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JP Debates

Espaço dinâmico reservado para a opinião dos leitores, que abordam fatos dos mais variados transitando com a mesma desenvoltura e responsabilidade entre o cenário político, a educação e outros temas.

Os carteiros

Fernando Leal


O meu aprendizado com as letras foi aperfeiçoado no feitio das cartas. Costumava passar as férias escolares numa cidade do sertão baiano e, por ser um dos poucos letrados na comunidade que frequentava, fazia as vezes de Pero Vaz de Caminha, levando e trazendo as notícias“da armada”.Nessas histórias, além dos fatos triviais tipo “lembranças para fulano e sicrano”, encarregava-me de recheá-las com o que a minha imaginação permitia. Sabe aquela história de quem conta um conto, aumenta um ponto? Assim era com o meu ofício de missivista.
Mas o tempo muda. A chegada do telefone celular, cujos números já ultrapassam os de habitantes no país, aperfeiçoados com a comunicação via internet, aí incluídos e-mail, Orkut, Facebook e outros, tornaram a tradicional carta quase que peça de museu. Mas é bom não perder de vista a história. Houve um tempo em que a figura do carteiro era o veículo utilizado para a difusão das cartas. Alguns o chamavam de estafeta, com a pronúncia no (ê), mas que eu tinha a maior dificuldade com o uso do som fechado. Refiro-me aos anos setenta, em que a capital João Pessoa era quase horizontal. Contavam-se nos dedos das mãos os edifícios que por aqui eram erguidos. E aí o trabalho das pessoas dos Correios era feito de casa em casa, entregando família por família, as suas correspondências. E como esses profissionais eram esperados... Tiro por mim, que tinha parentes morando na Bahia. Depois disso veio a privatização das comunicações telefônicas, que facilitou muito o contato por esse outro meio, mas que quase aposentaram as notícias por cartas.A importância desse instrumento foi captada pelas lentes de Walter Salles, no filme estrelado pela nossa grande dama Fernanda Montenegro, no filme Central do Brasil.
E como essas cartas facilitavam o contato entre as pessoas... As relações com esses carteiros tornavam-se tão próximas, como se fossem de uma pessoa da família. O que servia a região em que eu morava, o Conjunto Boa Vista, que com otempo passou a ser chamado de Bairro dos Ipês – que a propósito não tem um pé sequer de ipê - era Valter. Como a entrega era sempre feita à tarde, lá em casa era a parada obrigatória para beber um pouco d’água, para aliviar um pouco do calor. De longe, quando ia se aproximando, já víamos a sua cara de felicidade por saber que era portador denotícias lá da “boa terra”, que eram pra nós tão esperadas. As de meu pai eram as mais constantes. Pelo menos três vezes por semana, as suas notícias estavam por aqui. E das vezes que eu relaxava na resposta,logo uma carta de cobrança estava à minha porta.
Hoje,Valter não é mais carteiro. A última notícia que soube dele é que era advogado, andando pelo mundo do direito, em busca de outras notícias. Mas essas lembranças ficam.
 

CARNAVAL VERMELHO E BRANCO

MARCOS SOUTO MAIOR

O calendário de festas carnavalescas do clube era desenhado como a administração pública faz com o orçamento. Tudo previsto para não haver improvisação. Primeiro item sempre fora a escolha das duas orquestras que se revezariam na animação do salão do chamado “colosso de Miramar” ocupando o ginásio esportivo, quadras de tênis, restaurantes, jardins e áreas circundantes, até o dia amanhecer. A piscina era interditada para os bêbados não se afogarem!
Numa reunião informal, a diretoria do Esporte Clube Cabo Branco, sob a presidência do saudoso presidente Damásio Franca, Roberto Guedes Cavalcanti, Assis Camelo, Jáder Franca, Aguimar Dias Pinto, José Jacinto de Araújo, Kinca Brito além do cronista e outros, decidiu pela contratação do famoso maestro Cipó seus músicos e “chacretes”. Houve natural restrição das esposas dos sócios, quanto às mulatas cariocas que animariam o carnaval, mas os homens garantiram que seriam bem comportados.
Era do maestro paraibano Vilô, o privilégio da segunda orquestra contratada, lhe cabendo a responsabilidade de abrir a festa, com a doce missão de fazer bonito perante os cariocas. A empolgação era tanta que até apostas eram feitas entre os presentes para ver qual melhor orquestra. Deu sempre empate... As vinte e duas horas, os tarois e surdos marcaram o rítimo da introdução carnavalesca e, logo os metais abrindo com força ao som do frevo Vassourinha.
A maioria dos foliões tomava uma primeira dose, ainda em casa, quando não existia nenhuma campanha de “se beber não dirija”, para já chegar à festa com animação puxada à cerveja, rum ou uísque! A quadra esportiva que servia de palco para o carnaval ficava superlotado e os foliões rodavam dançando no sentido anti-horário. Ou seja, da direita para a esquerda possibilitando aos que ficavam nas mesas de pista e das arquibancadas lotadas, a passagem alegre dos cabobranquenses.
Duas horas de música carnavalesca, sob regência do maestro Vilô, aparecem os músicos cariocas que encostaram para substituir os paraibanos, mantendo-se na transição, apenas a bateria que dava ritmo com o frevo quente.
A expectativa era imensa, a ponto da maioria dos foliões pararem de dançar para ver e ouvir Cipó, sua orquestra e as mulatas. Depois das primeiras músicas executadas, a quase normalidade voltou ao salão, com exceção de meia dúzia de coroas que ficavam com a baba escorrendo pelos cantos da boca, vendo as chacretes rebolarem. Entre uma dose e outra, o enxerimento à distância deixavam as madames aborrecidas pela animação dos maridões estatelados pela coreografia das passistas e sambistas cariocas.
Até cutucadas e beliscões valiam sem os garanhões darem a menor importância do que as mulheres diziam mesmo com braços roxos... Em dado momento, o mais assanhado foi desafiado a levar um lenço para uma mulata passar entre as pernas e devolver o troféu.
Pegou a mulher pelo braço e saiu dançando alegremente até chegar bem em frente ao palco onde a orquestra tocava. Dobrou o lenço, deu um beijo jogando para ser apanhado por uma loura esvoaçante. Sem qualquer cerimônia, mantendo o ritmo e rebolado segurou-o com as duas mãos e passou sensualmente entre as pernas, várias vezes.
Os coroas entraram em incontido delírio e, como se diz hoje, “ai se eu te pego, delícia, assim você me mata.”
 

ALGUMA FELICIDADE

Luiz Carlos Amorim


Às vezes, sinto-me um pouco culpado por ter a felicidade de poder olhar nossa Xuxu deitadinha em sua manta, dormindo serena, sem sentir dor, sem se lamentar por quase não enxergar, por ouvir muito, muito pouco, por quase não ter mais faro.
O mundo lá fora anda conturbado, mas nossa pinscher de dezessete anos – quase 100 anos em idade de humano – é um bálsamo que ajuda a curar as feridas e traz ternura aos nossos corações. Nossas filhas já estão adultas, têm a sua própria vida, já saíram do ninho, mas Xuxu continua aqui, a nossa eterna criança.
É curioso que, nessa história dos filhotes que deixam o ninho, Xuxu também sente a falta deles, como se fossem os filhotes dela. Minha filha Daniela está em Lisboa, fazendo um Mestrado, mas Fernanda está mais perto, em Ribeirão Preto, onde mora com o marido. Então é mais fácil nos visitarmos, ainda que não muito frequentemente. Ela, Fernanda, veio passar o carnaval aqui e Xuxu fez a maior festa ao vê-la chegar. Não desgrudou mais dela e, quando ela saiu, ficou dormindo enrolada em uma manta da filha.
É uma coisa de química, de alma, sei lá, porque mesmo enxergando muito pouco, não sentindo cheiros e ouvindo quase nada, Xuxu reconheceu Fernanda imediatamente. É uma coisa que não dá para explicar, é apenas para se aceitar.
Xuxu esteve muito doente, recentemente, pensamos até que a filhota não ia mais encontrá-la quando chegasse. Mas ela foi medicada e está comendo bem de novo, está se recuperando e os analgésicos não deixam que ela sinta dor. É bem verdade que é difícil enganá-la, escondendo o remédio na comida, mas até agora estávamos conseguindo que ela comesse. Hoje ela recusou a comida com remédio. Vamos ver como é que fica. Porque é muito triste ter que segurá-la para colocar o remédio na sua boca e fazê-la engolir. Ela é muito forte, apesar da idade e, às vezes, uma pessoa só não consegue segurá-la.
A verdade é que o veterinário nos disse que não é recomendável segurá-la com força, porque podemos quebrar algum osso dela, pois ela tem reabsorção óssea. De maneira é preciso deixá-la com muita fome para ela aceitar a comida com o remédio misturado, pois ela deve perceber o gosto diferente, não muito agradável. E é tão importante que ela coma, quanto que tome os remédios, para ficar bem e para sair latindo pela casa, como se tivesse apenas quatro ou cinco anos.
Xuxu está velhinha, velhinha, mas ainda é a nossa bebê. Somos privilegiados por tê-la conosco, ainda, e isso nos faz feliz. Mais felizes ainda por ter nossa filharada por perto, ainda que esporadicamente.

Amizades que se desfazem

Aucélio Gusmão


O homem é aquilo que ele acredita. Fé cega é sempre um forte risco. Acreditar subtraído da capacidade de duvidar ou discordar, não é uma decisão acertada.
Existem pessoas que semeiam em torno de si algo parecido com mito, estrela, e exigem subserviência dos que os cercam. O subserviente é um adulador e este geralmente vive as expensas de quem ele adula.
Plantam uma forte impressão favorável, quando na verdade não passa de ilusão. Os homens deveriam ser aquilo que parecem! Não é importante ter, é importante ser: porque o que temos os outros podem tomar, mas o que somos, jamais.
Adulação é moeda falsa, que só circula graças ao vaidoso. Nunca se aprendeu nada com aqueles que concordam com tudo.
Os bons pensamentos são remédios infalíveis, indicados para todos os males. Algumas pessoas fazem antes, pensam depois e então - paciência - se arrependerão para sempre.
Aqueles que invejam outras, não tem paz. Por mais que lhes apontem erros, prossiga com seus acertos. A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.
Já tive oportunidade de ver pessoas que preferem um elogio inconsistente, não cabível, que até as prejudicarão, a uma crítica que o beneficie ou ajude. Exibição exterior é um pobre substituto para valor interior.
Dominação é opressão. O fundamento é seu consentimento. Não aceitar, imagino proteger sua dignidade. Toda pessoa que lesa outra, nos compromissos do coração, está fatalmente lesando a si próprio.
Há quem pratique uma estratégia perigosa e desprovida de escrúpulos, própria dos desesperados, qual seja: quando não conseguem convencer, procuram confundir, bem como uma pessoa ocupada em servir, nunca dispõe de tempo para cometer injúria ou ingratidão.
Por que se rompem amizades?
De vez em quando a gente precisa sacudir a árvore das amizades para que caiam as que não servem, são inconsistentes, como também, nunca tenham amigos que não lhe sejam iguais.
 

Linguagem da natureza

Dom Genival Saraiva


Desde os primórdios ao momento presente, a natureza fala de muitas maneiras à humanidade. Isso acontece quando se vislumbra a realidade macrocósmica, como ocorre, atualmente, com as investigações da astronomia no sistema planetário, e quando se constata essa realidade num organismo individual. É sempre muito fascinante o olhar sobre a natureza, naquela face que deixa grandes interrogações à inteligência humana e naquela que, embora conhecida, não deixa de falar, mesmo sendo lugar comum. Na verdade, não há como a inteligência não se deslumbrar diante da complexidade da natureza, não como não se curvar diante da sua obviedade.
Reconhecidamente, as coisas grandiosas e raras chamam mais a atenção, enquanto as cotidianas passam despercebidas, embora também tenham sua significação. Na literatura eclesiástica, essa leitura é feita com saborosa singeleza, como se pode constatar em dois textos. Ao comentar a obra Diatéssaron, de Taciano (séc. II), Santo Efrém (séc. IV) escreve: “A palavra de Deus é a árvore da vida a oferecer-te por todos os lados o fruto abençoado, à semelhança do rochedo fendido no deserto que, por todo lado, jorrou a bebida espiritual. (...) O sedento enche-se de gozo ao beber e não se aborrece por não poder esgotar a fonte. Vença a fonte a tua sede, mas não vença a tua sede a fonte. Pois, se tua sede se sacia sem que a fonte se esgote, quando estiveres novamente sedento, dela poderás beber. Se, porém, saciada tua sede também se secasse a fonte, tua vitória redundaria em mal.” Quanto ensinamento, quanta verdade em afirmações tão simples e tão óbvias. A natureza se encarrega de revelar a cada pessoa o grau de saciedade em relação a uma coisa tão corriqueira quanto beber água. O bom senso vai também falar à pessoa saciada, no tocante à necessidade de preservar a fonte, porque logo mais precisará procurá-la, para “matar a sede”. A água é um bem que deve ser objeto dos melhores cuidados por parte da população e dos governantes. Hoje, em muitos lugares, a fonte de onde jorra a água do consumo da população está sendo esgotada por suas agressões, através de fatores como o desmatamento e a poluição ambiental. A sabedoria popular revela que, em relação a essa matéria e a muitas coisas, as pessoas e as empresas erram porque vão “com muita sede ao poço” de seus interesses e de sua ganância, daí a falta ou a diminuição da água, em muitas regiões e cidades.
Por sua vez, São Bernardo (séc. XII), ao discorrer sobre a sabedoria, compara-a ao mel. “Na verdade, se encontraste a sabedoria, encontraste o mel. Não comas demasiado, para que, saciado, não o vomites. Come de modo a sempre teres fome. (...) Não te sacies para que não vomites e te seja retirado aquilo que pareces possuir, por teres desistido de procurar antes do tempo.” Em relação ao alimento, a natureza também fala, através do limite identificado pelo estômago. Com efeito, por melhor que seja o alimento, há sempre um limite no seu consumo. Nesse ponto, há um paradoxo na sociedade: muitos vão ao spar para emagrecer, enquanto outros vivem com estômago vazio, permanentemente.
O carnaval destes dias será um termômetro para leitura do comportamento humano. Segundo a natureza física e social, quem falará mais: o equilíbrio ou excesso no ato de beber e comer? o bom senso ou a extravagância no modo de conviver e de se divertir?
 

BRINDANDO COM SEUS ALGOZES

Ocino Batista

Sábado, 11 de fevereiro de 2012, quando as jovens Isabela Pajuçara, 27, e Michele Domingues, 29, dirigiam-se a uma festinha de aniversário na residencia dos irmãos Eduardo e Luciano Santos Pereira, no centro da Cidade de Queimadas, no cariri paraibano, estas moças, no fulgor da juventude, jamais imaginaram que estavam seguindo por um caminho sem volta, e, certamente, não tinham ideia de que seriam vítimas de tanta barbárie e covardia. Acreditando encontrar-se entre amigos, já que um dos acusados era ex-cunhado de uma das vítimas, de certo que as jovens estavam, como se diz “lá em nóis”, de peito aberto, e certamente festejaram alegremente.
Segundo relato policial, as amigas assinaram suas sentenças de morte quando uma das vitimas, reconhecendo a voz de um de seus algozes, retirou-lhe o capuz que cobria o rosto e identificou um dos criminosos, chamando-o pelo nome, o que foi presenciado pela segunda vítima, esta, mesmo tendo se atirado da caminhonete que as conduzia, não foi poupada, dado que seus algozes retornaram ao local onde a mesma encontrava-se prostrada ao solo e a executaram com quatro tiros. A segunda vítima, Michele, seria encontrada tempo depois, já sem vida, despida, amordaçada, punhos presos por algemas do tipo enforca-gatos, abandonada na carroceria do veículo que a conduziu.
A pergunta que não quer se calar: é seguro irmos a uma festa de aniversário na casa de pessoas conhecidas? Claro que é, se não confiamos nos amigos, vamos confiar em quem? Provavelmente foi este o pensamento das duas amigas ao serem convidas para uma festa de aniversário em um ambiente familiar. Isabela e Michele não desconfiaram da bondade, como ocorre com todos nós; a maldade é vista a olho nu, salta aos olhos, daí ser mais fácil fugirmos dela, mas a bondade não tem cara, não tem cor, somos levados por ela, não nos desperta desconfiança, nos pega de peito aberto, diante dela somos presas fáceis. Talvez tenha sido este o único pecado das jovens queimadenses, confiar na bondade dos amigos e, assim, comparecer à sua casa para o brinde de aniversário de um dos irmãos Santos Pereira.
É de se perguntar: voltamos ao tempo das cavernas? Não, senhores, estamos em pleno século XXI, somos civilizados, amamos nosso próximo como a nós mesmo, segundo a doutrina católica, somos todos criados à semelhança do Pai Criador. Somos? Quando vimos uma barbárie como essa de Queimadas, dá para acreditar que aqueles nossos irmãos, criados à semelhança do Filho de Deus, são realmente seres humanos? Alguém capaz de organizar uma trama diabólica, com requintes de crueldade, pode ser considerado realmente filho de Deus? Ou apenas chegamos ao fundo do poço, onde a vida humana não tem valor algum, onde se mata um ser humano com a facilidade com que se mata um inseto qualquer?
Até quando seremos capazes de suportar tanta insegurança, brutalidade, barbáries, crimes, drogas, prostituição, corrupção, ladroagem, pilhagem do erário, conchavos, conluios, negociatas, greve de servidores públicos, greve de moral, de decência, de dignidade, de capacidade de reagir, de lutar, de se impor? Até quando vamos ver as coisas acontecendo aos nossos olhos sem que movamos uma única palha para modificar a situação? Que a tragédia que vitimou Michele, Isabela e seus familiares e amigos nos sirva de alerta, afinal, as garotas foram tão somente a uma inocente festinha de aniversário, em um ambiente familiar.

O exemplo

Fernando Leal


Muitos devem ter acompanhado essa história repercutida tanto na mídia tradicional como nas redes sociais. Com o detalhe que foi mais edificante que a simples volta de alguém que estava no Canadá. Trata-se um rapaz de 21 anos, Vitor, que ao passar por uma praça, na Ilha do Governador, viu um grupo de jovens, como ele, agredindo um mendigo. Não se conformou com o que viu e foi defender a pessoa. No que deu todo mundo sabe: foi barbaramente espancado por cinco deles e teve que fazer várias cirurgias corretivas em diversas partes da cabeça. Foi tocante o seu depoimento na saída do hospital: não estava arrependido do que fez e faria tudo novamente. E disse mais: “Pelo menos uma, duas, três pessoas vão pensar alguma coisa, vão ensinar para os filhos deles. Não adianta pensar que uma atitude vai mudar o mundo, mas pequenas coisas vão mudando”. Vitor é filho de uma assistente social e, provavelmente, esses valores de civilidade e solidariedade tenham sido passados a ele, desde pequeno, por seus pais.
Mesmo sendo um assunto jábatido na imprensa, retomo esse caso para ilustrar um outro fato. Uma amiga deixou o carro estacionado na garagem do prédio em que mora. Para os que têm mais de um automóvel na área reservada internamente, há um local externo em que essas pessoas deixam os seus carros. Não tem o conforto da garagem coberta, mas as câmeras de segurança flagram toda a movimentação, dando certa sensação de tranquilidade.
Ao pegar o carro na manhã seguinte, minha amiga viu que ele estava batido na traseira, sem que ninguém tivesse comunicado o fato. Sabedora da existência de câmeras de vigilância no prédio, conseguiu identificar o carro, a sua placa e o horário em que havia ocorrido o fato. Foi fácil então localizar a autoria do estrago. Era uma senhora, já de meia idade, e com filhos na idade adulta, que ao chegar em casa com o carro avariado informou ter sido vítima de algum desconhecido quando estava estacionada em uma clínica. Essa explicação durou apenas o tempo em que as imagens foram exibidas. O prejuízo material foi assumido sem contestação, ficando, porém, o incômodo moral para os envolvidos nessa situação. Aqui, o que menos importa é o valor do prejuízo, que pode até ser pequeno, em termos financeiros. O que vale mesmo é a lição “ao contrário”que essa mãe passoupara os seus filhos. Enquanto a de Vitor, aquela assistente social a que me referi no começo, mesmo tendo o filho passado por aquele massacre deve se sentir orgulhosa dele pela sua atitude, o que essa outra tem a ensinar aos seus?
E esse ensinamento se dá nas pequenas coisas. Muitas delas não carecem de nenhuma palavra: apenas o exemplo. É no devolver, um real que seja, que recebeu a mais; acusar a ausência de um item consumido na conta do restaurante; entregar o que encontra de outra pessoa, recusando, inclusive, as recompensas materiais; não jogar o papel de um bombom que seja, fora do lixo; e tantos outros exemplos que as pessoas vão vendo e fortalecendo as suas crenças nesses valores positivos. Aqui vale a pergunta dos roqueiros do Capital Inicial: “O que você faz, quando ninguém te vê fazendo? ”Pelo jeito, bater no carro dos outros e sair de fininho, como se nada tivesse acontecido, não é uma boa prática: as câmeras veem tudo.

 

 

PRÉ-CARNAVAL

MARCOS SOUTO MAIOR

Antigamente o carnaval tinha somente três dias de folia e uma quarta-feira ingrata, para acabar com a diversão maior do povo brasileiro.
O tempo passou e muitas mudanças ocorreram no carnaval, a exemplo do corso, consistindo no desfile de carros enfeitados pelas ruas das cidades, com pessoas fantasiadas desencadeando a guerra de confetes e serpentinas.
Uma preciosidade cobiçada, ainda hoje pelos mais abastados, era o saudoso lança perfume “Rodouro”, fabricada pela empresa Rodo Suíça, que surgiu no Rio de Janeiro por volta de 1906 e logo se alastrou pelo país perfumado.
Quando tudo que é bom dura pouco, num rompante do presidente Jânio Quadros, em 1961, baixou decreto para impedir a importação e consumo aos brasileiros.
Eis que os carnavalescos passaram a cheirar lança-perfume, o que também era chamado de “tomar um porre”. O que era mera satisfação passageira, tornou-se um perigoso costume e os porres de lança-perfume deixaram de ser alegre, romântico e contagiante para ser um vício incontido.
O alvo da brincadeira era sempre o pescoço e as costas, mas quando o alvo era desviado e pegava nos olhos, ardia pra burro. E se um cara ousado mirasse no bumbum de uma garota o frio líquido perfumado, aí o pau cantava, literalmente! Neste caso, existia a turma do deixa disso intervindo prontamente com a paz voltando a imperar.
Com o passar dos tempos, houve a era do mela-mela com abundância do talco, e várias qualidades de pó. Uma nuvem branca parecia cobrir os ares se nivelando até se misturar com as nuvens.
As agremiações carnavalescas, a muito custo, teimam em colocar os blocos na rua, para um público reduzido e sem entusiasmo, com exceção do eixo Rio e São Paulo, banhado em luxo e beleza ainda com o recurso moderno das transmissões em tempo real pelas principais TVs.
Neste momento, as prévias carnavalescas vieram para elastecer o calendário do rei Momo, ganhando espaços em todo Brasil um tipo de carnaval diferente e simplificado pelo trio elétrico, marginalizando o frevo, a marchinha e o samba.
Sinceramente, não tenho nada contra as bandas e as músicas baianas, mas a música tocada nas festas juninas é a mesma que toca no período carnavalesco... Brincar ao redor de trio elétrico só comprando abadá, conhecida mortalha carnavalesca.
O pré-carnaval chegou, peço licença aos foliões/leitores porque estou viajando para curtir o carnaval deste ano nos Emirados Árabes quando, de turbante e tudo, trarei novidades excêntricas. Salam-aleikum: a paz esteja convosco!
 

TABLETS NAS ESCOLAS PÚBLICAS

Luiz Carlos Amorim


O uso de computador na sala de aula pressupõe melhoria na qualidade de ensino, pois significa acesso rápido a toda e qualquer informação e muitos outros recursos na ponta dos dedos. Há quem conteste esse benefício, mas o que se espera é que haja ganho no aprendizado com o uso das tecnologias que tomaram conta do nosso dia a dia. O professor teria mais conteúdo para usar e mais tempo para dar aula, pois não precisaria esperar os alunos copiarem matéria do quadro, não teria que escrever quase nada no quadro e poderia usar a internet, acessando os assuntos necessários e os alunos simplesmente teriam que anotar endereços de sites da web ou usariam a facilidade de copiar e colar ou gravar páginas em pdf ou nos favoritos, para acessar mais tarde a fim de estudar.
Supõe-se, é claro, que todas as escolas, em todo o Brasil, têm internet, para que o uso de laptops e tablets seja possível e pleno. O que ainda não é uma realidade, nem todas as escolas públicas dispõem de acesso à grande rede. É verdade que, a medida que os aparelhos forem chegando, o acesso à internet, se não houver, pode e deve ser providenciado, por estados ou municípios, conforme seja o mantenedor da escola.
O edital do MEC – Ministério da Educação – para a aquisição de tablets pelas redes públicas de ensino já está disponível para que as escolas se inscrevam.
A verdade é que já existe o programa do governo “Um computador por Aluno”, desde 2009, mas até agora ele não foi aplicado como prometido. A meta do governo Lula, com o programa, era contemplar cada estudante dos primeiro e segundo graus da rede pública com um computador para uso pessoal. Mas apenas quinhentas escolas do país foram contempladas com os laptops (ou notebooks) do programa UCA, um índice de menos de dois por cento de todos os estudantes brasileiros do ensino fundamental e médio.
O MEC diz que o programa que levará os tablets para a sala de aula não pretende substituir o programa dos laptops. O novo programa viria para complementar o anterior - que não cumpriu o objetivo de colocar um notebook (ou netbook, que não emplacou?) na mão de cada estudante do ensino público fundamental e médio.
O programa Um Computador por Aluno foi criado em 2005, mas só iniciou a entrega dos aparelhos a algumas escolas de alguns cidades brasileiras em 2009. Esperemos que o novo programa não demore tanto tempo para ser aplicado e atinja todas as cidades brasileiras, em todos os estados.

Colaboradores e Atrapalhadores

Aucélio Gusmão

A comunicação ruim dentro e fora da empresa responde por 60% dos problemas corporativos, afirmou certa vez Peter Drucker.
Há inclusive quem avalie que as empresas são como pessoas: pensam, sentem, se iludem, crescem, ficam doentes e, se não tratadas, morrem, como imaginou Javier Fernandez Aguado. Disse também que a dificuldade não é ter problemas, mas não solucioná-los. Equivocada, sórdida e presunçosa é a comunicação desfocada da realidade e com objetivos inconfessáveis.
O custo de esclarecer os devaneios dos atrapalhadores é muito alto. Procuram passar a imagem de fortes e capazes, de resolverem todo e qualquer problema, esquecidos da hierarquia, da disciplina e da competência. Buscam seguidamente quebrar a harmonia e o caráter amistoso do ambiente corporativo, destilando inverdades, boatos e incertezas.
O líder do futuro, diferentemente, deve sustentar a sua eloqüência e sua postura enfática no compromisso com a realidade, o verdadeiro e conseqüente, com o progresso.
No mundo corporativo é decisivo prevenir o prevenível, contar o contável, deixar o imprevisível, obviamente, para resolver quando ocorrer. Particularmente nunca tive compromisso com erro. Quem errar deve responder pelo erro. O cuidado que merece é nunca pré julgar, apurar e oferecer a chance – o direito do contraditório - pois quem se sentir injuriado poderá cobrar reparação.
Numa grande corporação o poder é bastante delegado. O regime de confiança e compromisso compõe a cena. Buscar sensacionalismo por ter exercido a obrigação legal de um cargo que eventualmente ocupa, não é justo, resvala para politicagem, até porque faz parte de seu compromisso, razão de ser de sua própria função. A omissão é que poderia ser motivo de censura, o descumprimento do dever, algo anormal.
Pena que a pobreza de espírito e de valores prevaleçam na cabeça de alguns. Daí para frente, procuram confundir o raciocínio dos outros, na busca daquilo que não conseguem, por conta de suas condutas censuráveis, que perdem a confiança, a coerência, o respeito e a coragem, ao se esconderem no anonimato.
Do sublime ao ridículo há apenas um passo. Somos uma corporação equilibrada, correta e justa, por isto mesmo nossa Unimed João Pessoa, tem autorização definitiva de funcionamento na Agência Nacional de Saúde há seis anos, um quadro social independente, culturalmente emancipado, livre, que não aceita mentiras ou sofismas, muito menos, boatos.
Quem tem pecado a pagar, deveria pensar “quando um homem aponta um dedo para alguém, deveria lembrar que quatro estão apontando para ele”, como disse Louis Nizer – o inglês, advogado e escritor.
Ter um pincel na mão não faz de você um artista. Os homens deveriam ser aquilo que querem parecer. O que põe os homens a se perder é quererem ser diferentes de si mesmo.
Como disse Cervantes “Deus atura os maus, mas não para sempre”.
 

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