No Ato Pela Terra, foi como se Caetano Veloso materializasse a descida do índio sobre o Planalto Central

Um Índio é uma canção que vem de longe. Maria Bethânia cantava nos Doces Bárbaros, em 1976. Caetano Veloso, seu autor, gravou em 1977, no álbum Bicho. Naquele tempo, 45, 46 anos atrás, setores da esquerda não gostavam de Caetano, a despeito da sua prisão e exílio pelo regime militar. Suas ideias eram mais abrangentes do que a pauta que a esquerda propunha. E eram, sim, de esquerda.

Havia Gente (de 1977) – “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. Havia Terra (de 1978) – “Por mais distante, o errante navegante…”. Havia Um Índio, essa canção que foi atravessando o tempo, foi sendo mantida no repertório do artista e só fez ganhar relevância.

Nesta quarta-feira (10), Um Índio foi responsável por um dos momentos mais tocantes do Ato Pela Terra, que Caetano e seus muitos convidados realizaram em Brasília, em frente ao Congresso Nacional. Todos os que ali estavam lutam contra o Pacote da Destruição Ambiental, que tramita na Câmara. Todos lutam pela defesa dos territórios indígenas, contra o desmatamento, a favor da nossa segurança alimentar.

Caetano Veloso, já perto do final da manifestação, cantou Um Índio cercado de mulheres, representantes das comunidades indígenas. Em 1976, 1977, Um Índio já era bela, mas não era tão forte e eloquente quanto é agora. Ali em Brasília, foi como se Caetano materializasse a chegada do personagem da letra da canção. Foi como se o índio, “preservado em pleno corpo físico, em todo sólido todo gás e todo líquido” descesse e iluminasse o povo que estava na praça e – quem sabe? – pudesse levar alguma luz a quem precisa enxergá-la.

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Muita gente falou. Muita gente cantou. Paula Lavigne disse que não é muito de falar, mas de fazer. Sem ela, não existiria o Ato Pela Terra. Christiane Torloni me emocionou porque a luta cidadã dela vem de longe, desde as Diretas Já. Emicida foi incrível. Ele e Crioulo levaram ao palco um “clima de altíssima energia”, como definiu Caetano. Emicida e Crioulo são de São Paulo, e Caetano homenageou os de São Paulo cantando Sampa. Caetano é da Bahia e homenageou os da Bahia chamando Daniela Mercury, que disse coisas muito lúcidas e espalhou alegria com sua música.

“Eu organizo o movimento” é um verso que Caetano cantou em 1967/1968. Ele também cantou “eu inauguro o monumento no Planalto Central do país”. Em agosto que vem, o artista fará 80 anos. Caetano Veloso permanece ao lado das causas mais nobres e mantém a crença de que o Brasil um dia será realmente um país singular e grande.