A Disney mentiu. The Beatles: Get Back confirma Let It Be, o filme de meio século atrás

ATENÇÃO: ESSE TEXTO PODE CONTER SPOILER! 

À memória de Lizzie Bravo, que não viveu para ver Get Back.

Em Let It Be, há pouco mais de meio século, o diretor Michael Lindsay-Hogg contou, num filme de 90 minutos, a história de um projeto dos Beatles. O projeto se chamava Get Back e acabou se transformando em Let It Be, disco e filme. É um retrato dos Beatles em seus estertores – assim ficou conhecido para a posteridade.

50 anos depois, Peter Jackson, o diretor da trilogia O Senhor dos Anéis, se debruçou sobre quase 60 horas de material filmado e inédito. O resultado seria The Beatles: Get Back, dividido em três episódios com mais de duas horas cada um, disponíveis integralmente desde sábado (27) no serviço de streaming Disney Plus.

A ideia de Jackson era um filme para cinema que seria lançado em 2020. A pandemia alterou os planos do diretor e dos seus produtores. Foi melhor para os (mais que admiradores) conhecedores dos Beatles. Os 120 minutos regulamentares de um filme seriam insuficientes para resgatar e contar tanta história.

Não vamos cuspir no prato em que comemos por meio século. Como desejamos, e a Apple (a dos Beatles, não a de Jobs) nunca nos deu uma cópia decente, devidamente restaurada de Let It Be! Mas temos que reconhecer que Let It Be é um pequeno rascunho de Get Back. Este confirma mas também, de algum modo, apaga aquele.

A Disney nos iludiu ao “vender” Get Back. Let It Be é uma mentira, e Get Back vai repor a a verdade histórica. Assim, fomos preparados para o filme de Peter Jackson. Mas não é nada disso. O que há de bom e o que há de mau nos Beatles desse projeto tão complicado está minuciosamente contado por Jackson.

O projeto que os Beatles realizaram em janeiro de 1969 tem três partes. Na primeira, eles são flagrados ensaiando num galpão do estúdio de cinema de Twickenham. Na segunda, estão no estúdio da Apple, a empresa deles. Na terceira, fazem um breve show no terraço (ou telhado, como queiram) da Apple.

Esta cronologia é seguida em Let It Be e em Get Back. Em Get Back, com impressionante riqueza de detalhes, através de um calendário do mês de janeiro de 1969. Os dias vão se passando, e nós, não os admiradores (nos é muito pouco), mas os conhecedores dos Beatles, vamos testemunhando o que aconteceu.

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Get Back é um belo documentário, à altura da mística dos Beatles e da canção popular que produziram em seu tempo. Tem narrativa formalmente muito bem resolvida. Exibe fabulosos artistas em seu processo de criação. E nos reserva momentos especialíssimos, como a composição do rock Get Back ou o reencontro com Billy Preston.

Em 1971, quando fomos ao cinema ver Let It Be, não sabíamos direito do que se tratava nem muito menos do seu desfecho. O filme de Michael Lindsay-Hogg não discute o show. O filme de Peter Jackson o faz exaustivamente e deixa o espectador ansioso para ver o que vai acontecer.

Get Back é um meta filme. Get Back, em certa medida, discute Let It Be. A sequência do show é aula de cinema documental, de montagem cinematográfica, de resgate histórico. A imagem ora reproduz o que chamávamos de meia tela (meia tela era o oposto do scope), ora é scope, lançando mão do recurso da tela múltipla, tão em voga quando Let It Be foi realizado, largamente difundido em Woodstock.

O áudio do show é manipulado com raríssima sensibilidade, variando de acordo com a distância das câmeras e dos enquadramentos. A inserção das entrevistas captadas ao vivo, enquanto o show se realizava, é perfeita. Os Beatles são demais! Os Beatles não valem nada! – as falas vão de um extremo ao outro. Algumas nos comovem.

O chá de cadeira que os policiais levam na recepção da Apple é impagável. “Os Beatles, esses maconheiros safados” – fiquei pensando que deve ter passado algo assim pela cabeça deles. Hoje, ainda passaria. “Sinto muito, vamos ter que prender” – dizem em tom de ameaça, fazendo da sequência uma das mais hilárias da história dos Beatles.

Quando, afinal, os policiais são levados ao local do show, parecem divididos entre o cumprimento do dever e o alumbramento ali à frente deles. McCartney os vê e não resiste: dá um grito, faz umas provocações deliciosas e manda os caras, literalmente, de volta. Como o título do filme e também o da canção.

Não estaremos vivos nos 100 anos de Let It Be. Mas, se, até lá, a insanidade humana não destruir o planeta, a memória dos Beatles, esta sim, estará vivíssima. As canções dos Beatles estarão vivíssimas. Aproveitemos agora.