“A última violeta partiu”. Não há mais as tias de Zé Ramalho, as filhas do Avôhai

A notícia chegou pelo telefone nesta segunda-feira (02): “A última violeta partiu”. Zélia Ramalho, a última das tias de Zé Ramalho, a última das filhas do Avôhai, morreu serenamente aos 87 anos.

Maria, Tetê, Inês, Zélia. Uma vez, tentei, com palavras, tirar breves instantâneos delas. Ficou assim:

Maria era austera. Também era acolhedora. Mas levava um tempo. Embora fosse a mais velha das quatro irmãs, pediu que eu não usasse o “Dona”. Era somente Maria. Sua mãe, na hora da morte, disse: “Maria!, Maria!”. Como na canção de Milton Nascimento.

Tereza, Terezinha, Tetê. Com ela, não consegui tirar o “Dona”. Era Dona Terezinha, não sem alguma inveja de quem a chamava Tetê. Viúva muito jovem, com uma filha para criar, dedicou-se ao magistério, foi dar aulas de História, escreveu livros. Ao seu modo e em seu tempo, posso dizer que era uma verdadeira feminista.

Inês era da política, do grupo de Antônio Mariz, de um PMDB que não existe mais. Íntegra, reta. Política, para ela, era algo muito diferente do que temos visto por aí.

Zélia nos recebe [o verbo ainda no presente] com as delícias da sua culinária. “Isso dá um livro de receitas”, disse certa vez a ela. A conversa, sempre muito franca, muito verdadeira.

O livro de receitas – as receitas da mãe – era um sonho e pode ter sido sua última grande alegria. Receitas que Mamãe fazia é como se chama o livro.

Veja também  Eric Clapton está com Covid. Guitarrista foi contra o isolamento social e a vacina

No texto de apresentação, Zélia diz de dona Soledade: “Ainda sinto o gosto e o cheiro dos seus temperos. Não herdei dela esses atributos, mas seu espírito forte e sua fé!”.

A capa foi desenhada por três crianças (Malu, Lipe e Rafa), netos de Zé Ramalho, a novíssima geração da família. As crianças foram outra grande alegria nos últimos anos da vida de Zélia. Ela recebia de volta o amor que dava a Malu, Lipe e Rafa, como naquela canção dos Beatles.

Até pouco tempo, conversávamos praticamente todos os dias. Zélia comentava meus textos e dividia comigo suas angústias. Também contava histórias.

Nos últimos meses, estava apreensiva. A pandemia, a saúde, os medos. E, aí, foi ficando mais distante. Até quase silenciar.

Ontem pela manhã, lembrei dela. Senti falta das nossas conversas. E do café que nunca conseguimos tomar juntos. Não imaginava que, naquele momento, o coração de Zélia estava parando.

Maria, Tetê, Inês, Zélia. Com a morte de Zélia, não há mais as tias de Zé Ramalho. Ficam nas nossas lembranças. Na nossa memória afetiva.

Maria, Tetê, Inês, Zélia. As tias de Zé Ramalho. Bonito, num tempo que se foi, era vê-las de mãos dadas e braços para o alto no momento em que o sobrinho fazia seu show.

Ele cantava: “Avôhai!”.

Elas respondiam em coro: “Avôhai!”.