Diagnóstico de depressão leva em conta as queixas apresentadas pelos pacientes

Projeções apontam que depressão vai ser doença mais incapacitante do mundo.

João recebeu o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar há 15 anos. (Foto: Douglas de Oliveira)

Na medicina, dizer que um paciente sofre de uma doença psiquiátrica significa declarar que não há causas físicas exatas para justificar aquilo que ele está sentindo, embora as ondas da mente atinjam algumas propriedades do resto do corpo. A depressão se encaixa nesse quadro. Tratada por especialistas como um transtorno, ela tem o diagnóstico definido muito por base nos relatos dos pacientes. A depressão é o foco da série ‘As Faces do Vazio’, dividida em cinco reportagens que o JORNAL DA  PARAÍBA publica a partir desta segunda-feira (23).

(Esse texto faz parte da série ‘As Faces do Vazio’, produzida por Douglas de Oliveira originalmente como trabalho de conclusão no curso de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba.)

Ainda que haja evidências da influência genética ou hormonal no desencadeamento da depressão, não existem exames que indiquem exatamente a presença do transtorno mental. Por isso, antes de fechar o diagnóstico com base em critérios de observação clínica, o psiquiatra solicita alguns exames para descartar outras hipóteses de doenças, a exemplo de alterações no funcionamento da tireoide, uma das glândulas que mais produzem hormônios.

O descontrole nessa produção pode acarretar sintomas parecidos com o da depressão e o exame bioquímico descarta ou não essa possibilidade, para que o tratamento adequado seja aplicado.

Sinais para diagnosticar

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais V (DSM-V), a depressão se divide em vários tipos e níveis, de acordo com os sintomas e a gravidade. No caso da depressão clássica ou depressão unipolar, a identificação se embasa primeiramente na confirmação da persistência de uma ou duas destas queixas durante, no mínimo, duas semanas: sentimento de tristeza constante e/ou anedonia, a perda do ânimo e do interesse em desempenhar atividades que antes davam prazer.

Foi justamente refletindo sobre as causas que levam pessoas a terem problemas psiquiátricos que Diana Martins optou por enveredar na Psiquiatria quando estava cursando Medicina.

“A depressão é um transtorno bastante incapacitante. Eu costumo dizer aos meus pacientes que a depressão é como se fosse uma âncora bem pesada, presa no pé dele, que puxa a pessoa pra baixo e impede, ou incapacita, ou dificulta muito de ela viver uma vida normal, fazer as atividades do dia a dia, conquistar os objetivos dela e visualizar planos pro futuro. É como se fosse uma doença, mas na Psiquiatria a gente chama de transtorno por não saber exatamente o que a causa”, afirma Diana Martins.

Diana Martins atua em um CAPS de João Pessoa (Foto: Douglas de Oliveira)

Outros sintomas

De acordo com a psiquiatra, que atua no Centro de Atenção Psicossocial Gutemberg Botelho (CAPS II), em João Pessoa, após a identificação dos primeiros sinais de depressão, o DSM-V recomenda a observação de outros sintomas:

  • insônia ou excesso de sono;
  • perda ou aumento extremos de apetite;
  • humor deprimido durante a maior parte do dia;
  • sensações de desesperança e impotência;
  • facilidade incomum para chorar;
  • atividade motora mais lenta ou mais agitada;
  • perda de energia e muito cansaço;
  • apatia ou intensa irritabilidade;
  • dificuldade de atenção, concentração e memorização;
  • perda da autoestima e sentimentos de culpa sem motivos aparentes;
  • redução ou perda do desejo sexual;
  • pensamentos constantes de morte ou suicídio.

Transtorno afetivo bipolar

Além disso, a depressão pode se apresentar de maneira bipolar e se chamar também transtorno afetivo bipolar. Nesses casos, além dos sintomas da depressão unipolar, a pessoa desenvolve comportamentos eufóricos, associados à mania, polo emocional em que ela desconhece os limites e pode pôr a si ou aos outros em perigo.

Alegria desproporcional, energia exacerbada, insônia, pensamento acelerado, sensação extrema de autocapacidade, desejo sexual exagerado, compulsão são alguns dos sintomas. Se a pessoa desenvolver ao menos um desses sinais em algum momento da vida, há possibilidade de diagnóstico de depressão bipolar.

Tachados de ‘preguiçosos’

João, de 36 anos, é um especialista em depressão unipolar e bipolar. Com que formação? A experiência de conviver consigo mesmo lhe dá essa autoridade. Há 15 anos, ele recebeu o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar. E pesquisou bastante sobre o assunto. Ele dá uma aula. Lições da própria vida. E de como foi aposentado por invalidez devido ao transtorno.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que até 2020 a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. Resta menos de um ano para isso. Por aqui, a situação já se encaminha para tal estimativa. Segundo o extinto Ministério do Trabalho, entre 2009 e 2015, 97 mil brasileiros foram aposentados por invalidez em decorrência de algum transtorno mental, principalmente a depressão e os distúrbios de ansiedade. Ao ver esses dados, alguns pensam que depressão é pretexto para não trabalhar, ou que basta ter força de vontade para se levantar da cama e lutar pelo pão de cada dia.

João enfatiza a ignorância desses preconceitos: “O depressivo não faz as coisas porque tem má vontade não. O estigma de preguiçoso, de ‘João sem braço’, de louco, não é porque ele quer não. Quem quer ser chamado dessas coisas? Ninguém quer! A gente não consegue, simplesmente não consegue. Aí você me pergunta: poxa, você não tem dois braços, você não tem duas pernas? Sim, mas eu tenho um cérebro que comanda esses dois braços e essas duas pernas. E esse cérebro não manda o comando”, explica.

Habilidades acima da média

Na infância, João era o que popularmente se chama de “criança superdotada” ou precoce. Aos 6 anos, já dominava as habilidades de escrita e leitura de maneira impressionante para a idade. Tanto que avançou uma série a mais que os coleguinhas de turma.

Concluiu o ensino fundamental aos 12 anos, dois a menos do que o comum, e ingressou no outrora Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba (CEFET-PB), hoje Instituto Federal da Paraíba (IFPB). Mas não estudou até o fim do ensino médio por lá. Mudou-se para o Lyceu Paraibano e, aos 16 anos, estava devidamente certificado de que concluíra o ensino médio.

Nos anos seguintes, vizinhos e parentes diriam que ele era uma pessoa meio “estranha”, não acreditavam que chegaria longe. Já apresentava alguns traços depressivos, principalmente relacionados à irritabilidade.

Aos 19 anos, casou pela primeira vez e logo foi pai. Dois anos depois, as habilidades intelectuais incomuns que o acompanharam durante sua vida escolar reapareceram nitidamente: João passou em primeiro lugar no concurso dos Correios Paraíba e conquistou uma vaga no curso de Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Estudante federal e servidor federal. Comprou apartamento e se estruturou aos poucos. As coisas ganharam novos rumos. “Passei a ser mais respeitado pela família”, relembra.

Primeiro surto

Até que veio o primeiro surto de mania, ainda aos 21 anos, em 2003. João precisou ser levado até a Clínica do Stress, em Cabedelo, única instituição particular da Paraíba que realiza internação em casos de transtornos mentais. Seu diagnóstico? Transtorno afetivo de bipolaridade ou depressão bipolar.

“Eu só sabia o que era depressão porque ouvia falar. E, como eu vivi uma adolescência muito feliz, eu dizia: ‘não, depressivo não, nunca que eu seria depressivo’. Então… primeiro você leva um choque quando descobre que é doente mental. Aí o médico dá um diagnóstico com base num negócio chamado CID, que é o Código Internacional de Doenças. E quando você descobre um negócio desses, o médico não fala tudo. Aí lá vou eu pesquisar o meu CID, F-31. Transtorno bipolar…”

Embora seja um “bipolar predominantemente depressivo”, as crises de euforia se manifestavam no cotidiano de João com certa frequência. Ele explica tais crises através do pensamento do filósofo Jean-Jacques Rousseau. Segundo as ideias do francês, o funcionamento pacífico da sociedade depende de convenções, acordos, regras, de um contrato social que marque o limiar entre o permitido e o proibido.

João diz que o bipolar absorve diferentemente esse contrato e perde a noção dos limites. Cita como exemplo o livro ‘Uma mente inquieta’, de Kay Jamison, um testemunho da própria escritora, e também psicóloga, desde que fora diagnosticada com depressão bipolar. João conta que, durante algumas crises de euforia, Kay corria nua pelo campus da universidade. “É uma viagem a história dessa mulher”, fala, empolgado.

“João é um cara legal, animado, pra cima, ativo, ligado, uma pessoa do bem. Essas são as percepções dos meus amigos, é o que eles dizem pra mim. Pra o João, quem é o João? É um cara solitário, que, apesar de ter tanta convivência social, se sente só, se refugia atrás de um cigarro, de uma moto. Eu gosto muito de andar de moto, é o momento em que eu sinto liberdade. É conflitante, sabe? É uma espécie de paradoxo. O depressivo é um cara meio incompreendido ainda, né? Porque o pessoal não entende: pô, o cara tem saúde, tem família, tem emprego… Como é que o cara é depressivo? Tem um estigma aí. Um forte estigma, ouso acrescentar”, reconhece.

* Com edição de Jhonathan Oliveira

* A série ‘As faces do vazio’ é originária da grande reportagem ‘Entre semblantes, sentimentos e sentidos: a (des)construção discursiva da depressão sob a ótica do jornalismo’ apresentada como Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo do acadêmico Douglas Oliveira, sob orientação de Carlos Azevedo.