Fabi Cavalcanti
Miguel Cavalcanti

O mito da teoria da dominância


David Mech – biólogo que escreveu sobre a teoria da dominância.

Você já ouviu alguma dessas expressões?
“Seu cachorro quer ser o macho alfa”
“Se você não dominar seu cachorro ele vai dominar você”
“Encare sua cadela até que ela desvie o olhar senão ela vai achar que pode mandar em você”.
Essas expressões foram e ainda são amplamente utilizadas por muitos tutores e adestradores.

A teoria da dominância foi criada em 1970, por David Mech – um biólogo e pesquisador da vida selvagem, em um estudo sobre lobos em cativeiro.
Hoje, depois de muitas décadas e estudos científicos sobre a senciência e a cognição de cães, podemos concluir que a teoria é extremamente ultrapassada.
Cães não são lobos, são indivíduos que passaram pelo processo da domesticação – e só isso já bastaria para não equipará-los; outro ponto importante é que o estudo foi realizado com lobos em cativeiro, que já não apresentavam o mesmo comportamento natural de lobos em vida livre.
Na época, acreditava-se na fêmea alfa e no macho alfa, que eram apenas os que procriavam e, devido às relações familiares da matilha, apresentavam uma hierarquia rígida.
Estudos mais recentes com cães ferais, cães de rua, de abrigos e pets concluíram que a estrutura social dos cães é altamente fluida e adaptável ao meio em que vivem e as hierarquias não são estabelecidas com agressividade.
A definição mais correta para cães considerados dominantes seria essa: cães que conseguem estabelecer limites ou obter acesso a determinado recurso sem que ocorra danos em nenhum indivíduo, ou seja, através da comunicação conseguem manter outros cães afastados ou guardar alimentos, por exemplo. Se alguma das partes for ferida, então o comportamento é agressivo e não dominante. O respeito sempre é dado ao dominante, e nunca tomado com agressões.
Quando um cão reivindica um recurso utilizando sinais corporais, é esperado que o outro ofereça sinais apaziguadores e recue ou dê lambidas demonstrando vontade de ceder. Agressões nunca ocorrem em relações estáveis; um indivíduo inseguro, sem uma relação sólida e confiável pode ser agressivo com outro indivíduo para tentar forçá-lo a submeter-se a sua vontade. E esse é o maior risco do adestramento punitivo, por exemplo.
Adestradores adeptos de punições, fragilizam a personalidade de um cão com a desculpa de torná-los submissos; como consequência, criam cães inseguros e desconfiados. Cães que aprendem dessa forma, tendem a ter dificuldade na comunicação com outros cães e humanos, podendo se tornar agressivos diante de frustrações ou apáticos.
A crença na teoria da dominância afeta na interpretação de um comportamento. Se você acredita nela, pode pensar que um cão está “mostrando respeito” quando na verdade tem medo; pode achar que um cão é submisso quando na verdade pode querer evitar um conflito ou uma punição; pode achar que um cão está calmo e relaxado quando ele pode estar em estresse extremo ou teve sua personalidade suprimida.
É preciso esclarecer a diferença entre dois pontos:
. Teoria da Dominância – crença antiquada que prega que cães possuem uma hierarquia social rígida que obtém recursos através de conflitos.
. Dominância – relação entre cães onde um indivíduo, em dado momento, controla o acesso a recursos e o outro indivíduo cede “ de boa vontade”.
Esqueçam a ideia de que o humano precisa ser o alfa da matilha – cães não são burros e eles sabem que você não é um cachorro incorporado a matilha dele. Toda a interação entre humanos e cães que, erroneamente, é rotulada como dominância tem outras explicações científicas: impulsividade, ansiedade, afeto/dependência, histórico de reforçadores de comportamentos, hiperexcitação, habilidades sociais mal desenvolvidas, guarda e posse de recursos.
Cães nos procuram em busca de direção e segurança.
Dê a seu cão o respeito que você exige dele.