Câncer gay, AIDS, Covid-19, gente famosa e anônima infectada

Ando lembrando da AIDS em seus primeiros tempos.

Na imprensa, os registros iniciais davam conta da existência de um câncer gay. Quando o nome AIDS já fora adotado, em alguns havia um entendimento: você só pega se for gay. Se não for, não tem perigo. Depois, compreenderam todos que o problema não era grupo de risco, mas comportamento de risco.

Estar infectado era uma sentença de morte. Mas era possível evitar, pensávamos. Bastava fazer sexo seguro. Ou não compartilhar seringas no uso de drogas injetáveis. Havia, porém, um problema: as transfusões de sangue, sobre as quais ainda não se tinha o necessário controle. O cartunista Henfil e seu irmão músico Chico Mário, hemofílicos, estavam entre os primeiros não anônimos que o Brasil perdeu.

Ali, em meados dos anos 1980, como eu, muitos se perguntavam sobre quando a AIDS nos privaria de gente famosa que admirávamos. Também sobre quando morreriam os anônimos próximos a nós, um parente, um amigo. Na TV Cabo Branco, a repórter Ruth Avelino foi a primeira a entrevistar um paciente. Ele, um jovem ator de teatro, contou tudo, mas não quis mostrar o rosto. Morreu pouco depois, vencido por um severo quadro infeccioso.

Lauro Corona, galã das novelas da Globo, morreu rapidamente. Cazuza, ídolo do rock nacional da década de 1980, ainda travou longa batalha contra o vírus, enquanto gravava discos e fazias turnês. Rock Hudson talvez tenha sido a primeira celebridade mundial a morrer em consequência do HIV. Freddie Mercury, o maravilhoso cantor do Queen, se foi um pouco mais tarde.

Não pretendo estabelecer o que não existe, semelhanças entre as duas doenças – a AIDS e a Covid-19 -, mas, ao menos num aspecto, esta de agora está me remetendo àquela de três décadas e meia atrás: no temor de vermos as pessoas de quem gostamos – famosas ou anônimas – infectadas pelo vírus.

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Dias atrás, pensei em escrever algo sobre esse tema, mas fui vencido pela velocidade da pandemia. Horas depois, soube que Tom Hanks estava infectado, junto com a mulher dele. Hanks, celebridade em escala planetária, grande e querido ator, fora contaminado e se colocara em quarentena, à espera da evolução da doença.

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Ninguém, com o mínimo de bom senso, pode dizer “bem feito!” ou “eu acho é pouco!”. Ninguém, com o mínimo de bom senso, pode desejar que as pessoas contraiam a Covid-19. Mas a verdade é que, no Brasil, no centro do poder, estamos diante de um caso extremamente didático e profundamente irônico.

Refiro-me ao que ocorreu com os que acompanharam (comitiva e pessoal de apoio) o presidente Jair Bolsonaro em recente viagem aos Estados Unidos para um jantar com Donald Trump. Naquele grupo, já há mais de duas dezenas de infectados a desmentir o presidente que, irresponsavelmente, classificou a pandemia do novo coronavírus como uma fantasia. Também falou em histeria e superdimensionamento.

Os infectados da comitiva presidencial deveriam ter dado a Bolsonaro a real dimensão do problema que o mundo enfrenta. Mas isso não ocorreu. Incapaz de comandar o país, irrecuperável nas bizarrices e na incontinência verbal, incurável no seu ultradireitismo, o presidente continua tratando a Covid-19 como uma gripezinha, enquanto chama o governador João Doria, que parece estar fazendo a coisa certa em São Paulo, de lunático.

Os que creem dirão: Deus tenha piedade de nós!