“Os idealizadores desse braço da Lava-Jato sabem tanto o que fazem, que colocaram o nome da ação de Operação Calvário”

Márcia Lucena (Foto: Rodrigo Barbosa ), professora e ex-prefeita do município de Conde (PB), é a personagem central do documentário Calvário, dirigido pelo professor e cineasta Bertrand Lira. Nesta quarta-feira (01), posto texto em que o realizador escreve sobre o filme.

O DOCUMENTÁRIO CALVÁRIO DÁ VOZ A UMA MULHER “CONDENADA” SEM JULGAMENTO

Bertrand Lira

De um documentário não se espera imparcialidade. A narrativa documental, como toda narrativa, tem um enunciador e, no caso de um filme, o diretor, no limite, é que guia essa voz, ou vozes, que fala. É ele quem determina o tempo permitido à fala para cada um dos personagens.  Além disso, é o diretor que organiza os materiais de expressão do cinema (imagens, sons, diálogos, menções escritas e música), visando a construção de uma narrativa. Por isso, tem-se, na reunião desses materiais, uma forma estética e discursiva de falar de um aspecto ou evento da realidade.

A narrativa documentária traz o ponto de vista do diretor sobre o que ele trata no filme, não tem como fugir disso. O que se deve exigir do autor da obra é um tratamento ético sobre o tema, respeito aos seus personagens, pois se trata de atores sociais, ou seja, pessoas reais, com quem, mesmo não simpatizando, não devemos manipular suas falas para criar uma imagem delas que não corresponde à realidade. O jornalismo, aqui na Paraíba e no resto do país, está cheio de distorções sobre os fatos para incriminar os desafetos dos jornalistas e, mais amiúde, dos donos das empresas com fins políticos e eleitoreiros. Há uma “queima” diária dos manuais de redação nessas empresas.

Ao aceitar dirigir o documentário Calvário, o fiz por empatia à causa, por princípios morais e éticos, antes de tudo, que têm regido minha vida pessoal e profissional como professor universitário nos cursos de Jornalismo e Rádio e TV na UFPB. Márcia Lucena, personagem do documentário, é casada com meu irmão, Nanego Lira, o que, é óbvio, implica um engajamento afetivo maior na minha abordagem documental. Se não houvesse essa relação de parentesco, na minha percepção, daria no mesmo. Qualquer pessoa com senso de justiça defenderia essa causa.

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Em resumo, o documentário Calvário (2021, 37 min) fala do sofrimento de Márcia Lucena, ex-secretária de educação, ex-presidente da Fundação Espaço Cultural (Funesc), ex-prefeita do município de Conde, litoral Sul da Paraíba, acusada, sem provas – pelo menos até agora ninguém teve acesso a elas –, presa por quatro dias, usando tornozeleira desde janeiro do ano passado com medida cautelar restritiva, sendo obrigada a estar em sua casa todos os dias após às 20h e durante os finais de semana e feriados. Candidata à reeleição na cidade, esta liminar a impediu de fazer a campanha política de reeleição em igualdade de condições. Nesse ínterim, seu pai, o professor Iveraldo Lucena, foi acometido de um câncer e faleceu sem que a filha pudesse lhe dar a assistência necessária.

Para tornar mais penoso o seu calvário, Márcia não pode trabalhar já que, em função de todas essas restrições, qualquer dinheiro que possa vir a receber por seus serviços, ela não terá acesso, em razão das ações judiciais que foram ajuizadas contra ela, além de bloqueio de seus bens e de sua conta bancária, que a penalizam antes mesmo dela ter sido ouvida, ter apresentado seus argumentos amplos de defesa, documentos e testemunhas e, escandaloso, sem ter sido julgada. Os idealizadores desse braço da Lava-Jato sabem tanto o que fazem, que colocaram o nome da ação de Operação Calvário.

Em suma, fica evidenciado nas falas da protagonista desse calvário que se trata de uma genuína ação de Lawfare, o direito usado como instrumento de guerra contra pessoas ou grupos. Especialistas discutiram essa questão no livro Lawfere – O calvário da democracia brasileira, uma coletânea de textos de professores de Direito, juristas e de outras áreas do conhecimento. Neste documentário dirigido por mim, assinei também o som e contei com os trabalhos técnicos de Rodrigo Barbosa (Direção de fotografia, montagem e finalização), de Didier Guigue (música), além da disponibilidade da protagonista para narrar seu drama.

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 Bertrand Lira é professor e cineasta.