Bolsonaro espalha tristeza pelo Brasil. Até rever Chico e Caetano faz pensar na desesperança

Em 1986, a Globo colocou no ar uma série chamada Chico & Caetano. Eram programas mensais apresentados sempre numa sexta-feira, nos quais Chico Buarque e Caetano Veloso recebiam seus convidados. A série, uma das preciosidades do acervo da emissora, está de volta. Pode ser vista e revista agora pelos assinantes do Globoplay.

Chico & Caetano tem 35 anos. Portanto, os programas estão com a sua idade, se você nasceu em 1986. É preciso que o telespectador tenha nascido uns 10 anos antes para ter guardado na memória um mínimo desses registros tão bonitos. Eu sou contemporâneo e vi toda a série já com 27 anos.

Revendo Chico & Caetano agora sinto alegria e tristeza. Alegria por estar diante de grandes belezas do Brasil. Dois dos nossos maiores artistas recebendo e dialogando com o que havia de melhor na nossa música popular. Programas que montaram um painel vasto, riquíssimo e sem preconceitos.

Tristeza porque essa série, 35 anos depois, nos põe, em primeiro lugar, diante da passagem do tempo. Na plateia e no palco, o inevitável e tantas vezes doloroso envelhecimento de cada um de nós. Tristeza também porque nos coloca frente à inevitabilidade da morte.

Sílvio, você está muito pessimista – dirão, talvez com razão, alguns leitores. Pode ser que sim. Mas foi o que me ocorreu quando pensei que não há mais Elizeth Cardoso, Baden Powell ou Tom Jobim. Nem mesmo Cazuza, que, em 1986, tinha somente 28 anos e ainda não começara a enfrentar sua luta contra a AIDS.

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Chico Buarque é tímido em suas performances ao vivo. Caetano Veloso, não. Chico não é um performer. Caetano, sim. No palco, é lindo ver os dois juntos. Caetano provoca Chico. Caetano seduz Chico. Chico responde com olhares e sorrisos de quem se permite seduzir, mas sem perder a timidez.

Para mim, um dos momentos mais comoventes de toda a série está na participação de Mercedes Sosa. Ao cantar um clássico do seu repertório, Volver a los 17, de Violeta Parra, a grande cantora argentina divide o palco com Chico, Caetano, Milton Nascimento e Gal Costa. Simbolicamente, o Brasil se une, ali, ao cancioneiro da América Latina.

Sentado no palco, Caetano Veloso contempla Antônio Carlos Jobim e sua banda fazendo a suíte Gabriela. O anfitrião, que o convidado homenageia com Coração Vagabundo, não resiste à beleza das vozes femininas da banda de Tom e se deita no chão. Era um tempo em que podíamos ver Tom Jobim ao vivo.

Chico & Caetano me dá a sensação de que a série é de um momento em que tínhamos muitos sonhos. A música expressa esse onirismo. Sua revisão, agora em 2021, ocorre quando estamos cheios de desesperança. Por isto, somo a tristeza à alegria ao reencontrar esses programas.