Amizades em filmes e canções. Amigos que são para sempre e aqueles em que o amor morreu

Reouvindo Carole King – não os muitos discos de carreira dela que tenho, mas uma generosa antologia dupla -, me dei conta de que lá se vão 50 anos desde que sua voz e suas canções me conquistaram.

O álbum Tapestry era um sucesso absoluto. O mega hit que puxava o disco era It’s Too Late, mas a canção que colou nos meus ouvidos para sempre foi You’ve Got a Friend, que muita gente, até hoje, pensa ser de James Taylor.

Havia pouco tempo, víramos o tema da amizade abordado no filme Perdidos na Noite e ouvíramos esse mesmo tema numa música logo transformada em clássico do cancioneiro popular estadunidense, Bridge Over Troubled Water, de Paul Simon.

Era a mesma época em que um jovem compositor ainda desconhecido, chamado Elton John, escrevera as baladas para um filme menor de nome Friends, traduzido, no Brasil, como Amigos e Amantes.

“É engraçado como jovens amigos se transformam em amantes” – cantava o autor numa balada triste que falava dos personagens centrais, um rapaz e uma moça que, fugidos de suas casas, se abrigavam numa cabana abandonada, numa idílica região da França.

Uma reaudição – The Ode Collection, o álbum de Carole King – remetendo a conexões improváveis de meio século atrás, mas também a um tema permanente, o da amizade, ainda mais atual desde que a pandemia isolou as pessoas ou, na melhor das hipóteses, restringiu bastante as possibilidades que elas tinham de estar juntas.

Tudo isso me remeteu a uma outra conexão. E lá vou eu atrás de dois filmes que os cinéfilos não costumam observar o quão semelhantes são: Nós Que Nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola, e Amigos Para Sempre, de Arthur Penn.

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Arthur Penn era um mestre, fez filmes de sucesso, mas nunca perdeu o que nele havia de outsider.

Amigos Para Sempre é do fim da sua carreira e muito pouco lembrado.

Ettore Scola era um dos grandes nomes do cinema italiano, realizador de filmes memoráveis.

Nós Que Nos Amávamos Tanto é do tempo em que ele ainda não conquistara todo o respeito que viria nos anos seguintes.

O filme de Penn se passa nos Estados Unidos. O de Scola, na Itália. Os contextos históricos não se assemelham.

Mas há dois aspectos que nos dizem que dois filmes podem ser um só:

Em primeiro lugar, eles contam a história de três amigos que se apaixonam pela mesma mulher.

Em segundo, as narrativas acompanham esses homens e essa mulher através do tempo em que viveram. O tempo, seus fatos, suas questões mais marcantes.

É engraçado. Carole King, com sua voz jovem (ela agora já está às vésperas dos 80 anos), me mandando para junto de Arthur Penn e Ettore Scola, que me são tão caros no mundo do cinema.

Amigos Para Sempre e Nós Que Nos Amávamos Tanto são dois belos filmes revistos agora que amigos foram afastados do contato físico pela pandemia e outros se viram rompidos, sem volta, pela polarização política.

Os títulos conduzem a uma outra questão. Aos amigos e amigas que não queremos perder nunca e àqueles e àquelas que deixamos de amar.