Estranhos que falam com a gente, até nos abraçam, e a gente não sabe na verdade com quem está falando.
