Talentoso cartunista, Lailson de Holanda paga pelo negacionismo com a própria vida

Lailson de Holanda morreu aos 68 anos vítima da Covid-19, após recusar tomar vacina.

Num dia qualquer do ano de 1973, Archidy Picado (o pai) chegou lá em casa com um rapaz de cabelos longos e cacheados e um LP. O rapaz era seu sobrinho pernambucano Lailson de Holanda (Foto/Reprodução Facebook). O LP, um disco instrumental que se tornaria cult. Seu nome: Satwa.

Lailson tocava craviola, e Lula Cortes, tricórdio. As faixas tinham longos improvisos. As bases feitas por Lailson, e os solos, por Lula. No Blues do Cachorro Muito Louco, se ouvia o primeiro registro, em disco, da guitarra de Robertinho de Recife. Claro que no título havia uma brincadeira com o nome da maconha: Satwa, sativa. Mais ainda na faixa Can I Be Satwa. Parece Cannabis Sativa.

O disco foi gravado no Estúdio da Rozenblit, no Recife, e seria um dos marcos da psicodelia pernambucana. Se tornaria raro, sendo disputado pelos colecionadores. Sua capa tem um cogumelo, que os músicos da geração de Lailson comiam em busca de viagens alucinógenas.

Ser músico era um desejo de Lailson, mas ele estava vocacionado mesmo para outra área. Consolidaria seu nome como cartunista, chargista e desenhista de notável talento, marcante assinatura, traço inconfundível. Por muitos anos, vimos suas charges no Diário de Pernambuco.

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Perdi contato com Lailson no final dos anos 1970 e só fui reencontrá-lo nesse mundo das amizades virtuais. Um reencontro e uma decepção: se tornara um homem de direita, essa direita atrasada que temos hoje no Brasil. Logo ele, um jovem cabeludo de ideias libertadoras que conheci há quase 50 anos.

Na pandemia, adotou uma postura negacionista. Não admitia ser bolsonarista, mas era contra a vacina. De tal modo que se recusou a ser vacinado. Na semana passada, soube que estava com Covid, internado em estado grave num hospital particular do Recife.

Fora intubado, tinha um quadro respiratório complicado e fazia diálise para suprir o comprometimento da função renal. Lailson de Holanda, de 68 anos, morreu nesta terça-feira (26). Pagou pelo negacionismo com a própria vida. Sua morte deixa uma lição que, infelizmente, os negacionistas não entendem.