Muitos milhões de beijos pro Gordo!!

Nos anos 1960, na minha infância, um canal de televisão exibia as chanchadas da Atlântida todas as tardes. Foi quando conheci Oscarito e Grande Otelo. Num desses filmes, O Homem do Sputnik, vi Jô Soares pela primeira vez. Na comédia de 1959, dirigida por Carlos Manga, posso dizer que Jô (à esquerda na foto) ainda não era Jô, mas apenas um jovem ator que mal passara dos 20 anos.

O Jô Soares que comecei a fixar na memória realmente como Jô Soares foi aquele do elenco de A Família Trapo. O ano era 1967, e ele já beirava os 30 anos. Tinha Ronald Golias, Otello Zeloni e Renata Fronzi no elenco. Para os padrões da época, era um humorístico delicioso, e arrisco dizer que, três décadas mais tarde, o Sai de Baixo não teria existido não fosse o modelo – inclusive de cenário – adotado em A Família Trapo.

Jô Soares se tornou grande na Globo. Jô e seus personagens incríveis, inteligentes, engraçadíssimos – todos eles, resultado do seu extraordinário talento. Dos programas que ainda não tinham seu nome no título até a consagração absoluta no Viva o Gordo. Ao trocar a Globo pelo SBT, na segunda metade da década de 1980, teve a audiência do Veja o Gordo derrubada pela novíssima Tela Quente, mas encontrou um outro caminho.

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No SBT, Jô realizou um sonho, o de comandar um talk show no modelo dos programas de entrevistas da televisão americana. Foi no Jô Onze e Meia que exibiu sua cultura e seu absoluto domínio da arte de entrevistar. Jô e seus convidados, Jô e sua fluência em vários idiomas, Jô e seu amor pelo jazz, Jô e os músicos maravilhosos que abrilhantavam o programa. Entrávamos pela madrugada. Todos queriam ir para a cama com Jô Soares.

O talk show depois se mudou do SBT para a Globo. Com uma estrutura semelhante, mas com mais recursos, o Jô Onze e Meia se transformou no Programa do Jô, que permaneceu no ar até o final de 2016, quando o artista já se aproximava dos 79 anos. Ator talhado para o humor, homem de teatro, escritor, músico, poliglota. Jô Soares era tudo isso. Sem qualquer exagero, fica como um gigante da cultura e da arte popular do Brasil.

Nesta sexta-feira, cinco de agosto, amanhecemos com a notícia triste da sua morte. Tinha 84 anos e estava hospitalizado em São Paulo. Artistas como ele sempre fazem muita falta. A gente diz “obrigado, Jô” e manda milhões de beijos pro Gordo!!