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Vida e Arte
Matéria do Jornal da Paraíba

Insustentável leveza do ser

Conflitos interiores e dramas familiares marcam a trama Lucille, do francês Ludovic Debeurme.

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Lucille é uma adolescente magérrima, desajeitada, introspectiva e estranha. Ela tem problemas com a sua imagem, só coloca seus óculos quando chega em casa e faz “aquela coisa suja” fantasiando sexualmente com o “porco nojento” do professor de História.

Arthur é um adolescente revoltado, violento, compulsivo e solitário.

Ele não vê outro caminho do que herdar o nome e a profissão do pai, um marujo que vive no fundo de uma garrafa sempre quando se encontra em terra firme.

Lucille (Leya/Barba Negra, 544 páginas, R$ 54,90), do francês Ludovic Debeurme, é o encontro desses dois personagens tão comuns quanto ‘esquisitos’ aos olhos da sociedade. A puberdade dos jovens é regrada por uma mãe superprotetora e um pai que tem a desesperança como amiga.

Quando seus destinos se cruzam, a identificação com a infelicidade é tamanha que eles decidem fugir, deixando para trás as ruínas de suas famílias. O casal decide viver, mesmo sem ter sua vida própria. A moeda da fuga são os pecados dos pais, levando a consequências que vai marcá-los para sempre.

Apesar do calhamaço de mais de 500 páginas, a narrativa flui com os momentos de silêncio e praticamente apenas com os balões das falas dos personagens. Cabe ao leitor ‘preencher’ não só os espaços da ação, como também os pensamentos, reflexões e devaneios além dos recordatórios.

O autor desliza em inserir alguns clichês como traumas freudianos da garota que flagra seus pais fazendo sexo ou as simbologias do sonho para aprofundar personagens.

A arte de Debeurme é tão estranha quanto suas criaturas. Mesmo com o tom pesado e lúgubre, seu traço é leve – tão leve que quase não se tem hachuras ou jogos de luzes e sombras. Dono de linhas finas e sem as amarras dos detalhes, seus desenhos parecem infantis à primeira folheada. Acompanhando a trajetória de Lucille e Arthur, elas ganham contornos de como é oco a vida de ambos.

Paradoxalmente claustrofóbica é a falta de requadros (as molduras dos quadrinhos) na diagramação das páginas, sem carregar as tintas nos cenários. Mesmo ‘livre’, Lucille e Arthur são sufocados pela morosidade de um futuro que não chega.

Lucille recebeu reconhecimento através do Prêmio René Goscinny, em 2006, e o Prêmio Essenciais do Festival de Angoulême, no ano de 2007.

A Leya/Barba Negra tem um ótimo trabalho de editoração, mas o ‘porém’ (e consequente frustração) é ter um ‘fim da parte um’ no final do álbum, que até parecia abertamente conclusivo. Não tem nenhuma indicação de volume ou continuação na edição, mas existe outra parte feita por Debeurme intitulado Renée, lançado lá fora em 2010.

A Leya/Barba Negra promete lançar este derradeiro álbum no Brasil também.