Saúde
26 de setembro de 2021
08:37

Pandemia da Covid-19 aumenta os casos de suicídio; acolhimento e ajuda profissional são determinantes para prevenção

Especialistas falam sobre a melhor forma de lidar com as pessoas que estão com problemas de saúde mental.

Matéria por João Alfredo

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), no período de pandemia da Covid-19, houve um aumento de 30% em casos de transtornos depressivos e de ansiedade, além do aumento expressivo no uso de álcool e outras drogas. Levando em consideração que 95% dos casos de suicídio no Brasil estão associados a estes fatores, é preciso saber como identificar e lidar com pessoas que estão nesta situação.

Em Campina Grande, por exemplo, segundo a coordenadora de saúde mental do município, Lívia Sales, houve um aumento na procura pelos serviços do setor pela população, depois da pandemia da Covid-19.

De acordo com Lívia, o Ambulatório de Saúde Mental, inaugurado em fevereiro deste ano, teve que ampliar o atendimento no município depois de sua inauguração para poder atender mais pessoas. A ampliação aconteceu no dia 3 de setembro, na abertura oficial da Campanha Setembro Amarelo, em Campina Grande, com o objetivo de atender 1.800 pacientes, com atendimentos psicológicos e psiquiátricos.

Um fator determinante para o aumento de casos de depressão na cidade por causa da pandemia, segundo Lívia Sales, foi porque as pessoas precisaram lidar com situações de isolamento e distanciamento social, além do medo da morte. Por consequência, houve um aumento significativo de suicídio no município.

Houve um aumento significativo de suicídios nesse período da pandemia, suscitados pelas próprias questões impostas pela pandemia: isolamento social, distanciamento, crises financeiras, lutos, sobrecarga de trabalho, dentre outros [fatores], como também pelo crescimento alarmante da incidência de transtornos mentais
Lívia Sales

Segundo Lívia, os assuntos relacionados à saúde mental ainda são cercados de estigmas e preconceito e, por causa disso, é visto como um mal silencioso. Mas, mesmo com tantos tabus sobre o tema, é possível perceber alguns sinais em pessoas que estão com depressão, por exemplo: mudanças na rotina, mudanças relacionadas ao sono; pessoas que estão dormindo muito; ou pessoas que estão dormindo pouco, mudanças na alimentação, o abandono de atividades que davam muito prazer para a pessoa, isolamento, queda na produtividade no trabalho ou mudanças bruscas no humor, podem ser sinais de que a pessoa esteja precisando de ajuda.

Mesmo depois de identificar sinais de depressão em alguma pessoa, é necessário ter cuidado para não agravar a situação de quem está com o problema. “Frases ditas como 'isso é falta de fé’, ‘você precisa reagir’, ‘você tem tudo na vida e está se sentindo assim’, são frases que potencializam o sentimento de culpa e vergonha das pessoas”, contou a coordenadora.

Cuidar da pessoa com depressão de forma correta e incentivá-la a procurar ajuda profissional pode ser um fator determinante para a prevenção do suicídio.

Sentar e conversar é um bom começo. A informação é o primeiro passo para a prevenção. Oferecer uma escuta respeitosa e ativa e acolher é importante. Ás vezes estar ao lado [da pessoa com depressão] já é uma ajuda e, claro, tentar convencer a pessoa a procurar uma ajuda profissional. Segundo a OMS, 90% dos casos de suicídio podem ser evitados se tratados da forma adequada
Lívia Sales

A psicóloga Elaine Alves esclarece que a pessoa está para além do seu diagnóstico. Portanto, é um indivíduo que possui suas próprias experiências e vivências subjetivas. Isso quer dizer que, em algum momento e algumas situações o levaram a desenvolver alguns sintomas. Ou seja, não se deve reduzir a pessoa ao seu adoecimento.

Elaine destaca que familiares, amigos, colegas, parceiros, ou qualquer outra pessoa que estabeleça um vínculo com a pessoa que está apresentando sintomas depressivos ou que foi diagnosticado com depressão, pode ajudar das seguintes formas:

  • Está atento aos sinais que a pessoa apresenta;
  • Não negligenciar o que a pessoa está sentindo;
  • Apoiar e acolher a pessoa ;
  • Oferecer a possibilidade de tratamentos adequados e não esperar que ele(a) tenha iniciativa de procurar por si só;
  • Não fazer comparação com outras pessoas ou situações;
  • Escutar o que a pessoa tem a dizer;
  • Não se responsabilizar pela melhora do sujeito.

 

É de extrema importância dizer que essas recomendações auxiliam o sujeito a reconhecer o que está acontecendo e a lidar melhor com isso. Mas, podem não ser suficientes para reverter o quadro do sujeito. Não se deve achar que você é responsável pela “cura” ou desaparecimento dos sintomas, de modo que pode pensar 'Já fiz tanto, e ele (a) continua do mesmo jeito' ou 'Por que eu faço tanto e ele (a) não melhora?'
Elaine Alves

Apenas o indivíduo pode falar de si, e buscar os meios internos e subjetivos para estabilização ou apaziguamento dos sintomas. Dessa forma, é preciso que para além desses auxílios, a pessoa faça uso dos tratamentos necessários, mediante assistência profissional especializada e qualificada.

As pessoas que precisam de ajuda profissional podem procurar os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), em Campina Grande. São dois Caps relacionados a tratamento de álcool e drogas, mais dois Caps infantis; um em São José da Mata e outro em Galante, e dois Caps adultos; um que funciona durante o dia e outro que funciona 24h.

*Com contribuição de Amy Nascimento