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JP Debates

Espaço dinâmico reservado para a opinião dos leitores, que abordam fatos dos mais variados transitando com a mesma desenvoltura e responsabilidade entre o cenário político, a educação e outros temas.

CARNAVAL VERMELHO E BRANCO

MARCOS SOUTO MAIOR

O calendário de festas carnavalescas do clube era desenhado como a administração pública faz com o orçamento. Tudo previsto para não haver improvisação. Primeiro item sempre fora a escolha das duas orquestras que se revezariam na animação do salão do chamado “colosso de Miramar” ocupando o ginásio esportivo, quadras de tênis, restaurantes, jardins e áreas circundantes, até o dia amanhecer. A piscina era interditada para os bêbados não se afogarem!
Numa reunião informal, a diretoria do Esporte Clube Cabo Branco, sob a presidência do saudoso presidente Damásio Franca, Roberto Guedes Cavalcanti, Assis Camelo, Jáder Franca, Aguimar Dias Pinto, José Jacinto de Araújo, Kinca Brito além do cronista e outros, decidiu pela contratação do famoso maestro Cipó seus músicos e “chacretes”. Houve natural restrição das esposas dos sócios, quanto às mulatas cariocas que animariam o carnaval, mas os homens garantiram que seriam bem comportados.
Era do maestro paraibano Vilô, o privilégio da segunda orquestra contratada, lhe cabendo a responsabilidade de abrir a festa, com a doce missão de fazer bonito perante os cariocas. A empolgação era tanta que até apostas eram feitas entre os presentes para ver qual melhor orquestra. Deu sempre empate... As vinte e duas horas, os tarois e surdos marcaram o rítimo da introdução carnavalesca e, logo os metais abrindo com força ao som do frevo Vassourinha.
A maioria dos foliões tomava uma primeira dose, ainda em casa, quando não existia nenhuma campanha de “se beber não dirija”, para já chegar à festa com animação puxada à cerveja, rum ou uísque! A quadra esportiva que servia de palco para o carnaval ficava superlotado e os foliões rodavam dançando no sentido anti-horário. Ou seja, da direita para a esquerda possibilitando aos que ficavam nas mesas de pista e das arquibancadas lotadas, a passagem alegre dos cabobranquenses.
Duas horas de música carnavalesca, sob regência do maestro Vilô, aparecem os músicos cariocas que encostaram para substituir os paraibanos, mantendo-se na transição, apenas a bateria que dava ritmo com o frevo quente.
A expectativa era imensa, a ponto da maioria dos foliões pararem de dançar para ver e ouvir Cipó, sua orquestra e as mulatas. Depois das primeiras músicas executadas, a quase normalidade voltou ao salão, com exceção de meia dúzia de coroas que ficavam com a baba escorrendo pelos cantos da boca, vendo as chacretes rebolarem. Entre uma dose e outra, o enxerimento à distância deixavam as madames aborrecidas pela animação dos maridões estatelados pela coreografia das passistas e sambistas cariocas.
Até cutucadas e beliscões valiam sem os garanhões darem a menor importância do que as mulheres diziam mesmo com braços roxos... Em dado momento, o mais assanhado foi desafiado a levar um lenço para uma mulata passar entre as pernas e devolver o troféu.
Pegou a mulher pelo braço e saiu dançando alegremente até chegar bem em frente ao palco onde a orquestra tocava. Dobrou o lenço, deu um beijo jogando para ser apanhado por uma loura esvoaçante. Sem qualquer cerimônia, mantendo o ritmo e rebolado segurou-o com as duas mãos e passou sensualmente entre as pernas, várias vezes.
Os coroas entraram em incontido delírio e, como se diz hoje, “ai se eu te pego, delícia, assim você me mata.”