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25 de setembro de 2021
13:00

Saúde mental e estigma: usuários do Caps, em João Pessoa, relatam preconceitos que já enfrentaram e defendem a luta antimanicomial

Jota Júnior e Flávia Fadja fazem acompanhamento no Caps Gutemberg Botelho, em João Pessoa, e defendem a luta antimanicomial.

Matéria por Luana Silva

O Brasil é o país mais ansioso do mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 9,3% da população brasileira possui o transtorno de ansiedade. Em uma pesquisa do Instituto Ipsos, encomendada pelo Fórum Econômico Mundial, 53% dos brasileiros declararam que seu bem estar mental piorou após o começo da pandemia.

Apesar da saúde mental ser um desafio para muitos brasileiros, as pessoas que possuem algum transtorno psicológico enfrentam o estigma em diversas áreas da vida. O preconceito vem por meio de piadas, solidão e no tratamento sob o modelo manicomial.

Como resultado de anos de luta contra o estigma, a Lei Antimanicomial foi instituída em 6 de abril de 2001. A legislação estimula a permanência do usuário de saúde mental em casa, recebendo tratamento nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). O objetivo é tornar a pessoa com transtorno mental protagonista do próprio tratamento e oferecer assistência para além da medicação.

 Caps Gutemberg Botelho, em João Pessoa Foto: Luana Silva/Jornal da Paraíba 

No Caps Gutemberg Botelho, em João Pessoa, por exemplo, os usuários recebem assistência psicológica, psiquiátrica e participam de oficinas diversas. Jota Júnior e Flávia Fadja, que possuem transtorno afetivo bipolar, são atendidos pelo centro. Ambos relatam uma transformação significativa na forma de lidar com o transtorno, depois que conheceram o Caps Gutemberg.

Jota Júnior: “minha arte é conversar e fazer as pessoas rirem”

 Saúde mental e estigma: Jota Júnior faz acompanhamento no Caps Gutemberg Botelho há 12 anos . Foto: Luana Silva/Jornal da Paraíba 

José Gomes Pereira Júnior, mais conhecido como Jota, tem 56 anos, 12 deles fazendo acompanhamento no Caps Gutemberg. Natural de Juripiranga, mas morando em João Pessoa, antes de se aposentar já foi palhaço, ventríloquo, locutor de rodeios, locutor de rádios comunitárias e vereador.

Jota não concluiu os estudos, parou no segundo grau, mas diz que recebeu o dom da comunicação. Pensando em ajudar os mais vulneráveis, entrou na carreira política, como vereador de Juripiranga em 2009.

O primeiro desafio foi ao tentar conseguir moradia digna para famílias que estavam vivendo em um prédio abandonado. Quando não foi ouvido pela gestão municipal, acorrentou-se no prédio onde as famílias estavam até ser ouvido. Conseguiu, com o apoio do Ministério Público.

“Existia lá junto à Câmara um prédio público onde moravam 10 famílias, com várias crianças. Pedi ao prefeito que levasse famílias para uma área segura e logo após construíssem suas casinhas. Não tive êxito. Fui dormir atordoado com aquilo, passei a noite em claro, chovia forte. Foi um dos meus surtos. Arrumei a corrente do meu cachorro, levei para o prédio público e passei três dias acorrentado. Saí porque peguei infecção porque o local estava muito sujo, mas consegui êxito. O Ministério Público intercedeu”, relatou.

Algum tempo depois, Jota Júnior se acorrentou novamente, desta vez no Hospital São Vicente de Paula, em João Pessoa, para conseguir a cirurgia de uma senhora que precisava operar a perna. Após muitos desgastes e piora na saúde mental, ele se afastou da carreira política em 2012. Foi então que conheceu o Caps Gutemberg Botelho e se mudou para João Pessoa, para ficar mais próximo do local de acompanhamento.

“Quando cheguei aqui pensei que não poderia mais ser um político de partido, mas seria um político de classe. Hoje a classe que eu defendo são as pessoas com transtorno mental. Sou igual a todo mundo, me dou bem com todo mundo, eu me sinto tão bem aqui quanto na minha casa. Venho quase todos os dias”, afirmou o aposentado.

Jota encontrou no Caps uma rede de amigos e utiliza a sua capacidade de fazer as pessoas rirem para conversar com todos aqueles que chegam aflitos na unidade.

 

 

 Jota Júnior já foi voluntário e trabalhou como ventríloquo em hospitais Foto: Arquivo pessoal  

Já trabalhava como ventríloquo, com o boneco Chiquinho, em hospitais, orfanatos e abrigos. A minha arte é conversar e fazer as pessoas rirem. Pego meu cigarro, começo a conversar com quem está aflito e exercito minha habilidade de fazer a pessoa rir. Quando vejo três pessoas tristes e consigo fazer pelo menos uma rir, é como um calmante para mim.

Além da questão dos transtornos mentais, Jota, que relata ser impotente sexual há dez anos, deseja ajudar pessoas com problemas de libido baixa a lidarem com o tabu em torno do assunto. “Existem dois tipos de impotente sexual: o que diz e o que não diz. O segundo sofre calado”.

Para Jota Júnior, o principal desafio que o estigma traz é não ser ouvido ou não ser levado a sério.

As pessoas conversam com você, mas muitas vezes não levam a sério o que você fala. Aqui quando falo, as pessoas me ouvem, olham nos meus olhos. O amor é mútuo.

O aposentado afirma que os quatro filhos, que atualmente têm as idades de 28, 27, 20 e 10 anos, também sofreram bullying por causa do transtorno psicológico do pai. Felizmente, a família de Jota conseguiu manter uma rede de apoio forte. A esposa dele, Leda Gomes, resolveu estudar enfermagem psiquiátrica e hoje coordena com o marido um canal voltado para a saúde mental, o “Juro que Posso”.

 

 

O suporte da família e o acompanhamento no Caps Gutemberg Botelho foram fundamentais para que ele superasse desafios. 

 

“Ser protagonista do tratamento é crucial. Quando descobri que aqui eu também posso ajudar, percebi que meus sonhos não haviam terminado. Quero deixar um legado de um homem que passou por muitas dificuldades, mas que conseguiu vencer” afirmou emocionado. 

 

 

Flávia Fadja: “Queria transformar o Juliano Moreira em um Caps”

 A professora de artes Flávia Fadja é usuária do Caps Gutemberg Foto: Luana Silva/Jornal da Paraíba 

Flávia Fadja tem 36 anos, é formada em artes cênicas e atua na rede pública de educação em João Pessoa. Ela foi diagnosticada com transtorno afetivo bipolar no Caps Gutemberg Botelho, em 2017, mais de dez anos depois do seu primeiro surto. 

 

“Meu primeiro surto foi em 2006, na época da faculdade. Cheguei a ser internada por 41 dias no Juliano Moreira. Tive que trancar o curso, estava concluindo. Retomei depois de um semestre. Saí com todo o estigma, todo mundo sabia. Houve um afastamento dos colegas e só duas amigas ficaram próximas”, relatou ela.

 

A educadora passou mais de 10 anos sem apresentar nenhuma crise, até que em 2017, durante um desmame de medicação, passou pelo segundo surto e foi encaminhada para o Pronto Atendimento em Saúde Mental (Pasm). Lá, após os procedimentos necessários, Flávia foi encaminhada para o Caps Gutemberg Botelho, onde começou a avançar no tratamento e entender sobre as próprias particularidades. 

 

Para Flávia, o principal desafio foi a solidão que o estigma relacionado à saúde mental gera.

“Amizades que se distanciaram, problemas no trabalho porque me ausentei e muitas pessoas que não sabiam que eu tinha transtorno faziam fofocas. E as críticas, né? ser chamada de louca, ser desrespeitada”, desabafou. 

 

A rede de apoio que precisava veio da família, especialmente dos pais e da irmã. Flávia conta que, antes da pandemia, a família chegou a participar de reuniões no Caps Gutemberg, com assistentes sociais e psicólogos, com o objetivo de ampliar a compreensão sobre transtornos mentais. Além disso, nas oficinas e confraternizações, a professora de artes encontrou compreensão e um impulso para voltar a sonhar. Bem diferente dos 41 dias em que passou internada.  

 

“Fiquei 41 dias me sentindo uma espécie de cobaia porque o tanto de medicação você fica dopada, eu era um robô. Na época cheguei a pesar 120 kg. Tive rebordosa por conta disso”. 

 

 

 Flávia Fadja é formada em artes cênicas e atua na rede municipal de ensino. Foto: Arquivo pessoal  

 

Flávia Fadja atualmente trabalha com um projeto de leitura encenada para alunos da rede pública de ensino. Fora do trabalho, a professora de artes gosta de escrever poesia e pretende voltar a estudar violão e sonha em continuar a formação acadêmica. 

 

“Eu escrevo poesia, toco um pouco de violão, mas vou organizar meu tempo para voltar a treinar. Nas minhas redes sociais, sempre to postando algo por escrito. Minha meta principal agora é dar continuidade à minha formação e fazer um mestrado”. 

 

Além dos sonhos para a vida pessoal, ela gostaria que hospitais psiquiátricos fossem transformados em Caps. Onde, além do atendimento humanizado, houvesse espaço para a arte. 

 

Queria transformar o Juliano Moreira em um Caps, com um centro de artes, trabalho artístico e tratamento humanizado.

 

 

Daniele Alves, psicóloga no Caps Gutemberg, explica que o estigma muitas vezes vem do medo que as pessoas costumam ter do que é desconhecido. Reforça a importância do acolhimento da pessoa com transtorno psicológico e que esse adoecimento mental é como qualquer outra doença que possa vir a acometer o ser humano no decorrer da vida.

Quando a gente não conhece o que é o transtorno mental, tem esse imaginário do que é uma pessoa ”louca”, ou “doida”. Mas são pessoas como qualquer outra que, por alguma intercorrência no meio da vida, acabam adoecendo, mas que não precisam ser excluídas e sim acolhidas.