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Rubens Nóbrega

A coluna é basicamente uma crônica política, que se diferencia da análise política clássica por não se prender ao factual nem à ordem ou pauta do dia.

Banda voou

Convidado para ser o paraninfo da turma concluinte de curso ministrado em importante centro universitário do interior, o governante ficou muito feliz ao saber que o convite custar-lhe-ia tão somente patrocinar a banda que tocaria na festa de formatura.
“Falem com Fulano, que ele resolve tudo pra vocês”, orientou Sua Excelência. E lá foram os membros da comissão representante dos graduandos à Secretaria determinada, onde deveriam cuidar dos detalhes da contratação da banda.
“Tem que ser a Banda Galácticos, Doutor, aquela de São José. Foi escolhida por votação na turma”, disseram os estudantes à pessoa da Secretaria encarregada de shows e outras prioridades governamentais, como armação e iluminação de palcos e palanques, faixas, cartazes, panfletos, carros de som e claques para aplaudir o ‘home’.
“Sem problemas. Vocês têm algum contato, um telefone pra gente falar com o pessoal da banda?”, pediu o sujeito, sendo prontamente atendido por um membro da comissão, que lhe passou um cartão de apresentação com o número do celular de Juari do Som, o empresário dos Galácticos.
Agendado pelo Núcleo de Agitação e Propaganda da Secretaria, no dia seguinte Juari seria recebido pelo responsável, a quem a gente pode agora chamar de Doutor Marcelino. Foi a ele que o agenciador da banda propôs R$ 5 mil por quatro horas de baile, “com intervalo de meia hora apenas para o lanche dos músicos”.
- Cinco mil? Que diacho de banda é essa sua, meu amigo? Quantos componentes ela tem? – perguntou o cara ao empresário, que de imediato pensou: “Pronto, lá vem mais um filho da mãe pechinchador!”. Mesmo assim, respondeu. Educada e pausadamente, detalhou:
- Minha banda tem tecladista, sanfoneiro, dois guitarristas – um solo, outro base; um baixo, baterista, percussionista e a metaleira, que vem com trompete, trombone e sax. Além desses, temos um casal vocalista e três meninas no back que também dançam alguns números no palco.
A informação pareceu animar o contratante, que ajeitou o corpanzil na cadeira, olhou com severidade para Juari e fez uma contraproposta surpreendente (pelo menos para o empresário, na verdade um micro, “acostumado a coisa pequena”, como ele mesmo gostava de dizer):
- Vamos fazer o seguinte, meu caro. Você me tira uma nota de R$ 30 mil, me traz até quinta-feira, depois de amanhã, que aqui eu mando formar processo e já na segunda o dinheiro vai estar na sua conta – disse o promoter oficial.
Juari quase engasgava ou saltava da cadeira. Não de alegria, mas de espanto misturado ao medo de estar sendo vítima de uma pegadinha, com escuta eletrônica ou coisa parecida.
Tinha pavor de se meter em trapalhada, como um negócio daqueles, que até então nunca lhe haviam proposto. Refletiu por alguns segundos e, apesar de acreditar que poderia aborrecer a autoridade com quem falava, encarou a fera e questionou:
- Como assim, Doutor? Quer dizer que o senhor me paga R$ 30 mil, tiro a minha despesa e dou o resto pro senhor, é? Não, não, Doutor. Faço esse tipo de negócio não. Meu faturamento é pequeno. Se eu estourar, o Fisco vem em cima de mim e eu saio da faixa de pagar pouco imposto.
- Mas todo mundo faz assim, Seu Juari. Além disso, essa é uma maneira do senhor ajudar na campanha do homem, entende? Não é pra mim, não, amigo. Eu não toco num centavo. Tanto que o senhor vai entregar o dinheiro é àquele cidadão ali, ó, aquele na mesa do canto, carimbando e assinando papel – apontou Marcelino.
Juari apenas conferiu o carimbador com o rabo do olho, mas em seguida levantou-se devagar, ajustou a calça à cintura, resmungou um ‘passar bem’ e retirou a sua pessoa honesta do recinto. Na calçada, voltou-se para ler a placa identificadora da repartição, como quem queria ter certeza de onde acabara de sair e mentalmente exclamou: “Meu Deus, como tem ladrão e cabra safado nesse mundo!”.
Uma semana após a frustrada negociação, Juari recebeu ligação de um colega maior do que ele no ramo de agenciamento de grupos musicais para festas, comícios, vaquejadas, solenidades e tudo o mais nessa linha.
Para surpresa do nosso herói, o concorrente queria contratar os Galácticos para o mesmo baile de formatura dos concluintes paraninfados pelo governante. “Se for naquele esquema do tal Doutor Marcelino, nem pensar”, avisou Juari. Do outro lado da linha, o colega cuidou de tranquilizar: “Fique frio, amigo. Sou eu que estou contratando. Não é cinco mil? Pois, então, espera aí que tô indo agora pra gente acertar tudinho”.
Não deu meia hora, o novo contratante riscou no escritório de Juari, abriu uma pasta 007 e de dentro dela tirou cinco maços de notas de cem, bem verdinhas, estalando de novas. Entregou tudo, nem pediu recibo, mas uma recomendação, antes de sair:
- Ah, fala pro pessoal da banda ensaiar e não deixar de tocar ‘Gatinha manhosa’ na festa. O home ficou de dar uma passada no clube na noite do baile. Marcelino me disse que ele adora essa música. É aquela de Erasmo, num é?

***
Quem me contou garante que é mais ou menos assim o processo de contratação de bandas para eventos festivos patrocinados com dinheiro público por prefeituras e governos estaduais.
Pelo que entendi, a única peça ficção em histórias como essa seria a figura de um Juari do Som, com seus pruridos e temores de fazer algo errado ou ser pego por algo errado que tenha feito.
 

Uma saída para a FAC

Na edição de ontem, fonte de altíssima qualidade da coluna mostrou como e porque o governador Ricardo Coutinho esvaziou a Fundação de Ação Comunitária (Fac), contribuindo decisivamente para desmantelar o maior programa de distribuição de leite gratuito para pessoas carentes que um Estado nordestino já conseguiu realizar. Quem leu, lembra. Graças aos cortes fundos no custeio da Fac e profundos nas gratificações dos agentes sociais que recebem e atestam quantidade e qualidade do leite do programa, Sua Majestade criou as condições objetivas para fragilizar a fiscalização, o controle e, por último, a probidade nas relações entre agentes públicos e fornecedores.
O dinheiro do custeio da Fac, que nos Cássio I e II e Maranhão III recebia R$ 1 milhão por mês para se manter, foi redirecionado quase todo para o Empreender-PB. E o pagamento dos agentes sociais, cerca de um salário mínimo por mês, foi sustado por quase um semestre após a posse de Ricardo Coutinho; quando voltou, ficou em míseros R$ 150.
A partir daí, o leite azedou de vez. Não só azedou como desandou, porque, segundo a pessoa que me passou as informações, muitos fiscais do Programa do Leite passaram a receber propinas dos laticínios em várias cidades e regiões do interior, com exceção de Campina Grande (onde os agentes são contratados como prestadores de serviço e, portanto, têm que receber o mínimo, no mínimo).
Ontem, através de nova mensagem, o(a) autor(a) da análise aqui publicada voltou a manter contato com o colunista para lembrar que o Programa do Leite é mais uma iniciativa de governo que atingiu seu melhor momento na gestão de Cássio Cunha Lima (2003-2009) e agora enfrenta completa e deliberada desestruturação levada a efeito pelo Ricardus I.
“Não por acaso porta-vozes oficiais e oficiosos do atual governo botaram a culpa nos antecessores, ou seja, em Cássio e Maranhão. Mas não esqueça que as falcatruas com o leite da Fac, levantadas pela Polícia Federal, vêm sendo investigadas desde o final de 2011, conforme disse em entrevista coletiva um dos delegados que comandaram a Operação Almateia”, observou.
“Por fim, gostaria apenas de frisar que o nosso governador é sim o principal responsável por grande parte dos problemas que existem hoje no Programa do Leite, pois reduziu as verbas da Fac ao ponto de quase inanição, impedindo por completo a fiscalização de um programa que é desenvolvido em quase todos os municípios do Estado e que atende a um número gigante de família hipossuficientes”, acrescentou.
Salientando que mais de 128 mil famílias dependeria do Pão e Leite da Fac para sua segurança nutricional, o(a) colaborador(a) considera absurdo e, acima de tudo, “incompreensível o verdadeiro descaso com que o Governo vem tratando a Fundação, entidade que já foi responsável pelo combate a grandes problemas sociais da Paraíba”.
No fecho de sua mensagem, com refinada ironia ele prevê que, “a continuar do jeito que vai, é capaz de em pouquíssimo tempo a Fac precisar de algum programa social para socorrê-la, para manter as portas abertas... Talvez devesse tomar um empréstimo no Empreender-PB. Quem sabe... É só uma ideia”.


CORRIGENDO

Perdoem, leitores, mas fiz pequenas alterações no texto do(o) colaborador(a) que me presenteou com a coluna de ontem (‘Porque azedou o leite da Fac’) e acabei cometendo algumas aberrações. Vamos lá.
Saiu, por exemplo, que “o custeio da Fac, nos governos de Cássio e Maranhão, advinham (sic) integralmente da receita com a Taxa de Processamento de Despesa Pública”. O correto seria “o custeio da Fac (...) advinha integralmente...”.
Outra: “Desde então, foram inúmeras as visitas infrutíferas da então Francisca Denise ao governador, mendigando por mais recursos para conseguir pelo menos manter o que ainda restava de programas desenvolvidos pela Fac”. Faltou colocar o cargo (presidente) antes do nome da doutora Francisca.


SEM RESPOSTA
Apesar da gravidade da denúncia, o Governo do Estado, através do soberano ou auxiliares próximos, não deu um pio sobre a suposta responsabilidade de gestão pelo desmantelamento do Programa do Leite.
Lembro que anteontem – antes de escrever e publicar – solicitei informações e esclarecimentos diretamente ao governador Ricardo Coutinho, aos dirigentes da Fac e à Secretaria de Comunicação Social do Estado.
A atitude do governo é só mais uma prova, entre centenas, de que a transparência no Ricardus I não passa de miragem, figura de retórica, propaganda enganosa.

 

QUE PAPELÃO!
Do amigo Joe Gossip: “Pacientes agendados para exames eletrocardiográficos na Unidade de Saúde da Praia, nesta sexta-feira, foram informados que os exames não seriam realizados devido à falta de papel. Pediram aos pacientes para retornar na próxima semana. Pois é, Rubens, falta papel, vergonha...”.

Porque azedou o leite da Fac

A mensagem que a seguir compartilho com vocês, recebida anteontem à noite pelo colunista, mostra com fantástica clareza e altíssima verossimilhança porque desandou e azedou o Programa Leite da Paraíba sob a direção do Ricardus I.
***
Prezado Rubens Nóbrega, assim que eclodiu a Operação Almateia, a imprensa patrocinada pelo governo iniciou, como de praxe, o trabalho costumeiro de tentar isentar o atual governo de culpa e/ou de trazer governos passados para a vala comum. Em parte tal argumento poderia soar como verossímil, visto que muitos dos problemas do Programa Leite da Paraíba remetem a períodos abarcados por outras gestões, mas devemos analisar alguns fatores antes de precipitada conclusão. Vejamos.
É sabido por todos que, quando assumiu o Governo, Ricardo Coutinho esvaziou por completo a Fundação de Ação Comunitária (Fac), deixando-a quase que exclusivamente com os programas de suplementação alimentar do Pão e Leite, retirando-lhe outros programas sociais e, primordialmente, reduzindo-lhe drasticamente a verba de custeio. O custeio da Fac, nos governos de Cássio e Maranhão, advinham integralmente da receita estatal com a TPDP (Taxa de Processamento de Despesa Pública), o que gerava uma verba mensal para suprir os custos operacionais de, aproximadamente, R$ 1 milhão.
Ao assumir o governo, de imediato RC passou a receita da TPDP ao Empreender-PB e resolveu destinar mensalmente à FAC a quantia de R$ 500 mil, ou seja, reduziu pela metade a verba de custeio. A partir daí, a Fac começou a perder por completo o controle do Programa do Leite, posto que temos um programa mantido pelo Governo Federal de fazer inveja aos maiores estados brasileiros, atendendo a 128 mil famílias. Por seu tamanho, é preciso toda uma infra para manter e fiscalizar o programa e essa infra a Fac, se já estava muito longe de possuir, agora é que não tem mesmo.
Como se já não bastasse reduzir o custeio da Fundação pela metade, talvez no afã de engordar os cofres estatais para grandes obras, RC diminuiu ainda mais a ‘mesada’, dessa vez para R$ 200 mil, colocando uma verdadeira pá de cal na Fac. Desde então, foram inúmeras as visitas infrutíferas da então Francisca Denise ao governador, mendigando por mais recursos para conseguir pelo menos manter o que ainda restava de programas desenvolvidos pela Fac.
Em decorrência de mais essa drástica redução de verba, a Fac passou a cortar custos essenciais, tais como a locação de veículos para fiscalização dos pontos de distribuição de leite e diárias para os servidores realizarem tais fiscalizações. Soube, inclusive, que a secretária Aracilba Rocha teria comunicado por escrito aos servidores que, se quisessem viajar para qualquer diligência, ainda que de interesse público, deveriam arcar com todas as despesas de tal viagem.
Por tudo isso e muito mais, temo que em iniciativas como essas do governo resida a principal causa das falcatruas levantadas pela Polícia Federal no Programa do Leite, porque dizem respeito ao pagamento dos agentes sociais do leite. Vou explicar melhor. Ao assumir, Ricardo determinou, internamente, óbvio, a suspensão do pagamento dos Agentes Sociais do Leite (pessoas responsáveis por receber o leite do laticínio, entregá-lo às famílias beneficiárias e atestar para a Fac os quantitativos recebidos e entregues). Pois bem, esses agentes ficaram os quatro primeiros meses trabalhando na distribuição sem qualquer tipo de remuneração.
Após inúmeras denúncias feitas pelos agentes do interior e reclamações à Presidente da Fundação, o governo resolveu fazer o seguinte: decretou moratória quanto aos pagamentos em atraso e decidiu começar, a partir de maio de 2011, o pagamento desse pessoal, estabelecendo como remuneração para estas pessoas, tratadas como voluntárias, de, acredite, R$ 150 mensais.
Nos governos anteriores, os mesmos agentes recebiam cerca de um salário mínimo. Com o tratamento que lhes foi dado pelo Ricardus I, os agentes tornaram-se alvos fáceis de fornecedores inescrupulosos. Recebendo uma miséria por mês, e sendo responsáveis pela atividade de maior importância do Programa do Leite, passaram a retirar o seu sustento não da Fac, mas dos laticínios, interessadíssimos no que atestam esses agentes, visto que são os quantitativos de leite informados por eles que são pagos quinzenalmente pela Fundação, com verba federal.
Não sei se estou me fazendo entender, mas é mais ou menos assim: o agente ganhava R$ 545, passou a ganhar R$ 150. O dinheiro não permite o sustento, pois até o Bolsa Família paga mais. Então, o dono do laticínio chega para esse agente, que ficou quase meio ano sem receber e atualmente recebe um valor irrisório, e oferece um complemento de renda para o agente atestar que o laticínio, por exemplo, entregou 800 litros naquele ponto de distribuição, ao invés dos 500 litros verdadeiramente entregues.
Além disso, esse agente é a pessoa que recebe toda e qualquer reclamação quanto à qualidade do leite entregue... Passa pela sua cabeça que ele vá repassar uma denúncia contra o laticínio que está lhe provendo o sustento mensal?

***
De onde veio tem mais, muito mais. Mas vou guardar pr’amanhã, que hoje o espaço acabou. Esclareço ainda que enviei a denúncia aqui exposta ao governador, à Fac e à Secretaria de Comunicação do Estado, para que o governo pudesse se defender. Via Twitter, também avisei ao @realrcoutinho da minha remessa. Nada recebi de qualquer autoridade até o fechamento desta coluna, às oito e cinco da noite de ontem.
 

Só não pode faltar leite!

Sorte do Ricardus I ter alguém como Ramalho Leite na presidência da Fundação de Ação Comunitária (Fac) no momento em que a entidade é vasculhada pela Polícia Federal e órgãos de controle e fiscalização do porte e importância de uma CGU.
Digo sorte porque, em primeiríssimo lugar, não é fácil, atualmente, contar com pessoa de bem e competente, além de tudo, para tomar conta de algo como a Fac, que vai criando tradição ou estigma de complicar a vida e o mandato de governadores.
Ramalho, além de sempre mostrar eficiência no cumprimento das missões que governadores lhe atribuem, desde a posse ainda recente vem tentando criar mecanismos próprios de controle de produtos e programas a cargo da Fac.
Dou-lhes um depoimento: semana passada – bem antes da Operação Almateia, portanto – ouvi de amigos comuns que Ramalho estava tremendamente preocupado em agilizar providências para ter segurança do que a Fac estava recebendo e pagando.
Referia-se particularmente à dificuldade de acompanhar, testar e certificar, por exemplo, a qualidade de todo o leite distribuído pela Fundação a milhares de famílias carentes nos mais diversos pontos do território paraibano.
A Fac não tem, obviamente, pessoal suficiente para fazer esse trabalho. E, onde tem, nem todos estão preparados, treinados ou qualificados para o serviço nos conformes de sanidade, validade e integridade da distribuição do leite.
Dito isso, só espero que o governo não cometa a insanidade de suspender a entrega do leite, que deve continuar e pode se otimizar mediante fiscalização diária de comitês locais formados, preferencialmente, por membros da comunidade organizada.
Nessa linha, o governo pode e deve firmar parcerias com prefeituras, órgãos federais (onde houver) e organizações não governamentais e sociais para não desmantelar o programa e cortar o benefício.
O que não pode é deixar faltar leite, principalmente em situações como a de agora, quando a seca fragiliza ainda mais a vida e o sustento dos mais vulneráveis que sobrevivem, Deus sabe como, nos torrões e grotões do nosso sofrido interior.

 

Além de queda...

Bem que o Professor Antônio Carlos avisou: com sua defesa agropecuária enfraquecida, graças, sobretudo, a uma vacinação ineficiente e insuficiente contra aftosa, a Paraíba não poderá transitar nem vender animais para outros estados.
A impossibilidade prejudica tremendamente a nossa combalida economia em razão da seca prolongada. Com isso, além de não ter a quem nem como vender seus animais, o criador paraibano também não pode levá-los para alimentar onde existir pasto e ração na quantidade e qualidade necessárias.


Esse Potinho...

Depois de meses sem manter contato, Potinho de Veneno reapareceu ontem no meu celular. Mandou-me torpedo com o seguinte comentário:
- Camarada, se a Polícia Federal mobiliza dezenas de homens e viaturas para fazer – como diria Luciano Agra – ‘visitas de rotina’ à Prefeitura da Capital e repartições do Estado, como será, então, quando for prender alguém? Vai chegar, no mínimo, pilotando tanque de guerra.

Imagine se usasse!
“Não faz parte de minha história usar a máquina pública (em campanha eleitoral)”, disse, mui recentemente, o governador Ricardo Coutinho. Diante de palavras tão enfáticas e bonitas, é o caso de perguntar:
- E o que foi aquela reunião de comissionados da Saúde convocada pelo secretário Valdson Souza para apresentar a candidata do governo à Prefeitura da Capital, convocação essa que no Hemocentro, por exemplo, foi feita por escrito, em papel timbrado do órgão, com o aviso de que a presença seria obrigatória?
- E o que foi aquela presença do governador na festa de aniversário da candidata Estelizabel Bezerra, à qual Sua Majestade compareceu usando motorista, segurança, carro e gasolina pagos com dinheiro público?
Tem mais, muito mais. Mas, ainda bem, usar a máquina pública em campanha não faz parte da história do soberano. Imaginem se fizesse!


No lugar certo
Dá até pena ver aquela Lamborghini largada no pátio do Detran, na Capital. Uma jóia daquelas deveria ser guardada na Granja Santana.
Pelo valor do carrão ou por obséquio da pretensa amizade entre o suposto dono e o atual morador da residência oficial.


Impressionantes!
Os sinais exteriores de enriquecimento de algumas figurinhas carimbadas que servem a determinados governos.

Reitor eleito, reitor nomeado

Disseram-me que ele seria capaz, mas não quero acreditar que Ricardo Coutinho afronte a vontade majoritária das urnas e se recuse a nomear o reitor que for eleito hoje pela comunidade universitária da UEPB se o eleito não for um dos supostos candidatos de Sua Majestade ao cargo.
Até mesmo para Ricardo Coutinho deve haver um limite de negação da própria história. Daí por que não consigo imaginá-lo esquecido do tempo em que certamente fazia coro com a maioria da UFPB para gritar na cara e nos ouvidos do governo Collor que “reitor eleito é reitor nomeado”.
Refiro-me a 1992, ano em que Neroaldo Pontes ganhou e por muito pouco não levou na Federal, onde foi eleito reitor, mas teve sua nomeação sustada e torpedeada no Ministério da Educação, onde o tinham comunista, no mínimo petista e, claro, opositor da República das Alagoas.
Naquele ano, jovem técnico do Hospital Universitário, Ricardo Coutinho muito provavelmente estava se despedindo do movimento estudantil para entrar de cabeça no sindical (dos farmacêuticos), que lhe abriu as portas para sucessivos mandatos de vereador e deputado estadual.
Então militante petista, Ricardo Coutinho deve ter sido um dos mais ardorosos defensores da máxima segundo a qual ‘reitor eleito é reitor nomeado’, a mesma que, propagam agora na UEPB, ele deve apagar por completo da memória caso não lhe agrade o eleito de hoje na Estadual.
Se procedente, é o caso de perguntar: já não bastam os ferimentos de morte que causou à autonomia da UEPB, Majestade? Já não retaliou o suficiente, ao ponto de vetar até mesmo a publicação de portarias de nomeação de concursados da Universidade no Diário Oficial do Estado?
Apesar de tudo, sei que lá dentro do nosso atual governador um pedacinho do velho Ricardo Coutinho de guerra, que se postava ao lado e à frente das boas causas coletivas e fazia o bom combate, como gosta de dizer, sobretudo quando ameaçavam a vontade da maioria.
Por tudo isso, não quero acreditar que ele se determine a dar esse tiro de misericórdia numa história tão bonita que professores, alunos e funcionários da UEPB vêm construindo desde a estadualização no Burity II, até chegar à beleza que foi a sagração da autonomia no Cássio I.


Da mesma forma...

Também não quero acreditar que Ricardo Coutinho esteja patrocinando candidatura de oposição ao reitorado de Rômulo Polari na UFPB, que também vai às urnas nesta quarta-feira com toda possibilidade de eleger uma reitora, vez que as chances de eleição concentram-se em duas candidatas.
Elas são as professoras Lúcia Guerra, candidata de Polari, e Margareth Diniz, que não merece a pecha de candidata ricardista. Deve ser intriga da situação para queimar o filme da Doutora Margareth, que deve saber o quanto lhe negativa a imagem essa vinculação à figura ou vontades do governador.
Tanto quanto Lúcia Guerra, Margareth Diniz tem luz própria e títulos acadêmicos que credenciam ao exercício do cargo mais importante da Universidade. Nenhuma delas precisa – ou, pelo menos, não deveria – recorrer a alguma ‘máquina’ interna ou externa para conquistar votos.
Lúcia Guerra, atual pró-reitora de Extensão, professora doutora da área de Humanas, representa continuidade e aprofundamento de um projeto exitoso, que desde Neroaldo vem instrumentalizando a UFPB para uma inserção transformadora, positivamente transformadora, da realidade da Paraíba e do Nordeste.
Margareth, atual diretora do Centro de Ciências da Saúde, também doutora em sua área, encarna proposta de mudança que aponta para a necessidade de qualificar ainda mais o ensino, a produção científica, as ações extensionistas, os professores, os funcionários e a força de trabalho que a UFPB forma a cada semestre letivo.


Não tem razão de ser
Por todo o exposto, não concebo alguém querendo fazer da UFPB um apêndice de governo ou escalar um(a) reitor(a) no papel de secretário(a) de Estado. Nem Ricardo Coutinho. Sobretudo ele, originalmente servidor da Instituição e ciente de que qualquer tentativa naquela direção será rechaçada no ato e eternamente deplorada pela quase totalidade da comunidade universitária.
Não concebo, não acredito, mas não descarto. Afinal, Sua Majestade já mostrou o quanto é capaz de nos surpreender. Se ele não teve pejo em descumprir compromissos explícitos de campanha, imaginem, então, os implícitos, tipo respeitar a UFPB ou a decisão da maioria da UEPB numa eleição para reitor. De qualquer modo...
Está certo que para Sua Majestade chegou “a hora de ir mais longe”. Só não precisa ir tão longe assim, ao ponto de fazer pior que um Fernando Collor ou ser tão incoerente e contraditório quanto um Fernando Cardoso, aquele do ‘esqueçam o que eu escrevi’. Não é possível, mas não é possível mesmo que Ricardo Coutinho, além de tudo cometa em breve mais esse ‘esqueçam o que eu disse e fiz’.
 

Essa mordomia vai acabar!

Segundo o Aurélio, “mordomias são vantagens tais como moradia, condução, criadagem, alimentação, etc., proporcionadas pelo empregador (privado ou público) a certos executivos, e que lhes aumenta indiretamente os honorários e salários sem aumento do imposto sobre a renda”.
Já o Houaiss acrescenta que mordomia também é “abuso de poder na utilização do patrimônio público para atender interesses particulares” ou “qualquer regalia, conforto que se pode desfrutar, sem que se tenha de despender qualquer esforço”.
Desconfio que na Paraíba os nossos dirigentes públicos, especialmente os exercentes de cargos estaduais, preenchem ou atendem a todas as acepções, sentidos e significados da palavra mordomia.
Até por ser difícil encontrar um que não use nem abuse de tudo o que a Viúva pode lhes dar sem que mereça ou tenha que gastar um centavo do próprio bolso para tamanho desfrute. A exceção seria o Doutor Luzemar Martins, secretário-chefe da Controladoria-Geral do Estado. Se der, depois eu conto porque. Por hora, vejamos algumas situações que nos empobrecem e nos entristecem.
Da coroação do Ricardus I, em 1º de janeiro de 2011, ao final de fevereiro deste ano, o contribuinte já pagou mais de R$ 6 milhões pelos carros que esse governo alugou a apenas uma empresa, a Localiza, conforme atesta o Sagres, ferramenta que permite a qualquer um acompanhar os gastos públicos consumados. Consulte, no portal do Tribunal de Contas do Estado (sagres.tce.pb.gov.br).
Evidente que outras locadoras de veículo trabalharam e trabalham para o governo. A despesa é muito maior do que R$ 6 milhões. E tudo isso só pra gente bancar carros que atendem na maioria das vezes à mordomia explícita do governador, secretários, assessores, aspones, comissionados e prestadores de serviço potencialmente alistados no exército de cabos eleitorais do grupo da hora que manda na Paraíba.
Agora, diga aí: por que você, eu e todos nós pobres mortais temos que pagar carro, motorista e gasolina para buscar e levar pra todo canto um secretário de Estado que ganha mais de R$ 13 mil por mês e poderia perfeitamente usar seu próprio carro para se deslocar de casa pro trabalho e onde mais quisesse?
E o nosso imperador? Você sabia que só com diárias o homem embolsou R$ 33.625 em apenas 14 meses de governo? E o que dizer dos R$ 120 mil que desembolsamos por apenas três viagens de táxi aéreo (da Weston, firma de Pernambuco) para levá-lo a lugares para os quais o monarca poderia perfeitamente voar em aviões de carreira a um custo vinte vezes menor?
É um absurdo completo pagar tantos impostos e viver em um Estado tão pobre para custear mordomias tão injustificáveis de seus governantes. Ainda mais que a gente não vê retorno do ‘investimento’, feito quase sempre em função do seu beneficiário direto e não do conjunto de pessoas que ele deveria representar.
Está mais do que na hora, portanto, de a gente acabar com essa farra, que só em relação aos gastos aqui mencionados inclui mais de R$ 5,5 milhões pagos a postos de gasolina diversos no mesmo período e outros R$ 17,5 milhões consumidos por serviços de agências de viagem e turismo em apenas um ano e dois meses da gestão ‘socialista’.

 

R$ 28 milhões, por baixo
No total, no mínimo R$ 28 milhões saíram do cofre público em um ano e dois meses tão somente para garantir luxo, conforto e comodidade sobre rodas ou asas para os donos do poder. Já pensou o que a gente poderia fazer ou comprar com tanto dinheiro? Umas 1.200 casas populares, 60 escolas, 10 UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) ou dois Cuiás (afinal, tem gosto e esquema pra tudo, não é?).
É um acinte, digo-lhes com toda sinceridade d’alma e antecipado pedido de desculpas aos que acham que “é assim mesmo”, não adianta falar, reclamar e muito menos criticar porque “nada vai mudar”. Vai, vai mudar sim.
Não podemos nos conformar em viver eternamente numa terra onde milhões de viventes ou sobreviventes amargam a mais absoluta miséria, enquanto uns poucos reinam na mais afrontosa opulência, que chegará ao fim, garanto, se daqui a dois anos os paraibanos me derem a chance de tomar a caneta das mãos de Ricardo Coutinho.
Com a poderosa vou escrever uma nova história na gestão dos recursos públicos do povo paraibano, começando pela assinatura de decretos e mensagens ao Legislativo que se destinam ao extermínio de todas as mordomias que nossos agentes políticos se atribuem. E os outros poderes vão ter que aderir. Não aguentarão a pressão de uma cidadania esclarecida, suficientemente informada, plenamente consciente.
Mas, até lá, sejamos justos: as mordomias não são privilégio exclusivo do Poder Executivo nem o único culpado pela situação degradante e abominável a que chegamos é o nosso atual governador. Ele apenas tende a piorar o que sempre foi muito ruim. Seja porque gosta mesmo dos regalos e com eles se esbalda, seja porque concentra muito poder e seu absolutismo faz com que se julgue acima das pessoas e das leis. Imune, portanto, a todos e quaisquer limites.
Então, caríssimas leitoras, caríssimos leitores, até quando vamos suportar isso? Inda mais sabendo que Sua Majestade é, sem dúvida alguma, a mais desfavorável relação custo x benefício que já tivemos em matéria de governante até agora. Constatação que me faz repetir e insistir: do jeito que é e vai, ainda que trabalhasse de graça, para um bom número de paraibanos o nosso soberano sairia muito caro.
 

A morte da Justiça

Aconteceu no século XVI a história que resumo adiante, contada por ninguém menos que José Saramago em capítulo intitulado ‘Da justiça à democracia, passando pelos sinos’.
Certo dia, numa aldeia dos arredores de Florença, seus moradores foram surpreendidos pelo soar melancólico do sino da igreja, como se estivesse a anunciar a morte de alguém.
Ninguém tinha notícia de alguma pessoa muito doente ou de qualquer incidente violento que tivesse resultado em morte. Daí a surpresa e, a seguir, romaria até a porta da igreja.
Com praticamente todos atraídos pelos dobres, o suspense acabou quando o sino parou de tocar e lá de dentro da igreja saiu não o sineiro, mas um camponês que confirmou ser ele quem estava tocando o sino.
“Quem morreu?”, perguntaram em coro ao rapaz, que respondeu pronta, firme e enfaticamente:
"Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta".
Antes que emendassem novas perguntas, o camponês antecipou-se, explicando o que segue.
Um senhor do lugar, nobre e ganancioso, sem escrúpulos, resolveu aumentar autoritária e indiscriminadamente a extensão de suas terras. E o fez invadindo e fincando marcos e cercas dentro das terras dos vizinhos, entre esses o camponês.
Prejudicado, o rapaz pediu, implorou e... Nada! Vendo que não conseguiria repor os limites de sua propriedade, finalmente resolveu levar o caso à Justiça. Em vão. A Justiça ficou do lado do mais forte, do mais rico, do mais poderoso.
Não se sabe a reação dos concidadãos do injustiçado diante da injustiça, mas é certo que ele resolveu gritar ao mundo a sua indignação através do sino, pois apenas o sino plangendo desgraça conseguiria reunir tanta gente no mesmo canto, naquela aldeia.
Fez isso, especula-se, talvez pra ver se contando seu infortúnio à multidão alguém o ajudava ou a partir de sua denúncia criava-se em torno dele uma rede de solidariedade ou de protesto capaz mobilizar o povo contra julgamento tão deplorável.
Bem, resumido o caso, vamos às imperdíveis lições e ilações que o inexcedível Saramago tira do episódio. Deixo vocês com ele, a partir deste ponto.
***
Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça.
Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando.
De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça.
Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo.
(...) é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos...
Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.

 

QUEM MANDOU
Veio de qualificadíssima leitora, que me honra com sua leitura e eventual colaboração. Por que justo essa história? Ela mesma vai explicar. Assim:
- Prezado Rubens, tem alguns dias, desde que você escreveu sobre o caso da Dra. Lucia Ramalho, que tenho lembrado de lhe enviar essa pérola escrita por José Saramago. Para mim e para muita gente dessa nossa Paraíba, nesse "reinado" você tem representado o camponês de Florença.
Não revelo seu nome, Professora, dando-lhe o crédito merecido, porque não deu tempo de pedir autorização. Tive urgência de me aproveitar do caso do camponês para esta domingueira.
Ah, e não me cabe representá-lo isoladamente. Ele é maioria; sua revolta, o sentimento de quase todos nós.

Falta a Operação Login

Trinta policiais federais e sete servidores da Controladoria Geral da União (CGU) realizaram ontem a Operação Logoff em João Pessoa, Recife e Salvador.
Foi para robustecer e ampliar as provas que CGU e PF já têm de ilícitos no Jampa Digital, projeto que deveria prover Internet grátis, sem fio, na Capital paraibana.
O Jampa Digital foi elaborado, licitado e contratado pela Prefeitura de João Pessoa em 2009, quando prefeito era Ricardo Coutinho, atual governador do Estado.
O Jampa é mais uma bomba de efeito retardado que começou a fazer tic-tac desde Ricardo e veio explodir nas mãos do sucessor, Luciano Agra.
Nem assim o alcaide da hora tem direito de chiar. Só quem chia nesse rolo é a própria bomba ou outra que PF e CGU venham a descobrir mais adiante.
Para tanto, técnicos em Informática das duas instituições farão uma varredura nos computadores e outros materiais que apreenderam ontem na Operação Logoff.
Apreenderam graças a seis mandados de busca e apreensão que a Justiça Federal expediu para que PF e CGU possam aprofundar as investigações no caso.
Foram apreendidos computadores e documentos nos setores de licitação e de compras da Secretaria de Administração da Prefeitura de João Pessoa.
Além do Centro Administrativo da PMJP, a Operação Logoff esteve na sede da Ideia Digital, na Bahia, filiais da empresa em Pernambuco e residências dos seus sócios.
A Ideia Digital foi a vencedora da licitação que a Prefeitura da Capital sob Ricardo Coutinho promoveu para montar o Jampa Digital.
Se nos computadores da Ideia e da PMJP forem encontradas novas provas, PF e CGU terão realizado então, discreta e silenciosamente, uma Operação Login.
Significa que terão sido bem sucedidos na tentativa de acessar fatos e coisas ainda tão inacessíveis quanto o Jampa nos computadores de quem mais precisa.


O que já constataram

Por enquanto, conforme apurei nos portais dos investigadores, eles já têm as seguintes certezas:
• houve irregularidade na aplicação de R$ 4,7 milhões repassados à Prefeitura de João Pessoa pelo Ministério de Ciência e Tecnologia para o Jampa Digital;
• as irregularidades referem-se à licitação e à execução do contrato firmado entre a PMJP e a Ideia Digital para implementação do programa;
• na licitação realizada em 2009 ajustes entre empresas supostamente concorrentes fraudaram o caráter competitivo do processo;
• a Ideia Digital chegou a utilizar um de seus empregados para representar outra empresa no processo licitatório;
• o desvio de recursos públicos nesse escândalo, mais um envolvendo a PMJP sob Ricardo-Luciano, decorre de comprovado superfaturamento por sobrepreço.


LOGOFF X LOGIN

Sou praticamente analfa em informatiquês, mas pesquisei e pelo que entendi logoff é opção que o usuário tem para fechar e abrir imediatamente o seu computador.
Já o login é a operação que o usuário faz, digitando seu nome e senha, para abrir um computador, um portal, uma página, um programa ou um serviço na Internet.
É por isso que eu digo que falta PF e CGU fazerem uma Operação Login no Jampa Digital e através dela descobrir, por exemplo, pra onde foi o dinheiro já pago à Ideia Digital.
Já se sabe que uma parte dessa grana pode ter sido investida pela Ideia na campanha de Ricardo Coutinho para governador em 2010.


Forçados a exaltar Agra e Roseane
Funcionários efetivos e prestadores de serviço que trabalham em um PSF da Capital (e, muito provavelmente, outros de outras unidades) foram convocados anteontem para colocar nomes e respectivas rubricas em um abaixo-assinado que seria anexado a uma inusitada ‘Carta de Apoio à Gestão Municipal de Saúde de João Pessoa’.
“Falaram que não era um documento político-partidário, mas apenas um documento para avaliação dos serviços de saúde do município de João Pessoa”, disse-me ontem um dos subscritores forçados do manifesto. No papel, Ricardo Coutinho, Luciano Agra e a secretária Roseane Meira são avaliados como gestores revolucionários e graças a eles João Pessoa teria hoje uma saúde pública de primeiríssimo mundo.
“Não é justo que brigas pessoais e disputas de ego por poder e pelo poder, (sic) venham a denegrir (eita palavrinha racista!) pessoas que lutaram por esse projeto! Pessoas como nossa secretária que até foi vítima de atentado contra a sua própria vida, que tem história política de defesa do SUS antes mesmo de sua inserção na Prefeitura! Que homem ou mulher teria disposição de passa por situações como essas? Os avanços só foram possíveis porque teve vontade política tanto da secretária de Saúde como dos prefeitos, Ricardo Coutinho e Luciano Agra”, diz um trecho do documento, que fecha com o seguinte apelo:
- Vamos compartilhar essa carta em solidariedade ao prefeito Luciano Agra e à secretária Roseane Meira em nome de todas as pessoas envolvidas nessa construção. Vamos em frente, não podemos retroceder!
 

A desesperança de Anísio

Meu caro Rubens, a história que passo a contar me aconteceu ontem (9 de maio de 2012) nas dependências do Centro de Ciências Jurídicas (CCJ), da UFPB (Campus de João Pessoa), onde concluo meu curso de Direito, que, entre outros objetivos, inclui o de me transformar num ser humano melhor e, quem sabe, ajudar a transformar nossa sociedade em algo mais justo e aprazível.
Ocorre que fatos como esse me enchem de desesperança e ajudam a entender por que a sociedade brasileira é o que é e porque nossa representação parlamentar se enche de quadrilheiros, alguns enrustidos, das mais diferentes estirpes.
Pois bem, nessa quarta-feira, após assistir a uma aula de Metodologia nas dependências do CCJ fui à Sala de Reprografia para colher um texto que o professor havia deixado para que fizéssemos um resumo como requisito para avaliação.
Por descuido deixei uma mochila que sempre uso aberta, de onde caiu minha carteira de cédulas. Alguns minutos após o ocorrido, dei-me conta da perda e passei a procurá-la sem lograr êxito. Recorri aos lugares por onde passei, desesperado para encontrar meus documentos, objeto da minha maior preocupação, em função, claro, do trabalho que teria para requisitar a segunda via de todos.
Cerca de vinte minutos depois, um servidor da segurança da Universidade, com muita gentileza, me liga dizendo que encontrou minha carteira de cédulas jogada em uma das ruas da UFPB e me devolveu.
Meu espanto maior, caro amigo, foi ver que aquele que primeiramente encontrou a carteira, antes do segurança, teve o cuidado de extrair dela os cerca de setenta reais que havia dentro, deixando, como consolo, os documentos.
Será que tenho que agradecer a Deus por isso? No Brasil, creio que sim. Essa perda, Rubens, é absolutamente recuperável, mas sinto profunda desilusão por me deparar com a possibilidade de um jovem estudante universitário, supostamente elite cultural e intelectual do país, ser capaz de roubar uma carteira.
Inunda-me de tristeza ter que acreditar que a desonestidade está no DNA do brasileiro. Pior se tiver sido um estudante de Direito, porque aí penso que ele mesmo sabe que esse comportamento está capitulado no nosso Código Penal como crime. E mesmo assim o cometeu.
Isso explica a representação parlamentar que temos. E mais, explica porque nunca iremos a lugar algum. O problema do Brasil não é o Brasil, é o brasileiro.
Fatos como esse insinuam que alguma coisa fiz de errado na vida por nunca ter me seduzido alguma chance de entregar pizza nos Estados Unidos.
Abraços amistosos de Anísio de Carvalho Costa Neto.

 

Permita-me, meu caro
O autor do instigante relato é multiplamente talentoso. Além de auditor fiscal dos melhores e jornalista de primeira, Anísio de Carvalho é excelente observador das circunstâncias, práticas e valores morais na vida contemporânea.
Sou-lhe muito grato pela mensagem que dá conteúdo e qualidade à coluna de hoje, mas não me acosto à sua descrença. Digo assim porque acredito mesmo que somos um povo bacana, majoritariamente honesto, fraterno, solidário, justo.
Somos muito mais o guarda que encontra e entrega os documentos e muito menos o sujeito fraco de idéias e caráter que furta o dinheiro do nosso amigo e colega.
Mantenho-me na certeza ainda inabalada de que somos verdadeiramente bem melhores do que esse proto de corrupto que surrupiou dinheiro de Anísio. Sou do clube que aposta no sustentado desenvolvimento humano e material do país, mercê das ações e transformações impulsionadas por nossos governos nacionais nos últimos dez anos.
Graças a esse crescente, sinto-me privilegiado por ter a condição de, tanto quanto o amigo e colega Anísio de Carvalho, viajar algum dia aos Estados Unidos para fazer turismo e consumir prazeres diversos, incluindo comer – e não entregar – uma boa pizza das cantinas e padarias italianas de Miami, Nova York, Chicago ou São Francisco.
Quanto aos quadrilheiros, meu caro, certamente eles não se limitam ao Parlamento. Temos evidências de sobra de que eles andam por aí impunemente, aprontando mil e uma safadezas em todos os poderes, instâncias e esferas. E cada vez menos enrustidos.
Tiro pelo que vejo atualmente na Paraíba, onde, de uns tempos pra cá, como diria o nosso catolaico poeta, bandidos passaram a agir com assombrosa desenvoltura e escancarada desinibição.


MEMÓRIA CULTURAL

“Sexta-feira é osso, madrinha!”, diria o netinho da minha amiga Áurea. Mesmo assim, apesar do sufoco de ter que dar conta de tanta obrigação no trabalho e da devoção de aprontar duas colunas seguidas para o sábado e o domingo...
Mesmo assim vou fazer o máximo para estar às sete da noite em ponto na Estação Ciência do Altiplano Cabo Branco, local do lançamento em João Pessoa do monumental ‘Paraíba - Memória Cultural’, livro do Professor e Artista Plástico Chico Pereira, um dos mais brilhantes intelectuais da Pequenina.
A obra, editada no padrão Grafset de qualidade, recupera a produção cultural da Paraíba por toda a nossa história, ou seja, da fundação a nossa última refundação, datada de 1º de janeiro do ano passado.
 

Desrespeito a Gonzaga

Para minha tristeza e perplexidade, soube ontem, somente ontem, que no último dia 2 o escritor e jornalista Gonzaga Rodrigues, presidente da Academia Paraibana de Letras (APL), foi impedido de participar de reunião do Conselho Estadual de Cultura para a qual fora convidado por um membro do órgão.
O convite decorreu do fato de ele, além de presidente da APL, ser ardoroso defensor e proponente de belíssimas iniciativas culturais que a Paraíba deveria promover para reverenciar – até por que transcorre este ano – o centenário do ‘Eu e outros poemas’. Foi justamente para discutir o que fazer pelos cem anos da obra de Augusto dos Anjos que convidaram Gonzaga.
Quem convidou o Neguin (assim a intimidade e o carinho chamam Gonzaga) não foi à reunião. Motivo justo, pelo que soube. Se estivesse presente, contudo, dificilmente escaparia do constrangimento de ver um representante do governo usar argumento ridículo para barrar a entrada do nosso cronista maior na sala onde se reuniria o CEC (na Fundação Casa de José Américo, Cabo Branco, em João Pessoa).
A pessoa que atalhou Gonzaga no corredor disse-lhe que o assento reservado à Academia já estava ocupado. Não pelo representante designado pela própria Academia (o poeta e crítico literário Hildeberto Barbosa Filho), mas por um suplente “que entra na vaga de qualquer um que faltar”, explicou o inusitado porteiro barrador.
“Eu queria pelo menos a oportunidade de abrir a porta e botar a cabeça pra ver quem estava lá dentro, mesmo correndo o risco de levar um grito, como uma figura levou certa vez de João Agripino ao abrir inadvertidamente a porta do gabinete do governador. Pois é, Rubão, não tive direito nem a um grito”, comentou Gonzaga, bem humorado, pedindo-me para não nominar quem o convidou e quem o barrou.


Motivação política?
Não quero acreditar, mas não quero mesmo acreditar que o incidente aqui narrado tenha a ver com o fato de Gonzaga ser amigo de eventuais adversários do governador ou de ter sido destacado membro do Conselho Estadual de Cultura em governos passados. Seria muito pequeno, mesquinho, tosco, rude, grosseiro.
De todo jeito, considero inadmissível um tratamento como o descrito a alguém da importância de um Gonzaga Rodrigues, ícone e patrimônio da melhor literatura paraibana, além do paradigma que é como jornalista. Não quero acreditar que a história de perseguições, preterições e discriminações por injunções políticas tenha se repetido feito tragédia, nesse caso, em plena Casa de Zé Américo.
Não quero acreditar, juro, mas não posso descartar. Afinal, de um governo como esse que o equívoco das urnas nos impôs não duvido de absolutamente nada, mas de nada mesmo do que possa fazer. Muito menos de sua capacidade de impor ou induzir alguém a cometer por ele, em seu nome, tamanho desrespeito.


Acreditar e esperar
De qualquer sorte, não se tem notícia se o Conselho discutiu, resolveu ou encaminhou alguma coisa a respeito do centenário do ‘Eu’ naquele dia. Espero que sim. Espero que o Conselho não enterre a minha última quimera de ver o Governo do Estado homenageando Augusto dos Anjos com a qualidade e a dignidade que o poeta e sua obra merecem.
Do mesmo modo, acredito que ao saber o que fizeram com o presidente da Academia Paraibana de Letras o Conselho realizará também – ou pelo menos – uma sessão pública, aberta e muito especial com a presença de Gonzaga Rodrigues. Na condição de homenageado, para desagravá-lo.

 

MAIS UM NO ÍNDEX
O juiz Edivan Rodrigues, da 1ª Vara Criminal de Campina Grande, deve figurar na próxima atualização do Index Hòmo Prohibitorum girassolaico. Ele frequentou ontem o Twitter criticando aberta e acerbamente a falta de estrutura e viaturas no transporte de presos para audiências, serviço que cabe ao Estado fazer ou prover.
Depois dessa, vale também uma rezinha dos jurisdicionados do meritíssimo para que ele não venha a ser representado pela Procuradoria Geral do Estado nem afastado de suas funções por ter ousado reclamar da incompetência ou desídia do Ricardus I.


Tardio e insuficiente
Além de providenciado mais de um mês depois de instalada e configurada a seca no interior do Estado, o Plano Estadual de Gestão de Riscos e Respostas à Estiagem “não corresponde às reais necessidades do agricultor familiar paraibano”.
A avaliação é de ninguém menos que o presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Paraíba (Fetag-PB), Liberalino Lucena, que desde o começo de março, se não me trai a memória fraca, vinha alertando para a ameaça de uma seca que já supera todas aquelas ocorridas nos últimos 30 anos.
Só lembrando: o Plano de título pomposo foi anunciado no dia 26 de abril último por Sua Majestade o governador Ricardo Coutinho, que esta semana decretou estado de emergência em 170 municípios paraibanos.
 

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