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Gonzaga Rodrigues

Espaço que revela, através de crônicas, acontecimentos do cotidiano do povo nordestino com um misto de política e literatura.

Os Invasores

Em fevereiro de 1951, a partir de quando foram me deixando ficar em jornal, a redação de O Norte era uma colméia provinciana. Funcionava na parte térrea de um sobrado que o Bradesco derrubou depois.
Atuávamos num salão único, sem distinção de relacionamento entre gráficos e jornalistas.
O protagonista da elaboração do jornal e de sua repercussão era Seu Leal, tio alto e empertigado de Wills e Teócrito. Ele secretariava, editava, redigia o editorial e assinava a “Nota do Dia”, sua coluna. Tudo isso de janelas abertas para a rua, o povo passando e acompanhando todas as fases de feitura do jornal. Havia os que paravam para cobrar detalhes que faltaram à notícia do dia ou perguntar pelas que não saíram. Não saíam as que botassem defeito no governo de José Américo.
As fontes de notícia eram, sem muita diferença de hoje, a Assembléia, o Palácio e a Polícia. O resto ( este, sim, mudou muito) eram secções de perdidos e achados, queixas e reclamações miúdas, esporte, graça alcançada e anúncio fúnebre. As nacionais e internacionais vinham fornecidas pela radiotelegrafia de A União.
Não havia pautas. A reportagem acontecia como os fatos, ao sabor do faro ou talento do repórter. Repórteres mesmo, nesse tempo, eram José Souto, Juarez Feliz e Helio Zenaide, este como colunista político. O público participava da redação, comprando o jornal no dia seguinte mais para conferir do que se informar.
De repente, chegam uma pessoas estranhas, muito por cima, que invadem o jornal, vasculham papeis e máquinas e se apropriam dos nossos assentos. Não pedem licença, só dão ordens. Eram os Associados da grande e poderosa cadeia que chegavam. O negócio fora feito lá por cima, entre o senador Veloso Borges e Chateaubriand, sem qualquer aviso prévio ao pessoal do piso de baixo.
Deu-se, então, um choque de civilizações, a invasão cabotina de “O Jornal” do Rio, o líder da cadeia, reduzindo-nos a basculho. Nossos líderes desbancados, sobrando em tudo. Seu Leal, o mestre venerando, sem mais birô. Eram o dr. Dimas, dr. Osmário, dr. Montalverne, dr. Alencar, dr. Mota, nomes a que o nosso despeito ia botando apelido: dr. Sporroni, dr. Casaca Preta e outros menos publicáveis. Era uma briga entre quem mais pudesse demorar a mão nos bagos do dr. Calmon.
E haja intervenções que se repetiam com gente sempre desse naipe, alheia ao espírito da terra. A última, há dois anos, veio com ordens de Brasília para fechar o jornal. Conseguiram, após cinqüenta e oito anos de resistência encarnada, nessa última batalha, pelas Naras, pelos Nonato Guedes e outros continuadores da obra geral de resistência que começou com a invasão da fundação da colônia portuguesa de que Pernambuco foi sempre o preposto.