Quem foi visto na Lagoa
Esconde-se no magistrado Carlos Augusto Romero, na distinção natural de sua presença educada e serena, e até nas suas aversões, um lírico que não perde ocasião de botar sua flor nos momentos propícios ou mesmo imprevistos.Flor como a que botou Graciliano Ramos surpreendido por um quipá alastrado num jardim da Geórgia, em sua visita ao socialismo real stalinista. Regime, esclareça-se, da ojeriza de nosso cronista.
Na compreensão do major Graça, o que danado fazia ali, polvilhado de neve, um vegetal conterrâneo do agreste alagoano? E acudiu o diálogo animista a partir do encantamento do escritor.
Aqui, Carlos Romero caminhava pelas bordas do parque de seus afetos (já se vão trinta anos!) e dá com ninguém menos que o maestro Eleazar de Carvalho, regente da Sinfônica Brasileira, na contemplação do nosso melhor cartão-postal. Num tempo em que se vislumbrava no paraibaninho comum, do meio ordinário, vocação suficiente para pular a lama do mangue ou descer a ladeira do Varjão e entoar, num cenário clássico de elite, o coro monumental da Nona Sinfonia de Beethoven.
Burity achava isso possível e fez essa hora. E teve a adesão do maestro cearense de regências internacionais, mestre em Nova York, varias vezes titular da Sinfônica Brasileira, para reger essa possibilidade.
O cronista das nossas sutilezas espirituais, dos achados da alma, nos passa a sua emoção numa crônica de terça-feira ao seu estilo.
Começa assim: “Faz algum tempo, eu o vi, de pé, na porta de entrada da antiga loja Mesbla, ali na Lagoa, simples de traje e de espírito, mas sem perder a elegância, quando tive a coragem de abordá-lo: `O senhor é o maestro Eleazar de Carvalho?`. Num meio sorriso ele apenas disse: `Sim, às suas ordens.”
Parágrafos adiante, retoma dom Carlos: “Fecho os olhos, me desligo do meio ambiente, esqueço a poluição sonora desta cidade, e vejo, através da imaginação, a majestosa fisionomia do grande maestro regendo a Nona Sinfonia de Beethoven , lá no Espaço Cultural, que Burity construiu para espanto dos negativistas”.
Há crônicas, rebentos de jornal que, pela felicidade como vêm ao mundo mereciam, como merecem, o prodígio da extensão virtual, liberta do papel e da exclusividade. Outro dia A União perdeu os velhos limites para espalhar etérea uma elegia de Martinho Moreira Franco à alegre eternidade de Celly Campelo, no seu Banho de lua.
Agora, veio de internauta o aviso, a advertência para que eu não deixasse de ler a crônica de Romero: “Ver e ouvir Eleazar de Carvalho era um privilégio- nos faz lembrar. E quanta dignidade profissional. A Nona, regida por ele, decerto, encantaria o próprio Beethoven”.
