Paulinho Camafeu morre aos 73 anos numa UPA. Sem ele, a gente não teria axé music

O músico baiano Paulinho Camafeu (Foto: arquivo) morreu nesta segunda-feira (29). Foi um dos inventores da axé music. Sem ele, não haveria axé music. Camafeu tinha 73 anos e enfrentava problemas cardíacos há alguns anos. Teve um enfarte numa UPA de Salvador.

“Pega ela aí, pega ela aí. Pra quê? Pra passar batom. Que cor? De cor azul. Na boca e na porta do céu”. Não adianta reclamar. Era assim mesmo. A música conquistou não só a Bahia, mas o Brasil todo. Isso foi em meados dos anos 1980. O cantor se chamava Luiz Caldas. Os autores de Fricote eram Caldas e Paulinho Camafeu.

Caldas, a gente ainda vê com frequência nas redes sociais, longe do sucesso, cantando e tocando (invejável) violão. Enxergo melancolia no que ele faz. Camafeu morreu pobre e doente numa Unidade de Pronto Atendimento.

O politicamente correto considerava Fricote racista e vulgar. Não entendia o fenômeno genuinamente popular oriundo do talento musical dos pretos da Bahia. Fricote era, sim, música de duplo sentido, de delicioso duplo sentido. E era música de afirmação de um povo – vejam (e ouçam), já com o necessário distanciamento, através do belo documentário Canto do Povo de Um Lugar.

Paulinho Camafeu entrou no meu radar quase uma década antes de Fricote. Foi no imprescindível álbum Refavela, que Gilberto Gil lançou em 1977. Álbum seguido de show que, quem teve a alegria de ver, jamais esquecerá. “Que bloco é esse, que eu quero saber. É o mundo negro, que viemos mostrar pra você”. Era Gil dando voz à música de Paulinho Camafeu (Ilê Ayê), no disco e nas noites mágicas do Rafavela ao vivo.

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Autor de grandes sucessos, nome indispensável à axé music, Paulinho Camafeu morreu numa UPA. Há algo de muito triste e bem brasileiro na sua história.