Grupo usa salão para romper com machismo e quebrar padrões de beleza

Sócios vêem o cabelo como ato político e rompem com machismo de barbearias convencionais.

Tzora Gang: um salão que rompe com o machismo de barbearias convencionais e investe na quebra do padrão de beleza. (Foto: Tzora Gang/Divulgação)
Tzôra Gang: um salão que rompe com o machismo de barbearias convencionais e investe na quebra do padrão de beleza. (Foto: Tzora Gang/Divulgação)

Quando Camila Rocha, Preta Langy e Matheus Arruda decidiram abrir uma barbearia juntos, era mais pela necessidade. O casal Camila e Matheus tinham sido demitidos dos salões que trabalhavam e Preta Langy estava insatisfeita com o estilo convencional de cabelo que fazia em suas clientes. 

Com esses dilemas, uma “BARBIEaria” nasceu e em 2020 eles explodiram em João Pessoa com o novo empreendimento: um lugar experimental para todos, que vê o cabelo como um ato político e representa um rompimento com o machismo e preconceito de barbearias convencionais. 

Em janeiro de 2020, os trio conseguiu alugar uma sala no Bessa. Trouxeram tudo que tinha, que não era muita coisa, e assim formaram o Tzôra Gang que é hoje. “Em fevereiro de 2020 isso aqui bombou, a gente pensou que ia ficar rica”, relembra Camila. Por conta da pandemia de Covid-19, fecharam as portas em março e reabriram com protocolos de segurança em agosto de 2020.

“E aí a coisa cresceu mesmo. De verdade. Não foi atoa, não é simplesmente porque trabalhamos bem, porque trabalhamos. Mas principalmente porque somos uma cabelaria afetiva e experimental.”

O salão também trabalha com cortes convencionais, coloração tradicional, tudo conforme os padrões. Mas também faz cabelos artísticos, de forma inclusiva para todos, voltado para um público alternativo, que gosta de arte e de cultura. 

Preta Langy é mais antiga na profissão. Cabeleireira há quase 15 anos, ela tinha um salão no Valentina: de bairro, com clientela fixa e cabelos convencionais, corte normal, selagem e escova. Ela, que sempre foi artista, tinha um estilo diferente e quando ia para o salão se arrumava conforme os padrões para atender a suas clientes. Com isso, começou a sentir falta de alguma coisa a mais em seu trabalho.

Nessa mesma época, o casal de artistas Camila e Matheus terminava o curso de barbearia juntos. Um sonho de anos que juntava a necessidade de expressão criativa dos dois, com a vontade de ter uma renda fixa. Assim, começaram a trabalhar em barbearias convencionais – um lugar que Camila percebeu que  mulheres não eram bem-vindas.

“Não me adaptei ao padrão da barbearia tradicional. Não me adaptei ao discurso da barbearia tradicional e percebia também muito preconceito. Um ambiente extremamente machista porque é voltado para o público masculino e geralmente público masculino hétero e branco”, relatou a artista.

 

(Foto: Tzora Gang/Divulgação)
(Foto: Tzôra Gang/Divulgação)

Mas foi nesses locais que ela foi construindo uma pequena clientela e seus clientes começaram a pedir cabelos mais artísticos. “Tive muitos problemas sabe, com os donos das barbearias, que não entendiam o tipo de serviço”, explica. Com esses experimentos, foi demitida e logo depois, veio a demissão de Matheus, seu parceiro.

Atendendo seus clientes de porta em porta, Camila passou a ser acolhida para alguns serviços na casa de sua parceira Preta Langy, que decidiu recomeçar do zero. No final de 2019, ela tinha desistido dos serviços convencionais que fazia no Valentina e se mudou para o Bessa, onde atendia em uma pequena sala de seu apartamento.

O público LGBTQIA+ da Sinta a Liga Crew, formada por Camila e Preta Langy, também se atraiu para o empreendimento. “Inclusive foi esse público que firmou o Sinta A Liga. Foi o público que disse que a gente ia ficar; que a gente veio para ficar. Foi um processo natural esse público vir fazer cabelo com a gente”, explica Camila.

O salão é chamado de BARBIEaria justamente por isso: por atender pessoas LGBTQIA+, pessoas alternativas, mulheres em transição capilar e qualquer um que não se conforma dentro dos padrões impostos.

“De repente quando a gente percebeu, a sala da Preta Langy não cabia mais gente, estava lotada”.

Rompimento com o padrão de beleza

A professora do Instituto federal da Paraíba (IFPB) Ana Luiza Félix Severo, que tem pós-graduação em gênero e diversidade, explica que historicamente, a padronização vem para facilitar a escolha, possibilitando a produção da indústria de forma mais rápida. O problema da padronização começa quando ela passa a transformar seres humanos em objeto para consumo e assim objetificar também suas partes: nariz, boca, corpo e cabelo. 

O sujeito passa a então deixar de lado a sua individualidade, para se encaixar dentro daquele padrão, ter aquele objeto de consumo: o nariz afilado ou o corpo magro, por exemplo. 

A falta padronização pode causar o isolamento, exclusão social e até doenças psicológicas, como depressão e ansiedade, causada pela frustração de não conseguir atingir o padrão imposto pelo mercado da moda, da beleza, pela família, amigos, parceiro ou parceira.

“Como por exemplo, um pai ou uma mãe começa a falar do cabelo crespo ou do cabelo cacheado da filha ou do filho. Do filho, começa a raspar o cabelo desde cedo, considera feio aquele cabelo crespo. O da menina só vive amarrado ou quando já tem idade, começa a fazer prancha, escova. Essa é uma pressão social, familiar que vai interferir diretamente naquela pessoa que não teve ainda oportunidade de escolha”, explica a professora.

Hoje, Ana explica que houve uma mudança. O mercado começou a perceber que não dava para padronizar tanto assim e seria mais lucrativo investir em outras linhas para ampliar seus consumidores. A sociedade também rompeu, passando a cada vez mais buscar sua individualidade.

Dessa forma, surgiram espaços para salões como o Tzôra Gang, que viram justamente na diferença uma forma de se expressar, acolher, ser acolhido e também empreender.

O grande trunfo do grupo é também por seus membros vivenciarem suas pautas, seus cabelos e entenderem que são os mesmos que os clientes ali. Antes do curso de barbeira, Camila Rocha já experimentava com seu cabelo, fazia um animal print na cabeça raspada, interessava por cabelos artísticos e com a hair tattoo. “Antes muito mesmo da gente de fazer esse tipo de trabalho, nós somos esse tipo de pessoa”.

Camila relata que há dias que o salão parece terapia em grupo e o principal papo é sobre se aceitar; ser quem você é; aceitar seu cabelo, seu estilo, se expressar livremente e romper com o padrão de beleza.

Não é fácil, mas é mais libertador ser seu dono, ter liberdade e viver sua subjetividade. Com muito trabalho, é possível ser protagonista de suas próprias escolhas. A professora afirma que assim, a satisfação com si mesmo é mais simples de ser alcançada.

“É dizer que ‘eu tenho cabelo crespo, eu tenho cabelo cacheado, eu sou gorda, eu sou magra, vou usar a roupa que eu quiser, sair se eu quiser, ter ou não filhos’. Ao fugir desse padrão, logicamente vai ser considerada a ovelha negra, mas passa a ser respeitada muito mais que uma pessoa que é submissa, subjugada”.

Uma BARBIEaria afetiva

Camila Rocha se diz anti-visagismo, que é um conjunto de técnicas criadas para valorizar a beleza através da harmonização das características pessoais de alguém, como rosto e cabelo.

 “Eu não acredito que isso deva moldar a gente, muito pelo contrário. (…) Muitas vezes a gente escuta isso ‘poxa queria fazer esse tipo de corte, mas sempre me dizem que no meu cabelo não prestava, no meu formato de rosto não prestava”.

(Foto: Tzôra Gang/Divulgação)

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Sem fazer acepção de pessoas, a equipe do salão se guia pelo o que faz o cliente se sentir bem. A palavra chave é afetividade, algo que estava faltando na cidade. Segundo eles, João Pessoa não tinha um ambiente onde o público se sentia acolhido, um lugar que fale sobre autoestima para pessoas que já ouviram piadas sobre a aparência.

Hoje, a equipe é formada pelos três sócios, Matheus Arruda, Preta Langy e Camila Rocha, com Vitória Farias, uma maquiadora. Juntos, eles são uma nova referência na Paraíba de uma cabelaria experimental e também convencional, para todos.

“A gente quando assume uma personalidade dessa, um cabelo desse, a gente se torna uma intervenção artística ambulante. Por onde você passar, você vai abrir questionamentos sobre aquilo. Então cabelo é um ato político. O que a gente faz também é político. O que a gente faz também atinge diretamente a sociedade, a cultura da cidade”.

*Sob supervisão de Krys Carneiro