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JP Debates

Espaço dinâmico reservado para a opinião dos leitores, que abordam fatos dos mais variados transitando com a mesma desenvoltura e responsabilidade entre o cenário político, a educação e outros temas.

Os carteiros

Fernando Leal


O meu aprendizado com as letras foi aperfeiçoado no feitio das cartas. Costumava passar as férias escolares numa cidade do sertão baiano e, por ser um dos poucos letrados na comunidade que frequentava, fazia as vezes de Pero Vaz de Caminha, levando e trazendo as notícias“da armada”.Nessas histórias, além dos fatos triviais tipo “lembranças para fulano e sicrano”, encarregava-me de recheá-las com o que a minha imaginação permitia. Sabe aquela história de quem conta um conto, aumenta um ponto? Assim era com o meu ofício de missivista.
Mas o tempo muda. A chegada do telefone celular, cujos números já ultrapassam os de habitantes no país, aperfeiçoados com a comunicação via internet, aí incluídos e-mail, Orkut, Facebook e outros, tornaram a tradicional carta quase que peça de museu. Mas é bom não perder de vista a história. Houve um tempo em que a figura do carteiro era o veículo utilizado para a difusão das cartas. Alguns o chamavam de estafeta, com a pronúncia no (ê), mas que eu tinha a maior dificuldade com o uso do som fechado. Refiro-me aos anos setenta, em que a capital João Pessoa era quase horizontal. Contavam-se nos dedos das mãos os edifícios que por aqui eram erguidos. E aí o trabalho das pessoas dos Correios era feito de casa em casa, entregando família por família, as suas correspondências. E como esses profissionais eram esperados... Tiro por mim, que tinha parentes morando na Bahia. Depois disso veio a privatização das comunicações telefônicas, que facilitou muito o contato por esse outro meio, mas que quase aposentaram as notícias por cartas.A importância desse instrumento foi captada pelas lentes de Walter Salles, no filme estrelado pela nossa grande dama Fernanda Montenegro, no filme Central do Brasil.
E como essas cartas facilitavam o contato entre as pessoas... As relações com esses carteiros tornavam-se tão próximas, como se fossem de uma pessoa da família. O que servia a região em que eu morava, o Conjunto Boa Vista, que com otempo passou a ser chamado de Bairro dos Ipês – que a propósito não tem um pé sequer de ipê - era Valter. Como a entrega era sempre feita à tarde, lá em casa era a parada obrigatória para beber um pouco d’água, para aliviar um pouco do calor. De longe, quando ia se aproximando, já víamos a sua cara de felicidade por saber que era portador denotícias lá da “boa terra”, que eram pra nós tão esperadas. As de meu pai eram as mais constantes. Pelo menos três vezes por semana, as suas notícias estavam por aqui. E das vezes que eu relaxava na resposta,logo uma carta de cobrança estava à minha porta.
Hoje,Valter não é mais carteiro. A última notícia que soube dele é que era advogado, andando pelo mundo do direito, em busca de outras notícias. Mas essas lembranças ficam.