Otimista, Gilberto Gil gosta de dizer que a seta do tempo é sempre pra frente

Termino aqui os posts publicados na coluna para comemorar os 80 anos de Gilberto Gil, completados neste domingo, 26 de junho.

Ainda ministro da Cultura de Lula, Gilberto Gil cantou no plenário da Organização das Nações Unidas, em Nova York. E teve ao seu lado, tocando percussão, o então secretário geral da ONU, Kofi Annan. Que orgulho imenso para nós, brasileiros. Que momento de afirmação do Brasil no mundo. Em 2015, percorreu o Brasil e diversos países num duo acústico com Caetano Veloso, seu companheiro de Tropicalismo e amigo da vida inteira, com quem, nos anos 1990, havia gravado o álbum Tropicália 2. Às vésperas dos 80 anos, completados neste domingo, 26 de junho, tomou posse na Academia Brasileira de Letras. Uma turnê pela Europa, com filhos e netos no palco, marca o octogésimo aniversário desse artista extraordinário.

Ciência, religião, arte, política, amor. O homem no meio disso tudo. Os pés fincados na fontes. Os braços abertos para as novidades. A vontade de unir as duas coisas, mais do que de provocar rupturas. O espírito conciliador em curiosa oposição ao desejo de mudança. A generosidade. Pensamos nestes temas e questões quando ouvimos o seu cancioneiro. Mais ainda quando conversamos com ele. Uma vez, perguntaram à jovem Billie Holiday se ela sabia cantar, e ela respondeu que todo mundo sabe. Em Gil, a música brota tão naturalmente que é como se fizesse uma coisa que todos sabem fazer. Ele me dá esta sensação mais do que outros artistas. Como se não houvesse esforço no ato de compor, de cantar, de tocar, de subir no palco e conduzir o público a uma celebração em que a música é musa única.

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Ouvi Gil pela primeira vez aos oito anos, em 1967, quando cantou Domingo no Parque no festival da Record. Conquistou-me com aquela história de José, João e Juliana, que depois constatei ser tão bem narrada. Fui contemporâneo de cada um dos seus discos. Pude vê-lo no palco dezenas de vezes, com as mais diversas formações. Tive a alegria de conhecê-lo. Já falamos muito sobre música. Houve um tempo em que a política predominava em nossas conversas. Muito antes de Tony Blair, sonhava com a terceira via (não, não é essa terceira via de que se fala no Brasil de hoje) e dizia que “todo mundo é socialista de coração”. Mais tarde, passamos a falar da morte e da necessidade de refletirmos todos os dias sobre a sua inevitabilidade – lição que aprendeu com Walter Smetak. Deve ser resultado da passagem do tempo e das perdas acumuladas. Gil tem uma relação mística com a vida, acredita em Deus, embora às vezes pareça cético. Costuma ser otimista e gosta de lembrar que a seta do tempo é sempre pra frente.

Gilberto Passos Gil Moreira. Gilberto Gil. Gil. O menino que queria ser “musgueiro” se transformou num dos grandes artistas do Brasil. E, entre raízes e antenas, com a sua imensa capacidade criadora, conquistou dimensão internacional. É um prêmio ser contemporâneo dele e das suas canções.