Bolsonaro deu o que prometeu. O Supremo tem, afinal, seu ministro terrivelmente evangélico

O Brasil já foi conhecido como o maior país católico do mundo. No passado, os evangélicos eram chamados de protestantes. Ou crentes. Eram palpável minoria. Crentes, todos os que têm alguma religião são. Até os que não têm, porque creem na ausência de um deus. Mas a palavra era reservada a eles, os evangélicos.

Há mais de 40 anos, lá pelo final da década de 1970, conheci de perto um político que avistava, bem de longe, o crescimento dos evangélicos no Brasil.  Talvez se equivocasse porque o preconceito turvava sua visão. De todo o modo, foi a primeira pessoa a me dizer que eles chegariam ao poder na condição de evangélicos.

Infinitamente mais lúcido do que o meu amigo político, Dom José Maria Pires, grande pastor cristão que esteve à frente do rebanho católico paraibano entre 1966 e 1996, dizia, já aposentado, que andava pela periferia de Belo Horizonte e enxergava algo no crescimento de pequenas igrejas evangélicas: que elas estavam conseguindo fazer o que os católicos desaprenderam, não faziam mais.

Talvez meu amigo político tivesse apenas raiva dos evangélicos. Dom José, não. O bispo sabia que há, no notável crescimento deles, algo que é necessário enxergar bem nitidamente: que, sem os evangélicos, não existe mais Brasil. E que logo eles serão maioria.

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Essas observações me ocorreram depois que, nesta quarta-feira (01), os senadores aprovaram o nome de André Mendonça (Foto: Agência Senado) para o Supremo Tribunal Federal. André Mendonça é o ministro “terrivelmente evangélico” prometido pelo presidente Jair Bolsonaro.

Mendonça, que é pastor evangélico, é representante autêntico daquilo que o meu amigo político, ainda que com a visão turva, enxergou lá nos anos 1970. É interessante que tenha sido nomeado por Bolsonaro. É interessante que sua chegada ao STF se dê no momento da chegada dos evangélicos ao poder central do país.

Na vida, a Bíblia. No Supremo, a Constituição. Ouvimos de André Mendonça durante a sabatina em que foi aprovado pelo Senado. Só o tempo dirá, de fato, o quão terrivelmente evangélico será no STF.

Ser ministro do Supremo não significa não ter religião. Todos têm a sua. Ou não têm nenhuma. O que é ruim é o cara chegar lá carregando a marca da sua religião. É o caso de André Mendonça.