Saúde e padrão de beleza: Cuidar de si vai muito além do corpo perfeito

Padrão estético e saúde é tema do programa Paraíba Comunidade deste domingo (29), das Tvs Cabo Branco e Paraíba.

Foto: Gabriella Loiola

Os padrões estéticos idealizados e a pressão causada na população para alcançar aquele corpo é um tema que vem sendo discutido há anos, por estimular as pessoas a se adequar a qualquer custo. A jornalista e escritora Naomi Wolf na década de 90 já abordava em seu livro “O Mito da Beleza”, sobre o que esses ideais fazem às mulheres. Movimentos como o body positive, segue na contramão a essa busca pela “perfeição” e pregam a aceitação do corpo do jeito que ele é.

Os padrões de beleza ganham novos requisitos a cada época. Nos anos 2000, mulheres magras, altas e geralmente loiras estampavam a capa de revistas e desfilavam nas passarelas. Hoje, os influenciadores nas redes sociais apresentam rostos perfeitos, harmonizados e corpos esculturais. “Barbies” e “Kens” vendendo uma beleza uniformizada.

O estudante paraibano, Mateus Alves, fala da pressão estética que sofreu durante a adolescência em que acompanhava as revistas no início dos anos 2010.“Passei minha adolescência inteira não estando satisfeito com meu corpo. Eu sempre quis ser como os meninos que estampavam na capa da Capricho, os colírios. E isso me afetava e me deixava muito inseguro”, relata.

“Com as redes sociais, tenho essa sensação de que eu sou menos atraente e menos desejado que as pessoas com corpo considerado padrão, que recebe milhares de likes e comentários”

O movimento body positive surgiu em 1996 nos Estados Unidos e ganhou adeptos com o passar dos anos. Promove a aceitação do corpo sem precisar se adequar a um padrão e compreender que marcas de expressão, espinhas, estrias, celulites e cicatrizes fazem parte da vida. A ideia não é se conformar e viver insatisfeito, mas se enxergar de maneira menos dura e cuidar do corpo, buscando a saúde.

A jornalista Mabel Abreu passou por experiências gordofóbicas por causa de seu corpo, mesmo com seus exames mostrando o quão saudável é. Por não se encaixar no padrão ideal que é atrelado a imagem de sucesso e felicidade muitas pessoas gordas sofrem diariamente. “Isso diz muito quando pessoas gordas não conseguem empregos por terem seus corpos associados a falta de esforço ou dedicação. E isso é apenas um recorte dentro de tantas imposições sociais. É possível perceber ao longo das lutas que passamos a ser invisíveis, invalidadas e sermos consideradas pessoas que não merecem ser amadas ou desejadas, justamente, por não se encontrar na busca eterna pela felicidade que seria ter o corpo, pele, cabelo, roupas e tudo mais dentro do padrão atual”, relata.

Depois de muita cobrança e debate, algumas marcas começaram a inserir uma pluralidade de corpos e etnias em suas campanhas. No início a modelagem pensada corpos magros e padronizados era apenas ampliada e atualmente tem estilistas especializados em dar ainda mais beleza a essa pluralidade de corpos. “Um movimento que começou dos pequenos, sejamos sinceros. Pessoas gordas cansadas de terem roupas iguais, ou com um corte igual de sacos de batatas, começaram a produzir de acordo com as curvas, com a libertação e tudo isso é extremamente político. Um corpo gordo usando o que quer é muito político e as marcas foram obrigadas a se reinventarem”, explica a jornalista.

“Não estou aqui fazendo apologia à obesidade, estou dizendo que precisamos comer melhor, nos exercitarmos, cuidarmos da nossa mente não porque nos odiamos, mas porque nos amamos ao ponto de querer cuidar de si. E isso não inclui dietas malucas, momentos de torturas em clínicas de estéticas, cirurgias desnecessárias. Fica o questionamento: isso é de fato por si mesma, ou por que não suporta mais o outro imperfeito criando expectativas e obrigações sobre nós?”

A procura por dietas de emagrecimento rápido é muito alta nas ferramentas de pesquisa e em consultórios. A nutricionista Emanuelle Henrique explica os perigos de uma restrição extrema e de dietas sem acompanhamento de um profissional. “As pessoas acham que num mês de muito foco, vão conseguir passar por uma restrição extrema para emagrecer, quando não se alimentam nem do básico direito. O perigo é sempre o desequilíbrio. O déficit calórico muito intenso ou a privação de um grupo de nutrientes que é essencial para o bom funcionamento do corpo. Não se pode tirar os carboidratos de um estudante para concurso, pois irá afetar na concentração ou baixar a proteína de quem pratica exercícios e deseja a hipertrofia. Só um profissional vai poder conduzir da melhor forma”, conta Emanuelle.

O melhor para a saúde do corpo é construir uma reeducação alimentar, para isso, é preciso se permitir a fazer novas experiências.“É necessário desestigmatizar que a comida saudável não vai ser saborosa. Priorizar os alimentos que o paciente já gosta entre os saudáveis, reeducar o paladar e o hábito alimentar das aquisições”, explica a nutricionista.

“Não retiro a oportunidade de se deliciar com alimentos como doces e lanches, a gente só organiza a frequência. A alimentação saudável é rotina e esses momentos de refeição livres são exceção.”

O processo de autoaceitação não é fácil. Mabel Abreu explica o momento em que passou a enxergar beleza em si mesma e parar de buscar uma perfeição impossível “percebi que cuidar de mim ia muito além. Meu corpo carrega marcas de batalhas diárias, de momentos e escolhas que me fizeram chegar até aqui. Um corpo que me carrega há 28 anos de forma tão amigável e receptiva. Continuar odiando gerava muito mais esforço do que o abraçar e acolhê-lo; olhar com carinho para si é a maior forma de luta pela liberdade de ser feliz, de se sentir bem-sucedida e, principalmente, amada”, finaliza.

Mabel Abreu (Foto: Arquivo Pessoal)