Bolsonaro mente com método, mas ele é um homem que diz a verdade. Se você se engana, o problema é seu

Vou republicar, sem qualquer alteração, o texto que postei nessa coluna no domingo 28 de outubro de 2018, o dia em que Jair Bolsonaro foi eleito presidente. Depois, farei algum comentário.

Aí está:

Em 1964, quando Jango foi deposto pelos militares, eu tinha cinco anos.

Em 1985, quando os civis voltaram ao poder, eu tinha 26.

Tinha 30 em 1989, quando votei para presidente pela primeira vez.

Agora em 2018, quando Jair Bolsonaro muito provavelmente vencerá a eleição, estou com 59.

De 1994 a 2014, tivemos seis disputas entre o PT e o PSDB.

O PSDB venceu somente as duas primeiras.

O PT, as demais.

Um sociólogo de esquerda, um herói da classe operária e uma mulher que atuou na guerrilha urbana chegaram ao poder.

Com seus erros e acertos, os dois partidos desempenharam papel importante na construção da democracia brasileira.

Com seus erros e acertos, o PT e o PSDB disputaram jogando o jogo democrático.

Em 2018, erram os que veem Bolsonaro e Haddad como lados opostos da mesma moeda.

Não são.

Eles são muito diferentes, disse Miriam Leitão num telejornal da Globo, logo depois do primeiro turno.

Suas fotografias são muito diferentes, vimos nitidamente no Jornal Nacional deste sábado (27).

Haddad representa um partido que atua no campo democrático, a despeito de todas as críticas (e são muitas) que possam ser feitas ao PT e aos seus dirigentes.

Bolsonaro se fez candidato defendendo ideias que apontam para rupturas da democracia.

Seu discurso de 11 minutos, numa live dirigida à multidão reunida domingo passado na Avenida Paulista, foi, ao longo dessa campanha, o mais fiel e assustador retrato do candidato.

Sua muito provável eleição, neste domingo (28), parece por em risco muitas conquistas da frágil democracia brasileira. Conquistas sociais, também notáveis avanços no campo do comportamento, da convivência com as diferenças.

Que Brasil sairá das urnas neste domingo?

Em que medida eleitores de Bolsonaro se sentirão chancelados a praticar as ideias que aquele a quem chamam de “mito” defende desde que se tornou homem público?

Comecei esse texto mencionando datas, falando sobre a passagem do tempo em nossas vidas.

Termino retornando ao início.

Em 1964, quando os militares depuseram Jango e jogaram o Brasil numa noite que durou 21 anos, eu tinha apenas cinco anos.

Cresci numa ditadura e sei como é uma ditadura.

Não quero morrer em outra.

O presidente Jair Bolsonaro é chamado de mentiroso por articulistas dos grandes jornais, mas há método nas suas mentiras.

Na verdade, ele é, provavelmente, o político mais verdadeiro que nós temos.

Ele nunca enganou ninguém sobre as piores ideias que defende.

Ele, agora, sonha em se perpetuar no poder através de um golpe.

Um dia desses, andei pensando: a qualquer momento, amanheceremos com tanques nas ruas de Brasília.

Vai acontecer nesta terça-feira (10).

Mas (ainda) não é valendo, não.

É só um desfile.

É só uma provocação ao parlamento, que decide sobre a volta do voto impresso.

Continuo acreditando que não vai haver golpe.

Continuo acreditando que a democracia vai vencer.

Mas estão brincando com fogo.

E, de repente, pode ser tarde.