Camila Esposte
Láuriston Pinheiro

Receita do terceiro trimestre põe a Globo no “azul”

Globoplay mantém trajetória de crescimento com aumento de 70% no período julho/setembro

A Globo anunciou esta semana os resultados do terceiro trimestre do ano. A receita líquida de R$ 3,7 bilhões foi a maior dos últimos quatro anos e representou um aumento de 19% quando comparado com a receita de ‘julho/setembro’ de 2020. O lucro obtido consegue, inclusive, reverter o prejuízo que estava acumulado no primeiro semestre do ano. Na soma dos nove primeiros meses de 2021, a receita líquida da Globo cresceu 18% em relação ao mesmo período de 2020, totalizando R$ 10,1 bilhões. Com o caixa no “azul”, há quem entenda que as mudanças da Globo começaram a mostrar a cara no conglomerado de comunicação.

O que isso significa? No papo informal da mesa da cafeteria, serve apenas para desagradar os meus amigos que torcem pelo “Bolsonaro vai quebrar a Globo”. Mas nunca consegui convencê-los de que a probabilidade é zero. Já sobre as mudanças, segue um breve resumo para os leitores interessados nas dinâmicas do mercado.

Desde 2018, a Globo iniciou um profundo processo de reestruturação. Começou com o projeto UmaSóGlobo, que reuniu cinco empresas (TV Globo, Globoplay, Som Livre, Globosat e G2C, o braço que comercializa seus canais pagos), cortou milhares de cargos, eliminou estruturas redundantes e reduziu drasticamente custos e despesas. A missão seguinte era avançar na mudança do DNA da própria Globo, de uma companhia produtora de conteúdo audiovisual aberto para uma “tech”, com maior relevância, presença e receita no mercado digital, incluindo o streaming, via a plataforma Globoplay.
Aí, veio a pandemia…

Já no primeiro semestre de 2020, quando o “estrago” na economia mundial estava evidente, houve a decisão drástica da direção (leia-se Jorge Nóbrega, então presidente-executivo do grupo) de acelerar o processo de cortes de custos, para investir no digital e enfrentar a crise. Tirar dinheiro de um lado para botar em outro. O caldeirão da Globo, de fato, passou todo o ano fervendo: lockdown, anunciantes correndo para o digital, disparada do dólar, mudanças de hábitos de consumo, economia em recessão, despesas do processo de digitalização e dívidas em dólar vencendo. E, sim, com o “pau quebrando” entre a Globo e o governo bolsonarista e suas estatais, os maiores anunciantes do país, que reduziram vertiginosamente suas verbas.

Antes da pandemia, já havia a intenção declarada da cúpula da Globo de tentar baixar os valores pagos pela Fórmula 1 e por competições como a Libertadores. Com a pandemia, a viabilidade comercial desses projetos se tornou praticamente impossível. Com a relutância da Liberty e da Conmebol, detentoras dos direitos das duas competições acima citadas, abrir mão era a única decisão. Então, corta! Já as sucessivas demissões das estrelas do jornalismo e do entretenimento seguiram uma lógica que aliou a redução das despesas fixas de elenco e a adoção de uma nova política trabalhista de pagar diretores, atores e atrizes por produção ou por temporada. É assim na Netflix, na HBO, na Amazon, etc. Chamam isso de “uberização” dos talentos.

Na sequência do “sanguinolento” corte de gastos com demissões, renegociação e rescisão de contratos, e após um salto de crescimento de 80% do Globoplay, a Globo Comunicação e Participações terminou 2020 com um lucro de R$ 167,8 milhões. Nada mal para um ano marcado por notícias ruins e tragédias. Mas, por outro lado, a narrativa da “Globo em crise” já estava instalada, e muito impulsionada por ressentidas motivações, digamos, ideológicas. Chegou algo sobre o “fim da Globo” em seu grupo de whatsapp?

Ao longo de 2021, com a retomada de relativa normalidade e a volta das gravações, dos eventos presenciais e o reaquecimento do mercado anunciante, a Globo seguiu avançando algumas “casas” no tabuleiro de seu projeto, mesmo que isso tenha custado a perda de Faustão, Tiago Leifert, Tino Marcos, Marcos Uchôa, Grazi, Cissa (e a lista continua…).

O resultado do terceiro trimestre não é um fim em si. O Globoplay, a maior e mais ousada aposta da Globo, cresceu 27% de assinantes e 70% de receita, durante o período, no vácuo da perda de tração da Netflix e dos canais a cabo. Mas a disputa é de longo prazo e com concorrentes fortíssimos em escala planetária. Estamos falando das “dores da mudança”: a opção por se tornar uma tech digital, e não apenas produzir conteúdo para “as Netflix” do streaming, ainda vai fazer rolar muito suor e lágrimas pelos corredores e estúdios dos Marinho. No futuro, a Globo espera ter receitas advindas da publicidade da TV aberta e das plataformas digitais, das assinaturas dos produtos digitais e de percentuais bilionários através de parcerias com outras mega-empresas de entretenimento digital. A Globo não é boba. Independentemente da simpatia de governos, ela também precisa que o país dê certo.