“Há essa espécie de amigas e amigos que nos marcam para a vida toda e, infelizmente, há aqueles que deixamos de amar”

Misturando música e cinema a partir da reaudição das canções de Carole King, postei aqui na coluna algo sobre a amizade, e Luísa Gadelha me respondeu com essa beleza de texto.

DOS AMORES NECESSÁRIOS E CONTINGENTES

Luísa Gadelha

As divagações de Sílvio Osias, em sua coluna desta quarta-feira (16), no Jornal da Paraíba, me deixaram a um tempo impressionada e triste. Impressionada porque gostei das conexões feitas entre músicas, filmes e amizades – as que permanecem e as que se vão; e triste porque Sílvio termina dizendo justamente isso: há amigas e amigos que não queremos perder nunca e há aqueles que deixamos de amar. A morte do amor me deixa sempre taciturna, sobretudo a do amor fraterno, que constitui um dos laços mais longevos que atamos em vida.

Ao ler o artigo de Sílvio, não pude deixar de lembrar de duas amizades reais, retratadas na literatura, e bastante parecidas: Montaigne e Étienne de La Boétie e Simone de Beauvoir (foto) e Zaza. Ambos, Montaigne e Beauvoir, perderam seus amigos, brilhantes, de maneira precoce, na juventude e, também ambos, ficaram marcados pelo potencial que La Boétie e Zaza possuíam e que não puderam desenvolver.

Em seu ensaio Da amizade, um dos mais fortes da vasta obra de Montaigne e dedicado à memória de La Boétie, ele afirma que as almas dos amigos “se mesclam e se confundem uma na outra, numa fusão tão total que apagam e não mais encontram a costura que as
uniu. Se me pressionarem para dizer por que o amava, sinto que isso só pode ser expresso respondendo: Porque era ele, porque era eu”. Esta última frase, aliás, Chico Buarque transformou em uma canção, mas de amor: Porque era ela, porque era eu.

Com Simone de Beauvoir, foi parecido: ela perdeu sua melhor amiga, Zaza, com apenas 21 anos de idade. Zaza foi fonte de inspiração para Simone devido à sua ousadia, sua esperteza e inteligência natas: enquanto Simone se esforçava nos estudos, Zaza, impetuosa e irônica, era de uma sagacidade de espírito espontânea. Apaixonada por Merleau-Ponty, pode-se dizer que Zaza morreu, literalmente, de amor, e também das contradições que a assolavam: uma família extremamente católica e conservadora contraposta à sua natureza errante.

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Por toda a vida, Simone sentiu-se culpada pela partida de Zaza. “Juntas havíamos lutado contra o destino abjeto que nos espreitava, e pensei durante muito tempo que pagara minha liberdade com a sua morte”, diz. O fantasma de Zaza a assombrou por décadas, e
a ela Beauvoir recorre não só no seu primeiro volume de memórias, Memórias de uma moça bem-comportada, como também no romance As inseparáveis, no qual narra, de forma ficcionalizada, a história de Zaza.

Há essa espécie de amigas e amigos que nos marcam para a vida toda e, infelizmente, há aqueles que deixamos de amar: muitos, talvez, por conta das posições políticas que têm assumido. Pois é, estou entre essas pessoas que romperam com amigos e parentes que se
negam a enxergar o óbvio.

Vivemos tempos esquisitos, tomados não apenas por perdas pessoais, mas sobretudo dominados pelo luto coletivo, como disse a escritora Chimamanda Adichie em entrevista ao programa Roda Viva, na última segunda-feira (14). Às Zazas e aos La Boéties da minha
vida, contudo, espero poder recorrer sempre, entoando os Beatles: I get by with a little help from my friends.

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Luísa Gadelha é graduada em Letras, mestra em Linguística pela Universidade Federal da Paraíba e doutoranda em Estudos Literários e Feministas pela Universidade do Porto. Servidora da UFPB, também escreve sobre literatura e é editora do site de poesia Zona da palavra. Tem poemas publicados em revistas brasileiras e portuguesas.