José Lins do Rego: 120 anos do imortal menino de engenho apaixonado pelo Flamengo

Escritos de Zé Lins compõem o modernismo regionalista que projetou o Nordeste para o Brasil na década de 30.

José Lins do Rego na arquibancada, acompanhando um jogo de futebol. Torcedor do Flamengo, ocupou cargos dentro do time e não escondia seu clubismo — Foto: Acervo/Museu José Lins do Rego/Funesc
José Lins do Rego na arquibancada, acompanhando um jogo de futebol. Torcedor do Flamengo, ocupou cargos dentro do time e não escondia seu clubismo — Foto: Acervo/Museu José Lins do Rego/Funesc

Diferentes de outros escritores nordestinos regionalistas, José Lins do Rego tinha uma paixão especial por futebol. Escreveu cerca de 1571 crônicas inéditas no Jornal dos Esportes entre 1945 e 1957. Torcedor fanático do Flamengo, sua paixão começou já tarde na vida, apenas em 1938.  Nesta quinta, 3 de junho,  são  celebrados os 120 anos do  nascimento do escritor paraibano, e a trajetória dele marca não só a literatura, mas a história da Paraíba e do futebol no Brasil.

O fascínio de Zé Lins pelo esporte nasceu no Rio de Janeiro, cidade que se tornou sua casa em 1935. Três anos depois da sua mudança, aconteceu a Copa do Mundo na França, a terceira edição da competição. É a performance do artilheiro da seleção brasileira Leônidas da Silva que o cataliza e o arrebata para a elite do futebol naquele momento – até então, ele era indiferente, como explica Bernardo Buarque de Hollanda, autor do livro ‘ABC de José Lins do Rego’ (2012) e ‘O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego’ (2004).

Então, ele passa a ter um envolvimento cotidiano com o futebol. Ser torna sócio do Flamengo e começa a participar da política do time. Se torna dirigente e a chega a ser chefe de delegação durante a primeira excursão do Flamengo para a Europa. Teva a coluna Esporte e Vida do Jornal dos Esportes e assumiu funções no Conselho Nacional de Desportos.

Durante suas pesquisas para o livro ‘O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego‘, Bernardo procurou  mostrar como a crônica esportiva de Zé Lins tem uma narrativa que se relaciona também com seus romances, retirando o caráter apenas anedótico, pitoresco e folclórico do futebol.
José Lins do Rego com Servílio de Jesus Filho, ex-zagueiro do Flamengo — Foto: Acervo/Museu José Lins do Rego/Funesc

“A crônica esportiva que tem em si tem essa capacidade. Ao contrário do romance em que você lê aquele romance, sozinho em voz baixa, fechado consigo mesmo. A crônica tem essa circulação pelos jornais. Tem essa mobilização. O resultado tem a discussão do dia seguinte. Então eu queria mostrar como havia um ideário modernista que passou pela sua escrita, (…) categorizando e mostrando aspectos estilísticos e de conteúdo que mostram como ele vivia o futebol como um fenômeno popular e como o escritor também devia ter uma relação com as coisas da cultura popular“, explica.


Naquele momento do país, nomes vultos da cultura brasileira, Portinari, Villa Lobos, Mário de Andrade, estavam participando na criação do aparelho do Estado Moderno no Brasil. Curiosamente, a inserção de José Lins do Rego vai ser no aparelho governamental estatal dos esportes.

Nesta época, sua produção de romances já era anual e o seu renomado Ciclo da Cana de Açúcar estava perto de ser concluído. O período, que abrange suas obras mais faladas como ‘Menino de Engenho’ (1932), ‘Doidinho’ (1933), ‘Banguê'(1934) e ‘Fogo Morto’ (1943), não foi apenas uma denúncia da decadência do engenho enquanto instituição brasileira – foi um relato pessoal e sincero sobre o sangue e a terra de um Nordeste em transição.

O cineasta Vladmir Carvalho, grande admirador e diretor do filme ‘O Engenho de Zé Lins’ (2004) descrever seu conterrâneo como 

“Aquele que retratou o fim de um ciclo econômico e social, a decadência do patriarcado da cana de açúcar, que foi tão poderoso na região nordestina.”

O Ciclo do Cangaço, formado pelos romances ‘Pedra Bonita’ (1938) e ‘Cangaceiros’ (1953), narram o misticismo do Sertão com uma linguagem que conhecemos. É familiar o jeito que Zé Lins fala da seca e da sua violência.

“Ele participa desse movimento regionalista que defende as tradições regionais, as tradições locais, a culinária, o folclore e a cultura popular; cultura material. E ao mesmo tempo defende a renovação da linguagem e nem tão diferente de outros regionalistas então eles se aproximam de uma coloquialidade, da oralidade e da espontaneidade na procura da caracterização dos tipos populares”, explica o professor o professor e escritor Bernardo Buarque de Hollanda.

Junto com seu grande amigo Gilberto Freyre, José Lins do Rego fundiu o regionalismo com o modernismo na década de 30. Durante muito tempo, ideias modernistas e regionalistas estiveram em campos distintos, até por uma certa busca por hegemonia, conforme explica Bernardo. A partir dos anos 30, elas passam a se convergir e narrar o Nordeste como forma de entender seus processos de mudança – saindo de um mundo rural; a formação das elites urbanas e a perpetuação das desigualdades sociais e raciais.

A última parte das suas obras são suas publicações independentes, crônicas, críticas literárias e ensaios. Mas, antes de ser José Lins do Rego, escritor consagrado e patrono da 25 cadeira na Academia Brasileira de Letras, ele foi Zé Lins – um homem solitário, moleque melancólico, apaixonado por futebol, pelo riso e pela vida.


O Menino de Engenho

O que Zé Lins tinha que chamou a atenção de Vladimir Carvalho era a semelhança. Nasceram em cidades próximas, Lins em Pilar e o cineasta em Itabaiana, cidade onde o autor de Doidinho aprendeu a ler, no mesmo colégio onde o pai de Vladmir estudava.

 

Ao olhar fotos do escritor e seu próprio reflexo no espelho, se sentiam parecidos. Coisa de adolescente. “Esses, na minha perspectiva são laços muito fortes, embora invisíveis como fios da memória.”

 

Engenho Corredor, na Vila Pilar, na década de 60. Hoje, é localizado no município de Pilar, na Paraíba — Foto: Foto: Arquivo Nacional

A figura e os livros de Zé Lins te acompanharam a vida toda. Quando criança, no início dos anos 40 do século passado, não existia televisão e a luz elétrica acabava antes das dez horas – as rádios silenciavam e o breu tomava conta.

“Praticamente fui alfabetizado tentando decifrar as primeiras linhas do romance Menino de Engenho. Esse livro o meu pai lia trechos dele à noite após o jantar para nós da família”, conta.

Por isso, em 2001, não teve dificuldades de pôr a ideia do um filme no papel. O Engenho de Zé Lins imortaliza as obras e humaniza o escritor.

As imagens do Engenho Corredor registradas por Vladmir mostram sua falência. Abandonado, virou um fantasma na paisagem do Agreste e passou a ser ocupado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Já era um lugar melancólico, desde a década de 1900, que pertencia ao avô do escritor, Coronel Zé Lins.

José perdeu a mãe com poucos anos de vida, e seu pai seguiu a vida sem ter uma presença forte no seu crescimento. Assim, o autor foi criado por duas tias, Tia Maria e Tia Naninha, no engenho do avô – com quem nunca teve boas relações.

Maria, sua maior figura materna, também morreu durante sua infância, já marcada por grandes sofrimentos. Naninha casou e logo também partiu. “
Ele teve uma infância solto, na bagaceira, com os moleques da bagaceira, como se falava antigamente. E uma vida cheia de perdas”, explica a diretora do Museu José Lins do Rego, Carminha Diniz.

Com cerca de nove anos de idade, José foi para Itabaiana, estudar no colégio Nossa Senhora do Carmo e pouco tempo depois vai para João Pessoa, estudar no Pio X, aos 11 anos. Foi na capital que ele escreveu seu primeiro artigo, falando sobre Joaquim Nabuco na revista Pio X . Assim, foi despontando para as palavras.

Enquanto os engenhos de açúcar do interior da Paraíba perdem espaço para as usinas, José Lins parte para Recife e com 15 anos passa a estudar no colégio Carneiro Leão.
José Lins do Rego, entre 15 e 16 anos — Foto: Acervo/Museu José Lins do Rego/Funesc

Depois, ingressa na faculdade de direito. Lá ampliou seu ciclo de amizades com nomes como José Américo de Almeida e Osório Borba. Também conheceu Gilberto Freyre, que acabava de voltar da Europa. “Foi bem sugestivo para ele essa amizade, porque ele (Freyre) voltou com a cabeça aberta. Muito cheio de novidades; diferente da vida daqui”, disse Carminha.

Ele se forma em 1923, mas não gostava muito da profissão. No Brasil da década de 30, quem não tinha vocação para medicina ou engenharia fazia direito, mas José também não tinha apreço pelas legislações e não deu muita importância para o curso. Quando o avô te deu dinheiro para entrar no quadro de formatura, ele gastou tudo tomando cerveja nos bares de Santo Amaro – como conta ‘O Engenho de Zé Lins’.

Apesar disso, exerceu a profissão a vida toda. Em 1924, se casa com Filomena Massa, filha do senador paraibano Antônio Massa. Logo depois, assume um cargo em Manuasu, cidade em Minas Gerais, como promotor público. Passa um ano e pouco pelas terras mineiras e segue para assumir como fiscal de bancos em Maceió, em 1926. Foi em Alagoas que se encontrou.

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“Zé Lins do Rego não gostava muito da profissão dele. O que ele gostava mesmo era literatura (…) Maceió foi o grande celeiro cultural para Zé Lins do Rego”.

Na cidade, passa a ser colaborador do Jornal de Alagoas e assim faz amizade com Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge de Lima, Aurélio Buarque de Hollanda, Aldemar Cavalcanti… E é ele que sugere a Jorge de Lima o tema para Essa Negra Fulô (1947).

 

Bernardo explica que o grande desejo e a grande ambição de Zé Lins era o mundo das letras, da arte, cultura e literatura. O tempo e a força que tinha, era dedicados à escrita.

José Lins do Rego estreia em 1932 com ‘
Menino de Engenho’. Assim como a maioria dos escritores, ainda sem o reconhecimento e custeando sua própria produção. Apesar disso, o livro foi um sucesso. Bem vendido e criticado, projetou o escritor dentro da cena literária brasileira e ele continua sendo lido, visto e falado durante o todo o Ciclo da Cana de Açúcar.

Zé Lins então faz o caminho de muitos nordestinos da época. Vai para a então Capital da República, o Rio de Janeiro, a convite de um editor. Sua publicação passa a ser quase anual, em uma produção de romances com o destino até seu ápice atingido com
Fogo Morto, em 1943 – até hoje é considerada a sua obra prima, como explica Bernardo.

Lins foi um escritor prolífico e chegou a ser colaborador regular de jornais no Rio de Janeiro. Todos os dias, escrevia três crônicas para diferentes publicações. Teve, inclusive, uma coluna no Jornal O Globo chamada Conversa de Lotação – fruto das tardes passadas com amigos e torcedores do Flamengo na Confeitaria Colombo, em Copacabana. Apesar disso, sua grande notabilidade foi a produção de romances.

Ele surpreendeu a todos, inclusive a si mesmo, e foi escritor muito vendido e muito lido na época. O Menino do Engenho ganhou prêmios e foi o primeiro livro de um paraibano a ganhar o Prêmio da Fundação Graça Aranha. Além disso, várias obras foram traduzidas para diversas línguas como espanhol, inglês, russo, italiano e até coreano. Para Bernardo, isso mostra como a linguagem de Zé Lins é universal e aponta no interesse dos públicos estrangeiros uma relação do local com o internacional.
“É um autor sempre ligado à terra, a sua localidade, mas também ao tema, a sentimentos, a questões humanas que ele reconstitui e que ganha uma amplitude internacional à medida que interessa outros países do mundo.”
Dois anos antes de morrer, em 1955, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira 25, sucedendo Ataulfo de Paiva. Em 56, tomou posse. Ele fala que não fez politicagem para ser eleito, suas obras o fizeram ser escolhido.
José Lins do Rego na Academia Brasileira de Letras — Foto: Acervo/Museu José Lins do Rego/Funesc

Personalidade divida 

Apesar de ser considerado um escritor de sucesso e um homem com um amplo ciclo social, Lins também era conhecido por ser um homem melancólico. Bonachão, mas o olhar triste marcava sua personalidade e seus livros, com uma escrita que denota carência e retrata protagonistas decadentes.

Ele teve três filhas, que ele chama de três Marias: Maria Elizabete, Maria das Glórias e Maria Cristina, que foram frutos de muita alegria e marcam um fato importante em sua trajetória. Outro ponto de memória são as mortes que marcaram sua infância, sua mãe e Tia Maria. Mais tarde, a vida leva seu avó, com quem não tinha uma boa relação, mas que sua influência patriarcal pode ser vista durante todo o Ciclo da Cana de Açúcar.

No
Engenho de Zé Lins é revelado um segredo de família. Foi um incidente na infância, quando Zé atirou acidentalmente em outro menino de engenho, um companheiro. Quase ninguém soube do ocorrido, nem mesmo seus avós, presentes na casa no momento do tiro. Neto de coronel, ele foi protegido, mas viveu martirizado com a lembrança e a culpa.

O assunto não era comentado. Rachel de Queiroz relata no documentário que sempre que o amigo estava triste, outros brincavam. Diziam, ‘deve tá pensando no menino’.

O conflito interno do escritor foi também contada por amigos como Carlos Heitor Cony, Ariano Suassuna, Rachel de Queiroz e Thiago de Mello. Todos relatam a alegria pela vida vista no olhar de Zé Lins, que vivia em dicotomia com uma grande tristeza. Vladimir Carvalho conta que essa dualidade chamou atenção na produção do documentário:

Impressionou-me muito conhecer a personalidade dividida e torturada do romancista, que alternava estados de espírito diametralmente opostos pondo-o ora afável e alegre, cheio de uma verve natural que encantava os amigos, ora triste e deprimido a ponto de preocupá-los. Acontecera na sua infância um incidente fatal que o marcou para sempre, quando atirou sem querer matando um amiguinho. Isso foi um peso terrível que carregou por toda vida. Por isso só encontrava algum consolo como ardoroso torcedor do Flamengo, uma paixão que o aplacava.”
José Lins do Rego em sua casa no Rio de Janeiro, na década de 50 — Foto: Acervo/Museu José Lins do Rego/Funesc

A sensibilidade em abordar temas familiares e universais de todos brasileiros fascinam e atraem leitores para as palavras de Zé Lins. Antes de ser diretora do Museu José Lins do Rego e antes mesmo de fazer parte da equipe, que compõe há 40 anos, Carminha Diniz já via em Lins um amigo.

Vinda de família sertaneja, seu pai também era do campo e grande parte da sua infância foi em sítios do interior paraibano. Quando leu José Lins do Rego pela primeira vez, teve um impacto.

“Eu vi no que Zé Lins escrevia o que eu tinha vontade de escrever e o que eu tinha vivido também. (…) Aquela vida livre; aberta. Aquela vida que tinha dificuldades também, que eu passei a admirar mais ainda”, relata.

Ano Cultural José Lins do Rego
“Vejo que além da temática de seu ciclo da cana de açúcar, a forma simples, direta e visceral de sua escrita lembra, – como ele próprio reconhecia – os grandes vates da terra, notáveis narradores do povo, os poetas do sertão e das feiras, ainda hoje presentes em nossa cultura. Nesse ponto ele era o mais puro e genuíno criador da nossa literatura”, diz Vladimir de Carvalho.
O cineasta participa da 39ª edição da Semana Cultural José Lins do Rêgo com programação online. Realizado pela Fundação Espaço Cultural da Paraíba (Funesc), o evento vai até o sábado (5).

A programação traz bate-papos sobre a obra de José Lins do Rêgo e relação com aspectos como música, futebol e sociedade. A semana cultural acontece de forma virtual no
canal da Funesc no Youtube.
Em comemoração aos 120 anos de Zé Lins, o governo do Estado da Paraíba instituiu o Ano Cultural José Lins do Rêgo. Na Funesc, além da semana cultural, o ano será marcado com atividades mensais.
Parte do acervo do Museu José Lins do Rego, em João Pessoa. Móveis foram doados pela família e espaço remonta a sala de estar da casa do autor no Rio de Janeiro, durante a década de 50 — Foto: Lara Brito/Jornal da Paraíba
O cineasta acredita que, apesar dessa iniciativas, ainda considera alheia a preservação do patrimônio desse escritor, especialmente devido ao processo de descaracterização dos engenhos Corredor e Itapuá, a paisagem onde se movimentou a maior parte de seus personagens.

“No mínimo transformando-os em centros culturais e educativos, ora como museus vivos, ora como escolas para servir a comunidade num lance de
ressignificação daqueles ambientes”, explica.

Um acervo, doado pela família, é preservado no Museu José Lins do Rego, localizado no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa. Com móveis do escritor, é uma entrada na vida do menino do engenho.

O relógio que tocava sempre pontualmente às 12h nos Engenho Corredor, a máquina de costurar manual que fez o enxoval de Zé Lins, mais de 5 mil volumes do acervo bibliográfico do escritor – todos estão no museu. Além disso, a sala de estar de sua casa no Rio de Janeiro ganhou um ambiente especial e foi reproduzida no local, com todos os móveis originais.

Durante a pandemia, o local está fechado para visitações presenciais. Porém, uma
tour virtual com digitalização 3D, realidade aumentada e fotografia em 360 leva o público para dentro da vida e renova a obra de José Lins do Rego.

*Sob supervisão de Jhonathan Oliveira