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Rubens Nóbrega

Rubens Nóbrega

A coluna é basicamente uma crônica política, que se diferencia da análise política clássica por não se prender ao factual nem à ordem ou pauta do dia. Contato com o colunista: rubensnobrega@uol.com.br

Time que "compra e paga"

- Meu amigo Vladi, lhe espero no time que compra e paga. Lhe espero, com Flavinho, no 40. Preciso muito de você, agora e em 2016.
***
Faço parte do time que recebeu anteontem o vídeo onde está gravado o convite feito com as palavras e frases que abrem esta coluna. Não comprei nem paguei um centavo. Vi e ouvi de graça aquele chamamento da boca e alegria do empresário Fábio Tyrone, ex-prefeito de Sousa e atual secretário-chefe da Casa Civil do Governador.
Com esse vídeo, aquela autoridade vestiu tremenda saia justa na candidatura à reeleição de Ricardo Coutinho (PSB). Digo assim porque a coligação adversária não perdeu tempo e anunciou ontem mesmo, através do seu Jurídico, que vai pedir à Justiça Eleitoral uma investigação sobre o suposto esquema de compra (e pagamento) de votos e apoios que se infere do aparente boquirrotismo do secretário.
O anúncio do pedido ao TRE-PB foi feito pelo advogado Harrison Targino no Correio Debate, da rádio Correio FM de João Pessoa. Um dos principais assessores da campanha de Cássio Cunha Lima (PSDB), Doutor Harrison disse que o Doutor Tyrone cometeu um evidente, inegável e irrecorrível crime eleitoral. O pretenso delito enquadraria o autor nos rigores do Art. 299 do nosso Código Eleitoral (Lei 4737/65).
O dispositivo legal tem a seguinte redação: “Art. 299. Dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber, para si ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem, para obter ou dar voto e para conseguir ou prometer abstenção, ainda que a oferta não seja aceita: pena - reclusão até quatro anos e pagamento de cinco a quinze dias-multa”.

 

Mas o que mata...

Bastante verossímil a explicação de ‘Flavinho’. O que estraga, contudo, é o complemento da expressão ‘time que compra e paga’. Porque logo após Tyrone diz o seguinte: “Lhe espero, com Flavinho, no 40”. Poderia ser um bar ou um bairro de Sousa, mas não é. O ‘Quarenta’ identifica o partido (PSB) de Ricardo Coutinho e, principalmente, o número com que o governador se oferece à digitação do eleitor na urna eletrônica. Pra arrematar, o secretário acrescenta um apelo a Vladimir: “Preciso muito de você, agora e em 2016”.
“Agora”, todo mundo sabe, é o segundo turno das eleições do ano da graça de 2014. E “2016”, a julgar pelo entusiasmo de Tyrone, é uma referência ao ano em que muito provavelmente tentará retornar à Prefeitura de Sousa. Na condição de contribuinte e cidadão, só espero uma coisa: se for, que o seja de graça e nas graças dos eleitores da magnífica cidade sertaneja. E não da forma como o ex-prefeito dá a entender no vídeo infeliz no qual deixou-se gravar, feliz por pertencer a um “time que compra e paga”.

 

Habilitação eleitoral?

Sobre o Programa de Carteira de Habilitação Social, do Governo do Estado, solicitei desde anteontem ao Detran e ao próprio governador respostas, comentários ou desmentidos – sempre com objetivo de esclarecimento - para as seguintes questões levantadas por um leitor que sugeriu a ‘pauta’ à coluna:
• foi o ex-governador Maranhão quem sancionou (o programa) em outubro de 2009;
• por que o Governador atual só faz (a habilitação social) no Ano de Eleição, de Estela (Estelizabel Bezerra, à Prefeitura da Capital em 2012) e agora dele (à reeleição)?
• pode aumentar a quantidade de vagas no ano de eleição?
• na primeira versão não havia o decreto regulamentando;
• em outros estados, como Pernambuco, existe uma continuidade (do programa) ano após ano, não só em ano de eleição.


Calado como resposta

Até 18h30 de ontem nada recebi do Detran ou do governador. As mensagens que mandei foram via i-meio para a Ouvidoria do órgão e o endereço de correio eletrônico ricovc@terra.com.br. Em seguida, como faço sempre desde o advento do Twitter, tuitei um aviso de remessa para @realrcoutinho e @detrangovpb. Vêm a ser, respectivamente, os perfis do governante e da autarquia naquela ‘rede social’. Ambos foram, portanto, devidamente notificados do meu pedido de informações e esclarecimentos, mas nada quiseram ou puderam informar ou esclarecer. De qualquer modo, se algo vier de lá, quando vier, será publicado com todo gosto.

UEPB em agonia

A julgar pelo conteúdo de nota oficial que divulgou ontem à tarde, a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) está novamente de pires da mão, suplicando ao Governo do Estado que repasse o que é dela por direito ou o suficiente para não ser obrigada a fechar as portas. Diz que há seis meses vem pedindo ao governador e aos seus secretários de Finanças, Planejamento e Educação que deem pelo menos uma olhada nos documentos que mostram a penúria em que a instituição vive e passou a viver desde o começo da atual gestão, em 2011.
Os documentos alertam que é pra ontem uma decisão capaz de manter a UEPB positiva e operante. O governo sabe disso, não é possível que não saiba. Afinal, desde maio são encaminhados ofícios que “solicitam dos secretários de Estado e do governador atenção especial aos dados apresentados no relatório elaborado pela Pró-Reitoria de Gestão Financeira da Universidade”. Até aqui... No Palácio da Redenção, na Granja Santana ou no Centro Administrativo em Jaguaribe, a reação do governo lembra muito um certo João sem Braço.
Mas quem se der ao trabalho de olhar o tal relatório, disponível no portal da UEPB (uepb.edu.br), verá que é realmente preocupante, vexatória e revoltante a situação. Por falta de dinheiro para cobrir e pagar os gastos mais caseiros, tipo água, luz e telefone, a Universidade pode entrar em colapso e paralisar todas as suas atividades ainda este ano. Paralisação que começaria pelas aulas, prejudicando de cara milhares de alunos de graduação e de pós-graduação, muitos dos quais prontos para concluir os estudos e botar e mão no canudo que habilita ao mercado de trabalho.
Sem a verba de que precisa para respirar, sobreviver e seguir em frente, a UEPB está ameaçada ainda de descontinuar seus projetos de pesquisa e de extensão, além de serviços que presta rotineiramente à comunidade. É com esses saberes e fazeres que a instituição insere-se mais diretamente e ligeiro nos problemas da sociedade em volta. É com essas ferramentas que ela produz conhecimento, dá assistência técnica, promove a cultura, capacita e qualifica força de trabalho, inclusive a prata da casa.

 

Retorno seguro

Ainda que fosse apenas um grande colégio de terceiro grau, mesmo que limitasse sua missão ao ensino, mesmo assim a Universidade já justificaria sua existência e sua importância para o Estado. Agora, juntando o ensino com a pesquisa e a extensão, junção que lhe dá o caráter próprio de uma Academia, a UEPB multiplica por mil cada centavo que possa receber e investir na busca e oferta de soluções e alternativas para alguns dos problemas mais cruciantes que afligem a população.


Por essa e outras...

Não dá pra entender, sinceramente, porque o atual governo trata dessa forma a UEPB. Ao mesmo tempo, não dá pra aceitar que o governo continue a desrespeitar a autonomia da Universidade – cortando, reduzindo ou, no mínimo, contingenciado os repasses financeiros previstos em lei.
Mesmo quando libera uma suplementaçãozinha ou outra, o que chega à UEPB é sempre muito aquém do necessário. Com isso, o que antes era sufoco virou estrangulamento. Ou pior, enforcamento. Sim, porque pra escapar a própria instituição adornou o pescoço com uma corda, arrochou o nó e vem se equilibrando sobre o banquinho de uma asfixiante austeridade interna. Mas ainda assim não dá.
Pelo que se vê, é evidente que esse tamborete não suporta tanto peso. Pode quebrar a qualquer momento ou ser derrubado, deixando a Universidade completamente pendurada na forca, em estado de agonia fatal. E pra a UEPB quebrar de vez ou cair pra nunca mais se levantar, basta o governo botar um pouquinho mais de força nos chutes que, desconfio, vem dando perversa e covardemente, por trás, no tal banquinho.

 

Governo corajoso
Uma coisa a oposição deve reconhecer no atual governo do Estado. Tem coragem de mamar em onça. Tanto que encara numa boa e até ignora olimpicamente decisões de nada menos que o Supremo Tribunal Federal (STF). Mesmo arriscando-se a uma intervenção federal. Se é dessa maneira, se com o poder que mais pode neste país o governo estadual age dessa forma, imaginem com que menosprezo deve reagir a decisões de primeira instância que mandem, por exemplo, o Estado pagar vantagens salariais subtraídas de repente e na marra de servidores do antigo Ipep.
Se não lhe causa mossa descumprir sentenças favoráveis a direitos conquistados por funcionários estaduais há mais de dez anos na Justiça, o que dizer, então, das reiteradas liminares que pequenos comerciantes conseguem para não pagar o imposto escorchante do regime de substituição tributária? Claro que o governo não dá a mínima para os juízes que concedem essas liminares, com as quais os requerentes sequer conseguem impedir a retenção de mercadorias nas porteiras fiscais do Estado ou em transportadoras com filiais em solo paraibano.
Alguns empresários extremamente prejudicados com tal situação recorrem vez por outra à coluna – em vão, pelo visto – para denunciar o imenso prejuízo que sofrem rotineiramente com essa absurda apreensão dos produtos que importam para revender aqui dentro. Revender, diga-se, em absoluta desvantagem competitiva diante dos lojões e atacadões. Tais empreendimentos em geral vêm de fora e são contemplados por regime diferenciado de tributação que permite pagar pouco ou quase nada de impostos ao Estado. Os pequenos comerciantes, paraibanos da gema, bem gostariam de contar com um regime desses. Mas... Fazer o quê? Eles são pequenos. Talvez seja exatamente esse o problema.

‘Propina’: suspeita volta com força

Acossado pela denúncia da descoberta, ainda em 2011, de suposto propinoduto que abasteceria secretários estaduais e o irmão do governador, o Governo do Estado cometeu nota oficial em 26 de setembro último para dizer que encaminhara o caso - republicana e formalmente - ao Ministério Público da Paraíba. “Por determinação do próprio governador”, ressaltava o comunicado distribuído pela Secretaria de Comunicação Social (Secom). Ontem, em resposta a um pedido de informação do Fórum dos Servidores Civis e Militares do Estado, o MPPB comunicou oficialmente às entidades não ter encontrado qualquer protocolo que confirme a existência de qualquer documentação a respeito do assunto em qualquer de suas unidades.
A resposta ao Fórum dá foros de veracidade à suspeita de que alguém simulou encaminhamento de documentação ao MPPB. Tais documentos conteriam elementos de investigação policial iniciada no dia 30 de junho de 2011 e encerrada menos de quatro dias depois, por ordem do então secretário executivo da Secretaria de Segurança Pública. Tudo girava em torno da apreensão de um automóvel com placas de Recife, dentro qual policiais encontraram R$ 81 mil em espécie e anotações em papeis que sugeriam o repasse do dinheiro ao parente e auxiliares do governador. Até onde sei, não foi instaurado regularmente um inquérito policial para aprofundar as investigações, mas foram feitas cópias dos termos de declarações prestadas pelo motorista do carro e um cidadão que se apresentou como dono do dinheiro. No interrogatório dessas pessoas envolveram-se pelo menos oito delegados da Polícia Civil, acusados pelo sub da SPP de armarem um factoide para sujar o cartaz do governador.
Uma daqueles cópias (em poder do colunista) mostra um requerimento dirigido ao “Excelentíssimo Senhor Representante do Ministério Público do Estado da Paraíba MP(PB)”. Esse possível documento tem configuração no mínimo estranha. Começa pelo seguinte fato: em condições normais de temperatura e pressão, a autoridade requerida seria o ‘Excelentíssimo Senhor Procurador-Geral de Justiça do Estado da Paraíba’, que vem a ser o Chefe do MPPB. Não faz sentido o Governo do Estado dirigir-se a um “representante” qualquer da instituição. Mas, como nada é tão ruim que não possa piorar, como se fosse pouco o tal requerimento não tem carimbos ou nomes digitados que identifiquem o requerente e, muito menos, o pretenso servidor do MPPB que o teria recebido. Não duvido, todavia, que a partir de hoje apareça alguém para assumir um papel ou outro (de quem teria mandado ou de quem teria recebido) como forma de ‘aliviar a barra’ do governo. Tudo é possível na Paraíba de agora.

 

“Chantagear o governo”

Por enquanto, outro dado curioso e disponível nesse complicado enredo é a curiosa e indisponível apuração que se pede ao Ministério Público Estadual. Nada a ver com propinas ou propinodutos. Quem redigiu o ‘requerimento’ pede que sejam apurados tão somente o que chama de “contundentes elementos que apontam para uma armação sem precedentes, com o intuito de chantagear o governo para atendimento às suas reivindicações”. Ou seja, pede a apuração da mais pura subjetividade.

 

Desencontro de datas
Por fim, o mais estranho dessa história, estranhíssima história: o ‘requerimento’ está datado de 2 de julho de 2011, mas, entre os documentos que o acompanham é possível encontrar ‘Auto de Entrega’ e ‘Folha de Informações e Despachos’ com data de 4 de julho do mesmo ano, ou seja, dois depois da ‘entrega’ do caso ao MPPB. Das duas, uma: ou o subscritor do pedido de apuração estava perdido no tempo e no espaço ou, na pressa, acabou dando mais razão ainda àqueles que acham tudo isso uma tremenda fraude gestada na mais grosseira operação abafa.


‘Arbeit macht frei’

Sempre muito atento às singularidades paraibanas, Gosto Ruim lembrou ontem que ‘O Trabalho Liberta’, nome do programa de ressocialização do Governo da Paraíba, é igualzinho à inscrição que os nazistas colocavam na entrada dos campos de concentração onde trucidavam judeus. Com pose de germanófilo e ares de poliglota, o meu amigo traduziu o lema: arbeit significa trabalho; macht, faz; frei, livre. Mas, antes que um aventureiro lance mão, informo que o batismo do programa não aconteceu na atual gestão. É coisa de 1996. Atualmente, apenas 400 dos mais de 8 mil presos são ‘beneficiados’ com inserção n’O Trabalho Liberta.


O enterro do SPE

Após duas proibições consecutivas que funcionaram como censura prévia à liberdade de expressão dos seus organizadores, o enterro simbólico do Serviço Público Estadual (SPE) foi liberado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e será realizado finalmente amanhã, às 10h, na Lagoa do Parque Solon de Lucena, Centro da Capital. A manifestação traz a assinatura de mais de 30 entidades que participam do Fórum dos Servidores Civis e Militares do Estado. Velório e sepultamento deverão acontecer no mesmo local, contudo. Por restrições da Justiça Eleitoral, o movimento descartou o cortejo fúnebre que levaria o defunto até o Palácio da Redenção, conforme estava programado inicialmente. De qualquer modo e sorte, o Fórum agradece a todos aqueles que comparecerem a esse ato de fé cívica e solidariedade cidadã.

Matando a fome

Como diriam os bons cronistas de antigamente, “do alto dos seus 84 anos bem vividos” o Professor Vicente Nóbrega tem muitas histórias pra contar. Entre as mais impressionantes, uma não lhe sai da cabeça até hoje. Nem da minha, pois fiquei mesmo bastante impressionado ao ouvir o relato de meu pai sobre os momentos finais de um homem morrendo de fome. Morto de fome, literalmente.
Ele lembra bem o corpo esquelético estirado no chão de um posto de gasolina em Tacima, terra natal de Dona Aparecida, minha mãe. Lembra também os gemidos baixinhos, quase inaudíveis, em meio ao barulho de gente desesperada, correndo para fazer e servir o prato de comida tardio. O alimento arranjado às pressas não matou a fome, mas pode ter contribuído para acabar de matar o faminto. Talvez por sua incapacidade de deglutir. Talvez pela reação fatal de um organismo completamente desnutrido ao pouco que possa lhe ter caído no estômago.
Pelas contas, a cena daquele homem agonizando completou 60 anos em 2013. O tempo decorrido remete à seca de 1953 que castigaria todo o Nordeste até o ano seguinte, afetando mais severamente o Sertão, Cariri e o Curimataú da Paraíba, onde fica encravado o antigo distrito de Araruna. Pra vocês terem uma ideia do quanto aquela morte mexeu e revoltou o então chefe do Posto Agropecuário do antigo Fomento Agrícola, saibam que ele cometeu uma ‘temeridade’ ao retornar ao seu local de trabalho naquele dia.
Vejam só o que fez: chamou o pessoal que trabalhava com ele, mandou abrir os silos e distribuir tudo o que lá se encontrava armezenado. Todas as carroças e caçambas disponíveis foram carregadas com feijão, fava e milho. Tudo foi levado e entregue de casa em casa do povo mais pobre que havia no lugar.
Chamar isso de temeridade, igual chamei há pouco, tem uma razão de ser. Foi com essa palavra que um diretor do Fomento definiria depois a decisão do chefe do Posto de Tacima. Que ainda se deu por feliz por não ver a sua humanidade punida em inquérito administrativo que lhe teria custado o emprego na época.
Mas ficou só na reprimenda o caso que simbolicamente antecipou em cinco decênios uma mudança radical na atitude do poder público em geral e dos governos em particular diante da fome que assolava a grande maioria dos governados. Digo assolava porque de doze anos pra cá o Brasil determinou-se e conseguiu finalmente, este ano, sair do Mapa da Fome no Mundo. Mas isso não é o colunista quem diz. É o que atesta o relatório global da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), divulgado há exatamente um mês em Roma.
Lembrei-me daquele documento e da história do homem morrendo de fome anteontem, ao receber mensagens que cuidavam do Dia Internacional de Erradicação da Pobreza, comemorado na sexta (17). Daí resolvi dedicar a coluna deste domingo de tanta fartura a esse feito extraordinário, sem dúvida um dos maiores de toda a história do nosso país. E vou completar a tarefa valendo-me de dados que peguei no sítio do Ministério do Desenvolvimento Social na Internet e em outros endereços tão ou mais concorridos, incluindo grandes portais jornalísticos que deram muito pouco ou quase nenhum destaque ao assunto. O que não faz uma campanha...
Bom, deixa pra lá. O importante é ressaltar, como o fez a FAO, que “entre 2002 e 2013 caiu em 82% a população de brasileiros em situação de subalimentação”. Não vejo como isso não possa ser manchete ou não merecer um bloco inteiro dos nossos melhores telejornais, mas...


Por essas e outras...

Queira ou não a nossa grande mídia, o Brasil foi e é a estrela mais brilhante do Relatório 2014 da ONU sobre insegurança alimentar no mundo, “por ter construído uma estratégia de combate à fome e ter reduzido de forma muito expressiva a desnutrição e subalimentação nos últimos anos”, conforme ressalta texto do MDS. O êxito a que se refere o governo brasileiro é resultado das seguintes providências e decorrências:
• aumento da oferta de alimentos, que em 10 anos acresceu em 10% a disponibilidade de calorias para a população;
• aumento da renda dos mais pobres com o crescimento real de 71,5% do salário mínimo e geração de 21 milhões de empregos;
• programa Bolsa Família beneficiando 14 milhões de famílias;
• merenda escolar para 43 milhões de crianças e jovens com refeições;
• governança, transparência e participação da sociedade, com a recriação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).


Um fato histórico

Como disse a Ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, quando da divulgação do relatório, protagonizamos um fato histórico porque a fome que persistiu durante séculos no Brasil deixou de ser um problema estrutural. Com base nos dados da FAO, ela mostrou ainda que “chegamos a um percentual de 1,7% de subalimentados no Brasil”.
Isso significa que 98,3% da população brasileira têm acesso a alimentos e têm segurança alimentar, conforme a entidade vinculada às Nações Unidas, acentuando ainda a redução da pobreza de 24,3% para 8,4% entre entre 2001 e 2012, ao mesmo tempo que a pobreza extrema também caia, de 14% para 3,5%.
A quem acha isso pouco ou desimportante, recorro à seca dos últimos três anos que afligiu duramente o Nordeste e o norte de Minas Gerais. Ao contrário do que ocorria antigamente, não foi preciso nenhum Estado recriar as famigeradas 'frentes de emergência' que botavam gente pobre dos sertões e grotões para trabalhar na enxada sob sol esturricante.
Bem diferente do que ocorria nos anos setenta e oitenta do século passado, dessa vez ninguém ouviu falar nem presenciou multidões de flagelados invadindo e saqueando cidades para ter o que comer. No Brasil de agora e de doze anos pra cá, graças a políticas públicas de combate à fome representadas e unificadas no Bolsa Família, é absolutamente inimaginável alguém presenciar uma cena como aquela da cruel estiagem de 53.
Uma cena que na minha certeza e nos versos do poeta Belchior, “na parede da memória” do Professor Vicente é seguramente “o quadro que dói mais”.

Terceiro turno à vista

Fiquei convencido de que as eleições deste ano na Paraíba dificilmente escaparão de um terceiro turno. Meu convencimento cristalizou-se quando soube ontem que presidiários de regime semiaberto participaram de panfletagem e adesivagem de campanha nas ruas de João Pessoa. Pelo menos três homens que cumprem pena na Penitenciária Média de Mangabeira foram vistos e filmados distribuindo material de divulgação da candidatura do governador à reeleição.
Os três foram condenados por latrocínio, que é o roubo seguido do trucidamento das vítimas. É crime hediondo, dos mais brutais e covardes que um ser humano pode cometer para eliminar uma vida e a própria humanidade. Um dos apenados, pelo que ouvi e vi, pegou 55 anos de reclusão, mas está incluído em programa – ‘O Trabalho Liberta’ – que o libera diariamente para trabalhar no Detran, segundo reportagem exibida no guia eleitoral do candidato de oposição.
Evidente que uma denúncia desse tipo precisaria ser checada, remexida e revirada antes de ser levada a público. Mas a própria coligação governista, por meio de nota à imprensa, tratou de confirma-la. Certamente porque não teve como negar a presença dos presidiários em atividade de campanha. Todavia, para tentar desqualificar a acusação, disse que não há qualquer comprovação de que os presos estariam atuando como cabos eleitorais por ação ou coação do PSB, dos seus aliados ou de agentes públicos ligados ao governo.
Que me perdoem os mentores ou redatores da tal nota, mas a explicação é no mínimo risível. A questão não é se os apenados estão fazendo campanha sob pressão ou por livre e espontânea vontade. A questão é que eles estão fazendo campanha, quando deveriam estar cumprindo as tarefas próprias de um programa governamental de ressocialização. Entre essas tarefas não dá para incluir, obviamente e por exemplo, segurar e balançar bandeiras ou oferecer a quem passa pela rua qualquer material de divulgação da candidatura governista.
Quanto ao fato de a informação ter sido veiculada pelo adversário, isso não deve nem pode servir ao governismo para diminuir a gravidade da denúncia. Queiram ou não os denunciados, salvo melhor juízo o fato revelado contém elementos suficientes para justificar e instruir uma consistente ação de investigação judicial eleitoral (aije). Ação com potencial para fazer estrago maior ou semelhante ao do Caso Fac, que teve como desfecho a cassação do mandato do então governador Cássio Cunha Lima, consumada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em fevereiro de 2009.


MPE pode mover aije

Previsível que esse rolo dê argumento para alguém falar que essa história é obra de gente que sabe que vai perder e desde já arranja motivo para recorrer ao tapetão e com isso derrubar o candidato que se julga vitorioso e desde ontem festeja a vantagem que lhe deu a pesquisa Ibope. Presumível, contudo, que ganhando ou perdendo Ricardo Coutinho pode até não enfrentar uma aije requerida pela concorrência, mas dificilmente se livrará de alguma que venha a lhe mover o Ministério Público Eleitoral (MPE).


‘Visitas qualificadas’
Outras ações do gênero também poderão ser ajuizadas no Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba em razão de outras evidências e indícios de uso da máquina do Estado na campanha. Tem, por exemplo, a história das chamadas ‘visitas qualificadas’, nas quais servidores comissionados estariam deixando de frequentar suas repartições em horário de expediente para fazer a cabeça de eleitores em bairros da periferia da Grande João Pessoa.
De acordo com informações repassadas a este colunista, o convencimento dos visitados não aconteceria apenas pela força do verbo. Nas visitas valeria mais a força da verba. Os visitantes teriam meios e poderes para prover necessidades como a quitação de contas de água, de luz, da farmácia... Ou, ainda, carta branca para alistar pessoas pobres no exército de prestadores de serviço ou ‘codificados’ que consomem a folha de pessoal do Estado feito gafanhotos famintos e vorazes.
Esses procedimentos de campanha estão sendo investigados pelo MPE. Se a investigação colher provas robustas, podem apostar que alguma ação judicial – eleitoral ou por improbidade – vai rolar contra os responsáveis pelo suposto malfeito.


Sobre o Caso Suplan

É o Poder Executivo, representado pelo governador Ricardo Coutinho, que tem o dever legal originário de mandar apurar se procede ou não a denúncia da Engenheira Aracilba Rocha sobre suposta corrupção na Superintendência de Obras do Estado no atual governo.
Nada mais republicano do que um governante antecipar-se às cobranças ou pedidos de investigação feitos por oposicionistas, inclusive para mostrar que não tolera nem deixa sem apuração qualquer notícia de desvio que possa configurar crime contra o patrimônio e a administração pública.
Mesmo estando em campanha e sendo candidato à reeleição, o atual ocupante do Palácio da Redenção e inquilino da Granja Santana, como diziam os colunistas de antigamente, não pode fugir dessa responsabilidade. Prevista, aliás, no Estatuto do Servidor Civil do Estado da Paraíba. Sendo ele o servidor número um...
 

Gororoba indigesta

A julgar pelos resultados da pesquisa Ipespe divulgados ontem neste Jornal, não foi uma boa essa ideia de juntar e misturar ricardistas com maranhistas e petistas com democratas numa panela só. A gororoba partidária, servida tão logo puseram a mesa do segundo turno, não foi bem digerida por uma parte do eleitorado. E a outra, pelo visto, parece satisfeita com o prato que escolheu no primeiro. Tanto que sequer quis provar a novidade do cada vez mais caro e variado cardápio da política paraibana.
Digo isso porque, segundo o Ipespe, o gosto por Cássio Cunha Lima (PSDB) e Ricardo Coutinho (PSB) permaneceu praticamente o mesmo em quase todos os ingredientes testados na pesquisa de agora (realizada segunda 13 e terça 14), comparando com a pesquisa dos dias 2 e 3 deste mês. Antes de prosseguir, um esclarecimento: ao me referir a ‘ingredientes’, quero significar obviamente as intenções de voto apuradas de forma espontânea, estimulada, em quem o eleitor não votaria de jeito algum e quem os entrevistados acham que vai bater essa parada.
Pois bem, da pesquisa de antevéspera do primeiro turno para a de agora, na espontânea (que indica uma opção consolidada ou um voto mais firme), Cássio ganhou sete porções, digo, pontos percentuais. Tinha 39% na pesquisa anterior e subiu para 46% nessa última. Já o candidato do PSB ganhou cinco pontos: de 36 para 41%. Na estimulada, Cássio cresceu cinco (de 43 para 48%) e Ricardo, quatro (de 39 para 43%). Confiram na receita a seguir, digo, na tabela abaixo.

 

Em votos válidos, as intenções de voto coletadas pelo Ipespe mostram que Cássio teria acrescido três pontos percentuais ao seu capital eleitoral, enquanto Ricardo agregou dois. Já em matéria de rejeição, Cássio teria crescido dez pontos e seu adversário, 13. Mas esse número cravado pelo governador nada tem a ver com o engajamento petista à campanha do ex-adversário no primeiro turno. É apenas uma coincidência, nada mais. Por fim, quando o Instituto pergunta quem o eleitor acha que deve vencer a eleição, a resposta desta semana revela que a crença na vitória de Cássio caiu dois pontos em relação à pesquisa anterior e a de Ricardo subiu cinco. Acompanhe.


Pessoal preparado
Disse ontem que considero o Ipespe um instituto sério, competente e cuidadoso. Sobretudo porque vai a campo com pessoal qualificado para tanto. Conforme o próprio Instituto diz na apresentação de suas pesquisas, as entrevistas são feitas por equipes de pesquisadores com bastante experiência e especialmente treinadas para esse trabalho. Além disso, os questionários são aplicados face a face e, após a coleta de dados, é feita uma checagem junto a pelo menos 20% dos entrevistados, “sendo 10% pessoalmente e 10% por telefone, a fim de confirmar a correção dos trabalhos de campo”.


1.500 entrevistas

No caso das duas pesquisas abordadas por esta coluna, foram realizadas 1.500 entrevistas, com margem de erro de 2,6 % para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra. E o nível de confiança, conforme já informado, mas nunca é demais repetir, é de 95,45%. Corresponde à probabilidade de os resultados retratarem o momento eleitoral do período de coleta.
Outra coisa que precisa ser dita e lembrada: a amostra é estratificada por sexo, idade, grau de instrução, renda familiar, mesorregião (Mata, Agreste, Borborema, Sertão e Capital), condição do município (se é capital ou interior), porte dos municípios (até 20 mil eleitores, de 20 a 100 mil e mais de 100 mil) e ainda traz um recorte do que acontece em João Pessoa e Campina Grande.

 

Seminário na UFPB
Devo participar hoje à noite, a partir das 18h30, de uma mesa de debates sobre ‘Liberdade de Expressão e Propaganda Eleitoral nas Redes Sociais’. A atividade faz parte da programação do VI Seminário do Diretório Acadêmico Professor Tarcísio Burity, do Curso de Direito da Universidade Federal da Paraíba. O evento será realizado na sede da entidade estudantil, no Campus de João Pessoa. Em edições anteriores, os seminários DATAB trouxeram à Paraíba juristas de renome mundial, a exemplo do Doutor Roberto Caldas, juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, e do Professor Francisco Rezek, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e das Relações Exteriores do Brasil. O convite ao colunista foi formulado pela estudante Annaís Moraes, Vice Presidenta do DATAB.

TRE atesta desequilíbrio

Por unanimidade, o Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) acatou ontem o pedido de tropas federais para garantir, em Patos, tranquilidade e segurança à população em geral e aos eleitores em particular no próximo dia 26, data da votação do segundo turno das eleições deste ano. Além disso, aí estaria o mais importante, a presença do Exército nas ruas do nosso quinto maior colégio eleitoral asseguraria também a paridade de armas e a igualdade entre as partes que disputam o cargo de governador do Estado.
Bem, esse é o lado bom, digamos, da decisão do TRE. O ruim é a confirmação de que Patos precisa realmente de tropas federais porque lá a Polícia Militar estaria se comportando com parcialidade em favor da coligação governista. E quem assim afirma não é o colunista, muito menos qualquer expoente da oposição que resta na Paraíba. A instrumentalização da força pública em benefício do candidato à reeleição está registrada em documento encaminhado àquele Tribunal pelo Juiz Ramonilson Alves, titular da 28ª Zona Eleitoral.
É claro que a PM, por seu Comando Geral, negou publicamente que o seu destacamento nas Espinharas esteja a serviço do projeto político do comandante-em-chefe da corporação. E o fez tão logo soube do que o Doutor Ramonilson colocara no ofício enviado no último dia 9. O juiz foi contestado também por uma colega sua, a Doutora Ana Maria do Socorro Hilário, da 65ª Zona Eleitoral, que mandou dizer ao TRE ser desnecessária a convocação de tropas federais para Patos, inclusive porque, na avaliação dela, as informações sobre o facciosismo da PM não passariam de ‘rumores’.

 

Mas o que valeu...


Acredito que o TRE tomou conhecimento, pesou, mediu e peneirou as manifestações contrárias à posição do Juiz Ramonilson, mas no final acolheu como válidas e verdadeiras as constatações do magistrado. E o que ele diz sobre o que teria ocorrido no primeiro turno em Patos é de uma gravidade imensa. Pior: o que ele botou no papel reforça enormemente a impressão generalizada de que nunca antes na história da Paraíba houve tamanho desequilíbrio das condições políticas e materiais de concorrência entre duas chapas majoritárias. Tanto que a própria Justiça Eleitoral parece reconhecer a situação e tenta, mediante decisões como essa, sinalizar que está atenta e pode muito bem não apenas frear como punir, oportunamente, as condutas vedadas de quem se acha acima da lei e de todos os cidadãos.


O que disse o juiz

• “Lamentável, numa esquisita omissão, a PM assistiu passivamente às organizações criminosas de delitos eleitorais e massiva distribuição de combustível ocorrida em simultaneamente em vários postos de combustíveis da cidade, no dia 4 de outubro, às vésperas das eleições”.
• “A dificuldade nos controles das carreatas foi o maior problema. Foram denúncias de corrupção eleitoral, com a distribuição de combustível, infrações de trânsito e briga durante o percurso entre coligações rivais”.
• “Não é possível conferir total confiança na atuação da Polícia Militar da Paraíba. É fato que quando alguma irregularidade ou ilicitude é praticada na campanha da candidatura adversária ao do governador, a fiscalização é intensa e elogiável a ação da PM. No entanto, quando a candidatura é da própria ou simpática ao governador é reticente e estranha somente ocorre sob a vigilância e pressão dos agentes do Ministério Público, do magistrado ou da Polícia Federal. O que é muito ruim”.
Bota ruim nisso, Doutor. O único consolo possível é saber que se tudo isso ocorreu é porque alguém mandou, manda e quem faz, obedece. É assim que funciona numa organização militar.

 

Pesquisa surpreende
Pelo menos a este colunista, surpreendeu e muito o resultado da pesquisa Ipespe que este Jornal da Paraíba divulga hoje, embora já tenha exposto todos os números no seu portal de Internet ontem à noite.
A surpresa decorre naturalmente da expectativa de um placar mais apertado nas intenções de voto para o segundo turno da eleição para governador. Baseava-me no próprio resultado da eleição de primeiro turno, que colocou Cássio Cunha Lima (PSDB) apenas um ponto percentual na frente do seu principal adversário, Ricardo Coutinho (PSB).
Mas é bom deixar bem claro que a surpresa não significa, em absoluto, desconfiança quanto à lisura e integridade do trabalho do Ipespe, instituto que reputo sério e competente. Lembrando ainda que ao contrário de muita gente boa ou bem mais esperta não costumo desqualificar as pesquisas do gênero realizadas na Paraíba.
Primeiro porque, nunca é demais repetir, pesquisa reflete o momento em que é realizada. Segundo, pesquisa não é votação, não é eleição, embora antecipe tendências do eleitorado. Terceiro, acho muito pouco provável que uma empresa do gênero, ainda mais uma de porte regional, fraude seus dados ou erre deliberadamente para favorecer essa ou aquela candidatura, atendendo a uma circunstância eleitoral.
Instituto que trabalha desse jeito atira no próprio pé, suja um cartaz e mancha um crédito tão caros quanto difíceis de conseguir nesse meio. Resumindo, se o Ipespe diz que Cássio lidera com boa vantagem essa corrida é porque é exatamente o que está acontecendo neste momento do segundo turno.
 

Desequilíbrio total na eleição

Ainda bem que o Ministério Público Eleitoral vai investigar porque no ano da graça de 2014 e das eleições um programa como o Empreender-PB aumentou para R$ 28 milhões o volume de dinheiro para emprestar a supostos microempreendedores. Digo supostos porque pesam sobre o microcrédito oferecido pelo governo estadual suspeitas seríssimas de que estaria sendo utilizado com propósitos eleitoreiros. Suspeitas ancoradas no fato de que em 2013, todinho, o aporte de recursos para tais empréstimos foi de R$ 16 milhões, ou seja, pouco mais da metade do total alocado até setembro último.

Quem fica de pé atrás diante desses números faz uma conta simples para mostrar o possível alcance do pretenso aparelhamento: se o governo estiver distribuindo cheques de R$ 2 mil, na média, estará beneficiando nada menos que 14 mil pessoas através do seu Empreender. Esse formidável contingente de satisfeitos e contemplados junta-se a um impressionante exército de ‘prestadores de serviço’. São 24 mil soldados (conforme peguei no Tribunal de Contas do Estado, o TCE). 24 mil secundados por cerca de 2.700 comissionados, mais um milhar de outros temporários e uma multidão aparentemente incalculável de contratados sob a alcunha de ‘codificados’.

Dá mais de 42 mil o tanto de beneficiários desse recrutamento, considerando apenas as ‘categorias’ mencionadas. Se brincar, juntas superam o número de servidores efetivos do Estado, que em junho deste ano estavam na casa dos 42.688, segundo informa o mesmo TCE através do Sagres. A propósito, o órgão de controle e fiscalização da administração estadual e municipal não tem a menor ideia ou informação de quantos seriam os tais codificados. Não tem, portanto, o menor controle nem como fiscalizar. Não tem porque, simplesmente, o governo recusa-se a dizer quantos eles seriam, onde trabalham e o que fazem. Se é que fazem alguma coisa além de muito provavelmente votar e pedir voto para quem lhes contrata e lhes pagaria uma boa grana para fazer campanha.

R$ 14,5 milhões por mês
De qualquer sorte, o TCE sabe que com os já mundialmente famosos codificados o Estado estaria gastando em torno de R$ 14,5 milhões por mês, a julgar pelas cifras informadas recentemente pelo Banco do Brasil ao conselheiro Nominando Diniz, relator das contas da Secretaria Estadual de Saúde, pasta na qual o governo da hora guardaria a maioria ou quase totalidade desses misteriosos ‘funcionários’. Mas esses R$ 14,5 milhões representaria um média da despesa deste ano até agosto passado, excluindo o mês de abril. No mês do aniversário do colunista os codificados ‘sangraram’ da Viúva nada menos que R$ 27,3 milhões, conforme a planilha repassada ao Tribunal pelo BB.

E como se fosse pouco...
Vem um juiz eleitoral de Patos e registra, em pedido de tropas federais para aquela cidade no dia das eleições em segundo turno, que a Polícia Militar estaria usando vários pesos e diferentes medidas na atual campanha. À coligação oposicionista, marcação cerrada. À coligação governista, marcação serrada. Por essas e outras, todos esses dados e indícios terminam por dar razão a quem acredita que nunca antes na história da Paraíba estiveram tão na cara e tão ostensivos numa eleição os elementos tradicionalmente apontados como fatores de desequilíbrio da disputa pelo cargo de governador.

PB encolhe a escola pública
Deve haver muitas explicações e dezenas de desculpas para o fato, entre elas má gestão ou pura incompetência. Só não existe justificativa possível, aceitável, para a redução – de um ano (2013) para outro (2014) – de mais de 31 mil alunos de ensino fundamental e médio em escolas estaduais e municipais da Paraíba. O encolhimento da educação pública em nosso Estado foi apurado no Censo Escolar mais recente realizado pelo Ministério da Educação e divulgado ontem neste Jornal. Outra modalidade importante que também registrou baixas significativas foi o EJA (Educação de Jovens e Adultos). Matriculou 4.120 alunos a menos no mesmo período. Ano passado, 140.868 pessoas matriculadas; este ano, 136.748.

Pra todo mundo ficar igual
Segundo nota do Oficial de Justiça Newton Leal Costa Filho, servidores do Poder Judiciário da Paraíba começaram a requerer desde anteontem, em todas as comarcas do Estado, o direito à ajuda de custo para moradia que o ministro Luiz Fux, do Supremo, estendeu a todos os juízes do Brasil. O requerimento seria modo de protestar contra a administração do Tribunal de Justiça e lembrar que há dois anos estão congeladas as progressões e promoções dos funcionários. Reivindicam pelo menos mil reais do benefício, que no caso dos magistrados pode chegar a R$ 4.377,73. Detalhe: o auxílio-moradia deve ser pago a partir deste mês, bastando para tanto não existir residência oficial na comarca onde o juiz atua. Detalhe 2: será pago mesmo que tenha casa própria e nela more na cidade em que trabalha. Mas é assim mesmo: não sendo residência oficial, “tá valendo!”.

O POVO QUER SABER
Afinal, procede ou não a história de cárcere privado em concorrida granja da cidade?

‘Afrontando a Justiça’

Sob esse título, o Fórum dos Servidores Civis e Militares da Paraíba divulgou nota ontem denunciando que o Governo do Estado não reimplantou nos contracheques dos funcionários do antigo Ipepos benefícios salariais que havia suprimido desde 2011. A ‘afronta’ consistiria no fato de a administração recusar-se a pagar os valores subtraídos, em acintosa desobediência a uma determinação expressa de juiz da Vara da Fazenda Pública de João Pessoa. Expedida há três semanas ou mais, diga-se.
A decisão de primeira instância foi mantida na segunda, ou seja, no Tribunal de Justiça, quando do julgamento de recurso do governo.Mas nem assim a ordem judicial foi cumprida, transformando o Caso Ipepno mais ilustrativo exemplo de que o descumprimento de decisões judiciais tornou-se algo tão corriqueiro na Paraíba de três anos pra cá quanto a aparentemansidão com que o Judiciário Estadual suporta as‘afrontas’ oriundas do Palácio da Redenção. Que não se limitam a ignorar sentenças em favor de servidores. Também pudera... Até o orçamento do Poder “entra na roda”.
A própria melhoria salarial castrada dos holerites ipepianos também foi imposta por ordem judicial em governos anteriores, que cuidaram de implantá-la. E o pior: o corte efetuado, alcançando até 50% da remuneração, teria contribuído para a morte de 18 pessoas que tiveram sérios problemas de saúde nos últimos três anos. Segundo consta, elas adoeceram e vieram a falecer depois que se viramimpossibilitadas de honrar compromissos financeiros de longo prazo. Compraram carro, casa, botaram filho pra estudar em faculdade particular, tomaram empréstimo em banco...
Essas pessoas assumiram despesas na certeza de que teriam como pagá-las, na certeza de que ninguém lhes retiraria o que haviam conquistado de forma tão sofrida quanto merecida. Mas, de uma hora pra outra... Como se não bastasse, esse é um problema que afeta diretamente mais de 1.200 pais de família. Ou seja, mais de 1.200 famílias. Mas, nem assim... Nem o governo obedece ao que a Justiça manda nem a Justiça manda o governo obedecer. De caso em caso, chega a ser revoltante constatar que estamos assistindo a uma insegurança jurídica jamais vista na história republicana da Paraíba. E o que é pior: pelo visto, alimentada pela própria Justiça.

 

Romaria à Granja

Parece inesgotável o poder de convencimento de Ricardo Coutinho. Ele deve ter milhões de argumentos para atrair neste segundo turno o apoio de dezenas de políticos de todos os naipes e níveis que diariamente comparecem à Granja, todos apresentando sintomas de alta ansiedade para aderir mais do que depressa ao projeto de reeleição do atual governador. Fiquei ainda mais convencido do fascínio que o candidato exerce atualmente sobre parcela considerável da nossa gloriosa ‘classe política’ após receber ontem a fotografia reproduzida abaixo. Pense uma romaria! Pense uma santa forte, essa tal de Santana!


De papel crepom
A expressão foi lançada pelo Professor Francisco Barreto para referenciar a qualidade das obras de asfaltamento ou recapeamento de rodovias estaduais a cargo da atual administração. Antônio Carlos Ferreira de Melo, também Professor, concorda inteiramente que o governo em curso vem mesmo obrando ‘estradas de papel crepom’, entre elas a que liga Rua Nova, distrito de Belém, a Bananeiras. Diz que o trecho foi inaugurado em junho deste ano, mesmo sem estar concluído. “Mal foi entregue, tive a infelicidade de estourar um pneu de meu carro por lá, apesar de aquinhoado assessor do poder contestar, dizendo que os buracos daquela pista não estouravam nem pneu de bicicleta”, recorda. “Pois bem, quando a matéria foi publicada, cinco dias após os trabalhos foram reiniciados onde os buracos existiam, retirando-se camada asfáltica estragada e reestruturando a base da estrada com material apropriado, que logo recebeu o preparo para aplicação da já referenciada camada necessária,que até hoje não foi colocada, estando os serviços paralisados há mais de 20 dias”, revela.


Enquanto isso...

Ainda segundo o Professor Antônio Carlos, “novos buracos se abrem na parte já recuperada (da estrada Rua Nova-Bananeiras),como se a estrada fosse feita de papel crepom mesmo, conforme credenciado leitor seu havia denunciado”. E arremata: “Portanto, amigo, vamos mais uma vez cobrar dos responsáveis a conclusão da estrada, incluindo toda a sinalização que sequer iniciada, para que a realização não seja confundida com enganação para aqueles poucos que ainda acreditam no governo do momento”.


Nada como antes

Por falar em qualidade de obra pública, vejam só essa que recebi do Engenheiro Sérgio Vieira, de João Pessoa: “Rubens, dois acontecimentos da semana passada chamaram minha atenção. Foram os acidentes acontecidos nas passagens de níveis da Br-230 sobre a Br-101 e o outro na passagem de nível do Ponto Cem Reis (centro da Capital). Se você observar bem, existe uma diferença fundamental entre eles. Enquanto no primeiro o veículo que colidiu com a estrutura provocou visíveis danos à estrutura, no segundo a estrutura nada sofreu. Quero lembrar que a estrutura da Rua Duque de Caxias (onde fica passagem de nível do Ponto de Cem Reis) foi construída em 1969 (há 45 anos, portanto) e este seu amigo foi responsável pela obra, juntamente com o saudoso Engenheiro Ivanildo Martins Dinoá”.

O ‘Pilar de Dilma’

Pejorativamente ou não, foi esse o título usado pela jornalista Andreia Sadi, da Folha de S. Paulo, para informar um dado muito pouco divulgado que explicaria em parte (ou um bom bocado) a preferência do eleitorado nordestino pela reeleição da atual Presidente da República. Na edição de quarta-feira última, ao noticiar a visita que a candidata petista faria naquele dia à Paraíba, o jornal paulistano informou que a nossa região é o ‘pilar de Dilma’, entre outros motivos porque “não passa pela retração econômica atacada pelos candidatos oposicionistas”.

De fato, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro apresenta até aqui crescimento em torno de um por cento, segundo cálculos do Banco Central “a economia nordestina cresceu 2,55% no segundo trimestre do ano, na comparação com o primeiro, que já havia mostrado expansão de 2,12%”. De acordo ainda com a jornalista da Folha, as taxas de crescimento do Nordeste não têm paralelo no restante do país, pois “nenhuma das demais regiões obteve dois trimestres consecutivos de alta, e as taxas, mesmo quando positivas, foram bem mais modestas”.

Por essas e outras, ancorada ainda em muitos outros números e argumentos que comprovam acentuada melhoria social e econômica dos nordestinos em doze anos de governo petista, a campanha de Dilma Rousseff tende a se intensificar no Nordeste. Com um objetivo muito claro: ampliar a vitória da Presidente na região para 75% ou mais dos votos válidos como forma de contrabalançar o peso do antipetismo nos estados mais ricos do Brasil, sobretudo em São Paulo, maior responsável pela ascensão de Aécio Neves (PSDB) à liderança da corrida sucessória presidencial. Tanto é assim que ainda não haviam sido proclamados os resultados do primeiro turno pela Justiça Eleitoral e a candidata do PT pegava a estrada para fazer um périplo por capitais como Teresina (PI), Salvador (BA), Maceió (AL) e Aracaju (SE), além de João Pessoa, onde veio fechar o apoio do governador Ricardo Coutinho (PSB).


Onda de ofensas
A empatia de Dilma e o PT com o Nordeste causou de novo reações da mais deplorável xenofobia, do mais repulsivo preconceito. Tal e qual ocorreu nas eleições de 2010. Lembram? Quatro anos atrás, após a contagem dos votos uma estudante paulista postou no Twitter um apelo para que seus conterrâneos eliminassem os nordestinos que encontrassem pela frente. Afogando-os, de preferência. Na época, a incitação tinha tudo para dar o resultado esperado pela jovem. Afinal, havia água em abundância nos reservatórios paulistanos, ao contrário do que ocorre atualmente por lá, não se sabe se por falta de planejamento, imprevidência ou incompetência do governo daquele Estado. De qualquer sorte, a moça foi processada pelo Ministério Público Federal (MPF) pela injúria cometida e condenada pela Justiça a um ano, cinco meses e quinze dias de cadeia, além de multa. Mas essa pena ela pagou em serviços comunitários. Só espero que tenha sido em alguma instituição de assistência ou amparo a migrantes nordestinos.

Recidiva do ódio
A semana encerrada ontem, a primeira do segundo turno das eleições de 2014, foi marcada por nova e forte onda de ofensas aos nordestinos. No Twitter e em outros ambientes das chamadas ‘redes sociais’ na Internet, além de sermos chamados de burros, jumentos, seres inferiores e outros adjetivos impublicáveis, dessa vez até mesmo um grupo numeroso de supostos médicos propôs a castração química em massa dos homens nascidos na região. Tudo por conta do resultado de uma eleição. Imaginem, então, o que pode vir de uma reeleição. Aí será o quê? Um novo apartheid? Reeditaremos uma guerra de secessão “debaixo do Equador”? Ou seremos condenados a beber o que resta do volume morto da Cantareira?

‘Indignidade médica’
O Ministério Público Federal (MPF) deve entrar mais uma vez em ação, literalmente, para processar quem nos injuriou. Digo isso porque na manhã de sexta-feira (10) encontrei no portal iG matéria intitulada “MP abre frente para combater preconceito contra nordestinos” informando o seguinte: “Diante de várias denúncias relacionadas à incitação ao ódio e preconceito contra a comunidade nordestina pela internet, a Procuradoria-Geral da República (PGR) recomendou que os integrantes do Ministério Público Federal (MPF) em todos os Estados levantassem denúncias com o objetivo de que a PGR instaure procedimentos criminais ou administrativos contra autores de posts preconceituosos na rede”.
Melhor ainda: esta semana, “a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) começará a analisar medidas judiciais contra comunidades ou pessoas que incitem o ódio contra nordestinos na Internet”. Uma das páginas de Facebook que já está sob investigação do MP e deve ser alvo de ações judiciais por parte da OAB é a "Dignidade Médica", aquela que chegou a pregar um "holocausto contra nordestinos". O caso, revelado pelo iG, mostra que os membros desse grupo (eles seriam mais de 97 mil, entre médicos, professores e estudantes de Medicina) assumem que fazem campanha para Aécio Neves, pedindo votos para o candidato tucano dentro de consultórios e outras unidades de saúde. Públicas ou privadas. Eles acreditam fazer um trabalho de convencimento de seus pacientes. Já quanto aos empregados que lhes auxiliam no atendimento, dizem, por exemplo, que colocam ‘a recepcionista no lugar dela’ com ameaças de que perderá o emprego se Dilma for reeleita. Fazem assim porque no entendimento deles esse seria o "nível de conversa que pobre entende", revela o iG.