A cidade literária
Muitos dos que leram o “Tambiá da Minha Infância”, de Coriolano de Medeiros, não devem ter dado a devida atenção ao prefácio de Francisco Pedro Carneiro da Cunha à 1ª. edição de 1949. Provavelmente, também, o prefaciador da 2ª. edição, Antonio Barreto Neto, de quem, por ter sido leitor sensível , imaginava-se não passar batido diante da surpreendente riqueza de informação e de estilo num texto de poucas páginas de mais esse Carneiro da Cunha escritor.
O que mais chama a atenção no prefácio é a riqueza de informação cultural, sobretudo literária, da Paraíba pré-republicana. Essa informação não freqüenta assiduamente os nossos bosquejos históricos.
O cenário da capital paraibana descrito nessas poucas páginas de prefácio é bem diferente do que emerge, de passagem, de um dos romances de José Lins do Rego, que vê com menoscabo justificável o ambiente verdadeiramente provinciano da “vila”, como a capital era vista pelos partidários de Cristiano Lauritzen, prócer poderoso de Campina Grande. A capital reduzia-se a um pouso onde os coronéis apenas mantinham casa para o veraneio ou a educação das filhas que sobravam dos colégios do Recife.
No entanto, a par da visão lírica própria da reminiscência, sobressai um ambiente afinado com as leituras da voga européia. O olhar do prefaciador traz as luzes de notáveis ufanistas urbanos, com a Paris de Fustel de Coulanges, de Chateaubriand, de um tal Georges Lenotre que o tempo apagou, dos “Últimos dias de Pompéia”ou dos romances de Victor Hugo e de Balzac. Era um olhar sensível a essas leituras, com o qual o dr. Alexandre, pai de Augusto, não era uma exceção. Vamos encontrar esse clima culto na redação de “O Commercio” de Artur Achyles, descrita rapidamente tanto por Pedro da Cunha como pelo próprio Coriolano. Redação que abrigou o poeta do EU muito antes de sua consagração de público e de crítica.
Começa, com o livro de Coriolano, a declaração de amor das letras a esta cidade. O genial Augusto não se motivou a isso. Passa por seus versos uma cidade genérica, mais dos vícios do que da lírica, salvo em alguns versos da primeira fase, já tristes, nuns dos quais passam monges e amores frustrados à sombra do convento de São Francisco e da Rua Direita, rua que não devera nunca ter trocado de nome. Para o Duque teríamos a rua da Cadeia, a atual visconde de Pelotas.
Já em Perilo d’Oliveira vamos encontrar aquele “Ave cidade, senhora nossa”. Mas louvação mesmo só vem acontecer com o “Tambiá” de Coriolano e o “Roteiro” de Walfredo, coroados , finalmente, com o “Itinerário” de Jomar. Como se não bastasse, vem a crônica de Luiz Crispim, desde “O arco e a fonte” ao canto final “Caminhos de mim”, com os quais o cronista-poeta parece se arrimar estóica e liricamente para atravessar o calvário dos seus últimos dias.
