Dom Paulo Evaristo Arns nasceu há 100 anos. Homens como ele fazem muita falta nesse Brasil desmantelado por Bolsonaro

Nesta terça-feira (14), faz 100 anos que nasceu Dom Paulo Evaristo Arns. Ele foi arcebispo de São Paulo e, quando morreu, aos 95 anos, o cardeal era arcebispo emérito da maior cidade brasileira. Dom Paulo foi um dos principais integrantes do clero progressista brasileiro.

Na época da sua morte, afirmei aqui na coluna que a sua luta contra a ditadura militar foi imprescindível à redemocratização brasileira. Da atuação na periferia de São Paulo à postura que adotou no episódio do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, há muito o que destacar na trajetória de Dom Paulo.

O ato ecumênico por Herzog, na Catedral da Sé, foi uma das mais contundentes e belas manifestações da sociedade civil contra os governos de exceção. Lembro como contemporâneo. O cardeal ao lado de judeus (Herzog era judeu) e evangélicos, num exemplo de firmeza e muita coragem.

Podemos sintetizar a sua luta contra a ditadura no projeto Brasil: Nunca Mais. É um valiosíssimo documento sobre a ação dos órgãos repressores do regime militar. A equipe que desenvolveu o projeto trabalhou durante anos sob a chancela de Dom Paulo. Também do rabino Henry Sobel e do pastor Jaime Wright.

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Dom Paulo dedicou sua vida a uma igreja que respeita as diferenças e dialoga com os que são guiados por outras crenças. Ou por nenhuma crença. Em seu coração generoso, os direitos do homem sempre se sobrepuseram às injustiças sociais.

Homens como Dom Paulo Evaristo Arns fazem muita falta ao Brasil. Nesse país que o presidente Jair Bolsonaro e a ultradireita desmantelaram em menos de três anos, enfrentamos uma gigantesca carência de grandes lideranças. Dom Paulo foi um grande líder em seu tempo.

No centenário do seu nascimento, quando lembro dele, lembro dos bolsonaristas que se dizem cristãos. Eles não estão entendendo nada. O cristianismo e o bolsonarismo são incompatíveis. Ou não leram os Evangelhos ou agem de má fé esses que se dizem cristãos e votaram (votam) na barbárie que o presidente Bolsonaro defende.

Nunca estive com Dom Paulo. Nunca falei com ele. Mas guardo uma imagem. Numa ida a São Paulo, há muitos anos, fui conhecer a Sé. Caminhei pelo bairro da Liberdade e entrei numa rua estreita que fica ao lado da igreja. Havia uma porta lateral aberta. Entrei. E lá estava ele: Dom Paulo Evaristo Arns no altar! Celebrando!