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JP Debates

Espaço dinâmico reservado para a opinião dos leitores, que abordam fatos dos mais variados transitando com a mesma desenvoltura e responsabilidade entre o cenário político, a educação e outros temas.

Desenvolvimento municipal

José Dirceu


Há uma questão crucial latente nas eleições municipais: como as cidades poderão adotar medidas para potencializar o desenvolvimento nacional e aproveitar o bom momento do país para também promover o desenvolvimento local?
Esse debate nasce do diagnóstico de que as cidades que conseguiram avançar mais nos últimos anos foram as que melhoraram o nível e a forma de dialogar com os governos estaduais e, em especial, com o governo federal. Portanto, os próximos prefeitos precisarão ter como característica a capacidade de conectar as cidades com os rumos do desenvolvimento nacional.
Desde que assumiu a Presidência da República, o PT vem ampliando e aperfeiçoando esses canais de comunicação, conferindo aos municípios voz e participação na construção de políticas públicas como não havia anteriormente. A criação de um Ministério das Cidades e a valorização de movimentos como a Marcha dos Prefeitos a Brasília são exemplos.
No campo dos programas federais, um dos maiores exemplos da relevância que as cidades passaram a ter é o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), cuja dinâmica exige uma parceria entre o plano federal, que disponibiliza os recursos, e as prefeituras, que precisam elaborar projetos consistentes e qualificados para obterem os recursos.
Tem sido cada vez mais frequente difundir que os problemas e soluções do país são de responsabilidade do governo federal, quando em muitos casos são municipais ?como a questão da Habitação, por exemplo, em que há o programa ?Minha Casa, Minha Vida?. Isso também decorre de um comportamento diferente do governo federal, de encarar os problemas como questões da sociedade.
A caminho da realização de grandes eventos como a Conferência Climática Rio+20, a Copa-2014 e as Olimpíadas-2016, o Brasil encontra hoje respaldo federal para o enfrentamento de desafios municipais. Isso é evidente na questão do legado, objetivo maior de sediarmos esses eventos: mobilidade urbana, turismo, qualificação profissional, melhoria da infraestrutura, sustentabilidade, enfim, há uma série de avanços previstos que passam pelas gestões das cidades.
Tais questões apresentam-se claras para o PT, que tem ressaltado a importância de as cidades se colocarem na agenda nacional, assim como as questões nacionais foram introduzidas na agenda municipal. Trata-se de construir com a população essa visão estratégica do papel dos municípios. Se o debate eleitoral for feito sob essa perspectiva, ganhará toda a sociedade com o alto nível de discussão e reflexão sobre os problemas urbanos.
Por essas razões, a expectativa é que o PT e os demais partidos que apoiam o governo da presidenta, Dilma Rousseff, tenham participação decisiva nas eleições e consigam eleger mais prefeitos. Porque a população espera que as próximas administrações municipais tenham o mesmo potencial de transformação positiva que a gestão que vem sendo conduzida no plano federal. Espera, enfim, que o desenvolvimento entre definitivamente na pauta municipal.

Credibilidade é afirmação

Aucélio Gusmão


É a base da liderança. De vital importância, a maneira como foi conquistada. As pessoas precisam acreditar em seus líderes, antes de segui-los, ou nada acontece.
Poder tem aquele que sabe juntar, que sabe unir o que está separado, que tudo faz colocando as pessoas como prioridade. Imaginem assim “tanto na solução como no conflito, haverá pessoas no meio”. Nas emoções que vivenciamos e recordamos, bons e maus momentos, as criaturas humanas estão envolvidas.
As mágoas e as feridas têm rosto e este rosto tem um “nome”, pertence a alguém, provavelmente que não agrada. De bom alvitre observar a personalidade de quem você apostou, qual o passado, onde de bom grado participou, se dedicou suas mentes e seus corações à causa comum.
Alerta geral, nunca esquecer: as pessoas não são contra você; apenas são a favor delas. As boas pessoas amam pessoas e usam coisas, enquanto as más pessoas amam coisas e usam pessoas.
Todo sistema econômico se baseia em confiança, em credibilidade. Não existe base racional, acreditam sim, nas pessoas e nos números que mostram. Na verdade, ganho credibilidade quando consigo suprir diversas qualidades essenciais. Preciso ser íntegro, e para tanto ser sincero, ter caráter e defender minhas convicções. Para Elio Gaspari “esperteza quando é muita, come o dono”.
Aqueles que são claros em relação a seus valores e convicções, assentam a pedra angular de uma firme estrutura moral e ética, merecem e conquistam a credibilidade.
Descobrir sua personalidade é a primeira disciplina de seu caráter. A seguir vem valorizar seus liderados. Para conquistar e manter credibilidade é mandatário que os líderes prestem atenção ativa às necessidades, os interesses objetivos e aspirações, muitas vezes conflitantes de seus liderados.
A coragem não pode faltar. Ela sustenta todas as outras virtudes. O corajoso é confiante e destemido, geralmente trabalhador e lutador. Costuma ser prestativo, gosta de ajudar o próximo. Não recebem crédito aqueles que não são confiáveis, responsáveis nas suas ações e posicionamentos. Tão pouco aqueles que não são determinados, decididos e definidos nos seus propósitos. A imparcialidade significa bastante frente à credibilidade. Ser justo, sem preconceitos, disposto a desculpar sempre presente.
Otimismo é esperar o melhor, confiança, saber lidar com o pior. A competitividade existe, é real, nem sempre honesta. Thomas Bernhard em sua A força do hábito diz “estamos sendo continuadamente descartados pelos outros e a cada dia temos que nos olhar de novo, juntar os pedaços e nos reconstruir”.
Honestidade é tudo. Sinceridade, lealdade, integridade e confiança são seus arcabouços. Sem honestidade não existe credibilidade. Caem os valores morais, arruínam o caráter.
Como definir afinal credibilidade? Eles fazem o que dizem o que irão fazer? Eles praticam o que pregam? São coerentes com o próprio discurso? Seus atos correspondem às suas palavras? Persistem nos objetivos assumidos e os levam a termo? Mantém suas promessas?
O perjúrio começa onde o testemunho acaba. É proibido mentir ou sofismar. O segredo da felicidade está na liberdade e o segredo da liberdade está na coragem (Tucídides – Grego).
Uma vida sem sonhos e objetivos não vale a pena. Para alcançá-los, há necessidade de enfrentar disputas, e a cada momento implicará em uma escolha. Não devemos esquecer que o desejo de alcançar o sucesso na vida, de realizar sonhos, é humano e universal e a experiência nos ensina que aquele que se empenha e torná-los realidade sempre é motivo de realização e louvor entre os homens.
Busque todos os dias, todas as horas e em todos os instantes, conquistar credibilidade.
 

Legislador negativo

Dom Genival Saraiva


Constitucionalmente, cada Poder da República tem competências próprias. Conforme cientistas políticos e legisladores, o Supremo Tribunal definiu matérias de relevância para a vida da população que são consideradas de competência do Poder Legislativo. Um respeitado membro do STF esclarece: “O STF como legislador negativo: a ação direta de inconstitucionalidade não pode ser utilizada com o objetivo de transformar o Supremo Tribunal Federal, indevidamente, em legislador positivo, eis que o poder de inovar o sistema normativo, em caráter inaugural, constitui função típica da instituição parlamentar”. Segundo a ciência jurídica, o STF exerce a função de “Legislador negativo” que tem dois aspectos: (a) “dever do STF de afastar as normas inconstitucionais (aspecto negativo)”; (b) “proibição feita ao Tribunal em criar e inovar o sistema jurídico (aspecto positivo).”
Na leitura da CNBB, o STF foi além da sua função de “Legislador negativo”: “Os ministros do STF consideraram os anencefálicos como natimortos, portanto sem direitos, sem a proteção da lei: não chegam a ser pessoas, por serem vidas inviáveis. O Código Civil diz que a personalidade jurídica começa com o nascimento, mas salvaguarda os direitos do nascituro. Neste caso, porém, não há direitos do nascituro.”
Diante dessa decisão, a CNBB orienta os fiéis e a sociedade: “1. A Igreja se preocupa com a necessidade de difundir uma mentalidade que acolhe e protege a vida nas suas diversas etapas e, especialmente, a vida que se inaugura no momento da concepção, inclusive quando é afetada por alguma anomalia. (...). 2. É possível usar a linguagem da fé e a Palavra de Deus para dialogar com ambientes secularizados, mas é importante aprender a usar a linguagem da ciência, da razão retamente usada, podendo argumentar num plano que eles podem compreender. 3. Vale a pena trabalhar para que o Projeto de Lei, conhecido como ‘Estatuto do Nascituro’, que está tramitando no Congresso, seja aprovado para evitar a ampliação dos casos de aborto legalizado. 4. Argumentos usados pelo STF serão em breve usados para defender a eutanásia. Torna-se visível a penetração de uma mentalidade utilitarista e mercantilista que não quer despesas e nem sacrifícios. (...). 5. Pode-se estimular a criação de políticas públicas que organizem a prevenção da mero-encefalia com uso de ácido fólico por parte das mulheres em idade fértil. 6. A cultura dominante tem as marcas da banalidade e da vulgaridade.(...). Por isso, procura formas de afastar qualquer drama: abuso de bebidas alcoólicas, drogas, etc. ou atalhos para eliminar um filho com anomalia. Há outras maneiras de enfrentar o drama, por exemplo, com a certeza de que “o amor é mais forte do que a morte” (Ct 8, 6), na companhia daquele que venceu a morte e com a solidariedade e o apoio dos amigos. (Cottolengo, Madre Teresa, Irmã Dulce dos pobres). 7. Procurar associações e organizações de leigos da área médica que possam requerer a aprovação de lei que regulamente a norma constitucional relativa ao direito à objeção de consciência, para proteger os profissionais que se recusam a participar da prática do aborto. 8. Promover entre professores e estudantes das Ciências Biomédicas, especialmente das Universidades Católicas, seminários, dias de encontro e estudos a respeito da profissão médica e/ou paramédica e dos atentados à vida.”
Com essas orientações, a Igreja Católica, que nunca prega a anomia, contribui para a formação de uma mentalidade em defesa da vida.
 

Neiva, Cidadão do Mundo

Nagib Jorge Neto*


Nossa geração conviveu com Neiva Moreira, no Maranhão e no país, ao longo de sua atuação como jornalista e político, engajado nas lutas contra a opressão e a injustiça social. Nos anos 50, do século passado, então repórter de O Cruzeiro, Neiva passou a integrar a oposição aos grupos que detinham o poder no Maranhão, as oligarquias que se valiam da fraude e da violência para intimidar e esmagar os opositores. Na época, São Luís era uma cidade de conflitos, greves, indignação, sendo vista no país como “Ilha Rebelde”, rebeldia que entusiasmou o jovem repórter e iria marcar seus discursos, textos, sua visão de Estado e país.
Então ajudou no avanço das forças de oposição e ganhou dimensão nacional como político e líder de sua geração, ampliando a luta com os jornalistas Amorim Parga, Franklin de Oliveira, José Louzeiro, Reginaldo Teles e o general Lino Machado. Logo depois contribui para formar jornalistas comprometidos com os ideais de liberdade, democracia e justiça social, com a fundação do Jornal do Povo, que reagia às posições tímidas da imprensa da época. No período também lutou para ampliar as bases da oposição com lideranças como os médicos José Henrique, William Moreira Lima e Maria Aragão, os deputados Joaquim Mochel, José Sarney, José Bento Neves, Sálvio Dino e Erasmo Dias, integrantes das Oposições Coligadas.
Daí em diante, Neiva persistiu no combate às causas do atraso no Maranhão e no país e na defesa dos movimentos sociais. Essa posição cresceu mais tarde no Congresso Nacional, como líder da Frente Parlamentar Nacionalista, defendendo os recursos e empresas nacionais, postura que manteve após sua prisão e exílio no golpe de 1964. Então exilado, o menino pobre de Nova Iorque, cidade da área do Parnaíba, no Maranhão, vai além e passa a ser - na expressão feliz da ex-deputada Helena Heluy - um Cidadão do Mundo, editando uma revista que marcou época - os Cadernos do Terceiro Mundo. Naquela fase, Neiva Moreira defendeu os países do terceiro mundo, os anseios de libertação, liberdade e justiça social.
Nossa geração acompanhou essa trajetória e, no caso, fiz parte do Jornal do Povo, ao lado de Bandeira Tribuzzi, Ubiratan Teixeira, Manoel Lopes, Benito Neiva, Clóvis Sena, Joaquim Itapary, Benedito Buzar, Hubert Macedo e José Mário Santos. No período integrei sua assessoria na Frente Parlamentar Nacionalista, e depois de 79 - após sua volta do exílio - fui repórter de O País, sempre atento aos seus escritos, lições, marcantes em São Luís, também em Brasília, onde atuava com Ariosto Neiva nos encontros da Frente, com Sérgio Magalhães, Adão Pereira Nunes, Paulo de Tarso, Leonel Brizola, Fernando Santana, Cândido Aragão e Plínio de Arruda Sampaio.
Depois houve encontros no Rio, Recife, São Luís, com enfoque em sua ação no PDT, divergências de Arraes e Brizola, e lembranças de fatos, avanços e recuos. Na última conversa, Neiva afirmou em tom de brincadeira - da prisão para o Palácio. Um caminho penoso – observei - mas coerente com seu discurso, ações, atos, sempre generosos e solidários. Isto foi em 2008 e em abril deste ano estive na Ilha, numa UTI de hospital, tendo a impressão de despedida de um mestre, que mantinha no rosto marcas de idéias e convicções permanentes. A sua morte, pois, aos 94 anos, no dia 10 deste mês, é uma perda para o povo brasileiro, a política e o jornalismo, que enriqueceu com suas reportagens, artigos, lutas, um patrimônio que deixa para o Maranhão e o nosso país.

Educação e expectativa

Fernando Leal


Algumas experiências médico-científicas visando testar a eficácia de certos medicamentos no tratamento de doenças, fazem uso do chamado efeito placebo. Por ele o paciente, imaginando estar tomando um medicamento milagroso, que na verdade não passa de uma simples pílula de farinha ou de açúcar, o placebo, passa a apresentar melhoria no seu estado de saúde. Tais resultados estão, na verdade, associados a uma mera sugestão psicológica. Ou seja, a ação que se obtém está mais ligada ao lado emocional do que propriamente ao estado clínico do paciente.
Na relação entre o médico e o seu cliente, a expectativa gerada pelos resultados de um novo tratamento pode gerar consequências diversas. A forma como vê o paciente, como interage com ele, os seus cuidados, os procedimentos médicos, tudo isso pode ser determinado por essa expectativa, o que acaba interferindo no resultado do tratamento. A esse fenômeno, muito comum de acontecer entre as pessoas, dá-se o nome de profecia autorrealizável, ou efeito pigmalião.
Apresentado dessa forma parece coisa que diz respeito apenas aos cientistas. Mas, em nossa vida diária, estamos sujeitos a esse fenômeno muito mais que imaginamos. A sua relação, por exemplo, com um novo subordinado que você gostou do jeitão dele, será que é a mesma com aquele iniciante que, de cara, você achou que não ia dar certo na empresa? O seu cuidado, a tolerância, a vontade de ensinar e paciência, serão os mesmos com os dois? E a sua reação tanto ao erro quanto ao acerto de cada um deles, será igual? Estudos feitos tanto no campo da sociologia (Merton), como da psicologia (Rosenthal), indicam que não. Eles afirmam que, o fato de alguém prever algo sobre o outro (vai ou não dar certo), acaba por direcionar o seu comportamento, mesmo que de maneira inconsciente, involuntária, para que aquela profeciase realize.
Na relação professor aluno esse ato profético também é muito comum. O docente, ao iniciar o trabalho com um novo grupo, recebe vários dados sobre esses pupilos. Muitos que lhes são passados, outros, inferidos. Assim acontece com as informações sobre procedência étnica, nomes e sobrenomes, sexo, aspecto físico, conhecimento de parentes, amigos comuns, status socioeconômico, êxitos anteriores, conduta do aluno: tudo isso se transforma em fontes de informações importantes do professor. A partir delas começam a ser formadas expectativas que podem influir na conduta do mestre em relação àqueles alunos. Cordialidade, qualidade da interação, informação sobre o aprendizado, tipo de reforço, elogios e críticas, são formas como essas condutas se manifestam. Como resposta tem-se o comportamento do aluno que tende a se revelar coerente com o que se espera dele.
Esta é uma informação que não pode faltar no repertório de professores e professoras, ajudando-os a direcionar os atos em sala de aula, já que repercute no resultado dos alunos. Sem esquecer que a ciência existe é para isso mesmo: dar cientificidade às ações que empreendemos.
 

EM BUSCA DA VERDADE

MARCOS SOUTO MAIOR


O que mais se faz nesse Brasil é criar novas leis ao sabor do respectivo momento que renda notoriedade aos idealizadores. Já cumpri-las é outra difícil coisa.
Pois não é que o projeto de lei 7673/2010 fora aprovado por votação simbólica, sem a devida conferência de votos, instituindo a “Comissão Nacional da Verdade” composta por sete membros, número cabalístico que integra o tempero da proposta presidencial!
De acordo com o texto divulgado publicamente, a comissão de nobres autoridades brasileiras seriam “de reconhecida idoneidade e conduta ética, identificadas com a defesa da democracia e institucionalidade constitucional, bem como com o respeito aos direitos humanos”, fato incontroverso.
O divulgado objetivo seria, então, a elaboração de um relatório, para apresentar conclusões sobre episódios com tortura, sumiço e morte de opositores ao regime militar brasileiro dos anos 1964 a 1988.
Detalhe intrigante fora a entrevista do petista José Genoíno anunciando que “nós temos hoje o referendo dos comandantes militares para votar o texto da Comissão da Verdade do jeito que está”, sob a coordenação do ministro da Defesa, Celso Amorim. Como se os chefes das armas brasileiras não exercessem cargos comissionados...
Em meio às discussões sobre a matéria, temos que os eventuais crimes praticados no período da ditadura brasileira carecem do poder de punir, ficando à margem do conhecimento do Poder Judiciário nacional. Assim, um esforço apenas histórico!
Além do mais, apenas dois anos de reuniões de pessoas ocupadíssimas, a exemplo do ilustre ministro Gilson Dipp do Superior Tribunal da Justiça, do diplomata Paulo Sérgio Pinheiro e do advogado militante José Carlos Dias, ex-ministro da justiça seria muito pouco tempo.
As provas reais a serem debruçadas nos colos dos doutos membros da referida comissão demandarão muito mais, que o próprio tempo de vigência da comemorada comissão verdadeira, para mostrar os seus primeiros resultados.
Nietzsche, didaticamente, ensina que a verdade é um mero ponto de vista. Ele não chega a definir e aceitar conceituação da verdade, porque entende não ser possível alcançar uma certeza sobre a definição do oposto da mentira.
Os filósofos admitem que a verdade seja a simplória interpretação mental daquilo que é valorizado pelos sentidos humanos e, confirmado ou não por outros seres humanos. O que é verdade para uns não é reconhecido por outros...
Não vislumbro a alardeada maioria do povo brasileiro no reconhecimento da “comissão da verdade” formada pela presidenta Dilma, até porque ela garantiu publicamente sua presunção de que “não tenham medo, eu vou ser bastante firme na área de direitos humanos”.
Os famigerados “anos de chumbo” do período militar brasileiro serão exumados da memória forçando um reabrir feridas saradas e já esquecidas, como a polêmica “lei da anistia”.
A desejada harmonia entre passado e presente, envolvendo atos políticos da direita e da esquerda, reacenderá momentos desagradáveis de desvio da ordem pública nacional para a discussão estéril e histérica das ideologias ultrapassadas.
“Comissão da Verdade”, instituição com rótulo de autoritarismo e demagogia bem merecia outra denominação com objetivos práticos e permanentes, até porque a verdade é sempre relativa.
 

CADÊ A TRANSPOSIÇÃO DO CHICO?

Ocino Batista


Quando o fanfarrão de Caetés prometeu tornar o semiárido nordestino um novo oásis, com a transposição das águas do Rio São Francisco, obra orçada, a princípio, em 4,2 bilhões de reais, e que seria entregue ao povo no final do ano de 2010, o nordestino se encheu de orgulho, agradeceu aos céus, finalmente um filho da terra olhava com bons olhos para esta gente sofrida, e lhes aliviaria o sofrimento milenar causado pela escassez de chuvas e ausência de água armazenada em seus reservatórios.
Era a redenção da nação nordestina, era Lula guiando seu povo pela terra árida, tal como fizera Moisés, ao libertar seus patrícios da tirania dos egípcios.
Foram muitos os palanques, inúmeros foram os discursos, entrevistas, reportagens, da mídia local e alhures, a água nem mesmo começou a correr e já jorrava dinheiro por todos os lugares, grandes empreiteiras já enchiam as burras de grana, o mega-projeto era tão grande quanto à ganância dos inescrupulosos de plantão, todos de boca aberta à procura de seu quinhão tal qual abutres em carniça. E o povo..., bem, o povo é uma página à parte, este rezava suas novenas, missas e cultos, em agradecimento ao grande presidente que faria a tão sonhada independência do Nordeste brasileiro, somente a sensibilidade de um filho da terra para erguer tão importante obra.
Veio 2010, o presidente fez sua sucessora, sempre com a mesma promessa de que, passados 500 anos de descobrimento, alguém teria a coragem e disposição de fazer a transposição das águas do Velho Chico, uma obra prometida há centenas de anos, mas que jamis saíra do papel.
E o povo? Bem, o povo nordestino, como dizia Euclides da Cunha, é, acima de tudo, um forte; e eu acrescento, forte e ingênuo, e esta ingenuidade é que o levou a acreditar nesta farsa de transposição do Rio São francisco. Agricultores, políticos, religiosos, pecuaristas, fazendeiros, peões e boias frias, todos no mesmo credo, na mesma reza, na mesma esperança, acreditando nas promessas políticas de um fanfarrão, que sabe jogar para a plateia como poucos. Porém, com o passar do tempo, a esperança transformou-se em decepção, a alegria virou tristeza, e onde deveria correr água, hoje correm lágrimas de pequenos agricultores, que veem suas parcas rês morrendo por falta de água.
Até mesmo o mais tradicional dos festejos do povo nordestino está ameaçado por falta de chuvas, o São João. O governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, que outrora gostava de festas populares, hoje arranjou uma ótima desculpa para não auxiliar as prefeituras do interior do Estado na realização dos folguedos. Diz Sua Excelência que, não tendo chuva, não tem São João, esquecendo que esta festa popular resiste há centenas de anos, mesmo diante das maiores estiagem registradas na história do Nordeste brasileiro.
Mas, como se diz “lá em nois”, quem quer fazer, encontra um meio, quem não quer, encontra uma desculpa. O governador optou pela segunda hipótese. Assim, não bastasse ao nordestino ter sido enganado com a vã promessa de transposição do Velho Chico, os paraibanos ainda serão privados de festejar a mais tradicional festa da região, o São João e o São Pedro. Muito embora, ainda possa fazê-lo indo até o vizinho Estado de Pernambuco, e curtir Caruaru, a Capital do forró.

Visão crítica

Aucélio Gusmão


Visão crítica é percepção de fatos e realidades. É a leitura interpretativa do discurso e das práticas.
Apostar na mesmice é acreditar que a vida corre sem mudanças, que o tradicional inspira segurança, esquecido o fato de que tal atitude não é verdadeira, mascara inclu
Imitar é bem mais fácil que criar; contudo, nada acrescenta, por repetir os mesmos caminhos. Verdades anteriores nem sempre resistem à contemporaneidade. Serviram e foram eficientes, mas as necessidades mudaram.
A “onda vitoriosa” tem levado muita gente ao dissabor. O “bem coletivo” não existe, pois as pessoas são diferentes. O que é construtivo e promissor para uns pode não atender outros, pode até desconfortá-los.
A verdade é que o mundo conservador cede importantes espaços ao mundo moderno. São novos valores que influenciam as pessoas de forma bem marcante.
Os hábitos e costumes foram bastante impactados. Os comportamentos, também. Muito do não aceito, discriminado até pouco tempo, é assumido e praticado sem nenhum constrangimento.
Duro mesmo tem sido para os grupos pré-transição. Estes não se rendem. Não foram convencidos, nem tiveram oportunidade e tempo para adaptação. Sentem-se violentados e agredidos nas suas maneiras de pensar e agir.
A visão crítica na modernidade é uma exigência, pois as realidades são bastante distintas e suscitam diversidades comportamentais.
Esta é a moral da história do barqueiro inexperiente e do peixe que nadava sempre contra a corrente. Indagado a propósito da “lógica” do peixe, até hoje o inadvertido barqueiro não conseguiu ouvir a resposta, pois seu barco mergulhou indefeso no despenhadeiro.
Sua avaliação foi plenamente inadequada, tanto que o tributo pago foi muito caro.
Perdeu a vida. Faltou visão crítica.
Sem dúvidas, uma visão crítica é antes de mais nada, uma visão analítica, onde as chances de um julgamento mais adequado se ampliam consideravelmente.

 

Fundamentos diferentes

Dom Genival Saraiva


Graças ao exercício da liberdade, há visões diferentes e posições divergentes, em tudo que é administrado pelo ser humano,. A humanidade cresce em razão da pluralidade de ideias, do confronto de opiniões e da soma de experiências. Encontra-se esse fenômeno, em todas as civilizações. Evidentemente, em nenhum setor da atividade humana se chegará a um ponto de equilíbrio sem um consenso básico, por parte das pessoas ou instituições envolvidas, em torno de determinada causa. Essa é a concepção filosófica de Hegel: diante de uma tese, contrapõe-se uma antítese; daí, obviamente, deve-se chegar a uma síntese. Isso acontece, no dia a dia, no diálogo entre pessoas e nas relações institucionais, sob pena de se estabelecerem distâncias que comprometem a relação interpessoal, a ordem pública, a paz social e o desenvolvimento econômico.
Na sociedade, há lugar para o pluralismo e para a diversidade; todavia, diante disso, deve haver parâmetros fundamentais que norteiem a posição que alguém ou alguma instituição deva tomar, em face da verdade. Na falta deles, a razão não prevalece, a ciência é relativizada, o poder é absolutizado e a religião é desconsiderada. Há sempre um perigo para a sociedade quando, por falta desses parâmetros, se adota uma posição ao sabor das circunstâncias, soprada pelos ventos do momento ou tocada pelo radicalismo intransigente. É muito comum, nesse caso, criar-se uma situação desfavorável à vida e à convivência.
A sociedade deve ter pleno respeito às instituições que existem, legalmente, no âmbito dos três poderes da República; embora discordando de posições adotadas, administrativa ou normativamente, os cidadãos devem observar o que foi disposto, legalmente. Por isso, por um ato do Poder Executivo, elevando o preço de determinado bem, os usuários estão submetidos a essa decisão; uma Lei aprovada na Assembleia Legislativa de um Estado obriga a sua observância por seus cidadãos; a posição do Supremo Tribunal Federal sobre determinada matéria não é mais objeto de recorrência judicial, por ser este ente a última instância de decisão. O cidadão ou a instituição pode não concordar, porém há uma obrigação de observar aquilo que foi definido.
Um caso emblemático foi definido pelo Supremo Tribunal Federal, recentemente: o aborto de feto com anencefalia, isto é, com má formação congênita. A boa ciência ensina que esse “defeito congênito” não retira do feto a condição de ser humano; é um ser em gestação que, ao nascer, tem uma curta existência, em consequência do problema no encéfalo, “o conjunto de órgãos do sistema nervoso central contidos na caixa craniana.”
A posição da maioria dos membros do Supremo Tribunal Federal, favorável ao aborto do feto nessa situação, está fundamentada em leis positivas e na sua formação jurídica, não considerando o princípio natural e também constitucional do direito à vida. O aborto, como tal, mesmo quando aprovado por lei em muitos países, transfere para a mãe o direito de decidir que o feto não deve nascer.
A posição do STF não é antítese à posição da religião sobre a vida, é antítese à tese da lei natural, segundo a qual o feto tem o direito à vida, mesmo com anencefalia. A posição do STF e a posição da Igreja Católica são divergentes, por fundamentos e visões diferentes.

Pilares da Empresa Familiar

Domingos Ricca*


Sem dúvida, afigura mais importante da empresa familiar é o fundador. O pai, o avô, aquele que desenvolveu e concretizou o negócio é exemplo a ser seguido pelos familiares. Ele possui todo o conhecimento sobre a empresa e sabe a melhor forma de solucionar cada tipo de problema corporativo.
Além disso, a imagem que a própria organização apresenta frente ao mercado está diretamente vinculada à personalidade do patriarca. Seus princípios e valores são incorporados no modo de atuação da empresa, direcionando o posicionamento que ela apresenta frente aos funcionários, aos clientes e à comunidade.
A identidade de uma empresa familiar está pautada em quatro pilares, que foram adotados pelo fundador no início do negócio. Garantir a perpetuação desses sustentáculos,transmitindo-os aos sucessores, é o principal meio para dar continuidade ao modelo de gestão consolidado. Os quatro pilares são: palavra/ credibilidade, perseverança, carisma/ liderança e cultura.
No início, a palavra é tudo o que o fundador possui como forma de garantia, ou seja, toda sua credibilidade fica pautada na concretização de suas ações. Se o sucessor estiver consciente da força que tem a palavra dada, a confiança que os clientes depositaram em seu antecessor também será transmitida a ele.
Além disso, é importante que a futura geração conheça a trajetória de vida do fundador, a fim de compreender a importância da sua perseverança e do seu esforço no desenvolvimento da empresa. Os herdeiros que sabem das dificuldades enfrentadas tendem a valorizar mais o negócio da família.
A liderança e o carisma são as únicas características que o patriarca não consegue transmitir aos seus herdeiros, pois a personalidade é moldada a partir da trajetória de vida de cada um. O herdeiro deverá, além de apresentar capacidade necessária para assumir a gestão, possuir e transmitir os valores que simbolizam a organização.
A palavra, a credibilidade, a perseverança, a liderança e o carisma foram os pilares de apoio na formação e expansão do negócio, formando a cultura empresarial. Um planejamento sucessório consiste em manter esse conjunto de valores, transferindo-os às próximas gerações.
Por este motivo, a presença do fundador, como fonte do conhecimento, é fundamental no processo sucessório. Ele é quem deve indicar a pessoa mais capacitada para assumir seu cargo na empresa, sendo ela da família ou não.
Esse sucessor fica responsável por levar adiante toda a cultura do patriarca, inclusive suas crenças e suas atitudes relacionadas aos desafios, aos sucessos e aos insucessos enfrentados. Assim, é possível perpetuar o negócio desenvolvido e consolidado, mantendo também a imagem da empresa no mercado.

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