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15 de outubro de 2021
10:48

Dia dos Professores: projeto leva educação antirracista e identidade afro-brasileira à comunidade de João Pessoa

Iniciativa também oferece aulas de música, ciclo de estudos, acesso à internet. Projeto pretende se expandir e levar ações à cidade de Pedras de Fogo.

Matéria por Ana Beatriz Rocha

Celebrado em 15 de outubro, o Dia do Professor foi mencionado, primeiramente, em 1947, por Antonieta de Barros, a primeira deputada negra do Brasil. Apesar do projeto de lei ter sido apresentado à Assembleia Legislativa de Santa Catarina por ela, apenas em 1963 a data foi oficializada, a partir de um decreto do presidente João Goulart. Essa origem da data não costuma ser contada, está inserida num apagamento histórico dos feitos das mulheres e homens que fazem parte da comunidade negra do país.

E foi com a intenção de apresentar essas e outras histórias que há pouco mais de 14 anos surgia um sonho: difundir a cultura afro-brasileira a partir de uma visão dos povos de terreiro e repassar valores antirracistas para os jovens da região. Foi na comunidade do Planalto da Boa Esperança, na Zona Sul de João Pessoa, que tudo começou. 

Sem fins lucrativos, sempre construídos através do voluntariado, os projetos realizados pela Casa de Cultura Ilê Asé D’Osoguiã ao longo dos anos destacam a formação identitária das comunidades negras, remetendo à importância de combater os preconceitos e valorizar as tradições. 

Antes da pandemia todas ações eram realizadas de forma presencial. Com espaço físico, a Casa oferece desde palestras para trabalhar a formação educativa do público-alvo, até a criação de um grupo cultural formado por crianças e adolescentes. Nessa área, o ensino de dança e percussão é o grande centro do trabalho exercido, com o intuito de incentivar o contato com as heranças africanas através de uma das suas principais raízes, a arte. 

A instituição ainda conta com uma “Estação Digital”, espaço reservado às aulas de informática que capacitam os jovens da comunidade e permite acesso gratuito para fins de pesquisa. De acordo com o fundador e um dos diretores, Renato Bomfim, a iniciativa é uma forma de garantir que a periferia seja incluída no processo de digitalização que o mundo vive hoje, e acredita que esse acesso amplia as possibilidades de emprego. 

Conforme os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD C), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Paraíba cerca de 23,3% da população ainda não possui acesso à internet. A “Estação Digital” da Casa de Cultura ainda conta com salas de leitura. 

 Na Casa de Cultura Ilê Asé D’Osoguiã, crianças e adolescentes têm aulas sobre cultura afro brasileira. Foto: Arquivo Pessoal  

Não existe projeto que se sustente por mais de uma década sem propósito. Quando questionado sobre o que consideram central na ideia da Ilê Asé D’Osoguiã, Renato não exita.“Há um diálogo com as famílias para fortalecimento de vínculos, a gente acredita que o principal articulador da educação é a família, então buscamos integrar todo mundo nas ações da Casa de Cultura”, relata o coordenador. 

O salário dos educadores é a esperança de um mundo melhor

O sonho foi projetado por poucas mentes, e segue sendo mantido por poucas mãos. Atualmente, 8 a 10 pessoas estão, diretamente, envolvidas nas atividades cotidianas da Casa e fazem tudo voluntariamente, por empenho e interesse de causa. 

Causa essa que vem de longe. Propostas antirracistas como as da Casa só são necessárias pelo racismo estrutural e institucional em curso no Brasil. Apesar da educação ser um direito constitucional no país, garantido a todos, crianças negras encontram desafios quando se trata de acessos. A presença de negros nas escolas cresceu nos últimos anos, mas as diferenças ainda são alarmantes. 

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de jovens de 15 a 29 anos que não concluíram o ensino médio e não estudavam em 2019 era maior entre pretos e pardos (55,4%) do que entre brancos (43,4%). Além disso, o índice daqueles que não sabem ler e escrever é maior na população negra (8,9%), do que na branca (3,6%).

Para lidar com problemas na estrutura, os diálogos sobre a importância da valorização das heranças afro-brasileiras, bem como o combate ao racismo tem sido uma estratégia em busca do respeito à diversidade. É nisso que acredita Amanda Gomes, a educadora popular é uma mulher negra de terreiro, percussionista, cantora e psicóloga. Na Casa de Cultura, atua há dois anos como facilitadora das oficinas pedagógicas. 

Para Amanda, o trabalho que realiza é sobre resgate. “É a retomada da nossa ancestralidade. Nós abrimos um leque na educação com as múltiplas visões culturais do nosso país, e mostramos que a história não é somente uma história, ela é cheia de significados e influências”, explica. 

Segundo a educadora, durante as oficinas as crianças partilham experiências do cotidiano que, muitas vezes, retratam o racismo e outros tipos de preconceitos sofridos. Essas dores são acolhidas e eles entendem que apesar de haver um problema estrutural e real, existe uma vida inteira que eles têm direito de desfrutar, para além desses sofrimentos. 

A gente consegue perceber, a partir da educação, a mudança nessas crianças negras. Elas passam a se entender enquanto negras, passam a valorizar seus traços e sua cultura. Crianças que assumiram os cabelos, não praticam mais bullying. É um aprendizado construído todos os dias, e eles são agentes multiplicadores na comunidade.”
Amanda Gomes
 As dores são acolhidas e as crianças entendem que, apesar de haver um problema estrutural e real, existe uma vida inteira que eles têm direito de desfrutar, para além desses sofrimentos. Foto: Arquivo pessoal  

A pandemia migrou o propósito para o mundo online. As formações passaram a ser oferecidas através da internet. E se a construção de uma sociedade mais justa já era urgente no campo das ideias, o vírus escancarou desigualdades antigas. O Brasil não deixa dúvidas, e João Pessoa apresentou dados preocupantes. 

Em julho, em boletim elaborado pelo Observatório das Metrópoles, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a Região Metropolitana de João Pessoa tem o maior índice de desigualdade social do país.Além de corpos empilhados de forma literal pela covid-19, as comunidades se agitaram em desespero pela falta de recursos e acesso ao básico. Em pesquisa do projeto “Direito à cidade e as lutas pelo espaço urbano: necessidades radicais e utopia”, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a pandemia de Covid-19 evidenciou uma vertiginosa piora da vida dos mais pobres. 

Um dos pontos de destaque da análise foi a educação de crianças e adolescentes. As aulas foram interrompidas durante a pandemia e agravaram problemas quanto à falta de escolas nos bairros, assim como a dificuldade de fornecimento da alimentação que os alunos tinham nas escolas.

Com o cenário instalado, para a Casa de Cultura o caminho era um só, concentrar as energias na continuidade de um braço que já existia entre as ações, a doação de alimentos aos moradores da comunidade. Além dos trajetos de formação cultural, a Casa é mediadora, há 10 anos, do Programa de Aquisição de Alimentos da Prefeitura de João Pessoa. A equipe de voluntários recebe e repassa artigos que são fruto da agricultura familiar. 

 

  Famílias da comunidade Planalto da Boa Esperança recebem doações Foto: Arquivo Pessoal  

Do branco da macaxeira ao verde das folhas, o colorido faz parte do prato de 120 famílias, através de um trabalho incansável de poucas pessoas. Mas o suporte municipal não tem sido suficiente, na dependência de recursos federais, o diretor Renato Bomfim afirma que tem sido necessário, por vezes, reunir recursos próprios para garantir que a comunidade não passe muito tempo sem ser assistida.

Apoio do programa Criança Esperança 

Em 2021 o trabalho cultural na promoção dos direitos humanos, antirracismo, respeito à diversidade sociocultural e religiosa foi selecionado pelo programa Criança Esperança, idealizado pela TV Globo em parceria com a Unesco.

Não é a primeira vez, 2012 e 2014 já tinham sido anos frutíferos em relação ao suporte do Criança Esperança. Mas este ano a ideia é inovadora. Com o foco em ações que façam a diferença na educação do país, o programa televisivo selecionou o projeto “Sankofa”, uma aposta dos educadores da Casa de Cultura para o interior paraibano.

O conceito de Sankofa tem origem de um provérbio tradicional entre os povos de língua Akan, da África Ocidental, em Gana, Togo e Costa do Marfim. O termo pode ser lido como “não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu”. Sankofa é, então, sobre a retomada identitária e a reconstrução do futuro. A Casa de Cultura, nascida em João Pessoa, pretende ir à cidade de Pedras de Fogo para seguir os trabalhos. 

A proposta pedagógica educacional visa atender os indivíduos em vulnerabilidade, através de uma educação antirracista, ancorada na diversidade cultural e religiosa. O objetivo é formar cidadãos comprometidos com uma sociedade mais justa, além de auxiliar na formação de áreas que ajudem na capacitação para o mercado de trabalho. Autonomia e ascensão econômica também é um foco. 

 

 O projeto Sankofa pretende levar educação popular à Pedras de Fogo Foto: Arquivo Pessoal  

De acordo com os idealizadores do Sankofa, a metodologia visa impulsionar as capacidades cognitivas e afetivas das crianças e adolescentes, aspectos que podem ajudar na lida com os impactos do retorno às aulas e do pós-pandemia. 

Como educador popular, Renato Bomfim acredita que a sociedade precisará de estímulos como esse para viver com os danos do período pandêmico, como o caso da evasão escolar, “acreditamos que só podemos avançar nas políticas públicas através da educação e cultura, e é o que fazemos aqui”, afirma. 

As atividades do Sankofa estão previstas para 2022, o incentivo do Criança Esperança sempre é disponibilizado no ano seguinte à aprovação dos projetos. Por parte dos integrantes da Casa de Cultura Ilê Asé D’Osoguiã, há pressa. A juventude anseia por esperança, por dias focados nos sonhos, por retomadas capazes de apontar novos rumos para quem tem vivido tempos de angústia, e é a educação que tem reunido tudo isso no horizonte. No aguardo de novas realizações, a equipe se ancora na força do bem que fazem hoje, algo que só é possível graças a voluntários unidos por um mundo melhor.