“A manhã tropical se inicia”, cantou Gilberto Gil no turbulento ano de 1968

Sigo com outro post a propósito dos 80 anos de Gilberto Gil. O aniversário é neste domingo, 26 de junho, quando o artista dá início a uma extensa turnê pela Europa.

Havia uma divisão profunda na chamada MPB. No público e nos artistas. Produto, por certo, do contexto em que se vivia. O Brasil de então era um país governado por militares que haviam chegado ao poder pela força, com a deposição, em 1964, do presidente João Goulart, e as vozes oposicionistas iam dos que atuavam moderadamente na trincheira partidária do recém-criado MDB aos grupos de esquerda que acreditavam na luta armada e se preparavam para ela.

No festival de 1967, Ponteio (Edu Lobo), a primeira colocada, e Roda Viva (Chico Buarque), a terceira, representavam os que se opunham ao que Caetano Veloso chamou de “linha evolutiva da música popular brasileira”, que ele e Gil pretendiam retomar. Domingo no Parque, em segundo lugar, e Alegria, Alegria, em quarto, encarnavam justamente a retomada desta evolução. Edu e Chico, mesmo que não quisessem, eram vozes identificadas com a esquerda pós-Bossa Nova, a canção de protesto, o velho nacionalismo, o movimento estudantil. Caetano e Gil não se enquadravam em nada disto, embora fossem, à maneira deles, jovens artistas de esquerda.

O festival da Record foi em 1967, mas o Tropicalismo ficou para o ano seguinte. O disco-manifesto coincide com a turbulência que se viu pelo mundo, sobretudo na Paris que estudantes e trabalhadores puseram de cabeça para baixo. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes, Torquato Neto, José Carlos Capinan e o maestro Rogério Duprat – este era o elenco de Panis et Circensis. Baby, que Caetano compôs por sugestão de Maria Bethânia, foi considerada “uma merda” pelo paraibano Geraldo Vandré, que logo comporia Caminhando, a mais incisiva de todas as canções de protesto feitas no Brasil. “A manhã tropical se inicia”, cantava Gil em Geleia Geral. Uma manhã que se mostraria de curtíssima duração, mas de profunda influência sobre a música popular que os brasileiros produziriam a partir dali.

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Em 1968, os dois grupos de rock mais importantes da cena internacional não ignorariam a turbulência mundial. Os Rolling Stones compuseram Street Fighting Man. Os Beatles, Revolution. Havia um desencanto na letra dos Stones. O que um garoto londrino poderia fazer a não ser tocar numa banda de rock’n’ roll era o que perguntavam. Na dos Beatles, John Lennon confundia o ouvinte. Uma versão da música dizia que ele estava disposto à luta. Na outra, dizia que não. Caetano Veloso tomou emprestado o slogan dos estudantes parisienses e escreveu É Proibido Proibir para o Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo. Gil concorreu com Questão de Ordem. Ambos falavam do que estava ocorrendo no mundo, não exatamente do modo que interessava à esquerda.

Foram desclassificados, mas Caetano, num discurso improvisado, entre a lucidez e a fúria, fez uma pergunta que falava do Brasil do futuro como nem ele imaginava: “Então é esta a juventude que diz que quer tomar o poder?”. Foi contundente com a esquerda que o vaiava. E bateu duramente na direita, ao registrar a violência contra os atores da peça Roda Vida. O festival terminaria com a disputa entre Caminhando, de Geraldo Vandré, e Sabiá, de Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque. O público preferia Vandré e sua música de passeata à bela canção de exílio de Tom e Chico, premiada sob vaias. O Brasil estava às vésperas do endurecimento do regime.

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Ainda volto com outros posts sobre os 80 anos de Gilberto Gil.