Caetano no STF: intolerância de hoje lembra patrulhas ideológicas de ontem

Caetano Veloso cantou o Hino Nacional na posse da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia.

Li um monte de comentários contra o artista.

Lembrei de uma história do passado.

Na campanha pela anistia, segunda metade dos anos 1970, o mesmo Caetano Veloso participou de um show coletivo em defesa da volta dos exilados.

Lá estava ele no palco, com seu violão, quando alguém mandou um recado escrito num pedaço de papel: “Não cante O Leãozinho!”. Ou foi pior?: “Se cantar O Leãozinho, apanha!”.

Verdade? Lenda? Não sei, mas é uma história que arquivei na minha memória.

O resumo é o seguinte: não basta você estar aqui apoiando a anistia. Não. Você tem que fazer do jeito que eu quero!

Era o tempo das patrulhas ideológicas. Terríveis patrulhas ideológicas. Os mais jovens talvez nem saibam.

Voltemos ao presente.

Caetano Veloso ficou do lado da presidente Dilma Rousseff. Cantou na ocupação do Ministério da Cultura, no Rio. Assinou manifesto. Apareceu nas redes sociais segurando cartaz com o fora Temer na noite da abertura dos jogos olímpicos. Falou fora Temer no palco em Paris.

Veja também  Araruna reúne atrações de turismo de aventura e de contemplação; visitantes vão em busca de ecoturismo

Mas não basta. Estar com a esquerda não é suficiente. É preciso ser de esquerda exatamente do jeito que a esquerda quer!

Sobre a ida de Caetano ao STF, li comentários dos dois lados. Gente de direita que criticou o fato de ele estar ali junto de Lula. Gente de esquerda que o chamou de conivente com a direita.

Gente intolerante. Dos dois lados. Nos dois extremos.

Caetano no Supremo (ou no Planalto, ano passado com Dilma na homenagem a Augusto de Campos) confirma as nossas instituições democráticas. A força e o significado delas.

Um grande artista do Brasil cantando o Hino Nacional na suprema corte! Que beleza! Que Maravilha!

Fala de avanços que os americanos parecem ter resolvido há muito tempo. Duke Ellington na Casa Branca, vi quando era menino. Faz uns 50 anos.

Como é triste e (por vezes) pouco inteligente a nossa intolerância!