ENTRE LINHAS
Brasil sem lateral na Copa... As razões do improviso de Ancelotti
Com investimento pesado em estrangeiros, Seleção passa a sofrer com a escassez de jogadores. Hoje não temos um lateral para substituir Wesley.
Publicado em 09/06/2026 às 9:30
O corte de Wesley a uma semana do início da Copa do Mundo expõe uma mazela do atual momento do futebol brasileiro: já não temos peças suficientes para formar uma seleção razoável.
A escolha de Éderson, preterindo Vitinho e Paulo Henrique, que estavam na pré-lista de convocados, mostra que a tal relação de 55 nomes foi só uma mera formalidade. Na vera, uma considerável parte dessa lista não está em condições de disputar uma Copa do Mundo.

Vitinho e PH são, sem sobra de dúvidas, os melhores laterais brasileiros atuando no Brasil. E isso quer dizer muito pouco. Porque é preferível improvisar por ali do que apostar em um jogador de ofício.
E o pior é que essa é uma tendência para as duas laterais. Com a saída de Wesley, o paraibano Douglas Santos passa a ser, em tese, o único lateral que está realmente jogando na posição. Danilo é zagueiro (e reserva) no Flamengo, enquanto Alex Sandro já não é unanimidade no próprio Flamengo.
O Brasil experimenta algo que jamais tinha vivido numa Copa, mas que é mais comum do que imaginamos em outras seleções: a falta de jogador. Inglaterra, Espanha, Alemanha, França... Nesses países, ter 26 jogadores de primeiro nível é quase uma utopia. Muitas vezes eles vão buscar na Série B de seus campeonatos ou até em outros países a solução para “completar o time”.

Memphis Depay, da Holanda, joga no Corinthians. Fico imaginando alguém por lá analisando o futebol do atacante. Vai por absoluta falta de concorrência. Não fosse assim, iria um ainda mais desconhecido.
Voltando ao nosso problema, o Brasil simplesmente não tem laterais. E com todo cuidado para não parecer xenofóbico, muito dessa escassez vem da globalização. Nossos principais times importam jogadores de fora e impedem o desenvolvimento natural de jovens da base.
A contratação desenfreada de estrangeiros já custou uma crise sem fim na Itália, que ficou fora das últimas três Copas, e na Inglaterra, que não é campeã do mundo desde 1966.
O Campeonato Brasileiro começou com 151 estrangeiros. Na média, é quase oito jogadores de fora por time. O Grêmio iniciou a temporada com 13 gringos, um a mais que Botafogo e Santos.

Na lateral, especificamente, temos uma preferência nítida por jogadores de fora. Alguns dos principais clubes do país têm estrangeiros no elenco: o Palmeiras conta com Giay e Piquerez (que está machucado), o Flamengo tem Varela e até bem pouco tempo atrás, também contava com Viña; o São Paulo conta com Cédric Soares e Enzo Diaz; o Inter com Bernabei e Aguirre; Esquivel e Benavidez se revezam na lateral direita do Athletico-PR; o Vasco tem Puma Rodríguez; o Botafogo, Mateo Ponte; no Bragantino, joga Andrés Hurtado...
Essa realidade não vai mudar. Com uma economia bem mais forte do que seus pares da América do Sul, o Brasil assumiu a condição de importador compulsivo. Compra quem quer, a agora se dá luxo até em trazer jogadores da base.

Assume um papel que é muito parecido com a da Premier League – compra barato e vende caro para os principais centros do mundo. Nessa hora, ninguém pensa em Seleção.
O reflexo é na Copa. A tendência é que a Seleção, que já esteve na boca do povo, seja formada com alguns ilustres desconhecidos para a grande maioria. Mais ou menos a realidade de outros esportes, como vôlei e basquete, que só torcemos de quatro em quatro anos, em época de Olimpíada.
O futebol, que se orgulhava em ser diferente com os seus 200 milhões de técnicos dando pitaco, vai caindo nessa realidade. E tende, em pouco tempo, a ter costumes bem europeus.
O técnico já é italiano.
E o estilo de jogo, de jogadores improvisados em muitas posições, era algo que só eles sabiam conviver. Essa agora também vai ser a nossa realidade.
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