Lá se vão 55 anos da noite em que Caetano Veloso me conquistou

Em 1967, eu era um garoto de oito anos e vivia numa família em que se ouvia muita música, dos populares aos clássicos. Em março, vi os Beatles pela primeira vez no cinema, em A Hard Day’s Night, e fiquei louco pela música deles. Aqueles quatro caras e suas canções nunca mais sairiam da minha vida.

Num mês qualquer de 1967, que não está registrado em minha memória, prestei atenção num rapaz magrinho que participava do Esta Noite se Improvisa. Era um programa de televisão no qual o apresentador – Blota Júnior – dizia “a palavra é…”, e um participante cantava uma música cuja letra tivesse a palavra anunciada.

Naquela noite, quando Blota Júnior disse “a palavra é gaiola”, o rapaz magrinho apertou uma cigarra, ou coisa parecida, foi ao microfone e cantou “sabiá na gaiola fez um buraquinho…”. O rapaz era um baiano chamado Caetano Veloso, que ganhava muitos prêmios exibindo o conhecimento que tinha do nosso cancioneiro popular.

Numa outra noite, já em outubro de 1967, prestei ainda mais atenção em Caetano quando este conquistava o quarto lugar no Festival da Record, cantando Alegria, Alegria. O mesmo festival em que outro baiano, Gilberto Gil, ficava em segundo lugar com Domingo no Parque. Os dois, ali, introduziam as guitarras elétricas na MPB.

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A foto que abre a coluna mostra Caetano Veloso defendendo a sua música no festival. Alegria, Alegria era uma marchinha. Mas não era uma marchinha comum. Tinha uma letra absolutamente nova, que só um grande letrista escreveria, e um arranjo que conectava a música brasileira ao pop/rock vindo dos EUA e da Inglaterra.

A música brasileira nunca mais seria a mesma. A presença de Caetano no festival provocava uma salutar ruptura e começava a revelar um artista que exerceria profunda influência sobre o que viria depois dele. Foi naquela noite inesquecível de 1967 que me apaixonei incondicionalmente por Caetano Veloso e suas canções.

É claro que entendi muito pouco daquilo tudo com meus olhos e ouvidos infantis. Mas houve o impacto, como houvera meses antes quando vi os Beatles no cinema. Nunca mais deixaria de seguir Caetano. Suas melodias, sua poesia, sua voz, sua postura pública, suas atitudes. Esse cara que, neste domingo, sete de agosto, faz 80 anos.