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Gonzaga Rodrigues

Espaço que revela, através de crônicas, acontecimentos do cotidiano do povo nordestino com um misto de política e literatura.

Joia de bem-querer

Gustavo Moura é um menino de 52 anos que brinca, sem outro entretimento, de fotografia. É dos Mouras do velho Anibal, que escarrava da janela do Liceu Grande para a mais larga das nossas avenidas o que pudesse sobrar das aulas dos persas, gregos e romanos até esbarrar na queda de Constantinopla. A aula que dava, sem dar folga à concentração da molecada, fazia-a acompanhar até onde ia cair o esputo, tirando fino no bronze de Getulio. O velho perpetuou-se na memória culta como patrimônio imaterial do ensino do seu tempo. Toda a sua grandeza de espírito ainda sobrou para a gente amável dos filhos, de Hugo, de Aníbal, de Artur, remanescendo no olhar seletivo da boa arte de Gustavo.
Gustavo Moura não quis ser doutor convencional. Preferiu a kodak monocrônica, que certamente lhe deram, sem muita aposta, num dia de aniversário. Fez a luz e “achou bom”. E não quis fazer outra mais. Sequer trocou de máquina.
E saiu copiando em preto e branco o que só a memória, a imaginação, o prodígio das nossas tintas interiores é capaz de colorir. O espectro de cores que tingiu a nossa memória original e que se conserva em infinidade de matizes é que vai chegar com o tom perfeito no preto e branco que a máquina de Gustavo apanha e revela. A transfiguração é real, porque pintada sem artifícios. E o resultado é a cidade verde que a nossa consciência recolheu, suprindo o desmate atual. Um verde que não chegou para o prodígio das lentes digitais.
Gustavo partiu do acervo deixado por Hudson Azevedo e a ele confiado. Hudson era um fotógrafo retraído que fazia a apanha na maior discrição possível. Escondia-se para tirar a foto. Educado, fino, nunca atravessou a cena para fotografar. Depois é que a foto resplandecia com seus figurantes. Documentou boa parte do governo de José Américo e depois foi requisitado para a Reitoria.Tinha um foto avizinhado com os consultórios de Humberto Nóbrega e Arnaldo Tavares, na Guedes Pereira. Mas nem expunha o seu quadro de fotos como faziam os outros. Afeiçoou-se a Gustavo Moura e, antes de morrer, autorizou-o a aproveitar uns negativos velhos deixados numa caixa. Gustavo foi ver e descobriu, em preto e branco, o quanto foi verde esta nossa Filipéia. . A própria Guedes Pereira encobre-se na enfieira de cássias. Numa iluminação de meio dia tropical.
Quem foi que disse que o Viaduto de Damásio era um entulho? Veja à luz verdadeira dessas fotos e repare na solução de tráfego que o viaduto ofereceu à meia-embreagem da cabeça da ladeira e ao próprio passeio. Uma praça bem recortada com lugar para a conversa baixa e o discurso. E tudo (estou vendo daqui) numa composição harmônica com o entorno. Depois é que abandonaram a praça, como abandonaram a Independência, a Lagoa, tudo o que as boas mãos gestoras têm construído nesta cidade. Construir tem sido fácil, desde que se faz menino, manter ou educar é que é ela.
Ainda falarei desse primor de álbum de Gustavo e Hudson, texto de Silvio Osias, joia de bem-querer que aclara a luz dos meus olhos.