Essa lista não tem Gremlins: filmes de Natal para quem já está cansado dos clichês

Obras que têm como plano de fundo o Natal, mas fogem das narrativas clássicas sobre a época.

Tokyo Godfathers (2003)
Lista: filmes de Natal não muito natalinos

Chegaram as últimas semanas do mês de dezembro e com ela, vem aquela vontade de sentir o espírito natalino… ou nem tanto. Eu nunca fui muito de entrar no clima, decorar a casa, ouvir músicas de confraternização. Sempre me pareceu algo forçado e de certa forma, sempre foi importado de fora: a neve, o vermelho, o inverno. 

Apesar disso, gosto de filmes e o que o Natal representa em muitos longas que não são sobre a data, mas sim sobre a renovação, descobrimento e mudança que esse período representa.

Pensando neste sentido do espírito natalino, o Jornal da Paraíba preparou uma lista de filmes de Natal que não são bem filmes de Natal… mas são sim! Afinal, tá todo mundo meio cansado de assistir Esqueceram de Mim.

1- Carol (2015)

Carol (2015)

Um clássico lésbico, Carol (2015) foi um grande marco no cinema LGBTQIA+ e virou um hit instantâneo. Com as premiadas Cate Blanchett e Rooney Mara nos papéis principais, o longa de Todd Haynes conta a história de amor e cumplicidade entre duas mulheres nos anos 50.

Uma delas, Carol, interpretada por Cate, luta contra seu ex-marido em uma batalha judicial pela guarda de seu filho – que passou a ser ameaçada justamente pela sua sexualidade reprimida. Já Therese, papel de Mara, é uma fotógrafa aspirante, tentando encontrar conforto em si mesma enquanto navega pela sua juventude.

Ambas se relacionam com homens e as figuras de namorado e marido servem como a perfeita representação da cultura heteronormativa que reprime as vidas dessas mulheres. É justamente uma na outra, que encontram liberdade e conforto.

O filme é poético, com uma construção de desejo lento e reprimido para dar lugar a compensações e status sociais tradicionais. Toda trama se passa ao longo das festas de final de ano e as duas se conhecem no Natal. O longa termina com um longo sorriso, regenerado pelo sentimento de mudança.

2 – De olhos bem fechados (1999)

De Olhos Bem Fechados (1999)

Nicole Kidman e Tom Cruise em um filme quase todo em luz neon, com uma música de suspense ao fundo. Natalino!

O filme conta a história de um casal que tem sua dinâmica completamente mudada após a esposa, Kidman, confessar ao seu marido, Cruise, que tem desejos sexuais por outro homem.

É um longa sobre teorias da conspiração, uma das maiores dela: e se mulheres também tiverem e expressarem seus desejos sexuais?

A insegurança de Cruise sobre sua esposa gera uma contradição dentro de si. O marido parece mais interessado em reprimir a sexualidade de sua amada, do que exercer sua própria. É revelado um machismo e ele flerta com a traição como uma forma de recuperar seu senso de autoridade dentro da estrutura do casamento. Será que ele vai conseguir se livrar da visão da esposa desejando outro homem ou vai usar essa fantasia para justificar suas próprias contradições?

Longe de ser superficial, explora também como questões de raça e classe social persistem e plantam discrepâncias entre quem realmente somos e quem representamos.

O filme também se passa ao longo das comemorações de fim de ano e é justamente na noite do dia 25, passando por longas luzes natalinas, que é perguntado a Cruise se ele deseja ir para além do arco-íris. Depois disso, é muito suspense e uma aventura dentro de um culto sexual, mas não darei muitos spoilers.

3- Meninas Malvadas (2004)

Meninas Malvadas (2004)

Um clássico do cinema mundial que eu nem sei se preciso descrever. Eu sei que você conhece. Porém, irei defender que sim, esse filme sobre relações entre meninas adolescentes é um filme de Natal.

O filme narra a trajetória de Cady, uma garota de 16 anos que estudou em casa durante toda a vida e só agora entra em um colégio de verdade. Interpretada por Lindsay Lohan, Cady vai descobrir como adolescentes interagem através da inserção no grupo de garotas populares, que ensinam a jovem sobre a hierarquia social do ensino médio.

Tem uma cena onde as personagens dançam ‘Jingle Bell Rocks’, uma típica música do Natal norte-americano. Em outro momento, um dos personagens distribui doces para os alunos vestido de papai noel e uma das abelhas rainha da escola fica sem – marcando sua queda na aristocracia adolescente. Pronto, é isso.

Só que justamente essas cenas viraram referências. Até Ariana Grande colocou uma das cenas de Natal no clipe de Thank You Next.

Muitos millenials e pessoas da geração Z (um termo que eu não gosto, mas aqui vejo necessário o uso) cresceram assistindo Meninas Malvadas ou sabem pelo menos uma referência do filme, trazendo o sentimento de nostalgia muito presente no fim do ano. Um dos maiores filmes de Natal não natalinos, eu diria.

4 – Tokyo Godfathers (2003)

Tokyo Godfathers (2003)

A premissa dessa animação é simples. Na véspera de Natal, três andarilhos estão procurando por presentes no lixo e encontram um bebê. Então, resolvem procurar pelos pais da criança.
É através desse “milagre de Natal” que uma cadeia de eventos acontece, movendo o filme para que essas três pessoas sem teto, que viraram uma família por conta do desamparo, consigam se conectar com as famílias que eles perderam.

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Diferente dos outros trabalhos do diretor, o japonês Satoshi Kon, o filme encontra no humor um caminho genuíno também para o comentário social.

Por conta do seu tom, os três personagens principais são humanizados de forma que pessoas sem teto raramente estão em obras audiovisuais. Cada um tem uma história e personalidade distinta, não deixando que a sua situação habitacional seja a única coisa que define integralmente esses personagens.

Tokyo Godfathers é imersivo e também é um ótimo filme para começar a se interessar por animações japonesas, caso você não tenha tanta familiaridade.

5 – Little Women (2019)

Little Women (2019)

O filme conta a história de quatro irmãs – Jo (Saoirse Ronan), Amy (Florence Pugh), Meg (Emma Watson) e Beth March (Eliza Scanlen) – durante a Guerra de Secessão e explora temas como irmandade e relações entre mulheres, sejam elas irmãs, mães ou amigas.

Além disso, mostra como as irmãs March, que são todas tão diferentes entre si, têm suas vidas cortadas por uma coisa em comum: as expectativas do patriarcado em relação à suas vidas.

Parte da história começa e termina no Natal. É nesse período, que uma carta do pai das meninas causa uma reflexão sobre que tipo de mulher elas querem ser, transportado para essa época do ano um sentimento de grandes mudanças.

Com muitas cenas na neve, em frente a lareiras e em banquetes familiares, a versão de Little Woman que entra aqui na lista é a de 2019, que na minha opinião é a melhor e além disso, tem as cenas de natal mais bonitas.

Porém, tecnicamente, todas as versões já feitas também são filmes de Natal. Se quiser checar alguma outra adaptação, a recomendação é o de 1994 que tem também um super elenco: Winona Ryder, Claire Danes, Samantha Mathis, Susan Sarandon e Kirsten Dunst são algum dos nomes que compõe o elenco principal.

6 – Tangerine (2015)

Tangerine (2015)

Filmado em um Iphone 5, Tangerine chamou atenção da crítica logo quando lançado não só por ser tecnicamente perfeito sem equipamentos de ponta, mas também por mostrar uma realidade pouco contada no cinema: a de relações entre mulheres transexuais.

O filme é sobre amizade e mostra principalmente a conexão entre Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez) e Alexandra (Mya Taylor) enquanto buscam vingança contra o namorado e cafetão de uma delas, que a traiu com uma mulher cisgênero.

O longa também se passa no Natal, mas é um filme típico do período porque oferece uma narrativa natalina para um grupo que nem sempre teve protagonismo nessas histórias. Fugindo da composição da família tradicional, aqui a família é composta por duas mulheres que viram irmãs através dos impasses encontrados enquanto navegam suas respectivas identidades trans.

Algumas escolhas do diretor também iluminam e contribuem para o sucesso do filme. Com cores vibrantes e planos bastante pessoais, a câmera de Tangerine parece mais preocupada em documentar do que apenas filmar e assim, mostra humanidade em indivíduos que rompem a caixa de apenas uma personagem. Existe uma emoção, genuinamente humana ali, que faz com que a imersão no longa seja completa e você quase esquece que aquilo é ficção. O fato de que as personagens são interpretadas por mulheres transexuais, algo bastante díficil de se ver na industria, também contribui para a criação de uma narrativa bastante palpável.

E para acrescentar ainda mais, Tangerine conta com uma belíssima cena de Alexandra cantando ‘Toyland’, do clássico musical natalino norte-americano Babe in Toyland (1986). A cena é linda e a performance captura muito da tristeza, mas cumplicidade, que existe naquele universo.

7- Duro de Matar (1988)

Duro de Matar (1988)

Talvez você não lembre que Duro de Matar é um filme de Natal, mas todo o plot acontece na narrativa clássica de um filme natalino: um homem retornando para casa, para passar o Natal com a sua família. Conta a história do detetive John McClane (Bruce Willis) que procura reconciliar com sua esposa. Porém, durante uma confraternização de fim de ano, todo o prédio de sua empresa é tomado por terroristas e sobra para ele o trabalho de capturar os suspeitos e resgatar os reféns.

Além do longa começa a andar verdade durante em uma festa de Natal, a trilha sonora é repleta de músicas natalinas. E sim, Papai Noel aparece na telinha, mesmo que seja na forma de um terrorista.

O que é interessante em Duro de Matar é que é um daqueles filmes clássicos de ação, um dos maiores do gênero, porém é genuinamente bom além das cenas de tiros e bombas. Os personagens são reais e o diálogo é bem escrito, articulado e inteligente. O roteiro é imprevisível, mas não de uma maneira impossível. É divertido e o Natal não faz só uma aparição estética ou como um artificio de roteiro: ele também serve para recuperar o sentimento de família que o personagem principal sente que perdeu.