O bolsonarismo acabou com o quarteto vocal Boca Livre!

O Projeto Pixinguinha veio a João Pessoa pela primeira vez no segundo semestre de 1978.

Dez semanas de shows no Teatro Santa Roza, de segunda a sexta, no horário das seis e meia, com ingressos a preços populares.

Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, Alaíde Costa, Sérgio Ricardo, Turíbio Santos, Paulo Moura, Clementina de Jesus, Zezé Motta, Johnny Alf, Quinteto Violado, Pery Ribeiro, João Nogueira.

Pelos elencos que nos visitavam a cada semana (geralmente uma dupla e um artista convidado) e pela qualidade da música que apresentavam, parecia inacreditável.

E há um detalhe curioso que deve ser mencionado. O projeto era da Funarte, e nós estávamos numa ditadura militar. Ou seja: até na ditadura, a Funarte estava nas mãos de gente que era do ramo e que produzia coisas incríveis como o Pixinguinha.

O show de Edu Lobo foi um dos que mais esperei. Edu, já longe do festival que, em 1967, o projetou com Ponteio, dividia o palco com um grupo vocal ainda pouco conhecido chamado Boca Livre.

Quatro vozes afinadíssimas e muito harmoniosas: Maurício Maestro, David Tygel, Zé Renato e Cláudio Nucci. Maestro e Tygel fizeram vocal para Edu no festival em que Ponteio foi a grande vencedora, e o quarteto estava no disco Camaleão, que Edu lançara em 1978.

O show do Pixinguinha era de Edu Lobo, mas havia um momento em que o Boca Livre fazia os seus números. Inesquecíveis. Toada, que se tornaria muito conhecida, Diana (de Toninho Horta) e uma versão à capela de Ponta de Areia, de Milton Nascimento. O grupo arrebatava a plateia que todas as noites lotava o Teatro Santa Roza.

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Na última noite, eu estava num grupo de amigos e amigas que, num fraterno abraço em círculo, cantaram Ponta de Areia no jardim do teatro. Claudio Nucci ia saindo e juntou-se a nós.

O Boca Livre (Foto: divulgação) tem essa idade. Mais de 40 anos. Em 1980, Nucci foi substituído por Lourenço Baeta, e o quarteto seguiu junto até agora.

Conto essa história para fazer um registro triste:

O BOLSONARISMO ACABOU COM O BOCA LIVRE!

É tão absurdo que parece mentira, mas não é.

Primeiro, na semana passada, saíram Zé Renato e Lourenço Baeta.

Nesta quarta-feira (20), por fim, saiu David Tygel.

Maurício Maestro, que detém a marca, ficou sozinho.

“A razão é a divergência dos artistas com a postura política de Maestro, apoiador do presidente Jair Bolsonaro” – escreveu o conceituado crítico Mauro Ferreira em sua coluna no G1.

Numa nota oficial, dirigida a amigos e fãs, David Tygel disse o seguinte:

“Sigo em frente, com minha música, minhas convicções, pela vacina e pela democracia”.

Triste fim de um belo capítulo da música popular brasileira.