projeto de homenagem ao centenário do poeta

Augusto

dos Anjos

Seleção de notas biográficas

"Vamos para o Rio. Nunca mais porei o pé na Paraíba."

Augusto
de Carvalho Rodrigues dos Anjos
nasceu em 20 de abril de 1884, num engenho de açúcar da Paraíba do Norte, no instante em que o abolicionismo começou a crescer, com a presença atuante de Joaquim Nabuco e Rui Barbosa na tribuna parlamentar, de José do Patrocínio na imprensa e nos comícios populares, de Saldanha Marinho no foro, de André Rebouças à frente da Confederação Abolicionista, ondas que levariam num arrastão o barco monárquico, que não tardará a ir a pique.

***

Até 1908, até pois os 24 anos, Augusto dos Anjos viveu no Engenho Pau d’Arco, de onde se afastava periodicamente para breves estadas na Paraíba ou no Recife. Fez todos os exames preparatórios no Liceu Paraibano, e todo o curso na Faculdade de Direito, no regime que então se denominava "exame vago", facultado aos alunos que não tivessem frequência regular, condicionando-os à arguição de toda a matéria e não apenas do ponto sorteado. Daí a sua ausência quase absoluta, a sua não participação do movimento estudantil em Pernambuco.

***

O adolescente impressionava pela magreza e aspecto doentio, descritos por Orris Soares e José Américo de Almeida. É deste o retrato traçado por mão de mestre, o mais interessante, senão o mais fiel: "mais alto do que baixo, franzino e recurvo, tez encerada de moreno pálido, a fronte alongada e uns grandes olhos sem mobilidade. As mãos eram afiladas e moles, mãos de tímido. [...] Usava um bigode mínimo, como um debrum. O andar era inseguro com os ombros lançados para a frente e o peito mais reentrante do que o seu natural. Um passo leve, tateante, como se marchasse na ponta dos pés." Evidentemente, o poeta não se impunha pelo físico. Muito menos pela comunicabilidade. Homem de poucos amigos, enrustido, abrindo-se só com os íntimos, e com estes afável e prestativo, sua personalidade, contudo forte, como que se apagava diante de estranhos. Emudecia. E, quando falava, não exercia aquele fascínio peculiar aos grandes conversadores. Não tinha gosto nem interesse em agradar as pessoas só por agradar ou pelo prazer de brilhar. Ríspido algumas vezes, distante, vago, suas qualidades eram mais negativas que positivas para abrir os caminhos da vida, inflexivelmente vedados aos tímidos.

***

Augusto do Anjos teria como prêmio ao apoio da sua família à oligarquia dominante a nomeação para a cadeira de Literatura do Liceu Paraibano, em caráter interino, na vaga aberta com a eleição para deputado federal do titular efetivo, Manuel Tavares Cavalcanti. Com o irmão mais velho, Artur, como promotor público, e o mais moço, Aprígio, como redator d’A União, órgão oficial do governo, pesou também, é claro, o seu próprio prestígio, como intelectual, junto ao novo presidente, de quem se tornaria amigo. João Machado era do Brejo da Areia, terra do já falecido Doutor Agnelo Cândido Lins Fialho, pai da noiva, e com

esta o poeta se casaria logo após a sua nomeação. Sendo além do mais professor de um filho do presidente, nada mais natural que as relações se estreitassem até a intimidade palaciana.

Ao poeta parecera tão simples e natural o que pleiteava: o afastamento do cargo de professor do Liceu, com todas as garantias, de modo a possibilitar-lhe a viagem ao Rio de Janeiro, onde cuidaria da publicação do seu livro de poesias. Caso conseguisse um emprego público, uma cadeira permanente na congregação do Colégio Pedro II, por exemplo, liberaria o presidente do Estado, seu amigo, de qualquer compromisso. Até lá precisaria conservar aquele ponto de apoio, como garantia na eventualidade de um fracasso nos seus projetos literários. Mas o presidente, tão compreensivo e tolerante, tornara-se irredutível na defesa de seus princípios republicanos. Impossível dar licença a funcionário interino. Era contra tais liberalidades. Se quisesse ir para o Rio, que fosse por sua conta e risco. Tinha que demiti-lo. E mais não contasse com nova nomeação, se pensasse em voltar para a Paraíba. O Liceu não podia ficar sem professores.

***

A reação fora instantânea. Retornando à sua casa, o poeta, transfigurado, comunica à esposa sua dramática resolução: "Vamos para o Rio. Nunca mais porei o pé na Paraíba." Dias depois, o primeiro navio do Lóide que passou pelo Recife trazia para o Rio de Janeiro o casal Augusto dos Anjos. Viagem de lua de mel um tanto retardada, quatro meses após o casamento.

“Augusto dos Anjos é um poeta que não se confunde com os outros”

No Rio de Janeiro, as coisas seriam diferentes. Publicaria, logo à chegada, o seu livro, afirmação da sua personalidade independente, o Eu. E, em breve, havia de nascer-lhe o primeiro filho. Levava algum dinheiro. Não precisava do auxílio de ninguém. Nem dependeria de parentes. Faria relações com poetas, escritores e jornalistas, que lhe reconheceriam o talento, e tudo facilitariam ao novo companheiro de letras. Conquistaria, em suma, pelo próprio mérito, todas as posições que almejasse, na imprensa e no magistério.

***

Nenhum editor quisera publicar o seu manuscrito. Acabaria por financiar a edição, de parceria com o seu irmão, Odilon. Um ou outro deveria acreditar na empresa, como um negócio capaz de proporcionar lucros. É o que, pelo menos, transparece nas cláusulas do contrato firmado por ambos, documento que, dado o seu indiscutível valor biográfico, não pode permanecer inédito, como até agora. Ei-lo, em reprodução ipsis litteris:

Pelo presente documento, fica firmado entre Odilon dos Anjos e Augusto dos Anjos, abaixo assinados, que tendo Odilon dos Anjos dispendido, como dispendeu, a importância de Rs. 550$000 (quinhentos e cinquenta mil réis), na impressão de mil exemplares do livro de versos denominado Eu, de propriedade literário de Augusto dos Anjos, fica com direito ao que se segue: -


I
Reaver, à proporção que os primeiros exemplares do livro forem sendo vendidos, a importância dispendida com a mesma impressão.


II
Participar da metade do lucro que se verificar na venda dos exemplares do livro, depois que Augusto do Anjos, ato contínuo a ter sido reavida a importância da impressão, retirar para si quantia igual à da mesma impressão (Rs.).


Fica considerada como despesa de impressão a quantia de Rs. 50$000 (cinquenta mil réis), dispendida com a fotografia de Augusto dos Anjos, a fim da mesma figurar no livro.


Fica considerada como despesa à parte tudo que for gasto com a venda e colocação do livro, cabendo a quem houver feito dita despesa reavê-la, oportunamente.


Rio, em 6-6-1912

Odilon dos Anjos
Augusto dos Anjos

***

O título escolhido para as suas poesias é de uma ousadia rara. Algumas das composições são perfeitamente estranhas e caracterizadas por um evidente descaso por tudo quanto constitui a moeda corrente, nas letras da nossa terra. Entretanto, passada a primeira impressão, o leitor verifica que dentro daquelas páginas palpita um espírito original, que tanto verseja – e sempre com um singular poder musical – sobre temas excessivamente bizarros, com entretece lindamente o famoso soneto Vandalismo". Tinha talento, sem dúvida, mas não devia escrever sobre coisas que repugnavam ao convencionalismo.

***

Perguntassem lá pelo nome de Augusto dos Anjos. O que poderiam responder é que se tratava de um estreante, autor de nus versos extravagantes. Nada mais. O Eu, além de uma ou outra nota esparsa e dos artigos acima citados, enquadrava-se na literatura condenada dos ratés, dos inconformados, colocados à margem. Não é sem propósito que o rebelado José Oiticica, escrevendo agora para um jornal da oposição como A Época, procurava caracterizar o amigo como um dos representantes da Poesia Nova, isto é, uma poesia diferente, atuante, revolucionária. Hermes Fontes, que estreara, em 1908, com Apoteoses, saudado efusivamente pelos bem-pensantes, bandeara-se para o lado dos malditos, participando da mesma ordem de ideias. "Augusto dos Anjos é um poeta que não se confunde com os outros. É diferente dos mais pelo credo, pela fortuna e pela grande independência de pensar e dizer. Com os outros, isto é, com três ou quatro dos nossos grandes jovens poetas, ele se identifica, apenas, pela força da cultura, pela segurança, pelo brilho, pela excepcionalidade de seu estro."

***

O poeta era inclassificável. O máximo que poderia obter, como ponto de referência, eram adjetivos pouco recomendáveis, como estapafúrdio, aberrante, desequilibrado. Um caso patológico. Em matéria de extravagância, aparecia na mesma linha de um Caio Monteiro de Barros, no plano político, pretendendo organizar Partido Socialista, ao mesmo tempo antimilitarista, anticapitalista, e anticlericalista.

***

Nesse clima, que poderia esperar Augusto dos Anjos de seus conterrâneos? Nada. Fora proscrito da Paraíba pela oligarquia apenas ferida, mas não derrubada. João Maximiniano de Figueiredo, eleito deputado federal, não podia fazer mais, servindo ao poeta apenas para as notícias d’O País ou para as eventuais substituições no Ginásio Nacional e na Escola Normal. Tinha que esperar, esperar sempre, indefinidamente. Enquanto isso, cresciam-lhe as responsabilidades, e a família aumentava, cada ano. As cansativas aulas particulares apenas supriam os magros vencimentos de professor público. Não conseguia fixar-se ainda em coisa alguma. Essa instabilidade é a causa das frequentes mudanças de endereço, assinaladas nas cartas que escrevia para a irmã ou para Sinhá Mocinha. Em perto de três anos, que foi quanto viveu no Rio de Janeiro, residiu em dez casas de diferentes bairros, quase sempre em quartos de pensão, tudo era incerto, a não ser a sua perambulação de professor à cata de alunos.

***

Em 1914, surgiu a possibilidade da

nomeação para diretor do Grupo Escolar de Leopoldina, em Minas Gerais. Agarrou-se a ela como um náufrago à espera de tábua de salvação. Seu concunhado, Rômulo Pacheco, ligado à política local, obtivera o apoio do Deputado Ribeiro Junqueira, chefe todo-poderoso da região, para a iniciativa. O ordenado de apenas 330$000 pareceu vantajoso para quem certamente teria menos despesas na vida modesta e obscura que iria viver no interior. Mesmo assim, em Leopoldina, continuou a das aulas particulares.

***

Leopoldina seria, para ele, algo estupendo, maravilhoso, o próprio Nirvana, como dirá em carta à Sinhá Mocinha: "Apesar da monotonia desta cidade, tenho passado bem aqui, não somente sob o ponto de vista da saúde, como também sob o da chamada vida material. Quando digo bem da vida material, quero dizer em condições melhores do que as que me infelicitavam dantes, obrigando-me ao Deus-dará das misericórdias alheias. Não maldigo entretanto a fase angustiosa que pesou sobre o um destino. Dada a compreensão, peço licença para dizer, superior, que eu tenho do mundo, foi-me ela mais propícia do que adversa à integração de minha individualidade moral e até mesmo intelectual. Aceito hoje em filosofia o finalismo otimista de Sócrates, o qual, em termos vulgares, pode ser assim enunciado: tudo quanto sucede é unicamente para o bem." Esta carta é datada de 29 de setembro. Um mês depois, precisamente, o poeta adoece, vindo a falecer em 12 de dezembro de 1914 de uma congestão pulmonar.

“tudo quanto sucede é unicamente para o bem” Seleção de Notas Biográficas de FRANCISCO DE ASSIS BARBOSA, publicadas na 43ª Edição do livro EU E OUTRAS POESIAS. Editora Bertrand Brasil, 2001.

Seleta de poemas

Uma seleta de 8 poemas de Augusto dos Anjos

O lamento das coisas

Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos
O choro da Energia abandonada!

É a dor da Força desaproveitada
-- O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza...

Da luz que não chegou a ser lampejo...
E é em suma, o subconsciente ai formidando

Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!

Eterna mágoa

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
E que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

A meu pai doente

Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!

Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!

Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!

-- Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!

O morcego

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede...”
-- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

Asa de Corvo

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte — a costureira funerária —
Cose para o homem a última camisa!!

Budismo moderno

Tome, Dr., esta tesoura e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contrato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Poema Negro - A Santos Neto

Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
- Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?

E parece-me um sonho a realidade.

Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, á meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!

É a Morte - esta carnívora assanhada -
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
- Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino...
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajes pretos e amarelos.
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!

E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes,
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!

Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte
Recomeça o barulho das matracas.

A desagregação da minha Idéia
Aumenta. Como as chagas da morféia
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-me os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!

Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos.
Desperto. E tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.

Meu coração, como um cristal, se quebre
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Com os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Versos Íntimos

Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo.  Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Fortuna Crítica

Trechos de ensaios escolhidos

1-4

Augusto dos Anjos ou Vida e morte nordestina por Ferreira GULLAR

Poeta, crítico de arte, memorialista, tradutor e ensaísta, Ferreira Gullar escreveu o que ainda hoje é considerado o melhor estudo sobre o poeta paraibano, "Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina (1977). Considerado o maior poeta brasileiro vivo, Gullar é autor de livros que são marcos da literatura nacional como "A luta corporal" (1954), "Poema sujo" (1973) e "Dentro da noite veloz" (1975). Em 2011, ganhou o Prêmio Jabuti com o livro de poesia "Em alguma parte alguma" que foi considerado "O Livro do Ano" de ficção.

No Engenho do Pau d’Arco, na Paraíba, nas ruas do Recife e João Pessoa, nos primeiros anos deste século, cismava, sofria, escrevia poemas, um homem jovem, magro e taciturno, que se tornaria conhecido na história da literatura brasileira pelo nome de Augusto dos Anjos.

“Nascido e criado sob regime rural do patriarcalismo, alimentado com leite de escrava, Augusto (de Carvalho Rodrigues) dos Anjos descende pelo lado materno de antigos senhores de terras, os Fernandes de Carvalho, proprietários de engenhos na várzea da Paraíba, à margem do Rio Una, um dos afluentes, do rio maior”. Nasceu a 20 de abril de 1884. Em 1982, os dois engenhos de propriedade da família, o Pau d’Arco e o Coité, arcaicos, movidos a água, são hipotecados. Com a baixa do preço do açúcar e da aguardente, a situação financeira da família se agrava. O Coité é vendido, como o seria também, mais tarde, o próprio Pau d’Arco, residência dos Carvalhos, onde Augusto escrevera tantos de seus poemas. O pai do poeta, Dr. Alexandre Rodrigues dos Anjos, vítima de um insulto cerebral, está imobilizado numa cama. Morre em 1905. O tio, Dr. Aprígio Carlos Pessoa de Melo, morre em 1908. Dois anos depois, a família se desfaz do Pau d’Arco, do qual se já se mudara, transferindo-se para a casa da Rua Direita, 103, na cidade.

É nesse ambiente de decadência, doença e luto que vive Augusto dos Anjos. Mas o que desmorona não é apenas sua própria família: é todo um amplo setor da classe latifundiária do Nordeste atingida pelas transformações econômicas, sociais e políticas das últimas décadas: a abolição da escravatura, a proclamação da República, a construção de The Conde d’Eu Railway Company Limited, o estabelecimento da Companhia de Engenhos Centrais anglo-holandesa. É a penetração do capitalismo que, se por um lado significa progresso, por outro agrava a miséria legendária da região. Assim, tudo em sua volta parece estar morrendo, desmoronando:

E eu me conerta na cegonha triste Que das ruínas de uma casa assiste Ao desmoronamento de outra casa

No ambiente universitário do Recife, em cuja Faculdade de Direito se formará em 1907, Augusto entrará em contato com o espírito cientificista que se tornara tradição da famosa Escola do

Recife, a partir de Tobias Barreto. Ali, certamente, tomou conhecimento das várias doutrinas derivadas do materialismo e do evolucionismo (Comte, Haeckel, Darwin, Spencer) que marcariam profundamente sua visão de mundo e sua poesia.

“...a arte como o caminho para atingir a ideia de Homem Absoluto.”

Lendo Spencer, convenceu-se de que a ciência é incapaz de penetrar a essência das coisas – o incognoscível –, a realidade absoluta que seria fonte de todo o conhecimento humano; que o evolucionismo não era um fenômeno limitado aos seres vivos mas se estenderia ao mundo material e também à sociedade humana. Com Haeckel, aprendeu que a monera estava na origem de todos os seres animais. Dessas concepções materialistas, atingiu-o, sobretudo, a noção da morte como fato material, da vida como um processo químico dentro do qual o corpo humano não era mais que uma organização “de sangue e cal”, condenada inapelavelmente ao apodrecimento e à desintegração. A isso veio somar-se a influência de Schopenhauer, com seu idealismo voluntarista que nega o progresso histórico, afirma que a essência do mundo é uma vontade cega e apresenta como única perspectiva para o homem, condenado ao sofrimento, o aniquilamento da vontade de viver. Essa filosofia negativa se tornava tanto mais aceitável para Augusto dos Anjos porque apresentava a arte como o caminho para atingir a ideia de Homem Absoluto.

2-4

Augusto dos Anjos ou Vida e morte nordestina por Ferreira GULLAR

Tanto a filosofia de Spencer como a de Schopenhauer refletem a atitude reacionária de setores da sociedade europeia em face do avanço da ciência e da técnica. Por caminhos diversos, chegam ambos a uma concepção negativa do processo social e do destino humano. O Nordeste de Augusto dos Anjos não conhecia nem as conquistas científicas nem os avanços sociais e econômicos contra os quais surgiram aquelas filosofias. No entanto, na dialética da cultura dependente, elas se tornam, para o poeta, a expressão do desmoronamento do seu mundo pré-industrial. De fato, na realidade que o rodeava – marcada pela miséria física e social das famílias falidas, dos caboclos e negros famintos, do tio louco a vagar pelos matos – era difícil descobrir argumentos para contestar o niilismo que aprendera nos livros. Pelo contrário, tudo o confirmava. E, mais que isso, oferecia-lhe, senão um consolo, pelo menos uma explicação para aquele mundo que se deteriorava – e lhe permitia emprestar-lhe dimensões de tragédia universal.

Recife, o Engenho do Pau d’Arco não são mais apenas Recife e o Engenho. São também um “lugar do Cosmos”, um ponto qualquer do universo e do tempo, onde Augusto, com sua consciência – “última luz tragicamente acesa/ na universidade agonizante” –, indaga e sofre o mistério da existência. Jamais, antes dele, na poesia brasileira, essa indagação se fizera em tal nível de urgência existencial e de expressão poética.

II A leitura cronológica da poesia brasileira das últimas décadas do século passado até a primeira deste século permite constatar, quando se chega ao Eu, de Augusto dos Anjos, uma mudança de qualidade, um salto. Poucos críticos o perceberam até agora e mesmo estes não se deram ao trabalho de aprofundar a observação feita. A tendência mais comum da crítica especificamente literária com respeito a Augusto ou é superficialmente laudatória ou procura justificar suas virtudes de poeta apesar do seu linguajar cientificista e de seu “mau gosto”. Não resta dúvida que esses dois traços da poesia de Augusto dos Anjos oferecem dificuldades a que se perceba o que ele traz de realmente novo, o que significa o avanço como formulação poética, como expressão verbal, no processo literário brasileiro. Parece-me, por isso, necessário, a fim de melhor apreendermos a contribuição desse poeta, tentar definir o contexto literário em que sua obra surgiu. Mais especificamente: como era a poesia brasileira naquele momento.

Estabeleçamos, primeiro, alguns pontos de referência. No ano de 1900, passagem do século, Augusto dos Anjos tem 16 anos. Nesse ano, publicam-se Faróis, de Cruz e Souza; e Poesias, de Alberto de Oliveira. Em 1902, aparecem as Poesias, de Olavo Bilac; Kyriale, de Alphonsus de Guimaraens; e dois livros de prosa que convém mencionar pelo caráter de sua linguagem: Canaã, de Graça Aranha; e Os Sertões, de Euclides da Cunha, especialmente este com o qual o poeta tem evidente afinidade. Os Últimos Sonetos, de Cruz e Souza, vêm à luz em 1905; no ano seguinte, as Poesias, de Raimundo Correia; em 1908, Poemas e Canções, de Vicente de Carvalho. Vemos assim que, na época em que Augusto forjava os instrumentos de sua expressão poética, o parnasianismo e o simbolismo eram as duas tendências atuantes na poesia brasileira. Tanto uma como outra influíram na sua formação, conforme está evidente em seus poemas, mas a nenhuma delas se filiou, como é fácil de compreender se se considera a diferença radical entre sua visão de mundo e a dos parnasianos e simbolistas. Essa visão de mundo – que não se esgota nas ideias filosóficas de que parte – elabora uma linguagem poética que assimila e supera aquelas influências. Do parnasianismo, Augusto herdou, sobretudo, o verso conciso, o ritmo tenso e a tendência ao prosaico e ao filosofante; do simbolismo, além do gosto por palavras-símbolo com maiúscula,

o recurso da aliteração e certos valores fonéticos e melódicos. Todos esses elementos aparecem mesclados em seus poemas, transformados por uma empostação original que os utiliza livremente, como meio. Não há nele a preocupação formalista mas, antes, a busca de uma linguagem intensa que, por barroca que seja, jamais é meramente ornamental.

***

Na obra de Augusto dos Anjos aparecem, não de maneira eventual, e sim como elemento constitutivo de sua linguagem, alguns traços que caracterizam a nova poesia, a que se convencionou chamar de poesia moderna. A obra dos poetas brasileiros do fim do século passado e começo deste pode revelar-nos aqui e ali, no emprego de um adjetivo, na construção de uma metáfora – mais nos simbolistas que nos parnasianos – sintomas de uma nova sensibilidade que, no Brasil, informará a linguagem poética posterior a 1922. Antes de Augusto dos Anjos, somente no poeta maranhense Sousândrade aqueles traços ganham caráter consequente e se definem como verdadeiras e surpreendentes antecipações. Os estudos recentes que tiraram do olvido o poeta do Guesa Errante não deixam dúvida quanto a isso. Arriscar-me-ia, não obstante, a ponderar que, se compararmos em conjunto a obra dos dois poetas, veremos que, em Augusto dos Anjos, o traço novo é mais profundo e está presente de maneira constante em sua obra. Em que pese a audácia de certas construções verbais de Sousândrade – numa direção que a poesia de Augusto não conheceu -, o grosso de sua obra (O Guesa, O Novo Éden) é forjado numa linguagem mais retórica que poética onde preponderam o gosto pelas construções sintáticas arcaicas e a prolixidade narrativa. Tais características, plenamente justificáveis se se leva em conta a época em que Sousândrade escreveu (entre 1868 e 1893), explicam a razão por que, mesmo depois de explicitada pela crítica a importância do poeta, sua obra se mantém distante do interesse do público ledor de poesia.

Precisamente o contrário se passa com a obra de Augusto dos Anjos: ela não apenas continua a despertar o entusiasmo do leitor comum, como sustenta suas qualidades diante do leitor exigente versado na leitura dos poetas modernos. Por isso que, enquanto Sousândrade é redescoberto a partir de uma visão crítica que superestima o formalismo poético e que não torna de

3-4

Augusto dos Anjos ou Vida e morte nordestina por Ferreira GULLAR

consumo atual, Augusto, editado e reeditado, aceito pela crítica como uma situação de fato, teve o caráter inovador de sua poesia oculto pela força mesma que a manteve viva até hoje. Noutras palavras: não foi a crítica que descobriu Augusto; foi Augusto que “descobriu” a crítica.

Como se oculta o novo na poesia de Augusto dos Anjos? Por efeito da mesma atitude radical que, fazendo-o romper com as conveniências verbais e sociais da poesia, levou-o a disputar o poético à podridão dos cemitérios e à vulgaridade dos prostíbulos, a mesclar a beleza ao asco e, como uma espécie de defesa, a armar-se de um vocabulário “científico”, prestigioso, que impõe à sua linguagem o selo da época e ameaça “datá-la”. Assim, o novo que há em sua poesia abre caminho em meio a esse amálgama de vulgaridade e mau gosto que é, não obstante, condição imprescindível para que, neste caso, o novo se produza. Porque, como afirmamos antes, a poesia de Augusto dos Anjos não nasce de uma assimilação crítica e de uma superação paulatina das técnicas de fatores que o obrigam a romper com a linguagem (com a visão) poética em voga. Daí a presença, em sua obra, tanto de elementos que o põem adiante de sua época como de outros que, prendendo-o a ela, ocultam-nos seus traços inovadores.

Mas em que me baseio para afirmar que existe, no poeta do Eu, elementos que antecipam a linguagem moderna da poesia brasileira? Para responder essa questão,

devo primeiramente esclarecer o que entendo por “poesia moderna” ou “nova linguagem da poesia”.

O abandono das formas “clássicas” do poema – a estrofe regular, o verso metrificado, a rima obrigatória – apagou as fronteiras óbvias que facilmente identificavam a poesia e distinguiam da prosa. Com isso se tornou “fácil” distinguir a poesia moderna da antiga e, ao mesmo tempo, “difícil” distinguir prosa e poesia. Não se faz necessária uma acuidade especial para compreender que, do mesmo modo que o verso medido e a rima deixavam muita prosa passar por poesia, o abandono desses recursos não tornava automaticamente moderno todo e qualquer poema escrito em versos livres. A diferença profunda entre os dois tipos de linguagem poética não reside nisso.

Tampouco é irrelevante o abandono daquelas formas tradicionais de poema, a aproximação da linguagem poética com a linguagem prosaica. Não se trata de uma aproximação aparente ou apenas formal: ela resulta de uma mudança qualitativa na concepção de poesia, a qual, por sua vez, exprima uma mudança qualitativa na visão de mundo do poeta. Ao abandonar as formas tradicionais do poema, o poeta abandona com elas um mundo de metáfora, símbolos e ideias que já não serviam para expressar a realidade da vida contemporânea: a realidade prosaica da sociedade burguesa. O rompimento com a visão antiga – com as formas antigas – não se fez de estalo, mas ao cabo de tentativas, tateios e buscas contraditórias, como se vê no satanismo de Baudelaire, no “desregramento” de Rimbaud, no simbolismo de Mallarmé. A primeira forma de reação ao prosaísmo burguês foi atitude romântica, depois a arte pela arte, tentativas de, por assim dizer, ignorar a realidade prosaica. Mas, tanto em Baudelaire como em Rimbaud, já se vê misturado à ânsia de fugir ao mundo prosaico, o prosaico. E quando a linguagem da poesia, desvestindo a doirada plumagem, desceu ao nível da prosa é que o próprio poeta desceu ao chão (como albatroz do famoso soneto de Baudelaire), decidiu habitar o cotidiano e passou a ver nele não o mundo de que se deve fugir e sim o mundo que se deve transformar. Não sugiro que essa mudança se deu a partir de uma decisão deliberada, nem mesmo que a maioria dos poetas modernos passou a encarar como tarefa da poesia a transformação da sociedade. Nada disso. Muitos poetas modernos continuaram, e continuam, a ter da vida e do mundo uma visão idealista, às vezes religiosa, às vezes mística ou mágica.

Não obstante, em todos eles a linguagem se despiu da velha retórica, a experiência concreta da vida se tornou a matéria da poesia: o poeta passou a falar a partir da fala comum.

A nova linguagem poética é, portanto, produto de uma nova época, de uma nova situação social do homem. O traço mais marcante dessa época, no plano ideológico, é a desmistificação da realidade (e do homem) como consequência do desenvolvimento técnico-científico e do modo de produção capitalista, já agora em crise aberta. Numerosos fatores, dentro desse processo, contribuíram para que ao mundo se tornasse cada vez “mais real” aos olhos do homem, para que se tornasse mais clara à sua compreensão a complexa trama da realidade objetiva. A desmistificação do real implica, naturalmente, a desmistificação da linguagem, o aumento de consciência do poeta sobre o seu instrumento de expressão. A poesia se torna, cada vez mais, o trabalho objetivo do poeta sobre a linguagem visando exprimir a complexidade desse mundo concreto e dinâmico. Pode querer o poeta transformá-lo ou escapar dele mas, em qualquer dessas hipóteses, sua “ação” só terá peso e sentido na medida em que sua linguagem não apareça como um discurso vazio a deslizar pela superfície das coisas. O poeta se esforça para que a sua linguagem seja uma linguagem concreta.

Esse esforço pode conduzi-lo ao polo oposto do que pretende. O poeta moderno, que devolveu a linguagem à sua condição prosaica, realiza a poesia pela transformação dessa linguagem em linguagem poética. Na concepção nova da poesia, o que há de fundamental e permanente é a linguagem mesma – a língua – que será, neste momento, poética e, naquele outro, prosaica. Essa alternância se dá no âmbito mesmo do poema, já que em nenhum poema todos os elementos da linguagem se transformam em “poesia”, se consomem nela: a base da expressão são as relações conectivas, sintáticas, gramaticais, sem as quais não existe a linguagem. Essas relações implicam um discurso, um tema. A poesia que aflora nesse discurso é produto de um processo complexo de que participam todos os elementos do poema. A falsa compreensão desse fenômeno é que gerou a superstição da poesia pura – de que o concretismo, que deveria intitular-se de fato abstracionismo, foi o mais recente exemplo – que não é mais que a tentativa de eliminar do poema os elementos “prosaicos”, de construí-lo apenas com os elementos verbais e faz com que neles aflore a intensidade da expressão poética.

4-4

Augusto dos Anjos ou Vida e morte nordestina por Ferreira GULLAR

Pretender realizar um poema constituído apenas de elementos poéticos implica eliminar o processo dialético que promove a transfiguração das palavras. “Creio que este é um objetivo que a poesia jamais poderá atingir, porque atingi-lo significaria o fim de toda a poesia”, escreveu Eliot, e acrescentou: “A poesia só pode ser escrita enquanto conserve alguma impureza”.

Significaria o fim de toda a poesia porque seria abdicar do propósito que leva o poeta a escrever: expressar o movimento do seu espírito que, por sua vez, é reflexo (não direto, nem simples, nem mecânico, nem simétrico) do processo real objetivo; expressar, em última instância, a contradição entre o sujeito e o mundo. Qualquer concepção que não veja a poesia como esforço de superação – que jamais se dá para sempre – dessa contradição ignora a natureza real do problema. Por isso que nunca pode haver fórmula poética, por isso que toda poesia implica renovação e por isso que nenhuma poesia pode ser inteiramente nova. No trabalho do poeta, a língua, que é permanente, é o mundo, o prosaico, o que deve ser transformado, transfigurado; se se elimina da poesia todo elemento prosaico, elimina-se a sua conexão com o mundo concreto, elimina-se o que deve ser transformado e, assim, elimina-se a transformação. Como observou Chklovski, “a arte é um meio para sentir a transformação do objeto; o que já está transformado não tem interesse para a arte”. O poema, a obra, é lugar onde a transformação se dá.

Toda atividade humana é um esforço para superar a contradição sujeito-mundo. A poesia é um modo específico de tentar essa superação infinitamente recomeçada. Como seu instrumento é a linguagem, sua atividade implica um discurso, a tendência a substituir as contradições concretas por uma coerência verbal, conceitual – a prosa. Mas a prosa é a expressão do mundo transformado, assimilado: “trata-se de um processo cuja expressão do mundo transformado, assimilado: “trata-se de um processo cuja expressão ideal é a álgebra, no qual os objetos estão dados, já por um só de seus traços, por exemplo, o nome, já reproduzidos como se se seguisse uma fórmula, sem que inclusive tenham aparecido na consciência.” O processo de expressão poética visa precisamente recuperar a experiência viva do objeto, seu propósito “é proporcionar uma sensação do objeto como visão e não como reconhecimento”, um processo que consiste “em aumentar a dificuldade e a duração da percepção”. A poesia é, por isso, um discurso deliberadamente desconcertante, que de um modo ou de outro contraria a normalidade do discurso. O poeta não quer discorrer sobre os objetos, não quer que sua linguagem seja mera referência ao mundo: quer que o poema seja o lugar onde a experiência se dá – deflagrada – concretamente.

Para conseguir isso, o poeta moderno lança mão de uma série de recursos que constituem as características de sua nova linguagem: construção sintática inusitada, ruptura do ritmo espontâneo da linguagem, choque de palavras, montagem de palavras e de imagens, enumeração caótica, mistura de formas verbais coloquiais e eruditas, de palavras vulgares como palavras “poéticas”, etc. alguns desses recursos foram utilizados por Augusto dos Anjos.

Pode-se dizer que a característica mais geral da linguagem moderna da poesia é a tendência a acentuar o caráter concreto do discurso: a busca de uma linguagem que seja, ela mesma, uma experiência nova à percepção. Daí a necessidade de dificultar o fluir do discurso e de construí-lo com palavras substantivas, carregadas de vida, sujas vidas, palavras de uso cotidiano. Isso se verifica tanto em poemas que partem de sensações objetivas como naqueles que partem de sentimentos, do mundo subjetivo. No primeiro caso, o poeta procura impedir que o discurso se afaste da experiência original e a abstratize; no

segundo, procura objetivar, dar contextura concreta, ao sentimento objetivo. Em qualquer dos casos, manifesta-se na poesia e na consciência – que é moderna – do caráter contingente, histórico, situado, da existência. Esse é um dos traços mais constantes na poesia de Augusto dos Anjos.

“trata-se de um processo cuja expressão ideal é a álgebra, no qual os objetos estão dados, já por um só de seus traços, por exemplo, o nome, já reproduzidos como se se seguisse uma fórmula, sem que inclusive tenham aparecido na consciência.”

 

Uma
Poética da Confluência Por Eduardo Portella

Escritor, crítico, pesquisador e pensador da cultura, Eduardo Portella ocupou diversos cargos públicos como político. Foi Ministro da Educação de março de 1979 a novembro de 1980 e Secretário de Cultura do Estado do Rio entre 1987 e 1988 . Ocupou a vice-presidência e a presidência da Conferência Mundial da UNESCO de 1997 a 1999. Em 2011, lançou os livros "México, Guerra e Paz" e "A sabedoria da fábula". Desde 1981, Eduardo Portella ocupa a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras.

Afrânio Coutinho, agora ajudado pela competente parceria de Sônia Brayner, traz mais uma contribuição pioneira para o dimensionamento de figuras fundadoras de nossa literatura. Reúne, à maneira dos norte-americanos e dos ingleses, e só recentemente dos franceses, a fortuna crítica daqueles autores que se fizeram marcos de nossa história literária. O primeiro volume aparecido é dedicado a Augusto dos Anjos – talvez lançado agora para comemorar os noventa anos do nascimento (1894), e os sessenta da morte (1914), do desafortunado autor do Eu.

O volume é desigual, e o predomínio de manifestações estereotipadas ou adjetivas autoriza-nos a constar o persistente infortúnio crítico, a imensa sombra do “caso” Augusto dos Anjos e encob rir a noturna luminosidade do texto, cedendo ao personagem o lugar do poeta.

É sabido que o poeta é poeta a partir de um horizonte. Mas ele só é poeta a partir de um horizonte. Mas ele só é poeta quando converte imaginariamente o horizonte,

quando morre na vida da obra. De maneira que pouco ajudará ao entendimento do poeta Augusto dos Anjos o diagnóstico do paciente Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos. Até porque a sua doença é antes uma doença cultural, agravada pela “má consciência” finissecular.

Temos que deixar o poeta mover-se livremente no interior da confluência, a mesma que configura o seu inconfundível perfil, o dissídio espiritual, a áspera poética; já que a sua especificidade consiste em confluir pelo lado do conflito. Em verbalizar a experiência da vida como dor:

“Ah! Dentro de toda a alma existe a prova de que a dor de um dartro se renova quando o prazer barbaramente a ataca...”

A vontade de representação, ou de representação da vontade, constitui ou se constitui por via de relações tensas, em meio a fluxos e refluxos. “Nessa manumissão schopenhaueriana” (p. 182), “o poeta do hediondo” (p.203) verticaliza a vida pela constante mobilização da morte. Sem escapar do pessimismo, primordialmente negativo, que se propaga por todo o período.

Augusto dos Anjos se localiza numa peculiar encruzilhada do pós e dos pré, entre elaborações retardatariamente românticas, parnasianas, simbolistas, a essa altura debilitadas, e esboços ou manifestações discursivos, prenúncios do modernismo. O Eu, e já não falo de outras poesias, e menos ainda dos poemas esquecidos, oportunamente esquecidos, se projeta como avatar de radicalização da modernidade, às vezes relutante face ao processo de profanização, às vezes entregue a uma espécie de descristianização, provavelmente de fundo nietzschiano:

“Escarrar de um abismo noutro abismo, mandando ao céu o fumo de um cigarro, há mais filosofia neste escarro do que em toda a moral do cristianismo!” (p. 72)

A modernidade enquanto choque intelectual, dupla instância, declínio e aurora não deixaria de se confundir com a decadência, na medida em que esta “emana de uma sensação de idade, de comportamento superposto, algo quase bizarro e até levemente cômico”. É quando a decadência se desvencilha da sobrecarga pejorativa, porque revela surpreendente amplitude imagística. O provinciano introvertido e depressivo, engolfado no ar decadente que se infiltra pela atmosfera do tempo, é contudo um marco da modernidade que nele se afirma. E a modernidade, logo balizada no modernismo – embora o precedente e o ultrapassado –, vem a ser o modo como o Brasil, paciente da crise espiritual ou criativa do século XIX avançado, desenha a maquete do próprio projeto cultural moderno. Os sintomas da

decadência são antes sinais do esgotamento local do mundo burguês-liberal, virtuose do paradoxo, a uma só vez agônico e energicamente perquiridor.

As visões reducionistas que cerceiam, e cercearam, a leitura do Eu exibem um estrabismo incurável. Em que pese o esforço desenvolvido por Antônio Houaiss, M. Cavalcanti Proença, Francisco de Assis Barbosa, Gilberto Freyre, Anatol Rosenfeld – para citar os mais diversificadamente penetrantes -, Augusto dos Anjos continua sendo um desafio crítico.

A estética absolutista promotora do “belo” ideal colocou e coloca – apesar da denúncia de Houaiss – todo o empreendimento textual do poeta paraibano como uma questão de “bom” ou “mau” gosto. Ignora ela que o próprio mau gosto, e vamos admitir o equacionamento proposto, é dimensão constitutiva do “gosto”, sem ser a parte contrária do “bom gosto”. Ainda mais: a linguagem transcende as restritas dimensões palatáveis, para implicar toda a existencialidade da existência.

É daqui que emerge a força modernizadora de Augusto dos Anjos. Ele desidealizou o conceito de gosto para dessacralizar a linguagem e, com isto, verbalizar despreconceituosamente a experiência humana. A precoce, e não raro prematura, desestetização corresponde ao programa de descarte do sublime. Mesmo que ele ceda, vez por outra, ao poder do artista na primeira modernidade, e não se abstenha em afirmar “Contra a arte, oh! Morte, em vão teu ódio exerces!” (p. 111) ou “Que ninguém doma o coração do poeta!” (p.147) – afirmações residualmente triunfalistas -, é inegável o caráter subversivo de sua literatura. A irradiação cientificizante atinge em cheio o corpo alegórico do poema, remanejando o léxico, reestruturando fonologicamente o verso – e aqui convém distinguir os escritores “desafinados”, ou principalmente reafinados, dos apenas destituídos de ouvidos -, no desdobramento de um produtivo experimentalismo semântico.

Não lhe falta sequer a perícia efeitista, naturalística e massificadora. O que talvez explique o seu excepcional êxito de público. Ele não vacila em conceder à homogeneização ou ao estereótipo; em recorrer aos efeitos colaterais do melodrama e do kitsch; em mobilizar a sua precisa percepção do horror. O impiedoso tratamento do “eu” individual impulsiona esse repertório de transgressões que, confluentemente, o erige no mais palpitante compêndio de insatisfação da virada moderna.

1-2

Um Poeta da RuínaPor Lúcia HELENA

Mestra em Teoria Literária pela UFRJ e professora de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira de diversos instituições universitárias, além de regular colaboradora de revistas e suplementos literários, Lúcia Helena ganhou destaque nacional com o livro "A Cosmo-agonia de Augusto dos Anjos" (Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1977) unanimemente considerado uma das mais consistentes e originais interpretações do universo do criador do EU. Também é autora de “Aprendizado de Clarice Lispector” (1975) e “Uma Literatura Antropofágica” (Fortaleza, 1983).

“No que se refere a Augusto dos Anjos, pode-se dizer que ele pagou o preço de ter sido o primeiro a pôr em versos a indigência da morte (e vida) nordestina”.
– Ferreira Gullar

Sem dúvida, este poeta singular da literatura brasileira ainda espera da crítica a atenção que merece. A par de alguns textos excelentes e não biográficos, como os de M. Cavalcanti Proença, Gilberto Freyre, Antônio Houaiss, Ferreira Gullar, na maior parte das vezes sua obra foi obscurecida por estudos que se ativeram a investigar-lhe muito mais a vida, recoberta de mitos, do que a produção poética em si mesma.

Há como que uma sedução em identificar-se o Eu, em letras vermelhas, que serve de título à única obra que nos legou, com o eu autobiográfico desse paraibano tão esquálido quanto o passante de que nos fala ao referir-se à Ponte Buarque de Macêdo. O certo é que, por infortúnio crítico, a sua sombra magra serve de nevoeiro funéreo ao importante texto que nos legou, antecipando a modernidade da poesia brasileira, ainda nos idos da primeira década do século.

Esta crítica biográfica tem realizado aquilo mesmo que, de certo modo, o poeta a induziu a fazer: agigantar, no texto poético, a dimensão real de uma vida complexa e enigmática.

Já é hora, todavia, de mudarmos o curso. Urge fazê-lo, pois nenhum esclarecimento consistente para sua obra surgirá do fato de sabermos ou não se Augusto tentou transcrever, em suas páginas muitas vezes mórbidas e amargas, um real amargor e morbidez. E isto porque, ao embrenhar-se por este caminho, a crítica está renegando a um estatuto de desimportância aquilo mesmo que caracteriza o ato de poetizar: relacionar, profundamente, pela mediação do ficcional (e não é ficção apenas a narrativa, mas todo o discurso literário), a dupla instância que a arte congrega, ou seja, o real e o imaginário.

De certo que todo escritor, por mais romântico e exilado em suas fantasias, escreve a partir de uma dimensão real, colhida de sua própria experiência de vida, ou na observação do mundo que o circunda. Mas se a obra literária fosse apenas isto, como distingui-la ora dos diários pessoais, ora dos compêndios historiográficos, ora dos depoimentos e autobiografias? E, no entanto, o fazemos. Temos uma espécie de consciência empírica da diferença entre estes textos, que em si mesmos não seriam por si sós, literários, e os textos artísticos. Onde reside esta diferença, eis a difícil questão.

A dimensão real, quando ficcionalizada literariamente, passa a ter uma convivência com uma dinâmica imaginária, que preside ao recorte que o escritor faz do mundo, consciente e

inconscientemente. A obra literária não é um mero depoimento, nem um mero delírio, embora participem dela estas duas instâncias. A obra é uma tematização complexa deste mundo contraditório, oscilante e globalizador, que todos transitamos: o real e o imaginário. Ela tematiza esta zona limítrofe, esta espécie de limbo, reino do paradoxo de ser e de não ser apenas uma coisa nem outra. Se a dimensão imaginária regride, a obra está ameaçada de confinar-se no depoimento pessoal, sem universalidade; se a dimensão real se esfumaça demasiado, arrisca-se de embrenhar-se no delírio fronteiriço à loucura. Não é nenhum desses casos-limite a obra poética de Augusto.

No Eu, presentifica-se um contexto pessoal e regional, a Paraíba de Augusto, em estágio de transformação, quiçá todo o Nordeste, em sua sina; mas apresenta-se também, ficcionalmente mediada, a cena do imaginário em que estes dados reais se dessingularizam, em que o Eu deixa de ser o eu real e autobiográfico para tornar-se um plural de vozes que dialogam incessantemente na construção de um microcosmo do mundo.

Se observarmos a questão do tema da ruína, torna-se talvez mais claro o que estamos sugerindo. Se sua poesia pode ser lida como um canto lamentoso que se refere à ruína e decadência de uma aristocracia rural, perda que ele contempla e testemunha, esse testemunhar não é mero documento, nas páginas do Eu.

Se, como propôs Odilon Ribeiro Coutinho, em recente debate sobre a poesia de Augusto, durante o VIII Festival de Artes, realizado em março, em João Pessoa, “o poeta tematiza em seu texto, movido pelas forças de Tânatos, o esboroar de um mundo senhorial, o sentimento agudo da perda, de que ele próprio, Augusto, participava”; se, como propõe Ferreira Gullar, em seu estudo crítico sobre o poeta, ele “é a testemunha perplexa e atormentada da grande tragédia”, creio ser fundamental, em que pese a procedência de ambas as propostas, atentar-se cuidadosamente para o fato de que, no texto literário, essa ruína é de natureza alegórica.

O tema nos remete a Walter Benjamin (Oeuvres I, poésie et révolution. Paris, Denoel, 1971, p. 225-275), que examinou o duplo caráter da obra de arte: de um lado, a obra se caracteriza como ruína, ao cristalizar em seus motivos básicos as tensões sociais com as quais dialoga; de outro, é alegoria, no sentido de jamais contentar-se com o puro e simples depoimento dessas

2-2

Um Poeta da Ruína Por Lúcia HELENA

tensões, mas sim procurando captá-las de modo dialógico, fazendo “falar” tudo aquilo que as versões unilaterais reduziriam a uma perspectiva de única voz, depoimento, registro, ou o que mais se possa supor neste campo.

Em síntese, é próprio da natureza da obra de arte ser histórica (fazer-se em diálogo e consonância com o mundo de que participa), mas ser também generosamente “pluralista”, capaz de captar o que reina oculto sob a observação singular do indivíduo em si mesmo. Ou seja: na “antropofagia de faminto” com que se esquadrinha o universo, a partir de uma “amaríssima existência”, o Eu nos apresenta não mais um eu singular, imediatamente referível ao eu do homem Augusto dos Anjos, mas um Eu que é plural de vozes que compõem um outro tipo de singularidade (alegórica), que “faz falar o outro”, expressando exemplarmente o universal.

A Paraíba, o tamarindo, o Recife, a Ponte Buarque de Macêdo, a funerária do Agra, o verme, a sombra magra que perpassam suas páginas pertencem, simultaneamente, a uma dimensão fantasmal (psicanaliticamente falando) e a uma dimensão real, embora não da ordem do fotográfico, do empiricamente observável.

Em sua obra se tece um constelado de ruínas: a da Paraíba, a da aristocracia rural ameaçada, a de um mundo recoberto pela aura de sacralidade e poder, a de uma poesia comprometida com o sublime, a da consciência que se dilacera. Todas estas ruínas que advêm de uma cena real são, todavia, apresentadas sem que apenas uma delas avulte, sozinha, em detrimento das outras. São “concentradas” na imagem alegórica de um verme, mediador da passagem entre a cena real e a cena fantasmal, imaginária, delirante. O verme seria, neste caso, o mediador ficcional, o elemento que transforma o testemunho da ruína em tematização poética da ruína. Verme que também se alegoriza: nele fala a instância da destruição, da perda, da corrosão que consome, mas ao mesmo tempo fala o seu “outro”, pois ele constrói destruindo e destrói para construir, realizando um duplo trabalho ficcional de apresentar a corrosão como força contraditória de desgaste e resgate. Força que faz com que tudo se arruíne e renasça, incessantemente.

E, neste sentido, o verme, que conduz a constelação da ruína, é também o construtor da utopia que move e dinamiza epicamente as páginas líricas desse livro incitante: desse universo febril, tocado e corroído pelo verme, na dualidade de vida/morte que ele encerra, surge o “vagido de uma outra humanidade”.

Da ruína de um mundo, anuncia-se o outro, anuncia-se a única vereda capaz de tornar o homem viável, na sua incessante tarefa de Sísifo.

Identificar, portanto, Augusto como o poeta da dor, o que tem sido feito, é ler a ruína em apenas uma de suas faces, esquecendo-se de que nesta obra alegórica a ruína se desdobra e faz falar o outro que a destruição encerra. Poeta tanântico, sim, mas que, contraditória e agudamente, faz falar a vida.

“...desse universo febril, tocado e corroído pelo verme, na dualidade de vida/morte que ele encerra, surge o 'vagido de uma outra humanidade'.”

Eu, declamado

Artistas famosos declamando Augusto dos Anjos

Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes

declama

Psicologia
de um vencido

Arnaldo Antunes é músico, poeta, compositor e VJ. Foi integrante da banda de rock Titãs até 1992. Em sua carreira solo já gravou quinze discos. Este ano lançou "Acústico MTV".

Elba Ramalho

Elba Ramalho

declama

Saudade

Elba Ramalho é cantora e atriz. Ícone da música brasileira. Em 33 anos de carreira, Elba já gravou trinta discos, vendeu mais de 6 milhões de cópias e ganhou duas vezes o Grammy Latino.

Othon Bastos

Othon Bastos

declama

O lamento
das coisas

Othon Bastos é ator de teatro, cinema e TV. Participou de mais de 80 telenovelas e foi protagonista de filmes seminais como "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964) de Glauber Rocha e "São Bernardo" (1972) de Leon Hirszmann. Atualmente interpreta Lexor, na novela "Amor Eterno Amor" da Rede Globo.

Vladimir Carvalho

vladimir carvalho

declama

a árvore
da serra

Vladimir Carvalho é cineasta e documentarista paraibano. Diretor de filmes clássicos como "O País de São Saruê", "Barra 68" e "Conterrâneos Velhos de Guerra". Seu mais recente documentário "Rock Brasília: a era de ouro", lançado em 2011, saiu este ano em DVD.

Música Augusta

Arquivos em aúdio com canções ou peças musicais feitas sob inspiração da obra de Augusto.

Músicas Augusta

Arnaldo Antunes

canta

Budismo Moderno

Arnaldo Antunes é músico, poeta, compositor e VJ. Foi integrante da banda de rock Titãs até 1992. Em sua carreira solo já gravou quinze discos. Este ano lançou "Acústico MTV".

Chico Viola

canta

Solilóquio de um visionário

Chico Viola é músico e poeta. Lançou em 2002 o disco "Viola dos Anjos", em que musicou 15 poemas de Augusto dos Anjos.

Éli Éri moura

compôs

trilha sonora de transubstancial

Éli Éri Moura é compositor, regente e teórico da música. Como professor implantou o Laboratório de Composição da Musical da UFPB (COMPOMUS). É autor de mais de cem peças musicais, incluindo a trilha sonora do curta-metragem "Transubstancial", de Torquato Joel.

Eu ao quadrado

Quadrinização de poemas ou excertos do livro eu.

Solitário

Por Shiko

Shiko é quadrinista, escultor e grafiteiro. Lançou este ano uma adaptação do romance "O Quinze" de Rachel de Queiroz pela Editora Ática. Prepara uma HQ do personagem "Piteco" de Maurício de Souza para o selo MSP Graphics.

A Árvore da serra

Por Mike Deodato.

Mike Deodato é quadrinista paraibano de prestígio internacional. Pseudônimo de Deodato Borges Filho, Mike chegou ao estrelato pop das HQ´s ao desenhar para a D.C. Comics sua versão de "Mulher Maravilha". Atualmente está na Marvel Comics. Como contratado exclusivo da Marvel Comics desenhou Hulk e Homem-Aranha. Atualmente seu traço ilustra a série Os Vingadores.

A Ilha de Cipango

Adaptação do poema de Augusto dos Anjos, por Samuel Casal.

Samuel Casal é ilustrador, quadrinista e gravurista. Especializado em ilustração editorial, seus trabalhos já foram publicados nas páginas de Você S/A, Superinteressante, Exame, Quatro Rodas.

Vídeo poema

Produção áudio visual baseada em poemas, aspectos ou impressões da obra de augusto dos anjos.

“Saudade” por Elba ramalho

Elba Ramalho é cantora e atriz. Ícone da música brasileira. Em 33 anos de carreira, Elba já gravou trinta discos, vendeu mais de 6 milhões de cópias e ganhou duas vezes o Grammy Latino.

Poemas do livro "eu"

Direção de Eliézer Rolim

Eliézer Rolim é teatrólogo e cineasta. Dirigiu o filme "O Sonho de Inacim". Para teatro, escreveu "Beiço de Estrada" e dirigiu "Os Anjos de Augusto". Prepara texto baseado no episódio da morte de um mágico húngaro durante uma apresentação no Teatro Santa Roza.

Trecho do curta
Transubstancial

Direção de Torquato Joel

Torquato Joel é cinesta paraibano, premiado nos festivais de cinema de Brasília, de Recife e do Ceará. Entre seus trabalhos se destacam os curtas "Árvore da Miséria", "Passadouro" e "Transubstancial". Seu novo filme,"Ikó-eté", está em fase de finalização.