SEU ZÉ CARLOS, ESSE GRANDE PARAIBANO

Seu Zé Carlos.

Como muita gente, eu o chamava assim.

Era respeitoso, mas não cerimonioso, como seria Dr. Zé Carlos.

Seu Zé Carlos.

Havia uma simplicidade no tratamento, e isso deixava a nossa conversa mais fluente.

Quando o conheci, tinha 61 anos, a idade que tenho hoje.

Já era o homem do Café São Braz.

Já era o homem que transformara o pequeno negócio do pai num grande negócio.

Estava entrando no mundo da televisão, e foi lá que nos encontramos.

Nos primeiros 20 anos da TV Cabo Branco, fiz parte de um grupo que, cotidianamente, conversava com Seu Zé Carlos.

Desde os primeiros contatos, tive plena consciência do quanto eram importantes aquelas conversas. Do aprendizado que elas transmitiam.

Ele era como um professor que gostava de compartilhar sua imensa experiência, desde que a audiência estivesse disposta a ouvi-lo.

Campina Grande, a Paraíba, o Nordeste, o Brasil – entre o olhar voltado para o desenvolvimento e os impasses a impedi-lo.

Os cenários econômicos, as perspectivas políticas – tudo isso estava na sua agenda.

E, naturalmente, o seu negócio. Sobre este, falava horas seguidas. Era a sua vida. Diria que a própria razão da sua existência.

Às vezes, me surpreendia com um telefonema inusitado: “Sílvio, como faço para limpar os CDs atingidos pela maresia?”.

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Ou com um comentário ácido sobre um nome nacional da política que todos respeitavam. Ele, não. Discordei e ouvi um “você vai ver”. Vi.

Ou, ainda, com o relato sobre o dia em que, pela primeira vez, andou de metrô em São Paulo.

Conviver com Seu Zé Carlos era enriquecedor, um privilégio que desfrutei o quanto pude.

Dele, esse grande paraibano, guardei muitas coisas na minha memória afetiva.

Uma delas: a sua reação numa das coberturas mais difíceis que fizemos nas duas décadas em que comandei a redação da TV Cabo Branco. Trabalhamos inteiramente à vontade, guiados por nosso senso profissional e ético. Ao final do telejornal, ele entrou na redação e disse: “Parabéns!”.

Nosso último encontro foi há pouco mais de um ano. Encarregado de entrevistá-lo para um projeto de memória da Globo, fui vê-lo na sede da São Braz.

Falamos da gravação que seria feita no dia seguinte, fizemos uma espécie de “ensaio”, mas, instado pelas minhas perguntas, Seu Zé Carlos acabou vasculhando a memória em busca de personagens e situações dos primeiros tempos da TV Cabo Branco.

Não imaginei jamais que não voltaria a vê-lo nem que, às vésperas dos 95 anos e em plena atividade, seria levado por uma doença tão devastadora como a Covid-19.

Deixa legado sólido e muitas lições.